terça-feira, maio 13, 2008

Croniqueta XLIV ou o Fífia não queria participar na Festa


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Na procissão queria ir de vermelho, com uma pomba pendurada ao pescoço e uma coroa luminosa na cabeça, mas a mãe e as tias acharam melhor não. Então, pensou ir na filarmónica, a tocar um instrumento, tipo pratos, mas depois de 2 minutos de ensaio, já lhe doíam os pulsos. Tentaram que ele levasse o estandarte, mas não aguentou o peso. Então ofereceu-se para servir às mesas das sopas do Domingo, mas enquanto ensaiava com os colegas a maneira de pegar nas terrinas, partiu quatro, que eram do património da casa do povo. No coro da igreja correu o risco de ser expulso, quando um dos seus “alva pomba” mais estridentes ia partindo os vidros da porta principal; ajudar na missa era um papel demasiado pequeno para um Fífia como ele; escuteiro também não podia ser, porque não tinha calções, nem fazenda para as tias e a mãe lhos fazerem. Estava triste, não havia maneira de descobrir uma forma de participar na festa; uma só que não fosse muito exigente, que não o obrigasse a vestir uma farda ou a andar de roda da freguesia, carregando açafates com bolos para distribuir às pessoas e depois ter que sorrir ou ter que dizer boa tarde e elas no retorno: olá como estás e essas coisas sempre chatas, com que um Fífia como ele não devia desperdiçar tempo. Os primos convidaram-no para distribuir pensões, mas não quis; ter que saltar para uma caixa de uma carrinha, aqueles foguetes todos a rebentar, de repente sujar as mãos com sangue de carne de vaca e mais miolos de pão de massa sovada e depois levar a bandeira para o menina beijar e tornar a ter que sorrir e acenar e as pessoas paradas nas ruas a ver passar, uma chatice a que um Fífia não tem que se submeter. Então pensou, pensou e lembrou-se que se podia oferecer para ir mexer o arroz naquelas panelas grandes e por a canela nos pratos, mas também acabou por não ir, porque se enganou nos testes, que as tias entenderam fazer em casa para treiná-lo e no lugar de canela, pôs pimenta moída e a mãe esteve, dois dias, sem se levantar da cama, com dores de barriga. Estava visto: na cozinha nem pensar ou partia as coisas ou fazia asneira. Na igreja nenhum dos serviços lhe servia. Na procissão não. Demasiado comum para um Fífia. Tentou a quermesse, mas não era bom a enrolar as rifas, os papéis saltavam-lhe dos dedos e rasgavam-se. Tentou aprender a arrematar, mas não tinha voz suficientemente colocada para isso; folião não conseguia aprender o ritmo; para integrar o rancho folclórico também não tinha jeito. Acabou por desistir. Triste, deambulando pela casa de vela na mão, o Fífia confessou às tias e à mãe, que apesar de todas as tentativas sérias e arriscadas das últimas semanas para participar na festa, o que ele queria mesmo, era que ficasse entre a população essa ideia, porque ele, por si, não queria participar nas Festas da freguesia. O que queria mesmo era que se soubesse que ele queria participar. Ser tido como participante! Isso para um Fífia como ele dava bastante. No Domingo do Espírito Santo, o Fífia não saiu de casa. E, quando os vizinhos perguntavam por ele, as tias e a mãe diziam, que estava deitado e doente por não ter conseguido participar em nada, que, talvez no 10 de Junho, já pudesse participar e elas lhe arranjassem um palanque no meio de praça para ele discursar.

4 comentários:

Alfredo Gago da Câmara disse...

Coitadinho do bicho!!! Estou cá desconfiado que ele afinal só ficou de cama porque exagerou um pouco quando foi convidado a esgalhar o pãozinho e a carne na ceia dos criadores. Será?

Anónimo disse...

Bem esgalhado.

Anónimo disse...

Muito bem escrito. Imagens refinadíssimas. Irónico. Grande Croniqueta. Não publicas isso???
Beijos
J.

mariana matos disse...

Ele não chegou a ir à ceia dos criadores. Não achou conveniente para um Fífia como ele.

Danke schön, J. :)