sexta-feira, maio 30, 2008

maduras

A mania de tirar nabos da púcara várias vezes ao dia, a pretexto de tudo, mesmo sem fome, levou Jacinto ao hospital, depois de passar um mês a comer nabos sem parar. Depois da alta hospitalar, voltou a casa e deu-lhe para as uvas. Mas, desta feita, não teve grande sorte. Jacinto sempre ouvira dizer que se atiram verdes para colher maduras. Da latada da sua casa apanhou todas as uvas verdes. Atirou-as fora. Ficou sem nenhuma. Não colheu maduras.

quinta-feira, maio 29, 2008

Extraterritorial

"da relação entre língua e alma
(obviamente colectiva a última)
há tratados tratantes até ao vómito

se tudo fosse como ficou dito
( a blasfémia científica será menor que a outra)
então eu acataria plácido o meu inferno

a minha alma ( egoísmo) não é a língua portuguesa
( embora em português me exprima e desespere)
mas uma amálgama de nativos erros

por comparação com padrão que todo lo manda
(excepto obviamente a transgressão que sou)
erros saborosos que infeliz - dificilmente ressuscitarei

assim ementes pródigos de pegados
ingeirados à bocanha dos jarões
como naseiquedigas e maroiços basta

(lá se foi o relâmpago isolado
onde fulgiu a ilha e logo o escuro
portuguêsmente me devolve à alma usual)

ah lembro-me de me proibirem o verbo abaniar
tão expressivo dizer atirar para algures
o impróprio objecto isso é menos ua alma

et puis un jour j´ai lu l´histoire
de la Chèvre de Monsieur Seguin
et puis le matin le loup la mangea

agora ando a ler só notas de rodapé
que em português-inglês já são de pé de página
onde muito apreendo da corrupção anímica

onde se explica que morrer frizado é enregelar de vez
e que o sinó é filho factual do tempero açoriano
onde neve não há nem frizas que se prezem


nem comida encanada, nem draivas de bâses
nem bossas de camelos nem de outros
nem lá os talafones servem para chamar alguém


chamo a isto uma breve amostragem
da alma ( se ela é língua)às postas
é pouco rentável no mercado do saber"


José Martins Garcia, Invocação a um Poeta e Outros Poemas, AH, SREC, 1984.

terça-feira, maio 27, 2008

Bela ideia

Colecção Livros sem letras. Incentivo à Escrita.
Da BLU edições (o site está em construção). Este é um livro com uma filosofia muito interessante: para além de ser um livro que possa ser agenda ou caderno é " também um convite e um desafio da BLU Edições a todos/as e a si própria. Com o compromisso de editar uma obra." - pode ler-se na badana interior.
Parece-me uma bela ideia. Parecido só conhecia o "Livro em Branco".

domingo, maio 25, 2008

sábado, maio 24, 2008

Da dor

José Manuel dos Santos via passar todos os dias as mesmas pessoas.
Um dia, cansou-se. Fechou a janela. E saiu para a rua.
Dona Lúcia, a vizinha do terceiro andar, tão expedita, como coscuvilheira, correu a avisá-lo do frio das noites e do calor das manhãs. José Manuel dos Santos não quis saber. Passeou, passeou, e, não só não voltou à janela, como mudou de casa. Já não podia aturar a Dona Lúcia do terceiro andar, que tão expedita, como coscuvilheira, contava todos os dias às vizinhas dos outros dez andares, que havia um louco, a morar na cave, que tinha uma janela pintada na parede da sala de jantar.
Hoje, José Manuel dos Santos, vive num rés-do-chão. A Dona Lúcia não sabe, mas a Dona Filomena já descobriu que ele tem um jardim pintado na parede da sala.
José Manuel dos Santos rega todos os dias a mesma flor.
Um dia há-de cansar-se e sair para a rua e passear até deixar o jardim, porque a Dona Filomena também, tão expedita, como coscuvilheira, há-de contar a todas as vizinhas que há um louco no rés-do-chão que tem um jardim pintado na parede da sala.
José Manuel dos Santos há-de mudar-se para um primeiro andar e na parede da sala há-de pintar o seu retrato à janela. Até chegar uma Dona Marta que o denuncie...

sexta-feira, maio 23, 2008

Senhora do Mar

Costumava assistir com mais afinco às edições do Festival da Eurovisão da Canção. Mas, de há uns anos a esta parte comecei a achar que Portugal se apresentava com participações muito pindéricas e foleiras. Os cantores e as cantoras além de mal vestidos, mal penteados e com oratória demasiado fútil mexiam-me com o sistema nervoso. Porém, este ano, eis que surgiu a novidade! Gostei francamente de ver e ouvir Vânia Fernandes, uma jovem madeirense, a cantar Senhora do Mar. Gosto do poema, gosto da música e gosto do ar jovem com que a jovem madeirense Vânia Fernandes se apresentou em palco e classificou Portugal para a final. Longe, muito longe de "peguei, trinquei e meti-te na cesta" (Amor de Água Fresca).
Felizmente!

post scriptum: Hoje, o povo madeirense está de parabéns. Cristiano Ronaldo na Champions League e Vânia Fernandes na Eurovisão. Ah! Valentes!

quarta-feira, maio 21, 2008

Não devemos esquecer nada




“ (…) Tenho de me lembrar de tudo com precisão para, quando ele tiver partido, poder recriar o pai que me criou”, escreve Philip Roth na página 160 do livro – Património, uma história verdadeira – que acabei de ler há poucos dias. Foi uma leitura atribulada, que tive que interromper por variadíssimas vezes, mas à qual voltei sempre que pude para acabar de testemunhar a excelência da escrita de Philip Roth. Pelo princípio, que citei já se percebe que, apesar de se intitular: Património – a obra não é sobre museus, igrejas ou bibliotecas, mas sim sobre um pai e o património humano que ele traz em si mesmo; tão sensível e tão protegido (afectuosamente protegido), que o filho – Philip Roth – opta por escrever este livro (cruelmente) verdadeiro, onde pai e filho convivem a braços com a morte e com a dor de a ver chegar, numa luta que parece não ter fim nos corredores dos hospitais, no carro a caminho de casa, nas conversas com os médicos e com as pessoas que fazem parte do dia a dia dos dois: Philip Roth, escritor e Herman Roth, pai do escritor: 86 anos, viúvo e gestor reformado, que sofre por ter um tumor cerebral.
Herman Roth é ajudado pelo filho, que escreve ao mesmo tempo, esta história. “(…) O que os cemitérios provam, pelo menos a pessoas como eu, não é que os mortos estão presentes, mas sim que partiram. Eles partiram e, por enquanto, nós não.” (página 20). Philip Roth ansioso e cheio de medo como qualquer outro ser humano real, que passe pela mesma situação, acompanha o seu pai em cada passo da longa caminhada até ao fim; e enquanto o acompanha em regressos permanentes ao passado, de quando era pequenino e viviam na sua casa com os irmãos e a mãe viva, vai escrevendo esta belíssima história, de uma forma diferente, que até hoje nunca tinha visto ninguém fazer. Rigorosa, duramente real, dolorosa, mas de uma riqueza literária impressionante.
Os críticos literários dizem que este é provavelmente o mais pessoal romance de Philip Roth; até porque, advogam, o herói do livro é o seu próprio pai. O Património. "Não podes esquecer nada".
Não me esqueço de nada.

Sísifo

"Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças."


Miguel Torga

terça-feira, maio 20, 2008

domingo, maio 18, 2008

As Flores (na) Festa



Escola Profissional das Capelas, Festas do Divino Espírito Santo, organizadas pela Casa do Triângulo

sábado, maio 17, 2008

müz´ka

video

...

«[...] Não pode o homem ser aquele que é
mesmo que para voar distenda a asa
ou seja natural de nazaré.»


Ruy Belo, excerto de "Eu vinha para a vida e dão-me dias", in Homem de Palavra [s], Editorial Presença, Lisboa, 1997, pp.59.

quinta-feira, maio 15, 2008

quarta-feira, maio 14, 2008

Carta Aberta

Leu-a em voz alta.
Depois voltou a fechá-la no envelope.

terça-feira, maio 13, 2008

Croniqueta XLIV ou o Fífia não queria participar na Festa


imagem
Na procissão queria ir de vermelho, com uma pomba pendurada ao pescoço e uma coroa luminosa na cabeça, mas a mãe e as tias acharam melhor não. Então, pensou ir na filarmónica, a tocar um instrumento, tipo pratos, mas depois de 2 minutos de ensaio, já lhe doíam os pulsos. Tentaram que ele levasse o estandarte, mas não aguentou o peso. Então ofereceu-se para servir às mesas das sopas do Domingo, mas enquanto ensaiava com os colegas a maneira de pegar nas terrinas, partiu quatro, que eram do património da casa do povo. No coro da igreja correu o risco de ser expulso, quando um dos seus “alva pomba” mais estridentes ia partindo os vidros da porta principal; ajudar na missa era um papel demasiado pequeno para um Fífia como ele; escuteiro também não podia ser, porque não tinha calções, nem fazenda para as tias e a mãe lhos fazerem. Estava triste, não havia maneira de descobrir uma forma de participar na festa; uma só que não fosse muito exigente, que não o obrigasse a vestir uma farda ou a andar de roda da freguesia, carregando açafates com bolos para distribuir às pessoas e depois ter que sorrir ou ter que dizer boa tarde e elas no retorno: olá como estás e essas coisas sempre chatas, com que um Fífia como ele não devia desperdiçar tempo. Os primos convidaram-no para distribuir pensões, mas não quis; ter que saltar para uma caixa de uma carrinha, aqueles foguetes todos a rebentar, de repente sujar as mãos com sangue de carne de vaca e mais miolos de pão de massa sovada e depois levar a bandeira para o menina beijar e tornar a ter que sorrir e acenar e as pessoas paradas nas ruas a ver passar, uma chatice a que um Fífia não tem que se submeter. Então pensou, pensou e lembrou-se que se podia oferecer para ir mexer o arroz naquelas panelas grandes e por a canela nos pratos, mas também acabou por não ir, porque se enganou nos testes, que as tias entenderam fazer em casa para treiná-lo e no lugar de canela, pôs pimenta moída e a mãe esteve, dois dias, sem se levantar da cama, com dores de barriga. Estava visto: na cozinha nem pensar ou partia as coisas ou fazia asneira. Na igreja nenhum dos serviços lhe servia. Na procissão não. Demasiado comum para um Fífia. Tentou a quermesse, mas não era bom a enrolar as rifas, os papéis saltavam-lhe dos dedos e rasgavam-se. Tentou aprender a arrematar, mas não tinha voz suficientemente colocada para isso; folião não conseguia aprender o ritmo; para integrar o rancho folclórico também não tinha jeito. Acabou por desistir. Triste, deambulando pela casa de vela na mão, o Fífia confessou às tias e à mãe, que apesar de todas as tentativas sérias e arriscadas das últimas semanas para participar na festa, o que ele queria mesmo, era que ficasse entre a população essa ideia, porque ele, por si, não queria participar nas Festas da freguesia. O que queria mesmo era que se soubesse que ele queria participar. Ser tido como participante! Isso para um Fífia como ele dava bastante. No Domingo do Espírito Santo, o Fífia não saiu de casa. E, quando os vizinhos perguntavam por ele, as tias e a mãe diziam, que estava deitado e doente por não ter conseguido participar em nada, que, talvez no 10 de Junho, já pudesse participar e elas lhe arranjassem um palanque no meio de praça para ele discursar.

segunda-feira, maio 12, 2008

As ilhas são de guardar como os segredos


As ilhas sabem a mar
E encostam no cais dos teus olhos
Como se te chamassem, como se te fotografassem.
As ilhas são uma frota de barcos pretos
E
São de guardar como os segredos.
Nunca digas quantas sabes;
Nunca digas a que sabem
As ilhas,
Porque
Elas sabem do sal e do ondular das asas
Das aves que, poisadas à proa
Indicam o norte dos teus passos.
As ilhas são de conter;
Chão, Mão, Braço; por vezes Ombro.
As Ilhas embrulhadas em sargaço
São de água e sal.
E há penas por escrever nas asas das gaivotas,
Poemas por dizer nas suas penas;
Palavras por falar que lhes caiem dos bicos
E enchem cestos nas vindimas.
Das ilhas que não te posso contar porque são segredo,
Arma, Espaço, Lágrima,
Voo, Nó, Gente, Rima, Linha,
Marinheiro e Pescador, a distinção que precisa
A diferença entre os dois.
As ilhas, dizias, são de guardar como os segredos,
De decorar sem adornos, saber uma a uma,
De escalar sem tirar bocados,
De saudar como a chegada dos Netos.
As Ilhas são de guardar como os segredos;
Escrevem-se com I maiúsculo
E tomam a forma que quiseres.
São instantâneas. Cozinham-se contigo e comigo,
Sal, Água e Laços
Da Gente.

sábado, maio 10, 2008

"Dia de Barco com Música na Cidade"

Hei-de estar cá para ver se esta iniciativa promovida pela Câmara Municipal de Ponta Delgada que, durante o mês de Maio, vai animar a cidade de cada vez que atracar um barco de cruzeiros. Será que depois de estarem prontas as obras das Portas do Mar a animação vai continuar?
É que pode ser que se dê o caso de, à semelhança de outras vezes, a conclusão daquela obra, que não é da Câmara, dar lugar a dias de obras na cidade, já com outras músicas, venha barco ou não venha barco. Para já, a iniciativa em minha opinião é boa. E, só peca, por tardia.
Vamos a ver.

Muz´ka de Sábade



Homem do Leme, Xutos & Pontapés

sexta-feira, maio 09, 2008

Pensamento do Dia

O Calhambeque
Bi Bidhu! Bidhubidhu Bidubi!...

segunda-feira, maio 05, 2008