quarta-feira, dezembro 31, 2008

Müz´ka



"(...) we´ll keep on fighting till the end!"
Queen

Bons Dias

"É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia
é preciso dizer azul em vez de dizer pantera
é preciso dizer febre em vez de dizer inocência
é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem

É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano
é preciso dizer Para Sempre em vez de dizer Agora
é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano
é preciso dizer Maria em vez de dizer Aurora"


No último dia do ano de 2008 escolhi Mário Cesariny, Exercício Espiritual.
Bom ano [ou bons dias, que é como quem diz "O Dia em vez de dizer Um Ano"]

terça-feira, dezembro 30, 2008

post it

Está promulgado o nosso Estatuto.

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Óscares

José Manuel dos Santos olhou, aflito, as estrelas. De todas as que via nenhuma tinha vírgulas, assentos de expressão; um rasgo no olhar; um ar que entremeasse a vista e o alcance; travessões que lhes apoiassem a existência; um ponto e vírgula abraçados; palavras caídas e empastadas, partidas e desengonçadas, roubadas e desenhadas, traídas e despedaçadas, solenes e demoradas, gritadas e faladas, não houve uma, uma só, que sobressaísse no desfilar de vestidos brilhantes. Apagou a televisão.

Tirou dos bolsos os lápis de cor.

Desenhou na parede uma chaminé; na chaminé um sapatinho, no sapatinho um rebuçado, no chão ao pé do lume da chaminé, que também desenhou, um menino e uma mãe. Na mão do menino a mão da mãe. Nas outras mãos, que eram duas, uma estrela em cada uma. Chamou ao desenho: verdadeira noite de Óscares.

(E foi-se deitar com medo das represálias).

quarta-feira, dezembro 24, 2008

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Talvez seja Dezembro na memória

Escrevo no dia das montras, que é o dia 8 de Dezembro. Feriado. Dia, em que, durante muitos e bons anos, escrevia a carta para o velho de natal, enumerando, por ordem de vontades, as bonecas, as roupas e os sapatos que queria ter debaixo da árvore, a 24 de Dezembro. Lembro-me, como se fosse hoje, de tentar furar pelo meio das pessoas para ver o velho de Natal da Lusitânia (que para mim era o verdadeiro) ou de procurar chegar à montra dos Alemães (Loja da Preta) para ver a boneca que lá tinham (e penso que ainda têm) a fazer acrobacias. Também me lembro do cheiro das pipocas na rua, de comer das de açúcar vermelho, do brilho das luzes, que não eram tantas, do riso engraçado dos bonecos da Disney que apareciam naquele tempo, espalhados no jardim da Zenite e em frente ao Tribunal: a pata Margarida, o Donald; se não me engano o Bambi, a Branca de Neve e os sete anões. Lembro-me de quase tudo: do frio que nos lembrava natal; da roupa nova para levar a casa da avó, do cheiro novo da borracha das bonecas; da Joana que fazia bolas de sabão; de ver o velho de Natal no Alto da Barrosa; de pensar que ele vinha mesmo e que descia a chaminé e que comia do bolo e que escrevia beijos nos papéis que vinham dentro das ofertas. Lembro-me do dia em que me disseram que ele não existia; do primeiro contacto que tive com a ausência. A dele. De querer vê-lo e já não vê-lo; de ver a luz da Barrosa, que era só isso e mais nada, de perceber que já não havia nem renas voadoras, nem fábricas de brinquedos, nem duendes engraçados que saltitavam no telhado da nossa casa; nem nada… Nada. Só apenas a memória de o ter visto um dia sentado no nosso jardim…
Talvez seja Dezembro na memória foi a frase que me ocorreu, quando me convidaram para escrever sobre o natal…Ainda não tenho nem a árvore nem o presépio feitos. Luto (cada vez mais) para trazer Dezembro na memória. Um mês quietinho, frio a média luz; onde me vejo sempre a correr, pé ante pé, para junto deles. E eles com uns olhos grandes só para nós e umas mãos enormes amparadas e juntas fazendo a nossa casa. A lareira acesa de Dezembro, um avião, às vezes para apanhar, três fatias de bolo de fruta mais três cálices de aguardente. Há no mês de Dezembro esta nostalgia. Não sei se por causa das árvores ou do cheiro a azevinho. Sei, apenas, que por via das dúvidas, é natal outra vez, como tem sido há muitos, muitos anos para mim. A neve que não cai, senão nos filmes; a rena que não vem, porque não a vejo e esta sensação de ser Dezembro. As luzes a forrar a estrada, o resto de um ano a acabar, a mesa que se põe e não se tira, o cheiro a molha quente, o licor de café e a memória, enfim, a minha pouca, cheia de Dezembro. Dezembro que se acaba e não recomeça. Dezembro, que é Dezembro na memória. Que talvez seja assim ou talvez não.

sábado, dezembro 20, 2008

On Ice



A abstenção dos deputados do PSD na nação provou que não há “patinadora”, por mais rodas, que dê no “ice” improvisado, que consiga por cobro a tamanha vergonha (dela e dos seus). Todos os argumentos de defesa disto e daquilo que têm vindo à “pista” depois da votação de ontem são vagos e (incrivelmente) inábeis.
Não se está, para sempre, “on ice”… Às tantas começa-se a meter água, que é como quem diz a descongelar. No resto, a conservação do produto depende das temperaturas...
Espero agora pelo desenrolar das próximas “rodas”. Espero pouco, mas provo muito: falta sal nesse gelo todo e uma pimenta da terra.

sexta-feira, dezembro 19, 2008

quinta-feira, dezembro 18, 2008

terça-feira, dezembro 16, 2008

segunda-feira, dezembro 15, 2008

domingo, dezembro 14, 2008

São as mais estranhas árvores

Para o Manuel Hermínio Monteiro.

" São as mais estranhas árvores, as que descem até às raízes;
pela última vez te visitam, antes que venha uma nuvem
ou que os animais te despertem a meio da noite. Estremeces
de tão pouco cuidado teres com essa maneira dos pássaros

se transformarem em fantasmas. A sombra poisa devagar
no teu ombro, como uma suspeita. Sofre-se muito: dois dias
depois lembra-se a passagem do tempo, a doçura das coisas,
como a da chuva a cair sobre os montes, a geometria

do mundo, as clareiras dos bosques, os muros das aldeias,
músicas que ouvimos antes. Teríamos sabido da morte de outra
maneira? A luz é muito diferente, nessa paisagem; escreveste-a
em silêncio, em cadernos que te chamam como uma despedida

até ao próximo Verão. Um relâmpago no céu, um rio ao fundo
da montanha: lugar tão perfeito como se de um geógrafo
se aproximassem os campos, os canais junto dos vales, as palavras
amadas. Teríamos sabido da morte de outra maneira?"

Francisco José Viegas

Não, não é possível


"Não - não é possível qualquer sono
com versos que não rasguem bem por dentro
a raiva das ruínas que se bebem
com ceifadas luas ou rosados sonhos.

Não - não é possível esse vento
que não levasse o ar até à vida:
fosse ela flor em crista de subida,
como alor de criança em crescimento,
fosse ela a faca lenta da descida
que vai de um fio de água ao desalento.

Não- não é possível ser esquecida
quanta matéria voga em cada dia,
o quanto fio perfaz nossa existência."


João Rui de Sousa, "Quarteto para as próximas chuvas"



sábado, dezembro 13, 2008

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Quem dá mais!!!

Às vezes temos coisas que já foram importantes na nossa vida, ou na vida dos nossos, coisas que já tiveram um valor elevado e uma utilidade constante.
Tempos depois olhamos para essas coisas, abandonadas, a ganhar bolor e a desvalorizar constantemente, mas sentimos uma réstia de nostalgismo, mesmo gratidão, pela vida que dividimos, e torna-se impossível de nos separamos desses nossos zombiados bens.
Mas ele há dias em que precisamos de criar coragem, de nos erguermos como Homens que somos e permitir que se valorize, através de outros e outras vidas, aquilo que já foi parte da nossa vida. Ele há dias que temos que assumir a palavra reciclagem, e acreditar que o lixo de uns pode ser o bem de outros, que aquilo para o qual não temos uso pode ter um valor de uso, ou mesmo um valor de troca.
Por isso, e portanto, decidi leiloar o Partido Social Democrata em hasta pública. Não tenho uso para semelhante bem, como está deteriora-se a olhos vistos, mas tenho esperança que alguém dê algum valor por aquilo que já foi, para alguns, uma “jóia da coroa”.
Pois minha gente! Quem dá mais!!!
Vamos começar com 100… 100… 100… E 100 vai uma!!!!

A senhora In@rq, ali à esquerda, baixou a licitação para 2 , como mais ninguém apresentou oferta vamos aceitar começar a 2.
E vão 2... 2 para a senhora In@rq! E vão 2!?!
Mais ninguém na sala acredita em reciclagem???
E vão 2... E vão 2 uma!?!?!?

Ningém interessado??!??
E 2 vão duas... e vão duas!?!
O Sr. aí atrás com falta de oxigénio! Não? Nada?

segunda-feira, dezembro 08, 2008

O escritor sem vergonha dos afectos


«Ensaísta e ficcionista, António Alçada Baptista, hoje falecido em Lisboa, aos 81 anos, admitiu ter na sua escrita uma sensibilidade feminina e ser dos poucos escritores que não tinha vergonha dos afectos.

"A minha obra escrita vende-se muito por uma razão simples, porque eu sou talvez o primeiro escritor que não teve vergonha dos afectos", disse um dia o escritor sobre a sua obra - ao todo 14 títulos - que percorreu o ensaio, crónica, novela e o romance.

Nascido na Covilhã em 1927, frequentou o colégio de jesuítas, onde foi profundamente influenciado pelo Cristianismo e por pensadores como Emmanuel Mounier e Teillard de Chardin, vindo a formar-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, e exerceu advocacia entre 1950 e 1957.

"A Pesca à Linha - Algumas Memórias", obra assumidamente de memórias e recordações, revelou o profundo sentido afectivo que caracteriza a escrita de Alçada Baptista, enquanto em "Um Olhar à Nossa Volta" deixou o testemunho de uma vivência colectiva registada na década de 70 e 80 marcada por inquietações político-sociais.

Mas foi com "Peregrinação Interior - Reflexões sobre Deus" (1971) e "Peregrinação Interior II - O Anjo da Esperança" (1982) que obteve a unanimidade da crítica e do público.

Da sua obra constam ainda "Documentos Políticos" (crónicas e ensaios, 1970), "O Tempo das Palavras" (1973), "Conversas com Marcello Caetano" (1973), "Os Nós e os Laços" (romance, 1985), "Catarina ou o Sabor da Maçã" (novela, 1988), "Tia Suzana, meu Amor" (romance, 1989) e "O Riso de Deus" (romance, 1994).

Em 1961 e 1969 foi candidato pela Oposição Democrática nas eleições para a Assembleia Nacional e, de 1971 a 1974, foi assessor para a Cultura do então ministro da Educação Nacional, Veiga Simão.

Funcionário da Secretaria de Estado da Cultura desde 1978, presidiu aos trabalhos da criação do Instituto Português do Livro, a que presidiu até 1986.

Recebeu das mãos do Presidente da República Ramalho Eanes a Ordem Militar de Cristo, em 1983, e a Grã-Cruz da Ordem do Infante entregue pelo Presidente Mário Soares, em 1995, de quem foi colaborador.

Escreveu inúmeras crónicas na rádio, na televisão e em diversos jornais e revistas.

Sócio da Academia Brasileira de Letras, da Academia das Ciências de Lisboa, e da Academia Internacional de Cultura Portuguesa, foi também presidente da Comissão de Avaliação do Mérito Cultural e administrador da Fundação Oriente.»


in "Lusa" (7.Dez.08, 19.46)

sábado, dezembro 06, 2008

Este nunca foi o nosso Portugal. Somos filhos de uma Mátria morta. Orfãos de um Quinto Império

Em declarações aos jornalistas, à margem de um seminário na Escola de Direito da Universidade do Minho, Freitas do Amaral afirmou que o diferendo à volta do Estatuto dos Açores é "uma questão delicada, que põe em causa o modelo de Estado unitário, com regiões autónomas insulares, criado pela Constituição de 1976 e que não é um estado federal".

O professor de Direito diz que Cavaco Silva "não pode ceder" na questão do estatuto dos Açores porque por se tratar de uma questão que põe em causa "a unidade da Pátria".

"Não é esta a forma de tocar em problemas tão delicados", observou, dizendo não ser aceitável que, "com os problemas financeiros, económicos e sociais que o país atravessa, se façam braços de ferro entre órgãos de soberania por causa das regiões insulares".

"Os órgãos regionais devem meditar sobre se este procedimento desencadeado a partir dos Açores é tão necessário assim, e se não nos Açores não há, ainda, problemas sociais nas camadas mais desfavorecidas que exijam apoio do Governo central", declarou.
Lusa, 05 de Dezembro de 2008, 16:13


Este nunca foi o nosso Portugal.
Somos filhos de uma Mátria morta.
Somos orfãos do Quinto Império

Müz´ka


Promises - THE CRANBERRIES

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Parabéns



Parabéns, An7ónio.

Muros

"Sem piedade e sem pudor, sem dó e sem cuidado
à minha volta espessos muros tão altos quem teceu?

E eis­‑me agora aqui na sorte a que fui dado,
em mais não penso: não me sai da ideia o que aconteceu.

Lá fora há tanto que fazer - tudo ruído!
E, se estes muros construíram, porque não dei por tal?

Não ouvi de pedreiro nem voz nem ruído
E sem saber fiquei fechado, sem vista e sem portal."


Ocorrências

"Aí o homem sério entrou e disse: bom dia.
Aí outro homem sério respondeu: bom dia.
Aí a mulher séria respondeu: bom dia.
Aí a menininha no chão respondeu: bom dia.
Aí todos riram de uma vez
Menos as duas cadeiras, a mesa, o jarro, as flores
as paredes, o relógio, a lâmpada, o retrato, os livros
o mata-borrão, os sapatos, as gravatas, as camisas, os lenços."



Ferreira Gullar

domingo, novembro 30, 2008

Post Primeiro

Cá estou eu pela primeira vez a escrever. A ler o que aqui é escrito? Bookmarks: http://ardemares.blogspot.com. Muitas vezes. Mariana, aceitei o teu convite pela consanguinidade que já dura há 27 anos e por poder participar neste blog. Obrigada.

O meu primeiro post é para se ouvir: Jeff Buckley ao vivo.

sábado, novembro 29, 2008

Agenda



Campanha
Um Brinquedo=Um Sorriso (JS/Açores)

Ardemares news




Antropóloga de formação. Empresária de profissão do ramo do Design informático. Benfiquista. Guitarrista. Costureira nas horas vagas e etc e tal...
Júlia Matos é a mais nova colaboradora do Ardemares.
Já aceitou o convite. Escreverá quando lhe apetecer...

sexta-feira, novembro 28, 2008

Aos Amigos

«Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
-Temos um talento doloroso e obscuro.
construímos um lugar de silêncio.
De paixão.»

Herberto Hélder
Poesia Toda, Assírio & Alvim, 1996.

quarta-feira, novembro 26, 2008

102 anos



Não é a 1ª vez que falo da Rosa.
A Rosa do Carmo (da Quitéria, nome pelo qual a conheço desde que me lembro). Parabéns.

terça-feira, novembro 25, 2008

domingo, novembro 23, 2008

Where´s the beef ?!?

“Change we can believe in”,
"Yes we can",
mas ninguém vê…

Muitos


sábado, novembro 15, 2008

Não vais matar a mamã, pois não, papá?!?

"Existem três hipóteses, todas elas estão em aberto e todas elas são opção: deixar cair o Estatuto Político Administrativo dos Açores; mantê-lo tal como está; ou introduzir alterações. O PS ainda não excluiu nenhuma dessas três hipóteses", Vitalino Canas n'O Público.


Papá – Ouve Carlinhos! Das três uma. Ou o papá continua a viver com a mamã, ou o papá se divorcia da mamã, ou o papá mata a mamã!!!

Carlinhos - Não vais matar a mamã, pois não, papá?!?

Papá – Claro que não Carlinhos! Agora vamos lá a fechar os olhinhos e a dormir, tá bem?!? Boa noite!

Carlinhos – Boa noite papá!

quinta-feira, novembro 13, 2008

Poema




«O piano de cauda das estrelas
tem raízes na música dos lagos.
Amar é a arte da música
num corpo moribundo. Morre-se
de um pequeno átomo de ansiedade e isso
é uma regra do jogo; só assim a morte andará descalça como
uma violeta pelos jardins da noite; só assim
nos restará a morte antes do fim.
O fruto do coração é pouco, semelhante à mágoa.
Olhar é uma página. Percorre-a a consciência de quando
não acontece nada. É preciso duvidar semeando limites
para ser-se ilimitado -- eis quando será legítimo enganar
os deuses. Maior que a montanha é
a gota de orvalho; maior que o sol é o movimento
da sombra. Os pássaros
não acontecem: vivem-se. É tarde
para inscrever o discurso da alegria
nas estruturas do ar?»


Joaquim Pessoa

segunda-feira, novembro 10, 2008

Data

Sandes Urbana *


Estou na paragem da camioneta. Não espero que passe. Estou para aqui. Apetece-me estar para aqui. Estou com as caras das pessoas que passam dentro dos seus carros e dizem com os olhos: coitada...ainda não reparou que tem a braguilha aberta ou que simplesmente se riem com a cara pregada ao vidro. Mas não me importo. Estou como quero estar. Sozinha. Pisco os olhos e pouco mais. Respiro. Vem aí uma senhora. Tem o cabelo empastado e um pouco amarelo. A saia vem quase debaixo dos braços, por cima da barriga que cresceu com a idade e por baixo do peito que caiu com os sete ou oito filhos que amamentou. Não está vestida de preto. Talvez ainda não seja viúva. Acho que vem sentar-se ao meu lado. Não quero. Ainda lhe faltam uns bons cem ou cento e cinquenta passos e mais umas quantas pedras de calçada para aqui chegar. Hesito. Levanto-me ou deixo-me ficar aqui sentada? Vou ficar. Traz três sacos de plástico nas mãos. Tem um casaco de malha castanho escuro. As meias caem-lhe nas pernas pintadas com varizes. Espero que não cheire mal. Parece-me que já não se deve lavar há dias. Boa tarde. O banco subiu um pouco com o seu sentar de rompante. Tenho agora as pontas dos pés no chão e os calcanhares no ar. É forte. Deve comer bem. Estou um pouco tensa. Acho que ela já viu que tenho a braguilha aberta. A menina desculpe. Não quero parecer intrometida. Mas... e mostra-me os um, dois, três, quatro, cinco dentes que tem enquanto olha para as minhas calças. Consegui contá-los todos. São poucos e ela abriu a boca de riso tanto tempo que até posso adivinhar o que almoçou hoje. Pronto. Já a fechei. Obrigada. Nada menina. Está frio hoje. Parece que o inverno chegou mais cedo este ano. Pois é. A menina não tem frio? Não, estou bem. Ah, a menina é nova ainda. Quando chegar à minha idade vai ver. Pois. É verdade querida. Pois. A gente quando fica velhos é assim. Pois. Ah menina, que horas são? Não tenho relógio, desculpe. Ah querida, será que a camioneta já passou? E agora? Que respondo? Não faço a mínima ideia. Não vim para aqui esperar pela camioneta. Vim porque quis vir. Não sei. A senhora riu-se mas sem rugas. Não fez grande espanto pela minha resposta. Ainda bem. Estamos as duas caladas. Eu e ela e a rua em que estamos. Já não passa ninguém há bastante tempo. A menina tem fome? E inclina o seu corpanzil para os sacos que trouxe consigo. Tenho. De lá sai uma sandes de qualquer coisa embrulhada num guardanapo. Come querida. Obrigada. É de frango. A dela é de atum. Comemos. Vejo que tem alguma dificuldade em morder o pão. Coitada. É bom estar aqui com a menina. Continuo a mastigar. Venho aqui todos os dias esperar pela camioneta e janto sempre sozinha. E a menina? Eu também janto sempre sozinha. Ela não me falou de si. Mas eu também não lhe quero falar de mim. Vou agradecer-lhe. Devo-lhe um obrigada. Pela companhia e pelo jantar. E pelo alerta para a minha braguilha aberta. Eu é que agradeço. Calcanhares para o chão. Ela vai-se embora. Boa noite e até qualquer dia menina. Boa noite. Vira-me costas e segue. Para onde? E a camioneta? Não ficou nada. Só o banco quente do tempo que esteve aqui sentada ao meu lado. Esteve, não esteve? Eu também não estou à espera da camioneta. Estou à espera que toque o despertador. Vem aí mais uma parcela da vida, quase pronta para se subtrair ao total e somar às últimas contas feitas. Acordo com azia. Foi da sandes de frango, só pode. Bom dia.


* Júlia Matos

domingo, novembro 09, 2008

Post que era para ser mais a sério

Este post era para ter um título e um texto, mas não me apetece. É Domingo. Talvez, seja por isso.
Deixo esta música, que foi a preferida do meu sobrinho.
Fica o seu 1º post. E Bom Domingo.

N´agenda

sexta-feira, novembro 07, 2008

Müz´ka



Este post lembrou-me esta música, que por aqui escrevo: müz´ka.
Bem lembrado.

quinta-feira, novembro 06, 2008

El contorcionista

A 11 de Junho, Mota Amaral, em plena Assembleia da República, durante a declaração de voto do seu Grupo Parlamentar disse: “(…) A Assembleia da República aceita agora as grandes linhas da proposta unânime do Parlamento Açoreano, reconhecendo legítimos o seu rasgo e ousadia, nomeadamente quanto à afirmação do poder legislativo regional. (…) um diploma inovador, que bem merece e recebe o nosso aplauso, havemos de falar de novo, quando o PSD recuperar a maioria, cá e lá!”.
A 5 de Setembro Mota Amaral em declarações ao jornal Açoriano Oriental, a conversa já é outra: "a Assembleia da República deve expurgar as normas consideradas inconstitucionais no novo Estatuto Político-Administrativo dos Açores, mas manter as que suscitaram reservas de "opinião" ao Presidente da República."
A 25 de Setembro: "O deputado do PSD Mota Amaral defende que a nova versão do Estatuto Político-Administrativo dos Açores, aprovada pelo Parlamento, tem uma norma inconstitucional sobre a dissolução da assembleia legislativa.
Em declarações aos jornalistas no Parlamento, Mota Amaral acrescentou que está convencido de que a norma "vai cair". Nesse mesmo dia, "à saída do debate, Mota Amaral desmentiu o PS dizendo que subscreve a posição transmitida pelo líder parlamentar do PSD, Paulo Rangel." - a fiscalização sucessiva da constitucionalidade do diploma. Um mês depois já não era bem assim: A 28 de Outubro: " Mota Amaral não compreende a necessidade de recorrer ao Tribunal Constitucional, como o PSD pretende, mas salienta que Cavaco tomou a decisão certa ao vetar o Estatuto Político-Administrativo dos Açores.
Hoje, depois das eleições regionais, mês de Novembro, sexto dia. Depois do PSD "de lá" ( que para Mota Amaral é o "de cá" não ter conseguido a maioria que então, em Junho, desejou recuperar), as palavras foram estas: "Apelo ao PS para que acabe com este braço-de-ferro que vem fazendo com o Presidente da República sobre esta matéria delicada que são os poderes presidenciais"...Não sei muito bem onde quer chegar Mota Amaral, deputado do PSD/Açores, na AR. Também não sei se pensa que o seu PSD "de cá" (que para ele é o "de lá") ganha seja o que for com isso. Anyway, malhas que o império tece. O império ou os santos. Sejam de quem forem, sejam pelo que forem, sejam quem ou o que forem...

Não me parece que Ferreira Leite lhe telefone.

Parabéns!

glitters



Ao Blog :Ilhas pelos 5 anos de blogagem.

Palavrinhas VI

mauzuras e malinezas

quarta-feira, novembro 05, 2008

segunda-feira, novembro 03, 2008

Não me interessa se é a vez do “calcinhas”

O Liberalismo está desarido para que aconteça amanhã, dia 3 de Novembro deste ano de 2008, uma vitória descarada do Senador Obama. Desaridos para poderem cantar aos quatro ventos Glorias ao Santo Capitalismo que cria e permite semelhante milagre que é o de um “Boy” negro chegar à presidência do grande templo do Dollar.
Sim, o capitalismo selvagem, canibal, é a causa cujo o efeito é um rapazinho ambicioso, com um currículo de um par de anitos de trabalho cívico, um par de anitos de advocacia e par de anitos de parlamentar, de tão bem saber ler o guião, atravessar o arco do triunfo construído com quase um bilião de dollars gastos na campanha. Aleluia!!!
Este menino marionete, para quem foi escrita a peça “Do Gueto à Casa Branca” não tem nada de gueto. Este menino-actor não é filho de pai desconhecido, de passado desconhecido, este senhor é descendente de um africano, do Quénia, filho de uma aldeia ancestral, estudante universitário, nos Estados Unidos, no Hawai. Este menino só conhece o gueto quando percebe e o escolhe como o ambiente que o fará rei do seu mundo e não do mundo do gueto. Este menino é a propagação do “american dream” que nos foi, e é, vendido na procura incessante de lucro fácil e imperialista. Este menino é a Salvação e a continuação daquilo que nos mata e destrói como civilização com mais de 2000 anos.
Basta! Não me interessa se é a vez do “calcinhas” ou das saiazinhas. Não se iludam ó neo-“fariseus” do capitalismo liberal, é tudo “too little too late”…

domingo, novembro 02, 2008

Say what?!

«Sempre fui muito amiga do professor Cavaco Silva e da família, entrava na casa dele sem precisar de ser convidada. Ele foi durante dez anos primeiro-ministro e ele e a família sabem que durante esses dez anos eu só lhes telefonava três vezes por ano, nos anos de cada um e no Natal, e que nunca fui lá a casa sem ser convidada», contou Manuela Ferreira Leite em entrevista ao DN/TSF.
...
Hoje sou uma cidadã muito mais feliz. Fiquei a saber que Manuela Ferreira Leite só telefonou para casa de Cavaco Silva três vezes por ano, durante 10 anos. Só não percebi se para ir a casa dele era convidada ou não era convidada. Se antes não precisava de convite, mas agora precisa. Está um pouco confusa (também) essa parte.
Anyway,talvez fosse bom Manuela Ferreira Leite telefonar a Mota Amaral, porque se, na mesma entrevista, Ferreira Leite confirmou que: "(...)o PSD enviará o Estatuto dos Açores para o Tribunal Constitucional, para fiscalização sucessiva da constitucionalidade, se o PS mantiver a actual redacção do artigo 114º, relativo às obrigações do Presidente da República em caso de dissolução da Assembleia Legislativa."
Mota Amaral disse, cinco dias antes: "o estatuto deve ser delineado pelo Parlamento e não deve chegar ao Tribunal Constitucional, como o líder parlamentar do PSD disse que pretende fazer".
...Se calhar Ferreira Leite não vai telefonar. Falta um mês para o Natal e Mota Amaral já fez anos em Abril!...

quinta-feira, outubro 30, 2008

XIII

"Anda, vou-te mostrar a terra

dos teus pais, avós, antepassados

tão antigos que os podes escolher.

Este aqui é noé, de barba por fazer;

meteu na arca puro e impuro, bem e mal,

inventou o vinho, homem melhor

da sua geração ( não é grande elogio ),

teve filhos, netos, é de crer que morreu.

Estoutro, não sei bem, era pirata na malásia.

Vês as colinas? São tuas, quando

as olhas a direito. Realmente tuas,

parte de um mundo teu.

Sim, isso são filosofias,

tens razão. ( E tem graça ao ter razão ).

Anda daí, vou mostrar-te o colete de forças

onde era costume, sabes, tratar casos assim."


De pormenor

Não há estrelas recicláveis. Só cadentes.

quarta-feira, outubro 29, 2008

Livrim



"(...)(pode ser que as cegonhas nasçam do vento, atarracha-se-lhes um bico de madeira e transformam-se em pássaros)(...)" - António Lobo Antunes, o próprio e não o nobel, na página 164 de um livro que tem um bom título - O Arquipélago da Insónia - que me lembra, à primeira vista, Explicação dos Pássaros), que tem 263 páginas e que comprei Domingo na Bertrand, em Ponta Delgada...

domingo, outubro 26, 2008

Fábula da Raposa e da Cegonha

imagem
"A Raposa convidou a Cegonha para jantar e serviu a sopa num prato raso.
-Não estás a gostar da minha sopa? - Perguntou, enquanto a cegonha bicava o líquido sem sucesso.
- Como posso gostar? - respondeu a cegonha, vendo a Raposa lamber a sopa que lhe pareceu deliciosa.
Dias depois foi a vez da cegonha convidar a Raposa para comer na beira da Lagoa, serviu então a sopa num jarro largo em baixo e estreito em cima.
- Hummmm, deliciosa! - Exclamou a Cegonha, enfiando o comprido bico pelo gargalo - Não achas?
A Raposa não achava nada nem podia achar, pois o seu focinho não passava pelo gargalo estreito do jarro. Tentou mais uma ou duas vezes e se despediu de mau humor, achando que por algum motivo aquilo não era nada engraçado."

La Fontaine

sexta-feira, outubro 24, 2008

CADA UM TEM A SUA...


Berta Cabral está hoje como o mafarrico "entre a cruz e a caldeirinha". Como Deus Nosso senhor é misercordioso há-de lhe sair em penitência carregar a cruz...sem a esperança de passar a caldeirinha.

quarta-feira, outubro 22, 2008

Di[z]juntiva

...
Ou como quem dá de comer a esfomeados sapatos;
Ou alça as pernas para o futuro;
Ou senta os olhos na janela e os cola no parapeito;
Ou fica pasmado à espera que alguém bata à porta;
Ou cobre os dedos cruzados fazendo figas de vontade;
Ou soluça em tom ritmado, por morrer em plena praça;
Ou inchado, podre, pérfido desmaia no meio da avenida;
Ou soprado como um saco dá com a asa no destino
Ou, imprudentemente, deixa deslizar os pés à beira de um precipício, rasgando de desilusão outro limite do céu;
Ou como quem vai de vez sem saber se vem de volta…
...
Nem sabendo se de noite nem sabendo se de dia…
...
Ou como ter escrito o pouco do que ficou por dizer;
Ou ter do peso a justa medida do embaraço;
Ou querer de noite a luz que é do dia 20;
Ou ser mais do que isto e ver mais do que aquilo;
Ou dar a volta ao mundo com bilhete de ida;
Ou não completar o verbo do incompleto;
Ou rimar sem versos cheios;
Ou falar sem palavras;
Ou fazer ditongos no espaço;
Ou morrer devagar...
...
Nem sabendo se de noite nem sabendo se de dia...
Ou (ainda) se de tarde...
Ou se à tarde,
Ou se (já) se faz tarde.
[Juntiva]

sexta-feira, outubro 17, 2008

terça-feira, outubro 14, 2008

CRUELDADES


O capital com e sem rosto sempre condenou a intervenção do Estado na Economia e os seus apoios à Sociedade. Nem tudo é perfeito, mas não deixa de ser cruel ver que, agora, o dito cujo só não aplaude o que tanto reprova porque para isso são necessárias duas mãos, e uma delas está estendida a pedir a ingerência estatal na solução da crise financeira.
Claro que é tudo em nome do povo.

Müz´ka

domingo, outubro 12, 2008

Oxigénio?

Costa Neves, no aeroporto da Graciosa, vendo a equipa de reportagem que acompanha o líder socialista disse: "essa câmara, tá infectada..." (telejornal, RTP/A, 11 de Outubro)

sexta-feira, outubro 10, 2008

Palavrinhas IV

Permite-me, amiga, intrometer-me nas tuas deliciosas palavrinhas, e deixar esta expressão de que gosto particularmente....

Óm'essa!

quinta-feira, outubro 09, 2008

quarta-feira, outubro 08, 2008

sábado, outubro 04, 2008

sexta-feira, outubro 03, 2008

terça-feira, setembro 30, 2008

O tecto da Sistina faz anos

Desde o passado dia 10 de Maio de 2008, até ao fim de Outubro de 2012,
o tecto da Capela Sistina celebra 500 anos.



domingo, setembro 28, 2008

Palavrinhas

sapatinhos de qued´alta.

sábado, setembro 27, 2008

PELA AUTONOMIA


É já comum a afirmação de que a unidade territorial do Estado Português comporta duas regiões autónomas dotadas de estatutos político-administrativos próprios. Por esta via, a Autonomia dos Açores deve ser reconhecida como parte viva e integrante de uma unidade plural que, pela prática mais pura da democracia, nos garante a liberdade e a dignidade de, enquanto portugueses nos Açores e dos Açores, podermos decidir sobre o nosso futuro, tendo sempre presente a natureza que nos rodeia, a nossa história, a nossa cultura e as nossas características de povo ilhéu.
Com os governos de Carlos César a Autonomia tem sido encarada como um instrumento de democratização, um veículo de descentralização gradual e cooperante das funções do Estado. Um meio pelo qual se procura a adaptação de um modelo político de gestão às especificidades geográficas, económicas, sociais e culturais da nossa Região, apenas e só como o exercício do direito que temos ao nosso próprio desenvolvimento.
Foi por este entendimento de Autonomia que Carlos César abriu caminho para que os Açores fossem mais conhecidos na Europa e no Mundo e é com esta prática de Autonomia que os açorianos se conhecem cada vez mais e cada vez melhor a si próprios. Só por este processo de administração livre e própria poderemos ampliar o nosso sentimento de unidade e estimular uma ambição renovada para os Açores, progredindo económica e socialmente, mas fortalecendo sempre os nossos laços de solidariedade e de cidadania. É com este sentido autonómico que Carlos César pretende consolidar o conceito de solidariedade e de “unidade plural” com o Estado, para o progresso dos Açores. Não lhe interessa perfilhar a Autonomia nem encomendar-lhe um pai, interessa-lhe muito mais que a Autonomia tenha muitos e bons filhos.
Pelo que vejo desde 1997, Carlos César não quer que Autonomia seja apenas a nossa permanente esperança, nem que ela seja só o eterno mito da nossa aspiração histórica. Com o PS e com Carlos César a Autonomia é, sim, a nossa certeza e por isso tem de ser nossa a prerrogativa de decidir sobre os Açores, sobre nós próprios e sobre o nosso destino.
O Estado e os poderes nacionais instituídos têm, necessariamente, de entender que a democracia portuguesa não só passa como se fortalece pela garantia das autonomias regionais. As autonomias regionais não são uma moda partidária nem uma arma de arremesso político, e se alguma vez o foram é porque há ossos que de vez em quando fazem parte do ofício. As autonomias são, de facto, “uma exigência da natureza das coisas”, são uma interpretação de dados sociológicos indesmentíveis, são a aprendizagem mais pura da história. Por isso, só quem respeita a natureza das regiões, só mesmo quem vive a sociologia dos arquipélagos e conhece a sua história pode entender as Autonomias e ver nelas a representação de valores regionais e nacionais, sem que uns se sobreponham aos outros e sem que haja o risco de acordarmos com um golpe de estado dentro das quatro paredes de um gabinete.
Todos sabemos que os Açores têm um conjunto de entraves naturais ao seu progresso cuja solução só pode ser encontrada na Autonomia. Por isso dificilmente se entende o receio tacanho e centralista por este paradigma de justiça social e de democracia que é uma região a decidir sobre si própria. É por demais injustificado este temor pelo desenvolvimento económico e pela defesa dos interesses dos Açores porque, afinal, quando se é pela Autonomia nada mais se pretende do que ser melhor açoriano para se ser mais português.


É mais fácil em inglês...

Uma senhora, seja de qual tipo for o agradecimento que deseja fazer, agradece no feminino. Pelo que, uma senhora deve dizer obrigada e não obrigado. Se insistir no erro, além de confundir a redacção, torna confuso o género da senhora e do agradecimento.
Uma miscelânea.

sexta-feira, setembro 26, 2008

"Dona Felicidade" e "Dona Mudança"

Sobre o Hino

Podiam ter feito uma rima certa
e juntar às Donas, uma Dona Berta.
Ou uns versos muito breves
Dedicados ao Costa Neves.
Num versejar continental
Homenageavam o Mota Amaral e
se houvesse vento fraco,
Havia de haver uma rima pro Cavaco...


Bem diz o MEP, que melhor é possível.

Müz´ka

The Story - Brandi Carlile

quinta-feira, setembro 25, 2008

Dias de Melo



Fumava cachimbo. Gostava do caldo de peixe da minha mãe à moda do Pico. Vinha sempre aqui na passagem de ano. Falávamos de literatura e de escritores. De política. Um picaroto da Calheta do Nesquim. Foi com ele que conheci o mestre José Faidoca, o mestre José Batata e o mestre José Chelica. Figuras inesquecíveis. Reais. Tão reais, como a notícia que ouvi ontem na RDP.
Paz.

domingo, setembro 21, 2008

o agá

Gostava de escrever hieróglifos, mas o agá fugia-lhe sempre.

quarta-feira, setembro 17, 2008

um, dois, três, quatro. Uma mesa e um guarda fato...

Foi desta expressão que me lembrei quando vi a lista de candidatos do PSD às eleições de 19 de Outubro. Voltam à lista, governantes da minha infância. E estão entre os dez primeiros. Depois admiram-se de serem chamados "insubstituíveis". É que se não são, não parece nada que não sejam!...

DOIS EM UM... ÀS VEZES DÁ NENHUM



Já não me recordo dos termos em absoluto, mas ainda tenho presente na memória uma intervenção do Presidente Carlos César, proferida há já alguns meses, na qual reafirmava que o Partido Socialista não seria uma coutada do Governo Regional, nem o Governo alguma vez poderia ser uma coutada do PS.
Deduzo das palavras de Carlos César que, para além de um exercício de poder autónomo e responsável, a necessária separação das águas entre partidos e governos visa, sobretudo, reforçar a dignidade que se exige dos políticos, reanimar a consideração que nos devem merecer as instituições e ter em permanência e em devida conta o respeito, muitas vezes em falta, para com os eleitores.
Se por estes e por outros princípios se pretende contribuir para evitar a promiscuidade na política e reforçar a credibilidade tão essencial nos seus agentes, seria de esperar que a mesma separação de interesses se aplicasse à relação entre outros níveis da actividade política – a exemplo do que se verifica no jogo de conveniências entre o PSD e algumas autarquias da mesma cor – quanto à composição das listas de aspirantes a deputados à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores.
Qualquer eleitor minimamente informado sabe que a candidatura de Berta Cabral à ALRAA é uma farsa, uma fraude partidária assumida publicamente pela própria e garantida pela sua pretensão de se recandidatar à Câmara de P. Delgada em 2009. Neste caso em concreto, o desplante já não disfarça a fragilidade do partido nem a fraqueza da liderança, daí que dificilmente se entenda esse lançar mão à influência da autarca para, em consciência, ludibriar o eleitor e, em consequência, descredibilizar a política.
Porém, noutras autarquias dos social-democratas, casos há em que a situação é exactamente a mesma, só que desta vez se engana o eleitor por proveitos diferentes e mais personalizados. Ou seja, são os autarcas em agonia a usar o partido e a abusar da sua condição pública para figurarem em lugares elegíveis nas listas à ALRAA, garantindo por essa via o tacho e o futuro em caso de derrota nas eleições de 2009.
Nas duas circunstâncias referidas os benefícios são pessoais ou do restrito grupo dirigente. Nada é feito nem pensado sequer, tendo em mente um gesto ou uma atitude que vise a primazia da Região ou um contributo para melhoria de condições de quem aqui vive. O que os move na sua ubiquidade é o medo da úbere perdida e, por isso, nada melhor do que ter um pé na autarquia e o outro na Assembleia, se bem que o povo possa ver neles gente de perna curta para tão longa “esparragata”.
Dito isto, ao sentido das palavras de Carlos César, que inicialmente refiro, é justo atribuir-lhes o merecido peso e crédito na diferenciação que faz entre a militância partidária e a militância social, porquanto o Partido Socialista testemunha, na prática, a sua consideração pelos eleitores, o seu respeito pelas instituições e o seu carácter no exercício da actividade política, já que não incluiu nenhum autarca, em nenhuma das Ilhas, nas suas listas de candidatos à ALRAA.
Não vale a pena o PSD falar em mudança quando ele próprio é incapaz de mudar, porque os Açorianos sabem que só mudando primeiro se pode mudar depois os Açores para melhor.
Foi isto que o PS fez e é isto que o PS faz.
Curiosamente e após tantos anos de experiência, é isto que o PSD continua sem saber fazer.






segunda-feira, setembro 15, 2008

Agorafobia?...Oxigénio?

“Debates ao molho com sete intervenientes à volta de uma mesa são perfeitamente inúteis. Ou são sete monólogos em que sequencialmente cada um diz o que tem para dizer e quando alguém tenta dizer qualquer coisa, o moderador diz: não interrompa, por favor; ou o próprio diz: não interrompa porque eu também não o interrompi, quantas vezes não ouvimos isso? Ou falam todos ao mesmo tempo. (…)” Costa Neves no Telejornal da RTP/A, 13/09/2008, durante a apresentação da lista do PSD na ilha do Pico, onde o cabeça de lista não é presidente de câmara. É deputado europeu...

sábado, setembro 13, 2008

Apenas o meu povo

"Quem disse que morreu a madrugada?
Quem disse que esta noite foi perdida?
Quem pôs na minha alma magoada
As palavras mais tristes que há na vida?
Quem me disse saudade em vez de amor?
Quem me disse tristeza em vez de esperança?
Quem me lançou a pedra do terror
Matando o cantador e a criança?
Quem fez da minha espera desespero?
Quem fez da minha sede temperança?
Quem me dando tudo quanto eu quero
Da minha tempestade fez bonança?
Quem amainou os ventos do meu corpo
E saciou o mar da minha fome?
Quem foi que me venceu depois de morta
E soletrou as letras do meu nome?
Quem foi foi que me fez serva sem servir?
Quem foi que me fez escrava sem querer?
Quem foi que disse que eu podia ir
Tão longe quanto nós podemos ser?
Apenas quem me viu calada e triste
E despertou em mim um mundo novo
Apenas a esperança que resiste
Apenas o meu sangue, apenas o meu povo
Apenas a esperança que resiste
Apenas o meu sangue, apenas o meu povo."

Simone de Oliveira, Festival Eurovisão da Canção, 1973.

sexta-feira, setembro 12, 2008

MESMO NO CERN(E)

Coisas da Ciência.

"Gráfico animado sobre o LHC
Saiba como funciona a maior máquina da Terra
Começaram ontem a circular os primeiros protões no acelerador de partículas LHC, no CERN. O maior projecto científico da história da humanidade espera finalmente provar a existência do bosão de Higgs.
"

quinta-feira, setembro 11, 2008

Até da água se faz lastro.

segunda-feira, setembro 08, 2008

OS PAPAGAIOS DO PIRATA

No mundo de hoje proliferam os “papagaios do pirata”. São aquelas figurinhas que vivem pendurados na importância alheia e adoram fazer o pino diante do fotógrafo, para depois se colarem como lapa miúda ao ombro das personalidades, garantindo assim a presença no retrato e na pantalha.
Como diz o outro, “o nosso sangue divide-se em glóbulos brancos e glóbulos vermelhos”, mas há quem teime em ver no seu só glóbulos azuis.

sábado, setembro 06, 2008

CADA VEZ “MAIS PIOR”




Imagino que a estratégia eleitoral do PSD seja, em parte, produto do pensamento político e do objectivo partidário da sua liderança. Ajuizando os factos deste ponto de vista, tudo me leva a crer que a ambição máxima dos dirigentes laranja, de acordo com os seus parcos desejos para os Açores, não vá muito além do recosto e do repouso nos tradicionais "lugarezinhos" no parlamento açoriano.
As intervenções orais e escritas de Costa Neves deixam, de facto, enormes dúvidas sobre a utilidade do seu pensamento político e sobre existência de causas no seu partido, se é que uma e outra coisa existem. Vamos por partes:
Costa Neves continua a gerir o PSD como o Portugal colonial geria o corpo de engenharia que, ao tempo, tinha na Índia. Diz-se que eram vinte os oficiais sem um único soldado para amostra. De sorte que o melhor mesmo era não ter ideias nem pensar em obras porque engenheiro que se prezasse rabiscava, mas não petiscava. O resto é o que nos fala a história: como Portugal nunca se livrou do traço elitista dos seus engenheiros, a velha colónia acabou por se livrar de Portugal. Parece-me, assim, que salvo as distâncias e as circunstâncias, a dificuldade na liderança social-democrata é da mesma ordem, ou seja, como o líder não consegue acertar o passo ao seu “estado-maior”, os militantes vão mudando de partido, até ao inevitável dia em que alguém mude Costa Neves.
Mas como o mal vem sempre bem acompanhado, ao coçado e roçado slogan do “Melhor é possível” o partido e o líder laranja tendem a confluir o adverbio “mais”, designativo de aumento de grandeza ou de comparação, para o adjectivo comparativo se superioridade “melhor”. No fundo, bem lá em baixo, entenda-se, Costa Neves pretendia apenas sugerir que ele e os seus vinte “oficiais” seriam capazes de fazer “mais melhor” do que fez Carlos César com o apoio dos açorianos. Não fosse, claro, o pormenor de cada um dos seus graduados, à semelhança dos nossos engenheiros na Índia, ter um projecto pessoal e ainda por cima divergente dos restantes. Por outras palavras, o PSD segue à tabela e à risca a estratégia de acrescentar água à sopa, para repetir a mesma dose, na mesma malga e aos mesmos convivas, sem alguém se dar ao trabalho de, ao menos, mudar a receita, que é como quem diz, de fazer diferente a pensar nos Açores.
E assim, se o governo de Carlos César faz uma estrada, o PSD acrescenta-lhe mais dez metros na intenção; se Carlos César inaugura uma biblioteca, o líder da oposição acha que lhe faltaram dois livros e se Carlos César aponta novos caminhos para a Autonomia, Costa Neves mede-lhes as distâncias e, sem pestanejar, anuncia que lhe falta oxigénio.
Ora, como apresentar ideias diferentes e concretas para os Açores parece um meta inacessível ao PSD, nada melhor do que plagiar as ideias referidas nas intervenções do Presidente do Governo, acrescentar-lhes um algarismo, um metro ou uma vírgula e se dúvidas houver que se lhes aponham reticências, que neste tempo e deste modo aos rotineiros procuradores da oposição resta por a língua de fora às propostas alheias, já que os proveitos da trupe dirigente estão garantidos pelo fácil acesso ao parlamento.
Com a limitada ideia do “Melhor é possível”, mesmo sem saber como, o líder laranja, disfarça a ausência de causas, esconde que não tem objectivos para os Açores e evita o trabalho que dá “ser diferente”. Talvez por isso já se diga que esta fleumática brigada do PSD passa despercebida em silêncio, mas quando abre a boca repete-se, enfada-se e cansa-nos, a confirmar que a oposição está pior…e cada vez mais.

sexta-feira, setembro 05, 2008

Müz´ka



James, Sit Down
Já amanhã na Vinha D´Areia!!!

Todo o macaco tem o seu natal...



É caso para dizer que: "Mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo."
E não é que é certo o ditado?
Pois é, "quem com ferro mata com ferro morre"...Ora bem.
O meu preferido é: "cada macaco no seu galho".
Os gritos do macaco não me assustam. Veremos com quantos paus se faz uma gaiola para macaquinhos amarelos.

quinta-feira, setembro 04, 2008

Postal



Foto: Céu

A questão

" O senhor Henri disse: se a laranja viesse de uma árvore chamada macieira, à laranja teria de se chamar maçã ou era à macieira que se teria de chamar laranjeira?"


Gonçalo M. Tavares, O Senhor Henri, Caminho, Lisboa, 2003, p. 11.

terça-feira, setembro 02, 2008

Contra altos ou contra baixos. Preferem os tenores.


imagem
Se fossem do tempo eram um contratempo; se tivessem opinião, estavam sempre contrariados; se fossem manhosos, eram contrabandistas; se fossem musicais eram contrabaixos; se tivessem avesso, estavam ao contrário; se fossem um vestido, eram de contrafacção. Quando falam, contradizem-se; quando se vêem ao espelho são apenas um contraste; quando se perdem nunca se encontram; quando se procuram, desencontram-se. Nunca contra-atacam. Nunca contra-argumentam. São contra-natura. São desgraçadamente uns desencontrados do tempo; que correm em contra-relógio, contra tudo, contra todos.
- Contraltos? Claro. São a favor dos baixos.
- Contrabaixos? Claro. São a favor dos altos.
- Contramão? Sempre. Preferem o pé ou um dedo. Dois, se possível.
Contrafeitos, porque preferem o inacabado; contraponto, porque não gostam de pontuação; porque têm a lembrança terrível de nas peças teatrais da escola primária fazerem sempre de ponto; contrabando, porque gostam mais de andar sozinhos, deambulando como se fossem reis em busca do seu povo; contra os baixos, às vezes e contra os altos, outras vezes. Outras ainda, num assomo cultural, são contra altos ou baixos. Preferem os tenores e os barítonos. Ao contrário, desencontrados, sem tratado ou com tratado, contra o tempo, a favor; dentro ou fora, tanto faz, estes amigos do contra, são contra a informação. Preferem a formatação. Contra o tempo, contra o “rário”, o “riado” e o "rio", mesmo não sabendo quem são ou o que são. Contra o feito e o “tado”, contra a “facção” e o “tualizar” são contra e pronto. Sempre contra qualquer coisa, mesmo que não saibam o quê ou quem. Melhor mesmo é que se ria a [nossa] mente contra os contrariados deste mundo. É que contrariamente a eles não somos contra os versos. Nem controversos, nem contra o tempo. Gostamos do avesso das coisas. Encontramo-nos.

sábado, agosto 30, 2008

Agenda: Mostra Labjovem



Programa:
Exposição (BD/Design Gráfico/Fotografia/Artes Plásticas) 29/08 a 21/09
Performance 30/08
Vídeo 11/09
Música 12/09
Café Literário 18/09

Mais informações aqui

quarta-feira, agosto 27, 2008

A FOME É INIMIGA DA HONESTIDADE


São quase permanentes as notícias sobre a criminalidade e a violência neste mundo de hoje. Por via directa, por via da comunicação social ou da internet, o cidadão comum está em contacto directo e diário com este fenómeno conjunto que tende a expandir-se, sem controlo aparente das autoridades nem solução à vista por parte dos governos.
Não será, com certeza, fácil obter uma resposta eficaz ao problema que se constitui no crime e na violência. Mas o que nos salta aos olhos é o modo superficial e institucionalizado com que se procura o êxito apenas pelas aparências, pelas estatísticas e, obviamente, no fim da linha deste complexo processo. Quero com isto dizer que as propostas de solução anunciadas visam, quase sempre, a acção das forças de segurança, o aumento dos efectivos policias e a maior duração e severidade nos castigos aos prevaricadores. Ora, se considerarmos a pobreza como a base geradora de grande parte do crime, da violência e, naturalmente, da insegurança, no âmbito internacional, talvez por aí se compreenda melhor a questão. Primeiro porque, dizem os especialistas, se pega no assunto pela raiz; segundo porque melhor do que conjecturar sobre o preço de cada homem, será pensarmos que cada ser humano tem o seu limite de sofrimento, sabendo-se, por vezes, o quanto a honestidade depende da fome.

Poema

"Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas

Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar."


De Daniel Faria, roubado daqui.

terça-feira, agosto 26, 2008

Quote

"Não há revolta no homem
que se revolta calçado.[...]"


excerto poema: "Do Sentimento Trágico da Vida", Natália Correia

segunda-feira, agosto 18, 2008

Soneto à la minute

Transforma-se um José em coisa pouca
Anónima, sem nome e sem espinha.
Careca, gorda, magra, voz fininha.
Baixinha, meia-leca ou voz rouca.

E nela cresce a alma transformada,
Meia mascarada com poses de travesti.
Boneca de duas faces que chora e ri.
É coisa pouca, é José e não é nada.

Mas esta feia e grotesca criatura,
Que deixa o seu veneno onde passa
Tem sujos os sapatos, fraca imagem.

Morrendo só na praia, triste figura.
Não vira o disco e é bobo de praça
É tolo, é tanso, é ele: é um selvagem.


(baseado no Soneto de Luis Vaz de Camões: Transforma-se o amador na cousa amada)

sábado, agosto 16, 2008

Os Colombos

«Outros haverão de ter
O que houvermos de perder.
Outros poderão achar
O que, no nosso encontrar,
Foi achado, ou não achado,
Segundo o destino dado.

Mas o que a eles não toca
É a Magia que evoca
O Longe e faz dele história.
E por isso a sua glória
É justa auréola dada
Por uma luz emprestada.»


Fernando Pessoa ( II parte, " Mar Português", Mensagem)

sexta-feira, agosto 15, 2008

Fim de Tarde em Santo Amaro


...E eu conto continuar por aqui!...

FIM DE TARDE


Este fim-de-semana conto estar por aqui.

quinta-feira, agosto 14, 2008

(IN)COERÊNCIAS




Um homem hoje tem de saber de antemão onde botar os pés. Há sempre um compadre à espreita, de língua afiada e veleiro de caneta que, mal a gente trambique nos tamancos, ele estende de pronto a biqueira fina do seu sapato para nos ajudar no trambolhão. E o pior, pior é que o corisco é criatura de estudos, rapaz de outros meios que forte com a minha fraqueza começou logo numa arenga comigo só porque eu pedi “coerência” aos políticos. Foi tudo por causa disso… Mais nada!
Ora, no meu fagueiro entender e julgando que os políticos, quer se dizer, os deputados, são gente como a gente, esse palavra cara da “coerência” era só para dizer que um homem que se preze, tal como meu pai que foi carpinteiro me ensinou, deve ter uma certa coisa, como é que eu hei-de dizer… Uma certa carreirinha, assim como se fosse um atilho a que se amarra numa ponta o que se diz, na outra o que se pensa e ao meio faz-se dois nós cegos, bem apertados, para engatar o que se sente e o que se faz. Não sei se me fiz perceber…? Lá no fundo, tenho cá na minha que o que meu pai me queria dizer era que se deve fazer as coisas da maneira a que a gente se respeite a nós próprios e acredite que é o melhor e o mais justo para os outros. Aquilo era só para lembrar que um homem não é só corpo e paleio, é também alma e pelo menos uma pisca de dignidade que o leva a decidir conforme, e não contra, a realidade. A gente sabe todos que há deputados que ainda pensam – poucos - outros que falam sem pensar – estes são mais - e há ainda aqueles especialistas no meneio da cabeça e na leitura de votos de louvor ou de pesar – estes são mais do que um magote de coriscos. Meu compadre, que já por lá andou, sabe bem o que eu estou dizendo, mesmo sem fazer ameaços.
É claro que essa coisa da “coerência” tem um bocadinho a ver com o berço e com os cueiros da nossa educação e não atafulha, nem por sombras, que um homem mude de ideias e de opinião, desde que para coisa melhor e, bem entendido, de justa causa, lá está, de “coerência” e não de conveniência.
Eu sei, até pela boca santa de meu compadre que o povo sábio fala que “só não mudam de opinião os burros” e também sei que meu compadre diz que quando os socialistas mudam de opinião, mesmo sendo pela Autonomia, são troca-tintas e serôdios, porque os temporãs se julgam donos dela. Pois é levar… Mas isso nem sequer é incoerência, não senhor. O povo é o povo e meu compadre é o meu compadre, já foi deputado e daí poder e saber mandar às malvas os atilhos, barbantes e amarrilhos que nos prendem a esta coisa tosca e inútil que parece ser a consciência.
Incoerência, incoerência, daquela de arder, mesmo de ferir lume, é o meu rico compadre na primeira metade de um minuto dizer que está “totalmente de acordo” com o meu texto e nos restantes trinta segundos não consentir em nada com o que está lá escrito.
Fogotabrase mais à "coerência" na política, que ficando eu sem saber o que ela vale, o melhor mesmo é deixar de saber o que ela é.







Resposta ao Desafio

Propõe-me Paulo Pereira do blogue Basalto Negro, que trace um circuito virtual à ilhas do triângulo. Confesso que me é muito mais fácil fazê-lo na ilha do Pico, porque a conheço melhor. Tudo fiz para que São Jorge e Faial não ficassem atrás. Contudo uma coisa é certa e posso afiançar aqui encontra-se peixe, carne, vinho e leite dos melhores dos Açores. Para não falar das Espécies de São Jorge, do bolo de milho do pico, das bolachas da Padaria Popular, no Faial. Da angelica. Da belíssima angelica, da salsicha e da linguiça e do limão tangerino. Aqui fica então a minha proposta de circuito:


1º Dia-
Viaje para a ilha do Pico, a partir de Lisboa, através de Ponta Delgada. Deverá chegar a Ponta Delgada, à noite. Aproveite para jantar na cidade. Escolha uma das residenciais locais para dormir. A Carvalho Araújo, por exemplo.
2º Dia-Na manhã seguinte, embarque nas Portas do Mar, no novo terminal de passageiros, no navio da Atlanticoline. Comece a desfrutar da vista das ilhas do triângulo a partir da saída da ilha Terceira, quando vir São Jorge com o Pico, por cima. Com sorte, numa das suas visitas ao tombadilho do navio, vai ter oportunidade de avistar cardumes de golfinhos, baleias e tartarugas.
O navio chega ao Pico por volta das 20 horas. Dirija-se até à freguesia da Prainha, onde se pode instalar nas unidades de Turismo Rural: Quinta da Ribeira da Urze, ou Abegoaria, por exemplo. Depois de instalado, dirija-se ao Restaurante Casa do Paço, que fica na mesma freguesia e está aberto até mais tarde. Jante. Depois do jantar, aproveite para dar uma volta na festa da freguesia, que acontece entre os dias 12 e 15 de Agosto. Ouça a filarmónica local. Compre rifas na quermesse. Com sorte, sair-lhe-á uma peça única de artesanato local. De seguida, vá-se deitar. Adormeça ao som das cagarras.
3º Dia-09h00 é hora de acordar. Espera-o um pequeno-almoço com produtos regionais. Pão, Massa sovada e queijo da padaria e queijaria locais. Depois do pequeno-almoço, saia em direcção à freguesia vizinha: Santo Amaro. Visite a Escola Regional de Artesanato e o Museu Marítimo. Tome um banho no porto de Santo Amaro e à hora do almoço pode optar por almoçar uma sopa, mesmo no porto desta freguesia. Se preferir comer de faca e garfo dirija-se ao novo Restaurante do Caisinho, em Santo Amaro também, ou então à freguesia da Piedade, onde encontra bons restaurantes.À tarde, depois do almoço, visite o oleiro na Piedade. Depois regresse à Prainha. Na cruz da Terra Alta, entre na estrada de meia encosta. Desfrute da vista para São Jorge, Graciosa e Terceira. Saia na Prainha de Cima. Dirija-se ao seu alojamento. Tem marcado um percurso pedestre: o Trilho da Baía de Canas, por exemplo. São 17 horas, quando acabar. Tome um banho de mar nas Poças da Prainha. Depois dirija-se a São Roque do Pico, visite o Museu da Indústria Baleeira. Siga, depois, para a Madalena. Tome a estrada regional. Em Santa Luzia, desça para os Arcos, chegará à zona da Barca. Dirija-se ao centro da Madalena. Jante no Restaurante, a Parisiana, por exemplo. De seguida, dirija-se novamente para a Prainha. É dia de Chamarrita. Aprenda a “bailhar”. Adormeça novamente ao som das cagarras. Estão por aqui todos os dias.
4º Dia-Saia logo de manhã da Prainha, em direcção à montanha do Pico, pelo caminho da transversal. A caminho da gruta das Torres, visite a Lagoa do Capitão. Após a visita à gruta das Torres, dirija-se às Lajes. Pare para almoçar na Aldeia da Fonte, por exemplo. Depois, visite o Museu dos Baleeiros e o Espaço Talassa, na vila. Regresse à Prainha, pela ponta da ilha. Tome um banho na piscina natural de Santa Cruz das Ribeiras. Lanche na Geladaria das Pontas Negras. Vá jantar a Santo António, no Restaurante Rochedo, por exemplo. Depois dirija-se à Prainha, deite-se cedo. Amanhã de manhã, apanhará o barco para o Faial, na Madalena.
5º Dia-No Faial, vá ao Vulcão, tome banho no varadouro, almoce. Escolha um restaurante, no centro da cidade. Tome café ou um gin no Peter. Admire a vista para o Pico. Suba ao Monte da Guia, veja a cidade a partir daí. Aprecie os barcos e as pinturas na Marina. Visite o Jardim Botânico do Faial na Quinta de São Lourenço, o Museu Etnográfico dos Cedros, o Museu de Scrimshaw do Peter ou a antiga Fábrica da Baleia, em Porto Pim. Durma no Faial, na Estalagem de Santa Cruz, por exemplo. Mas, antes jante no restaurante Canto da Doca ou noutro que escolher. Depois do jantar, tome um café no bar do Teatro Faialense, por exemplo.
6º Dia-Apanhe o barco para São Jorge. Dirija-se à Fajã dos Vimes. Prove do café que lá se produz. Visite os teares artesanais, ainda nesta Fajã. Almoce no Restaurante Fornos de Lava, por exemplo e de lá aprecie a vista para o Pico. Depois do almoço visite o Museu de São Jorge. Depois, espera-o uma viagem inesquecível até à Fajã do Santo Cristo. Aprecie a Lagoa de água quente. Escolha um bom sítio para instalar a sua tenda. Acampe. Jante, se possível, umas amêijoas da lagoa. Coma o queijo todo que quiser.
Repare como as estrelas se acendem e apagam no céu. As cagarras também estão presentes.
7º Dia-Apanhe o avião que o levará de São Jorge à Terceira. Aprecie a viagem. Fotografe as ilhas. Aproveite para almoçar na Terceira, no Restaurante Boca Negra, no Porto Judeu, por exemplo, e para passear em Angra do Heroísmo, cidade património. Compre para levar de oferta aos amigos Donas Amélias ou pombinhas de alfenim. À noite, apanhe o avião para Lisboa.

segunda-feira, agosto 11, 2008

A PARTIDARIZAÇÃO DA AUTONOMIA



Se alguma coisa o cidadão comum deve exigir dos poderes e dos partidos políticos é coerência.
Neste momento, que pressuponho histórico, em que se discute a aprovação de uma proposta de revisão do Estatuto Político Administrativo dos Açores, o nexo e o senso parecem-me mal distribuídos por alguns representantes da classe política nacional e açoriana.
A tendência para a partidarização tosca e mesquinha do Estatuto dos Açores e a consequente ideia de partidarização da Autonomia são, parece-me, meio caminho andado para que o cidadão entenda que os interesses dos Açores, e os seus próprios, tenham sido menos obra nossa e mais fruto de um certo acaso, resultante da intriga entre poderes e entre políticos.
Pouco interessa a quem vive, trabalha e luta nestas e por estas ilhas que a comunicação de Sua Excelência o Presidente da República aos portugueses se tenha revelado numa fantasia pirosa e numa perturbação social absolutamente grotesca. Sua Excelência tem esse privilégio político da comunicação suspensa, que é dele, e até tem outros que sendo ou não constitucionais lhe permitem proibir, por exemplo, a circulação no espaço aéreo próximo da sua residência no Algarve ou convocar um batalhão de policias para segurança pessoal numa festa de aldeia. A mim, açoriano e micaelense, natural da remota “república da água azeda”, cabe respeitar o direito à segurança, ao descanso e ao merecido lazer do mais alto dignitário da Nação. Agora, o que eu sei é que naquela paternal invençao de desconsolo ao País, Sua Excelência não apenas referiu que oito normas do Estatuto Político Administrativo dos Açores eram inconstitucionais, e por isso a alterar pelos poderes legislativos. Evidenciou e sublinhou, também, que outras quatro, de índole e visão política presidencial e cunho centralista pessoal, deveriam ser atendidas, não em nome de um pseudo-equilíbrio de poderes, mas sim pela supremacia de um poder, o dele, sobre todos os outros.
Ora, neste contexto e neste momento que, repito, julgo históricos, vejo já alguns representantes do povo na Assembleia da República e na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, socialistas, social-democratas e outros, armados em ananases de estufa e tão dispostos a corrigir as inconstitucionalidades do Estatuto como a curvar a cervical na fuga ao conflito com a Presidência da República.
Penso que se alguma diferença existe entre a decisão política consciente e a opção banal na escolha de uma empresa de mudanças, tal diferença reside, no primeiro caso, na defesa arrojada, corajosa e justa dos interesses dos eleitores. No segundo caso, a preocupação fica-se pelos cuidados a ter com o verniz dos móveis ou com o seguro dos cristais...se os houver.
Se a actual proposta de Estatuto foi aprovada por unanimidade nos parlamentos nacional e regional, se não se tratou, de facto, de uma simples mudança na mobília, se a ideia, como acredito, não foi lançar paranhos às vistas dos açorianos, então exige-se coerência para com as decisões já tomadas, pede-se dignidade para com os eleitos e reclama-se carácter nas instituições. Porque nem a Autonomia se faz fechando os olhos à luta, nem o Estatuto Político Administrativo dos Açores pode ser um eterno pessegueiro constitucional, por mais que convenha ao comodismo partidário e por mais que o entenda o centralismo tacanho de Sua Excelência o Presidente da República.