quinta-feira, março 16, 2006

Croniqueta XIII ou o Fífia é um Beiças de Alfenim de oratória macia



Para GMarinho

Enrugado e crespo, qual casca de noz, o Fífia lembra uma bola de ténis ensopada em água; quando bate, o som é oco e mirra-se como um polvo cujos tentáculos congelados são maiores do que quando cozinhados.
Pequenino como uma batatinha da terra, o Fífia é o orgulho da mãe e do pai (filho é filho), mas a tristeza dos companheiros que, envergonhados, “jogam às Damas”, enquanto ele destila poemas feitos à medida do pulsar do seu próprio orgulho. Escorregadio, qual sabonete molhado, o Fífia cheira a pó da roupa, porque o seu ar esgazeado, quando zangado, lembra um glutão, dos que em pequenina, eu e os meus irmãos procurávamos na pana (alguidar) para apanhar. Quase sempre nos escapavam, porque, imaginativos, os glutões eram como os duendes…
Dos glutões da espuma da minha infância, este Fífia herdou o ar verde e os olhos arregalados, mais nada. A atitude rebelde dos glutões é nele um conjunto sonoro de gritos, já não de espuma pelo ar, mas sim, de baba e lágrimas (de crocodilo), quando, pondo-se de pé, parecendo ainda sentado, exorta os presentes, atirando cognomes e epítetos, como se fossemos todos tolos e ele, porque (julgando-se) democrata e socialmente justo, o único esperto.
Há dias, tive a nítida sensação de que o que ele gostava mesmo era de ser Gil Vicente ou Dante. Talvez Raul Brandão, em El-Rei Junot, porque a “história é dor”. Mas, e aliás, como sempre, quedou na falha do mote para começar e nem Ovídio lembrou. O pano de cena caiu-lhe em cima; ficou enrolado nas cortinas, enquanto os pontos, aflitos, lamentavam tal falta de habilidade. Semítico. O Fífia é uma toalha turca verde alface; um apito de mota do chicharro; depois de 10 apitos, soa a fanhoso e parece quase rebentar; quando grita lembra uma cagarra, na noite, chocalhando
Não desistindo de ser autor de uma peça teatral, sonha-se escritor de autos e transforma a sua pequena ribalta numa coisa parecida com o Auto da Barca do Inferno, só que, como imitação, a dele está cheia de água e dali não escapa uma única personagem que salve a honra do convento (ou deveria dizer da Índia?).
Melhor nome para o Fífia desta croniqueta era o “Beiças de Alfenim”, quase doce, quase amargo; menino da mamã. Enfim, tudo menos elegante e discreto (em ambos os sentidos). Se este fosse o tempo das fogueiras para cobrança de castigos, de certeza lá o veríamos, de tocha em punho…
O Fífia é um caso específico de um homem que até veste bem, mas que, no final, abre a boca e deixa cair a beleza dos fa(c)tos…Mal formado, não mal – educado. (Não lhe conheço o pai e a mãe.)
O Fífia não toma fôlego, arfa; não se inspira; espirra…assusta-se, revira-se na cadeira; impressiona-se, descarta-se e sucumbe na praia…
Aborrecido com a atitude, enjeitado pela maioria dos formados, o Fífia não respira, transpira sempre que tem que usar da palavra. Lança-as às faíscas como dardos, cheias de ideias periclitantes, molhadas em lágrimas que não chegam a ser choradas; próprias das birras, que, como sabemos, se fazem de finos. O nosso Fífia, quase fina, e quando o não pode fazer, por vergonha, tapa os olhos, apoia a mão no queixinho e fala ao telemóvel com a madrinha.
Ainda hão-de me explicar porque raio tal menino Fífia de palavras tão (pretensamente) macias, com gestos tão frágeis, tez alva da neve, arcaboiço quase nenhum, é chefe dos formandos desta fornada? … O facto é que o biquinho mimoso e o rol das penas empalhadas na minha frente lembra uma folhinha triste de árvore, caindo numa tarde outonal, mas que, de súbito, é arrebatada por um sopro de vento, ar fresco de areia, pó e mosca; terminando com um beijo no anel do padrinho, que tomando-o no seu colinho, lhe dá um puxão de orelhas valente.
Nessas alturas, canta-lhe uma canção, que é mais ou menos assim:
O Balão do João já perdeu todo o seu gás
O Padrinho está aqui, acalma-te, oh meu petiz
Vamos a ver se tu cresces e deixas de ser rapaz!
Porque se não o fizeres, quebro o mal pela raiz.
Anda, chora as tuas mágoas
Meu beicinho de alfenim
Deita fora essas águas
Podes confiar em mim.

3 comentários:

gmarinho disse...

Cá entre nós esse Fífia um dia acaba em rei da sua rua...eheheh ;)

frosado disse...

eu, outro dia estive num "evento" com o "teu fifias"....acho eu. eh!eh!eh!

Mariana Matos disse...

o meu Fífias...hehhehe Qual?