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sábado, julho 18, 2009

Remédio D´alma

Em casa, na varanda, José Manuel dos Santos pintou uma prancha de mergulho. Mais dia menos dia, mergulha. Por enquanto anda a testar as asas que pintou nos ombros. Tem voado imenso. E nem o pai que está pintado na cadeira da cozinha acorda; já as tias de esferovite resmungam um pouco, quando há vento, enquanto a mãe está desde 1998, a dormir, em tons de verde, na parede da sala.
Adorava pintar a Dona Filomena, a Dona Marta e a Dona Manuela, mas quem lhe aparará a queda, quando saltar da varanda?
...

quarta-feira, julho 01, 2009

José Manuel de mais ninguém

José Manuel dos Santos pegou numa folha branca e furada. De um lado escreveu: José. Do outro lado: Manuel. Pendurou um papel no candeeiro da sala, com fio de linha de ponto cruz vermelho. Deixou pendurado a 10 cm do chão. Por baixo do papel na alcatifa escreveu dos Santos.
Sempre soubera que o papel era dos Santos e que, por si, era só José Manuel. Desenhou um avião. Entrou no avião. Passaporte: José Manuel de Mais Ninguém.
- O Senhor não tem apelido, perguntou a hospedeira desenhada?
- de Mais Ninguém.
- Está bem, respondeu a hospedeira desenhada.

E o avião descolou...

...Quando a 1 de Abril dissera o mesmo na Frutaria ao Sr. Luís João Correia, o dono, este semi-cerrou os olhos, deu dois saltinhos à frente, dois atrás e gritou para a D. Maria Arlete Martins: está doido! E ela respondeu: varrido.

Foi por isso que José Manuel dos Santos os apagou desta história, um por um, varreu os restos, e desenhou um avião na parede. Dos Santos. Promessa.

terça-feira, fevereiro 24, 2009

José Manuel dos Santos...

...escrevia: livros azuis nas linhas brancas dos cadernos. Livros azuis, livros azuis, livros azuis, assim repetidamente. Um dia cansou-se e passou a desenhá-los no fundo da prateleira, rente à parede, por detrás das velas chinesas, rente às fotografias da família. Desenhava livros azuis. Escrevia a preto e quando lhe faltava a tinta, decorava as letras
(com brilhantes).

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Cismado

José Manuel dos Santos chegou a casa, sozinho, como sempre. Por detrás da porta o tapete de estopa, oferecido pela Celestina, anunciava um olá cismado, pintado a azul com um longo e largo ponto de exclamação. Sempre que entrava em casa, desviava o olhar do tapete, mas pisava-o, com força, como se estivesse a pisar mais do que o tapete de estopa oferecido pela Celestina, que era tão ou mais cismada que o olá do tapete. Fez o jantar rápido; umas torradas recheadas americanas de levar ao microondas; leite com chocolate, marca continente, duas bananas e uma fatia de queijo. Em cima 4 ou 5 cigarros e café frio.
Sentou-se no sofá de olhar cismado. Pegou num papel branco, canetas de cores diferentes e desenhou duas árvores, uma casa a meio, duas pessoas, uma terceira ao longe; à porta da casa, um tapete de estopa, debaixo do tapete um bilhete, a ver-se. No canto do papel escreveu olá; no outro canto Celestina; no outro canto vou-me embora; dobrou o quarto canto e foi-se deitar: em sonhos, procurar o quinto canto: tornar-se Adamastor. Passou pela porta de entrada, pegou no tapete de estopa virou-o ao contrário; do lado do avesso só linhas. Não escreveu nada. Roubou o bilhete. O bilhete dizia: olá, cismado!

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Óscares

José Manuel dos Santos olhou, aflito, as estrelas. De todas as que via nenhuma tinha vírgulas, assentos de expressão; um rasgo no olhar; um ar que entremeasse a vista e o alcance; travessões que lhes apoiassem a existência; um ponto e vírgula abraçados; palavras caídas e empastadas, partidas e desengonçadas, roubadas e desenhadas, traídas e despedaçadas, solenes e demoradas, gritadas e faladas, não houve uma, uma só, que sobressaísse no desfilar de vestidos brilhantes. Apagou a televisão.

Tirou dos bolsos os lápis de cor.

Desenhou na parede uma chaminé; na chaminé um sapatinho, no sapatinho um rebuçado, no chão ao pé do lume da chaminé, que também desenhou, um menino e uma mãe. Na mão do menino a mão da mãe. Nas outras mãos, que eram duas, uma estrela em cada uma. Chamou ao desenho: verdadeira noite de Óscares.

(E foi-se deitar com medo das represálias).

quarta-feira, julho 23, 2008

palavras com meias

“Meias palavras? As palavras não se calçam!”, pensou José Manuel dos Santos, enquanto tentava a custo, enfiar a palavra andar nas suas botas.
Não coube.
Talvez fosse da ambiguidade.

segunda-feira, julho 14, 2008

Pintar a Manta

Farto de esperar por melhores dias, José Manuel dos Santos pintou na varanda da sala uma porta com chave e trinco. Feita a pintura, deu-lhe utilização. Então, rodou a chave, que estava pintada de castanho, abriu a porta, que era branca e fechou-a atrás de si, devagarinho para não acordar a mãe, que estava pintada no sofá.
Nunca mais ninguém o encontrou. Na manta da sala, à beirinha da janela, ficaram espalhadas e sem tampa, 36 canetas de feltro e um papel que dizia assim:

Acção 1 - Deixar canetas abertas em cima da manta da sala.
Acção 2 - Rodar a chave, abrir a porta pintada, sair, fechar a porta pintada.
Acção 3 - Sorrir. Melhores dias virão.