terça-feira, janeiro 14, 2014

De olhos em bico




No final do congresso do CDS, Passos e Portas encontraram-se numa estação de serviço, na Mealhada. Passos comeu leitão. Já Portas (mais avisado e diligente) comeu panados.
Portas é mais esperto que Passos. Por certo já sabe que agora com a venda de património aos chineses, também as ementas portuguesas passarão a incluir especialidades como “leitão com amêndoas” ou “agridoce”; “crepes de pastel de nata” ou “chop suey de cozido à portuguesa”.
Por outro lado, Portas, sempre tão viajado e informado, também já deve saber que, entre o final de 2014 e o início de 2015, partirão de Pequim turistas em naves espaciais que pagarão a módica quantia de 70 mil euros e viajarão durante uma hora, a mais de 60 quilómetros de altitude, o que lhes permitirá experimentar a ausência de gravidade.
Só o desejo imenso de sentir essa “ausência de gravidade” pode explicar que Portas tenha anunciado no seu congresso ao próprio Primeiro-Ministro do Governo, de que é Vice-Primeiro Ministro, as suas metas para 2015: Reforma da Segurança Social, desagravamento do IRS, aposta na demografia e racionalização da administração pública.
Lá nada. O que Paulo Portas quer (mas não disse ainda) é experimentar naves espaciais, já que não pôde experimentar submarinos e, lentamente, ir mudando a indumentária dos seus colegas de Governo.
Passarão das gravatas aos kimonos; dos garfos aos pauzinhos; da cerveja ao chá de jasmim e se for mesmo preciso (em nome da pátria portuguesa), nos seus discursos substituirão versos de Fernando Pessoa ou Camões, por versos de Wang Jian.
Depois de alterar o significado de irrevogável e de assim gozar com a cara de toda a gente, Paulo Portas pode tudo, a favor do interesse nacional, que é, claro está (só) dele.
Aposto que o “karaté” vai passar a ser também disciplina obrigatória nas escolas portuguesas, indo mesmo substituir os exames dos professores, tornando-se requisito fundamental para dar aulas do Minho ao Algarve.
Nada disto será assim tão estapafúrdio. Basta que nos lembremos que depois da EDP e da REN, também a Caixa Seguros foi vendida aos chineses; que enquanto essa venda era anunciada o Governo da República, sem qualquer tipo de escrúpulo, dizia também que estava aprovado o alargamento da Contribuição Extraordinária de Solidariedade às pensões acima de mil euros, alargando assim a perda de rendimento na classe média.
Foi a EDP, foi a REN, foi a Caixa Seguros e é (também) o Cinema Londres, que vai ser transformado numa loja de produtos chineses.
Enquanto Portugal se vai deixando “achinesar” e desgastar, entretém-se o Povo com discussões absurdas e conversas parvas, até da Presidente da Assembleia da República sobre os custos da ida de Eusébio para o Panteão; enquanto isso outros discutem se Sophia de MB Andresen deve ir antes, ou depois do “King”.

Cá para mim, se for para continuar a vender o que é nosso aos chineses, mais vale deixar ficar Eusébio e Sophia onde estão. E, já agora, no entretanto, ir pensando em vender o Palácio de Belém aos chineses, com tudo incluído.
O provérbio chinês, a este propósito, é muito claro: “Se quiseres abater uma árvore usando a metade do tempo, passa o dobro do tempo amolando o machado”.

E como isto vai, ao ritmo que vai seguindo, não tarda estão os portugueses de olhos em bico, já sem sequer conseguir dizer: “já basta!” em português.

Serenamente, AO 14 de Janeiro 2014

segunda-feira, janeiro 13, 2014

O que está em causa...


Para um observador mais distraído pode causar alguma estranheza o recente alarido, pela parte dos partidos políticos e dos média, por causa da inédita decisão do Senhor Representante da República de enviar para o Tribunal Constitucional o Orçamento da Região de 2014. Afinal, aparentemente, o Sr. Embaixador apenas exercia uma competência legítima, prevista na Constituição, sobre uma norma, para alguns de justiça duvidosa, que tem impactos financeiros de menos de 1% no Orçamento da Região.

Alguns comentadores políticos mais estudiosos, concordando com alguns dos argumentos aduzidos pelo Sr. Embaixador, salientavam que a medida era infeliz e que o Governo dos Açores estava a contrariar as políticas nacionais violando, inclusive, contratos estabelecidos com o Governo da República. Outros comentadores, como costumeiramente fazem, preferiram falar de algo completamente diferente e referir as responsabilidades dos partidos açorianos na existência do próprio cargo de Representante da República.

Mas houve algo que nunca bateu certo nestes raciocínios de caracter político: o facto de todas as forças políticas com representação parlamentar e autonomistas convictos, com orientações ideológicas totalmente díspares, terem unanimemente, manifestado a sua oposição à posição do Representante da República. Curiosamente, algumas personalidades e partidos que não concordaram com as alterações à Remuneração Complementar Regional também manifestaram o seu desagrado perante a atitude do Sr. Embaixador.

Para quem se interrogou sobre a razão deste unanimismo, a resposta é muito simples: o Sr. Embaixador com a sua decisão põe em causa a Autonomia dos Açores!

E para esta discussão de pouco interessa a avaliação política da norma em causa, nem esclarecer que esta não aumenta a despesa com pessoal, nem explicar que nenhum funcionário público vai ter aumentos de ordenado ou que esta classe nos Açores é a única no país que vai ter uma dupla austeridade, em virtude dos cortes salariais e do aumento de impostos na Região.

O que está em causa não é saber se a Região aprovou uma norma que revela uma opção política, obviamente sujeita a uma avaliação por parte dos eleitores açorianos e do Sr. Embaixador no âmbito do seu poder de veto político. Não! O que está em causa é saber se a Região tem ou não competência (Autonomia) para tomar esta decisão.

Daí a gravidade da atitude do Sr. Embaixador, porque faz um julgamento político de uma norma e concretiza-o, não neste âmbito, no seu direito de veto, mas sim no envio desta para fiscalização preventiva do Tribunal Constitucional.

Mais! Esta decisão do Sr. Embaixador, concretizada em 26 infelizes páginas de exposição ao Tribunal Constitucional, revela a interpretação de que o âmbito da nossa Autonomia está limitada às orientações de caracter político/ideológicas prosseguidas por um qualquer Governo do país e não, como é certo, regulada pelas leis que estabelecem essa mesma Autonomia: a Lei de Finanças das Regiões Autónomas, o Estatuto Político Administrativo e a Constituição da República Portuguesa. Não interessa para o Sr. Embaixador, se cumprimos os objetivos e os parâmetros estabelecidos nestas “Leis”, mas sim os meios que utilizamos para os atingir.

O Sr. Embaixador pretende, na prática, que o Tribunal Constitucional avalie a nossa capacidade legítima, de enquanto Açorianos, com órgãos de Governo Próprio, podermos fazer diferente.

E na decisão do Tribunal Constitucional poderá estar mesmo em causa esta capacidade, ou seja, a nossa própria Autonomia!
Francisco Vale César
Da Minha Esquina, AO do dia 12 de Dezembro

terça-feira, janeiro 07, 2014

Ao Sr. Embaixador





Numa inusitada decisão entendeu o Senhor Representante da República para os Açores enviar para fiscalização preventiva do Tribunal Constitucional o Orçamento da Região para 2014. Fê-lo não porque o documento prejudicava os açorianos, mas sim por entender que os beneficiava em relação aos trabalhadores da administração pública do continente. Quem ler os fundamentos do pedido de inconstitucionalidade fica com a noção exata do entendimento que o Senhor Embaixador, Pedro Catarino, tem da Autonomia.

Aliás, Sua Excelência, num assomo de inspiração inédita – e para dar prova de vida – resolveu, na mesma semana, aquando da mensagem de Ano Novo, propor a criação de uma lotaria com o objetivo de ajudar a financiar o ensino pré-escolar nos Açores. A ideia, por si só algo estapafúrdia, também contribui para entender melhor o enquadramento que S. Exa tem não só do cargo que, ainda, desempenha, como também o espírito com que vê o regime autonómico. Mas vamos por partes.

Sua Excelência, o Embaixador, considera inconstitucional que o Parlamento dos Açores aprove, em lei do Orçamento, uma alteração que visa alargar o âmbito da Remuneração Complementar. Nos argumentos aduzidos Sua Excelência considera, por exemplo, que a remuneração complementar não beneficia em nada os contribuintes do Continente que suportam integralmente o esforço de uma transferência de cerca de 251 milhões de euros a título de solidariedade para o nosso Orçamento. Na mesma linha de raciocínio argumenta ainda não ser decisivo, no plano constitucional, a circunstância da remuneração complementar não implicar em si mesmo um acréscimo de transferências financeiras do Orçamento de Estado para o da Região Autónoma dos Açores no ano de 2014.

Dito de outro modo, Sua Excelência, o Embaixador, considera que por dever de solidariedade para com os contribuintes do Continente, mesmo que a nossa gestão das contas públicas seja exemplar e que haja recursos disponíveis para ajudar as pessoas, a Autonomia dos Açores e os órgãos de governo próprio da Região não têm competência para decidir sobre a gestão do seu orçamento em nada que contrarie as políticas nacionais.

Note-se que o alargamento da Remuneração Complementar foi aprovado, por unanimidade, na Assembleia Legislativa dos Açores, uma circunstância que, no mínimo, exigiria de Sua Excelência, o Embaixador, alguma contenção ou sensibilidade política. Poderia, por exemplo, ter em conta que nunca, em quase 40 anos, foi enviado para o Palácio do Ratton um Orçamento de Estado ou um Orçamento regional para fiscalização preventiva - É sempre curioso verificar que, no Continente, um Orçamento de Estado que corta no rendimento e aumenta as desigualdades merece uma aprovação unanime do Presidente da República, e que nos Açores, a única zona do país que será duplamente prejudicada em 2014 em virtude de um exclusivo aumento de impostos aprovado por Lisboa, o Orçamento Regional, que visa, exatamente, atenuar esta desigualdade, merece o seu envio para fiscalização preventiva - Poderia ainda ter levantado dúvidas e devolvido ao parlamento dos Açores o documento para reapreciação. Mas não. Sua Excelência, o Embaixador, não se coibiu de exercer as suas competências, ainda que de modo pouco diplomático. E fê-lo de um modo pouco abonatório para as funções que desempenha, não se coibindo de fazer um juízo político relativo às competências próprias da Autonomia Regional. Na prática, a mensagem que pretendeu passar foi a seguinte: ao abrigo do princípio da solidariedade nacional, os açorianos devem sofrer, na mesma proporção e com a mesma intensidade, as políticas recessivas e de austeridade emanadas pela maioria que governa o País. Pouco importa o facto de a Região Autónoma dos Açores não contribuir em nada para o défice nacional. Pouco importa se o défice dos Açores é de apenas 0,4% enquanto o da República é de 5,5%. Não interessa se o endividamento dos Açores é de 20% em função do PIB e o do País ultrapassar os 128%. Para Sua Excelência, o Embaixador, a Autonomia deve ser exercida – apenas e tão somente – se for para cumprir as orientações emanadas do Terreiro do Paço. Afinal, conforme argumentou, são os contribuintes nacionais que suportam na totalidade a transferência de 251 milhões de euros dos cofres nacionais para os cofres regionais. Isto, num orçamento regional que, como se sabe, ascende a mais de mil milhões de euros e numa Região AUTÓNOMA com um PIB superior a 3 mil milhões de euros. 

O problema de Sua Excelência, o Embaixador, é afinal igual a muitos outros que, infelizmente, não compreendem que o sucesso da Autonomia dos Açores contribui para a afirmação do País no Atlântico. Não entendem que a Autonomia não é um luxo, mas um processo político indissociável da identidade açoriana que promoveu o maior período de crescimento e de desenvolvimento da história dos Açores. Não compreendem que a austeridade, ao contrário da narrativa oficial de Belém, afinal não suspende a democracia. Para quem tanto apregoa a unidade do Estado, Sua Excelência, o Embaixador, prestou um mau serviço ao País. E, independentemente do desfecho deste contencioso autonómico – aberto pelo ainda Representante da República – fique Sua Excelência, o Embaixador, a saber que a Autonomia dos Açores é um património político das Açorianas e dos Açorianos que perdurará muito mais anos que a sua efémera, e nada saudosa, passagem pelo Solar da Madre de Deus.

Francisco Vale César
Da Minha Esquina, AO do dia 5 de Dezembro

A “Lotaria” do Senhor Embaixador

 Li, a propósito da morte de Eusébio, várias coisas. Ouvi dezenas de declarações sobre o assunto, por isso combinei comigo mesma que esta crónica não seria sobre ele.
Para quê? Já falou o Presidente da República, já falou o Ministro da Presidência, entre outras altas figuras deste nosso “Estado Português” e já todos disseram de tudo. Até apareceu num canal qualquer Paulo Gonzo a falar sobre Eusébio e ouvi que já há poemas. Só faltou falar o Representante da República para os Açores. Eusébio esteve cá. Pedro Catarino podia querer falar, sabe-se lá…
A minha homenagem a Eusébio será igual à de um senhor que tive ocasião de ler num forum das redes sociais: nos próximos dias, não oiço nem vejo canais nacionais. Não preciso que me digam como ele era, o que fez, de onde veio. Eu sei. Acompanhei a vida dele, o suficiente para saber isso tudo e a minha única pena é que não tenha vivido mais um bocadinho, afinal ainda era novo. Tinha 71 anos.
Eusébio era mais novo que Cavaco Silva. Porém, parece que essa coisa da idade não tem nada a ver com morrer. Uma pessoa vai pela vida e de repente: já está. Também não quero que esta crónica pareça mórbida, nada disso, mas os dias frios, o atordoamento das políticas nacionais, aqueles anúncios que vão fazendo a conta-gotas de que vão cortar pensões e vão sortear faturas e vão, mais dia, menos dia deixar-nos a todos “em pele e osso” atormentam-me…
Indo eu atormentada com tudo isto e mais não sei quem, nem sei quantos, eis senão quando dou de caras com a notícia, no final do ano de 2013, de que Pedro Catarino, representante de Cavaco Silva, nos Açores tinha mandado o Orçamento da Região Autónoma dos Açores ao Tribunal Constitucional para ser fiscalizado preventivamente.
Qual polícia da República portuguesa, o Senhor Representante quer que os açorianos não se “portem mal”, que se comportem e sejam sacrificados como os continentais, sendo assim solidários, como deve ser.
A quente (e mesmo agora a frio) considero que o Senhor Representante da República portuguesa esqueceu-se (o que é lamentável) que as pessoas que vivem aqui, nestas 9 ilhas dos Açores, têm um Governo e um Parlamento próprio e que os seus órgãos foram eleitos em (imagine-se lá) eleições tão legítimas e democráticas como as que elegeram, por exemplo, Cavaco Silva.
O mesmo, porém não se pode dizer do Senhor Representante da República. Não foi eleito. Foi escolhido. Por quem? Por Cavaco Silva. Portanto, para mim (penso que para toda a gente) é claro. No episódio do Orçamento, o Senhor Representante da República cumpriu uma ordem de Belém, como já havia cumprido com a sua mudez em relação a assuntos tão sérios como a Lei de Finanças Regionais ou o diferencial fiscal.
Atitudes deste tipo provam a minha ideia de sempre: não precisamos de um Representante da República para coisa nenhuma. Nem deste, nem de outro qualquer. Somos uma Região Autónoma e não um qualquer condado, controlado por uma espécie de “vice-rei” ou “polícia”, cuja fatiota tresanda a centralismo.
Pelo que vi na imagem televisiva da sua mensagem de Ano Novo, o Senhor Embaixador concorda comigo. Prateleiras de livros e mais livros serviam de pano de fundo à sua figura, sem qualquer referência aos Açores. A bandeira que fosse. Nada. Só livros a metro.
Aquela mensagem podia ser lida aqui, na China ou na Rússia. Nada o identificava como sendo quem é ou representando o que acha que representa.
Açoriano ou açoriana que tenha apanhado a mensagem a meio, quase de certeza, não soube identificar o senhor e se apanhou na parte da “Lotaria”, é bem provável que tenha pensado que era alguém dos "Jogos da Santa Casa" ou coisa parecida…
Assim não vale a pena. De resto viva o Eusébio, o Benfica e (claro está) os Açores.


Mariana Matos


Serenamente, AO 7 de Janeiro de 2013

quinta-feira, dezembro 26, 2013

Natal antes de um ano novo

O Natal antecipa a chegada de um ano novo, que parece estender-se comprido e largo, provando, depois de passar, que afinal era curto, que o tempo não foi suficiente, que perdemos demasiadas horas, por vezes dias, a tentar endireitar coisas que não querem sequer “ouvir falar” em endireitar-se; a discutir e debater evidências, ou mesmo a fazer de lutas de outros, lutas nossas, como se fôssemos ganhar um lugar no céu… ou uma medalha.
(Dezembro é o mês em que nos apercebemos que não somos imortais).
Quando olhamos para trás, rapidamente, vemos que entre um novo mês de Janeiro e este velho Dezembro ficaram planos por cumprir, ideias por tornar reais e pessoas de quem gostávamos, ou por quem tínhamos certa admiração.
Dezembro é o mês em que juramos, a nós próprios, cumprir a divisa de “não olhar para trás”, conselho que, como se sabe, foi dado a Dante (em “A Divina Comédia”) por um anjo guardião, para não por tudo a perder…antes do tempo.
Quando enfiamos as mãos nas algibeiras, os dedos recolhem rebuçados para suavizar as dores (de garganta), meia dúzia de boas gargalhadas, alguns abraços e outros amigos, entre certa quantidade de mediocridades, indecências, faltas de carácter e cobardias. Assim é a vida, como uma canção, cuja voz por vezes desafina, enquanto outras tantas afina.
Dezembro é pois o tempo de fincar os pés no chão; de assumir que o fim de mais um ano é o princípio de outro, que pode até ser o último.
Dezembro traz um entendimento mais autêntico de que podemos mesmo morrer amanhã e que não ressuscitaremos, nem sequer para salvar o mundo, por mais vontade que possamos ter.
Há quem morra de amores, quem morra de doença, quem morra por acidente ou até quem morra de saudades. Se o Natal não for exactamente igual ao que era antes ninguém morre. Porém, morrer de saudades pode efectivamente matar (até) o Natal.
Dezembro é também tempo de “tomar partido”. De “tomar partido” por nós, pelo que temos de mais nosso e de fazer tudo para por o pé em Janeiro com certezas, muitas dúvidas e firmeza, em equilíbrio.
Travaremos as lutas que quisermos; percorreremos os caminhos que entendermos e as nossas estrelas, assim como os nossos heróis, deverão ser os mais simples e possíveis.
Dezembro pede que se acabem as complicações e que estejamos presentes, com o direito de, por vezes, estarmos ausentes e emudecermos.
No Natal, em Dezembro de agora, haverá meninos e meninas sem as suas “palhinhas”, nem o colo das suas mães, nem o abraço dos seus pais. Alguns estarão longe por dever, obrigação ou escolha, outros terão as suas razões muito próprias e legítimas, outros ainda estarão cansados e resignados. Pais e Filhos. Mães e filhas. Filhas e pais. Filhos e Mães.
(O contrário também existe. Nem tudo é mau.)
Pediram-me para escrever sobre o Natal e fi-lo.
Não me apeteceu falar da chaminé, das renas, da neve, das meias penduradas, das prendas do bom velhinho ou sequer da árvore de Natal. Das bolas, das luzes, das fitas e do burrinho.
Sei, como sabemos todos, que Dezembro chegando a todos, não traz o Natal igual a toda a gente.
Pois então que chegue Janeiro de 2014, porque 2013 está agora por um fio.
Os dias estão mais frios, as noites mais longas e há no ar um certo sentimento de cansaço que apela à novidade de um ano novo para, ao menos, variar o tema.

(Boas Festas).

Açoriano Oriental, 25 Dezembro de 2013

terça-feira, dezembro 10, 2013

“Os presépios da Maria”

Quando pensávamos que já nada mais nos podia sobressaltar (ou mesmo envergonhar), nestes dias cinzentos e chuvosos de Dezembro, eis que surge o casal Silva, na televisão, inaugurando uma exposição de presépios.
Até aqui tudo normal. Nada impede que o casal Silva ande pelos “caminhos de Portugal” inaugurando presépios e praticando todo o tipo de acções de solidariedade, desde lanches com idosos, visitas a lares de 3ª idade e ofertas às meninas e meninos institucionalizados.
Por mim não há problema nenhum. Acho até bem. Escusavam era de aparecer na TV, na Rádio e nos jornais por causa disso.
O que é que nos interessa saber se Maria Cavaco Silva e o seu esposo, juntamente com alguns dos netos, inauguraram em Bragança, num Domingo de Dezembro, uma exposição de presépios da própria, cujas receitas reverterão a favor de um lar de crianças institucionalizadas?
Seremos obrigados a apreciar o nosso casal presidencial, como os mais dedicados solidários do Natal, quiçá concorrendo com o Jorge Gabriel, a Leopoldina ou os anúncios de brinquedos do canal Panda?
Por quais “caminhos de Portugal” andará o nosso casal presidencial, durante todo o resto do ano, quando crianças, jovens, adultos e idosos também passam por dificuldades várias, face às políticas tortuosas do Governo da República?
Será que o nosso casal presidencial considera mesmo, que a sua ida a Bragança, para este acto televisionado, fotografado e com som gravado, apaga da memória dos portugueses os constantes silêncios do Presidente da República?
Ou acharão suas eminências que por causa do barulho do pisca-pisca das luzes natalícias, e por causa da fé de cada um, deixa de interessar todo o tempo, em que estiveram impávidos e serenos, a assistir à devastação do país?
Não sei. A mim parece-me que o objetivo da ida a Bragança era o de dar ao casalinho um ar poético, queridinho, lindinho e caridoso… Se era, pois daqui digo que é feio, é mau e é inqualificável.
Maria e o seu esposo podiam ter ido a Bragança, podiam até ter inaugurado a exposição, mas escusavam de nos entrar casa dentro, na televisão e rádio, e depois nos jornais, com aquele ar cândido, de quem acha que pode tudo e que ninguém percebe nada…
Há aquele ditado antigo que diz que devemos “fazer o bem sem olhar a quem”. Mas os novos tempos transfiguraram-no. Agora é assim: “eu faço o bem, ora olhem para mim”.
Todos querem dar qualquer coisa, mas quase ninguém prescinde de criar um momento televisivo, para que se possa ver a sua bondade e solidariedade…
É tempo de acabar com os “presépios da Maria” que são a mais recente representação da caridadezinha degradante e repugnante.
É que podemos, até, acreditar no Pai Natal e dizer que ele existe às nossas crianças. Fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que elas continuem a pensar que ele é o velho barbudo que desce as chaminés e deixa brinquedos e coisas boas.
O que não podemos tolerar são os “presépios da Maria”. Como sabemos nenhum dos membros do casal presidencial é gordo, tem barbas ou desce chaminés.

É fundamental que no Natal, ou em qualquer outra altura do ano, se compreenda que uma coisa é a fantasia, outra coisa, completamente diferente, é a cobardia, disfarçada de bondade, de solidariedade e de fraternidade.

Serenamente, AO 10 de Dezembro de 2013

quarta-feira, dezembro 04, 2013

De repente - Por E. Matos

De repente tudo vai ficando tão simples que assusta. A gente vai perdendo algumas  necessidades, antes fundamentais e que hoje chegam a ser insignificantes. Vai reduzindo a bagagem e deixando na mala apenas as cenas e pessoas que valem a pena. As opiniões dos outros são unicamente dos outros, e mesmo que sejam sobre nós, não têm a mínima importância. Nada vai mudar. De repente passamos a valorizar o que tem valor de verdade, e a amar de forma diferente de todas já vividas.

De repente vamos abrindo mão das certezas, pois com o tempo já não temos mais certeza de nada. E de repente isso não faz a menor falta, pois o que nos resta é ser apenas feliz. Percebemos que o hoje é apenas agora, e nada, absolutamente nada além disso. Paramos de julgar, pois já não existe certo ou errado, mas sim a vida que cada um escolheu experimentar. De repente não existe pecado, mas sim ponto de vista. O improvável passa a ser regra.
O extremo passa a ser meio termo, pois no dia a dia percebemos que nada é exato, e tudo chega a ser inconstante demais para ser determinante ou absoluto. De repente o inverso vira verso. Por fim entendemos que tudo que importa é ter paz e sossego. É viver sem medo, e simplesmente fazer algo que alegra o coração naquele momento. É ter fé. E só.
De repente a saudade se torna um sentimento devastador e descobrimos que o coração fala mais alto, então este sentimento único e profundo fica acima de qualquer razão. De repente tentamos compreender sentimentos, jamais compreensíveis aos olhos de outras pessoas. Descobrimos o verdadeiro valor da verdade e com ela chega a plena certeza de que ter dignidade, transparência e retidão de caráter são qualidades obrigatórias para se viver bem com os outros, com o mundo e, principalmente, consigo mesmo.

De repente descobrimos que os planos traçados e escolhidos por nós são unicamente nossos, pois de repente, em meio aos nossos planos, chegam as escolhas de Deus.

terça-feira, novembro 19, 2013

Mudar o mundo no Facebook


Circulam nos emails e nas redes sociais à velocidade da solidariedade de quem os recebe. São pedidos de sangue de tipo raro, para uma criança, um bebé ou um amigo. Chegam pedidos de ajuda de dezenas de pessoas, muitos deles são falsos, outros não têm razão de ser e outros ainda são mesmo pura maldade.
A maior parte das pessoas não percebe a sua inutilidade, nem tão pouco condena a sua falsidade e adere imediatamente sem sequer tentar perceber de onde vêm, de quem são ou se são mesmo precisos…
Foi o que aconteceu, por exemplo, a semana passada no Hospital de Ponta Delgada, com a resposta a um pedido de sangue para uma menina, que depois de ser partilhado e espalhado no Facebook, obrigou uma responsável pelo serviço de hematologia, a explicar o trabalho que estava a ser feito e a complicação que gerou o pedido efectuado na rede social.
Este foi um caso de que tivemos notícia. Mas quantos mais existirão? Desconfio que muitos. Vive-se um tempo de afã mediático de corresponder a todo o tipo de ajuda, um tempo que vai em crescendo até ao Natal, um tempo que muitas vezes, como neste caso, vai complicando mais a vida de quem trabalha todos os dias em lugares reais, com doenças e situações de vidas, que nada têm de virtuais.
Acho mesmo que muitas vezes a facilidade de se ser solidário através de um clique, de uma partilha ou  de um “like” deita por terra a condição primeira do princípio de solidariedade, que eu considero que é o de se ser solidário porque é mesmo preciso, porque não há outra resposta e não porque fica bem que se saiba que ajudei este, aquele e o outro, que fiz isto ou dei aquilo.
O Facebook, rede social de que sou utilizadora, tem vindo a trazer também essa quantidade absurda de acções inúteis, que acabam por se desenvolver num ciclo vicioso e na estúpida ideia de que é possível mudar o mundo naquele espaço.
Parece que tudo pode ser resolvido com um “like”; as tristezas e derrotas diárias resolvem-se com uma partilha e, muitas vezes, nas discussões, até parece que não se pensa que se pode (mesmo) morrer de repente. O Facebook não imortaliza ninguém. Desengane-se que pense assim.
Um “cartoon” que vi há poucos dias mostrava um menino a pedir dinheiro a uma senhora para ajudar uma família sua conhecida. A resposta da senhora não se fez esperar: “Meu querido, eu já fiz like no Facebook!”
Há poucas semanas o Facebook foi invadido por fotografias de girafas. O que podia, à primeira vista, parecer um repentino ataque de amor pelo animal, mais não era do que a “penitência” por errar na resposta a uma charada.
Dizem que a brincadeira foi criada por americanos e que funciona assim: um amigo posta uma charada, outro amigo tem que mandar a resposta por mensagem privada. Se errar tem que mudar a foto de perfil para a de uma girafa durante três dias seguidos.

A charada é esta: “São 3h da manhã, a campainha toca e tu acordas. Visitas inesperadas. São os teus pais. Têm fome. Na mesa da cozinha tens doce de morango, mel, vinho, pão e queijo. O que vais abrir primeiro?”
A resposta correta era “os olhos”, mas é claro que entretanto dezenas de teorias já foram desenvolvidas sobre o assunto, sendo a mais insólita, a de um pastor de uma igreja brasileira, que considerou ser uma estratégia satânica para forçar alianças entre os utilizadores do Facebook e o diabo.

Ele há coisas que nem o diabo aguenta. Seja como for: não entrei na charada e não mudei a foto de perfil mas mudaria sem problemas, mesmo que isso pudesse implicar um encontro inesperado com satã. Gosto de rir. E nestas coisas, apesar de tudo, rir ainda é o melhor remédio.


Serenamente, AO 19 de Novembro.

terça-feira, novembro 12, 2013

A Popota, a Margarida e o Natal na Venezuela

Na semana que passou, o Presidente venezuelano Nicolás Maduro fez um decreto para antecipar a quadra natalícia. Como argumentos usou os factos de que a “felicidade, a natividade e a chegada de Jesus são o melhor remédio”. Já este mês o governo da Venezuela pagará dois terços do subsídio de natal, o que fará certamente as pessoas felizes… Há quem defenda que esse gesto insólito é apenas uma tentativa de herdar o enorme capital de simpatia que Chávez tinha entre o seu Povo e que foi por isso que já, anteriormente, o Presidente Maduro criou o Ministério da Felicidade Suprema. Agora, além destas duas iniciativas, Maduro declarou também que o dia 8 de Dezembro será o “dia da lealdade e do amor ao Comandante Supremo Hugo Chávez”. Porém, coincidência das coincidências, o dia 8 de Dezembro é também dia de eleições municipais… Por cá, já temos a Popota aos saltos na televisão, a dizer que o natal é pop, com ela no top. Não sei o que é um natal pop, nem sequer top, mas tudo bem… a vida era melhor sem a Popota… Ao contrário, podíamos era ter um dia daqueles, lá da Venezuela. Um dia “da lealdade” ou da “felicidade”, mas não temos e como não temos, cá nos vamos amanhando com os dias e com as manhãs que temos. E todas as manhãs temos, sem aviso nem decreto, manhãs de parvoíce nos canais de TV nacionais. Ora, foi precisamente numa dessas ditas manhãs, (entre os olhos de vidro de uma senhora que esteve no programa do Goucha e que canta muito bem, ou o senhor gago que faz filetes com arroz de tomate muito bons no programa da Júlia Pinheiro e a gaguez nem se nota) que apareceu a Margarida Rebelo Pinto. A Margarida Rebelo Pinto é uma espécie de Popota, mas anorética. Têm a mesma escassez de vocabulário e o mesmo problema de estupidez, com a diferença de que a Popota é mais cor-de-rosa e a Margarida é mais branca. De resto são iguais, até no que transmitem: nada. Desde a polémica em 2006, com a acusação de auto plágio e erros ortográficos nos seus livros, que eu não ouvia falar tanto da Margarida. Julguei mesmo que finalmente em Portugal já se tinha chegado à conclusão de que a Margarida, essa cópia forjada de Paulo Coelho, que escreve para meia dúzia de distraídos que passam nas lojas de aeroporto e querem adormecer nos aviões, não era uma escritora: era um produto. Uma “coitadinha” que a literatura portuguesa deixou inventar, por falta de escrúpulo e algum remorso. À escala do senhor gago que faz filetes com arroz de tomate muito bons no programa da Júlia Pinheiro e a gaguez nem se nota, a Margarida Rebelo Pinto que escreve livros muito maus e nota-se, apareceu num programa da RTP/informação, o “Bom dia, Portugal” e toca de dizer que sente “repulsa” por quem se manifesta contra o Governo, estando até triste com a falta de civismo e responsabilidade civil de quem interrompe o trabalho de quem governa para protestar… Ainda estou na dúvida do que é pior: se é a Margarida ter tido microfone para apresentar o seu livro, se é a Margarida ter dito o que disse… Num caso ou noutro, o assunto só se resolve mandando a Margarida e a Popota para a Venezuela, com chegada prevista para o dia 8 de Dezembro, esse dia em que se celebrará a lealdade e o amor ao Comandante Supremo Hugo Chávez. Há lá coisa mais saborosa do que festejar estes valores com uma Popota aos saltos? E uma Margarida cheia de teorias? Não vislumbro e não vislumbrando, hoje, é assim que acabo. Serenamente.

[ Serenamente, jornal Açoriano Oriental, edição de 12 de Novvembro de 2013]

quinta-feira, novembro 07, 2013

Um Dó Li Tá - Opinião António Lobo Antunes na Revista Visão

Perguntam-me muitas vezes por que motivo nunca falo do governo nestas crónicas e a pergunta surpreende-me sempre. Qual governo? É que não existe governo nenhum. Existe um bando de meninos, a quem os pais vestiram casaco como para um baptizado ou um casamento. Claro que as crianças lhes acrescentaram um pin na lapela, porque é giro - Eh pá embora usar um pin? que representa a bandeira nacional como podia representar o Rato Mickey - Embora pôr o Rato Mickey? mas um deles lembrou-se do Senhor Scolari que convenceu os portugueses a encherem tudo de bandeiras, sugeriu - Mete-se antes a bandeira como o Obama e, por estarem a brincar às pessoas crescidas e as play-stations virem da América, resolveram-se pela bandeirinha e aí andam, todos contentes, que engraçado, a mandarem na gente - Agora mandamos em vocês durante quatro anos, está bem? depois de prometerem que, no fim dos quatro anos, comem a sopa toda e estudam um bocadinho em lugar de verem os Simpsons. No meio dos meninos há um tio idoso, manifestamente diminuído, que as famílias dos meninos pediram que levassem com eles, a fim de não passar o tempo a maçar as pessoas nos bancos, de modo que o tio idoso, também de pin - Ponha que é curtido, tio para ali anda a fazer patetices e a dizer asneiras acerca de Angola, que os meninos acham divertidas e os adultos, os tontos, idiotas. Que mal faz? Isto é tudo a fazer de conta. Esta criançada é curiosa. Ensinaram-me que as pessoas não devem ser criticadas pelos nomes ou pelo aspecto físico mas os meninos exageram, e eu não sei se os nomes que usam são verdadeiros: existe um Aguiar Branco e um Poiares Maduro. Porque não juntar-lhes um Colares Tinto ou um Mateus Rosé? É que tenho a impressão de estar num jogo de índios e menos vinho não lhes fazia mal. No lugar deles arranjava outros pseudónimos: Touro Sentado, Nuvem Vermelha, Cavalo Louco. Também é giro, também é americano, pá, e, sinceramente, tanto álcool no jardim escola preocupa-me. A ASAE devia andar de olho na venda de espirituosas a menores. Outra coisa que me preocupa é a ignorância da língua portuguesa nos colégios. Desconhecem o significado de palavras como irrevogável. Irrevogável até compreendo, uma coisa torcida, e a gente conhece o amor dos pequerruchos pelos termos difíceis, coitadinhos, não têm culpa, mas quando, na Assembleia, um deles declarou - Não pretendo esconder nem ocultar apesar da palermice me enternecer alarmou-me um nadita, mau grado compreender que o termo sinónimo seja complicado para alminhas tão tenras. Espíritos tortuosos ou manifestamente mal formados insinuam, por pura maldade, que os garotos mentem muito, o que é injusto e cruel. Eles, por inevitável ingenuidade, não mentem nem faltam às promessas que fazem: temos de levar em conta a idade e o facto da estrutura mental não estar ainda formada, e entender que mudar constantemente de discurso, desdizer-se, aldrabar, não possui, na infância, um significado grave. A irrealidade faz parte dos cérebros em evolução e, com o tempo, hão-de tornar-se pessoas responsáveis: não podemos exigir-lhes que o sejam já, é necessário ser tolerante com os pequerruchos, afagá-los, perdoar-lhes. Merecem carinho, não crítica, uma festa na cabecinha do garoto que faz de primeiro-ministro, outra na menina que eles escolheram para as Finanças e por aí fora. Não é com dureza desnecessária e espírito exageradamente rígido que os educamos. No fundo limitam-se a obedecer a uns senhores estrangeiros, no fundo, tão amorosos, que mal fazem eles para além de empobrecerem a gente, tirarem-nos o emprego, estrangularem-nos, desrespeitarem-nos, trazerem-nos fominha, destruírem-nos? São miúdos queridos, cheios de boa vontade, qual o motivo de os não deixarmos estragar tudo à martelada? Somos demasiado severos com a infância, enervam-nos os impetuosos que correm no meio das mesas dos restaurantes, aos gritos, achamos que incomodam os clientes, a nossa impaciência é deslocada. Por trás deles há pessoas crescidas a orientarem-nos, a quem tentam agradar como podem à custa daqueles que não podem. Os portugueses, e é com mágoa que escrevo isto, têm sido injustos com a infância. Deixem-nos estragar, deixem-nos multiplicar argoladas, deixem-nos não falar verdade: faz parte da aprendizagem das mulheres e homens de amanhã. Sigam o exemplo do Senhor Presidente da República que paternalmente os protege, não do senhor Ex-Presidente da República, Mário Soares, que de forma tão violenta os ataca e, se vos sobrar algum dinheiro, carreguem-lhes os telemóveis para eles falarem uns com os outros acerca da melhor forma de nos deixarem de tanga. Qual o problema se há tanto sol neste País, mesmo que não esteja lá muito certo de o não haverem oferecido aos alemães? E, de pin no casaco que nos fanaram, isto é, de pin cravado na pele (ao princípio dói um bocadinho, a seguir passa) encorajemos estes minúsculos heróis com um beijinho, cheio de ternura, nas testazitas inocentes. Ler mais: http://visao.sapo.pt/um-do-li-ta=f756315#ixzz2k0b5U7bU

Ardemares no Brasil

http://urlespiao.com.br/www.ardemares.blogspot.com

terça-feira, novembro 05, 2013

Que nos valha o Benfica

Maria do Carmo, 52 anos, desempregada de uma loja de fazendas conta-me, no seu português “lisboeta ferrenho”, que se não fossem os jogos do Benfica, que vai vendo com o José Armando, aos fins de semana, na televisão, já tinha dado duas bolachas num romeno, “à moda do Carrilho”, explica, sorrindo, toda enfiada no seu cabelo farto e branco, como uma bolinha de carne rosada. “Para mim, não tem nada que enganar” continua, “a culpa é da Bárbara Guimarães…” Como Maria do Carmo, há centenas de senhoras em Lisboa, que nas filas do autocarro, reclamam com a chegada de senhoras romenas, com bilhetes, a pedir dinheiro para mandar buscar os filhos ou para comprar farinha e leite. “São essas”, dizem, “que nos dão cabo do pouco dinheiro que temos. Andam por aí a roubar a esmola dos portugueses.” Sente-se, a caminhar pelas ruas de Lisboa, por estes dias, um certo desconforto, um não sei quê de azedume, que por um lado gasta e farta a alma, e por outro lado, impacienta… Enquanto as notícias trazem descobertas sobre a “Maria” da Grécia, a reabertura do processo da criança inglesa desaparecida no Algarve, as brigas do casal Guimarães/Carilho ou a história da funcionária que “por amor” desviou 250 mil euros da Conservatória de Braga, um “bando de meninos”, como lhes chamou António Lobo Antunes, consola-se a dar cabo deste país. Quando Paulo Portas anuncia que “Portugal pode estar a poucas semanas” de sair oficialmente da recessão técnica; logo aparecem, não sei quantos comentadores, a encher as televisões, as mesas redondas, para nos explicar melhor o que disse Paulo Portas. A nós todos, (tolinhos) que podemos não ter entendido bem… Para onde vamos? Não sei. Olho para os canais de televisão, nestes dias que passam, sem paciência. Oiço os debates na Assembleia da República e sinto que a única preocupação dos “principais partidos” são os adversários internos e que aos outros, mais pequenos, o que interessa sobretudo é manter o “status quo”. Gritam muito, fazem muito barulho, dizem “portuguesas e portugueses” mas diferem em “zero” dos outros todos. Vejo um grupo de políticos medíocres, cuja única ambição é ficar no poder, não pelo mérito, mas sim, e sempre, pela inexistência de alternativa. Acham-se únicos, cumprem serviços mínimos, exigem que uns corem de vergonha e peçam desculpa, como se o rubor das faces ou o pedido de desculpas resolvesse alguma coisa. Vivemos acima do que podíamos ter vivido, explicam alguns comentadores, por onde vou passando, em zapping. (Não faltava mais nada, a não ser que a culpa fosse nossa). Ninguém apresenta propostas, soluções ou projetos e a mediocridade cresce, como uma sombra, entre os discursos, cuja única finalidade é aniquilar o adversário, que não estando com eles, está (dedução lógica) contra eles. É claro. O cenário é este e a miséria imensa. A paciência não pode sustentar tanto desengano, a alma (essa coisa que fica entre os olhos e o que se vê, de facto) não aguenta mais. De modo que o que se vai esperando é que o Benfica vá dando umas alegrias à Senhora Maria do Carmo e ao seu José Armando. Com sorte ela esquece os pobres dos romenos e não dá corda à novela “Carrilho/Guimarães”. É que novela por novela, antes rir livremente com coisas boas como o Benfica. Serenamente, AO, 5 de Novembro

terça-feira, setembro 24, 2013

O tempo mostra o amigo

Imagino que a ambição máxima dos dirigentes laranja, de acordo com as parcas propostas para as autarquias nos Açores, não vá muito além, da tentativa de manter as Câmaras Municipais que detêm e do repouso dos já tradicionais lugares que ocupam no parlamento açoriano.
As intervenções públicas de Duarte Freitas deixam, de facto, enormes dúvidas sobre o seu pensamento político e sobre a existência de causas no seu partido, se é que uma e outra coisa existem.
Duarte Freitas continua a gerir o PSD como o Portugal colonial geria o corpo de engenharia que, ao tempo, tinha na Índia. Diz-se que eram vinte, os oficiais sem um único soldado para amostra. De modo que o melhor mesmo era não ter ideias nem pensar em obras porque engenheiro que se prezasse rabiscava, mas não petiscava. O resto é o que nos fala a história: como Portugal nunca se livrou do traço elitista dos seus engenheiros, a velha colónia acabou por se livrar de Portugal. Parece-me, assim, que salvo as distâncias e as circunstâncias, a dificuldade na liderança social-democrata é da mesma ordem, ou seja, como o líder não consegue acertar o passo ao seu “estado-maior”, os militantes vão mudando de partido, até ao inevitável dia em que alguém mude a liderança.
Mas como o mal vem sempre bem acompanhado, não deixa de ser caricato e até mesmo pitoresco, ouvir Duarte Freitas falar das “boas finanças” da Câmara Municipal de Vila do Porto, por exemplo. Aguardo com serenidade que até ao final da campanha eleitoral, o mesmo Duarte Freitas apareça ao lado de Rui Melo, a elogiar-lhe qualidades como a boa gestão dos recursos financeiros públicos…
Aguardo mas não me espanto (muito) que não apareça. O presidente do PSD/Açores sabe que no seu partido todos têm um projecto pessoal e ainda por cima divergente dos restantes.
Por outras palavras, o PSD segue à tabela e à risca a estratégia de acrescentar água à sopa, para repetir a mesma dose, na mesma tigela, a outros convivas, sem alguém se dar ao trabalho de, ao menos, mudar a receita, que é como quem diz, de fazer diferente e pensar nos 19 concelhos dos Açores e em todas as suas freguesias de forma diferenciada e específica.
Em Ponta Delgada, por exemplo, se o Governo faz uma Gala de desporto, a autarquia acrescenta mais 10 atletas e faz outra; se o Governo inaugura uma biblioteca, a autarquia inaugura um centro de estudos; se o Governo faz uma estrada, a autarquia acrescenta dez metros na intenção de fazer uma radial.
Não tem havido pois (mais) tempo para apresentar ideias diferentes e concretas para Ponta Delgada, porque se vive nesta contínua competição, e quando assim não é, governa-se a autarquia, como aconteceu nos últimos meses, plagiando ideias do candidato do PS/Açores, nas próximas eleições de 29 de Setembro, nalgumas disfarçando, noutras acrescentando um algarismo, um metro ou uma vírgula.
Com a limitada ideia de “Um amigo” que não tem “nada a ver com o Governo de Passos Coelho”( versão B) mas que foi seu mandatário, José Manuel Bolieiro esconde, à boa moda do seu líder, que não tem objectivos para Ponta Delgada e evita o trabalho que dá “ser diferente”.
Talvez por isso, já se diga por aí que a geração de Freitas e Bolieiro, no PSD/Açores, passa despercebida em silêncio, mas quando fala, não há um amigo que aguente.
Seja como for, lá diz o provérbio que “O tempo mostra o amigo”, sendo certo que, na minha opinião, mostra melhor que o cartaz por mais cartazes que se pendurem em toda a parte.

Serenamente, AO 24 de Setembro de 2013

terça-feira, setembro 17, 2013

E Antero de Quental?






Não deixa de ser estranho que a Câmara Municipal de Ponta Delgada tenha abandonado a memória de Antero de Quental, quando se compara, por exemplo, com Natália Correia, a quem a edilidade dedicou a semana que passou, assinalando assim os seus 90 anos de nascimento, com várias actividades.
Bem sei que não é costume assinalar-se datas que não são “redondas” mas estranho (sempre) que a cidade de Ponta Delgada nunca tenha querido assumir Antero de Quental como sendo daqui, desta nossa cidade, criando, por exemplo, na casa onde nasceu, um espaço museológico de referência.
Todas as cidades do mundo celebram os seus maiores.
Na Praia da Vitória temos Vitorino Nemésio, ainda há dias referido, por Roberto Monteiro, como “pilar da cultura da Praia da Vitória”; na Horta temos Manuel D´Arriaga, em Lisboa, Fernando Pessoa e Amália Rodrigues, no Pico, em São Roque do Pico, o prémio literário Almeida Firmino. Em Ponta Delgada temos Natália Correia, sim senhores, mas temos também Antero de Quental. E a duplicidade de critérios no tratamento de uma e de outra figura, incomoda qualquer um que pense nisso por um instante.
É que, se por um lado se homenageia “a feiticeira cotovia”, tendo inclusivamente sido descerrada uma escultura, em sua homenagem a semana passada, por outro lado chega-se ao ponto de permitir que o banco, onde Antero de Quental se suicidou esteja, por estes dias, arredado do seu lugar, servindo o espaço que ocupava, para estaleiro das obras do campo de São Francisco.
Talvez a razão deste acontecimento seja mesmo a inexistência de qualquer critério e a homenagem que agora se prestou a Natália Correia tenha sido, nada mais, nada menos do que o afã mediático para que se queda o espírito humano sempre que há campanha eleitoral.
De uma ou de outra forma, mas dando, ainda assim, o benefício da dúvida, é caso para congratular a autarquia pela iniciativa de homenagear a escritora de “O sol na noite e o luar nos dias”, lamentando, contudo, o esquecimento a que têm votado Antero de Quental.
A cidade de Ponta Delgada que, de Antero tem nome de escola e de avenida, vem referida em vários documentos, páginas na internet e outros suportes que existem sobre o Homem e a sua Obra. Aqui nasceu a 18 de Abril de 1842 e aqui morreu a 11 de Setembro de 1891.
Em Vila do Conde, onde viveu 10 anos, foi inaugurado um Centro de Estudos Anterianos, em Julho passado.
O Governo dos Açores criou um Roteiro Cultural Antero de Quental, na cidade, que parte da casa onde nasceu e faz um percurso por 11 lugares diferentes, entre eles, o monumento funerário, no cemitério de São Joaquim.
A 11 de Setembro deste ano assinalaram-se 122 anos sobre a sua morte. Não fora a iniciativa do Instituto Cultural de Ponta Delgada, a 12 de Setembro, “Novas Conferências do Casino” por Miguel Soares de Albergaria e as referências feitas a Antero quer pelo Professor Doutor Machado Pires, quer por José Contente na Convenção Autárquica que o PS organizou em Ponta Delgada e a data nem tinha sido (sequer) lembrada.
Se o motivo é ter-se suicidado, já deviam tê-lo posto de lado. Natália Correia escreveu “o itinerário é interior”. O resto, senhoras e senhores, é inércia, poeira e algum preconceito.

Mariana Matos


Por decisão da autora este artigo não cumpre as normas do Novo Acordo Ortográfico em vigor.