terça-feira, agosto 06, 2013

Amor à Camisola

No fim de semana ficamos a saber que não são só os sismos (ou abalos) e as derrocadas que nos fazem ser notícia por Lisboa.
À parte a meteorologia e as calamidades também a cusquice política com tragédias da vida de outros fazem abrir os noticiários e criar factos que vão para além do terrível acontecimento.
É uma pena que assim seja, mas foi agora, como já fora antes. E será sempre, porque diz-se que é mesmo assim. Ninguém tem, porém, e na minha opinião, o direito de assassinar publicamente seja quem for. Já bastava a desgraça da ocorrência. Não era preciso mais nada. Digo eu.
Há uns dias ouviu-se o Secretário-Geral do CDS/PP nacional – por cá, salvo erro – comentar a desistência da candidatura daquele partido à Câmara Municipal de Ponta Delgada, acusando o agora já não candidato, de “cobardia política”.
Não sendo assunto da minha “freguesia” arrisco dizer que (talvez) se o candidato tivesse optado por voltar atrás com a promessa da saída, qual Paulo Portas, à moda de São Miguel, era então herói, patriota, digno. Teria “amor à camisola”.
O “amor à camisola”, essa espécie de amor de pano, de que uns se apropriam e por que outros se apaixonam de verdade, está cada vez mais em uso, entre alguma classe política, e serve, vai servindo para justificar atitudes, calar ou silenciar outras, estudar táticas, golear balizas alheias.
Expressão de uso mais futebolístico que propriamente no corriqueiro diálogo do dia-a-dia, esse amor, que dizem que dói e que se sente, que abre feridas, que às vezes não chegam a sarar, é quase tão ridículo como as cartas de amor eram (ou são) para Fernando Pessoa. No sentido ridículo que dá o poeta às cartas e não no sentido do palhaço que está mais na moda.
Os dias que correm vão direitinhos parar a 29 de Setembro. Dia de eleições autárquicas. Com umas saídas de cena e outras entradas em cena, certo é que está terminada a entrega de listas de candidaturas às autarquias dos Açores.
Melhores, piores, com mais ou menos vontade de vencer, os Homens e as Mulheres, que dão um passo em frente e dizem “presente” nesta hora devem ter de todos um reconhecimento, por mais pequeno que seja….
Afinal quem dá um “passo em frente” pela sua freguesia, cidade, vila ou mesmo rua, deve merecer o nosso respeito, por ter abdicado de ser “treinador de sofá” e chegar-se à frente para dar uma ajuda.
Pela minha parte faço votos de que não se desiludam e, perdendo ou ganhando, com mais ou menos “amor à camisola” dignifiquem o cargo que venham a exercer, sendo sobretudo e, sem grandes façanhas: “simples e possíveis” (António Lobo Antunes).
Os tempos que estão para chegar não se avizinham ainda muito fáceis. Espera-se que este poder que será renovado em Setembro, o local, ajude a ultrapassar este tempo de maiores dificuldades. É tempo de todos unirmos esforços, em particular, para criação de emprego, de apoio às famílias e de dinamização da economia local.
Se não for (e pode mesmo não ser) por “amor à camisola”, seja então por amor à nossa terra.

Serenamente, AO 6 de Agosto de 2013


quarta-feira, julho 24, 2013

Mais e melhor

Passaram quase incólumes aos ouvidos dos cidadãos de Ponta Delgada, as recentes declarações do candidato do PSD/Açores à Câmara Municipal do maior concelho dos Açores. Disse o candidato e, ainda presidente, José Manuel Bolieiro, durante a apresentação da sua mandatária que, e cito: “O meu trabalho na Câmara Municipal é que serve de campanha”.
Parece-me muito grave que o candidato do PSD/Açores a Ponta Delgada admita, sem qualquer tipo de escrúpulo, que utiliza a Câmara Municipal para campanha eleitoral e não quero crer que estas suas palavras tenham sido bem medidas. De outra forma, a única conclusão que se pode retirar é que o candidato tem do cargo que ocupa uma visão clientelar e promíscua.
No mesmo dia e, no seguimento destas palavras, o candidato do PSD/A também referiu que “a pré-campanha do ruído e da despesa não faz o meu género”. É uma pena que o candidato do PSD/Açores tente confundir esclarecimento com propostas. Mas a pena maior é que a pré-campanha do candidato do PSD/Açores se esteja a fazer na gravata ou na coroa do Presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada… como se ninguém estivesse a ver.
E quando se esperava uma solução para o centro histórico de Ponta Delgada – apresentada pelo atual Presidente da Câmara Municipal, eis senão quando se lança, às pressas, a obra do Campo de São Francisco.
Com ela, o candidato do PSD/Açores pensou matar vários coelhos de uma cajadada só e, mais uma vez, como se ninguém estivesse a ver, onze anos depois, desde que começaram as “Noites de Verão” no Campo de São Francisco, quis agradar a todos e puxou as ditas noites para o centro da cidade.
A Câmara Municipal de Ponta Delgada acordou tarde para o problema e prejudicou durante 11 anos os comerciantes da baixa da cidade. Porém faço os melhores votos de prosperidade aos nossos comerciantes, embora esperasse que esta deslocação das noites, fosse acompanhada por reduções de taxas relativas à ocupação da via pública, à instalação de reclames luminosos, à diminuição da Derrama, entre outros tão falados e propostos assuntos, pelo maior partido da oposição, na Câmara e Assembleia Municipal de Ponta Delgada.
Bem se sabe que nenhuma destas medidas causa tanto impacto visual como ter umas máquinas a escavar no Campo de São Francisco, a afastar dali mendigos e outros indivíduos e a mudar árvores de sítio, mas o que não se quer ver poupado, esquecido e afogado é um centro histórico tradicional que há mais de uma década espera pelos bons propósitos da autarquia de Ponta Delgada.
A semana passada ficámos todos a saber que Vila do Conde homenageou Antero de Quental. A casa onde viveu o escritor durante 10 anos abriu na passada 3ª feira e é agora o Centro de Estudos Anterianos.
Por cá há promessa, desde 14 de Junho de 2008 (há 5 anos), de homenagear Antero de Quental através da criação de um centro de estudos com o seu nome que iria surgir na Casa de Mouzinho da Silveira, na Rua Pedro Homem.
Não se vislumbra nada de novo sobre este assunto, assim como nunca se identificou o banco onde Antero de Quental se suicidou.

Honrar os nossos maiores é viver mais. Ponta Delgada precisa decisivamente de mais e de melhor.

Serenamente, AO 23 de Julho

terça-feira, julho 16, 2013

A motivo

Fumou todos os cigarros da carteira que trazia 20. Um atrás do outro, um atrás do outro, um atrás do outro. Até ao vigésimo. Depois parou, deixou o isqueiro cair suavemente no chão e clique...
Morreu. Motivo: ataque de ansiedade.

terça-feira, junho 25, 2013

PSD/Á(rabe)



Constituindo-se como o momento mais caricato (e até certo ponto vexatório) a que já assistimos nos debates parlamentares, na Região Autónoma dos Açores, digno mesmo de figurar, na primeira página, de um qualquer anedotário regional, o Programa do PSD/Açores para a criação de Auto-Emprego Jovem (PAEJ) é uma das mais reveladoras provas da mediocridade de alguns membros da classe política regional.
Mediocridade que continua a passar impune, sem que ninguém tire verdadeiras consequências disso. É lamentável.
Se o PSD/Açores não encontrou em nenhuma das nossas ilhas um furo de petróleo, este Programa que foi anunciado no passado mês de Abril, no Pico, depois de 3 dias a debater, em Jornadas Parlamentares, soluções para o desemprego jovem é, nada mais, nada menos, do que uma piada de mau-gosto, feita à custa dos problemas das vidas dos outros…
Se não estivéssemos a falar de políticos açorianos com responsabilidades que, amiúde, se proclamam como o “maior partido da oposição” e até “pai da Autonomia” podíamos pensar que o PSD/Açores, pela voz do líder da JSD/Açores e, deputado pelo 2º mandato consecutivo, estava a sofrer de uma espécie de síndrome de “Lawrence das Arábias”…
Mas não. À parte a grandeza do partido, ou mesmo a paternidade da Autonomia e de outras efemeridades do tipo, que agora interessam pouco, a não ser pela referência das “qualidades” com que se gostam de auto condecorar, resta um certo laivo de desmazelo, um certo afã mediático e uma certa queda para a tolice.
A Proposta do PSD/Açores, para quem não ouviu o debate, já que não saiu nota do Gabinete de Comunicação Social deste partido, visava promover o Auto-Emprego Jovem em actividades tão açorianas como: extração de hulha e lenhite; extração de petróleo bruto e gás natural; preparação de minérios metálicos; fabricação de coque, produtos petrolíferos refinados e aglomerados de combustíveis…
Afinal, como se percebe, não foi um contributo para a criação de Auto-Emprego jovem, ou menos jovem, que os senhores deputados do PSD/Açores deram à sociedade açoriana. Não senhores. Mas, mesmo assim, não deixaram de dar qualquer coisa. E o que deram então?
Ora deram pior fama à classe política, pior fama aos deputados, pior imagem à política, razão a quem diz que há políticos que não servem para nada…
O que aconteceu a semana passada no Parlamento Regional foi uma ofensa aos Açorianos e é deveras lamentável que um Partido como o PSD/Açores tenha feito esta triste figura sobre um assunto tão sério como o Desemprego.
Ainda assim tiveram sorte. Todos os grupos e representações parlamentares votaram por unanimidade o Requerimento que a bancada do PSD/Açores apresentou para que o diploma baixasse à comissão e fosse de novo reapreciado.
O tempo dirá o que trará de novo o PAEJ, esperando-se, porém, que não volte a ser nada do género. É que na luta e no trabalho diário pela criação de melhores condições de emprego para todos os cidadãos açorianos devem estar empenhados todos os políticos açorianos e esta temática, como outras, é certo, não pode, nem deve servir para “brincadeirinhas” de mau gosto.

Aos políticos cumpre o dever de zelar pelos interesses do seu Povo. Se há petróleo, digam onde é. Se não há façam o vosso trabalho que é para isso que são pagos.

Serenamente, no jornal Açoriano Oriental, a 25 de Junho de 2013

terça-feira, junho 18, 2013

O pai, a chuva e o papa

Não há nada mais sádico do que ouvir o primeiro-ministro de Portugal dizer na televisão que sim, que tem dinheiro, mas que só vai pagar os subsídios de férias em novembro…
Parece que Passos Coelho perdeu o juízo e é uma pena que não siga os conselhos do pai que, no fim do mês de Maio, foram notícia.
“Isto não tem conserto, entrega isto”, disse António Passos Coelho, em entrevista ao jornal i, explicando que não queria ver o filho nos meandros da política, porque o país não tem conserto e não é de agora.
Pedro Passos Coelho comentou com a afirmação: “Não comento o meu pai”, em Bruxelas. Talvez o primeiro-ministro de Portugal pudesse ter usado a desculpa da chuva, dizendo qualquer coisa como “A culpa é da chuva. Não chove e o meu pai aparece nos jornais a falar de mim. Eu tenho pai.” Ou então: “A culpa é da chuva. Chove e o meu pai aparece nos jornais a falar de mim. Eu tenho pai.” Insisto no “Eu tenho pai” porque só pode ter sido essa a relação da “aparição” do pai.
Podiam os portugueses pensar que o primeiro-ministro tinha aparecido ao mundo num pacotinho de sumo Tang ou num saquinho de qualquer pó, tipo talco. Não, o primeiro-ministro tem pai. Uau. E o que é que muda? Nada!
De António Passos Coelho nunca mais se ouviu falar. Dias depois foi a vez de Nossa Senhora de Fátima e depois a chuva, essa água maldita que deu cabo dos investimentos do país. Antes disso tudo, do pai, da santa e dos malefícios das águas do céu, a chuva era uma coisa maravilhosa para a Ministra Assunção Cristas, que era até, como se assumiu uma pessoa de fé, esperando que chovesse para melhorar as colheitas.
Uma pessoa que queira escrever a sério sobre este país tem cada vez mais dificuldades.  Cavaco Silva não ajuda nada. No dia 10 de Junho escolheu o tema Agricultura, tentando contrariar algumas ideias sobre a sua intervenção nessa área.
Só é um bom tema para quem se tenha esquecido dos seus 10 anos de tempo perdido, de dinheiro desaparecido e de oportunidades perdidas. Quem não se lembra aplaudirá de pé, até se for preciso, e não pagará como o pobre cidadão em Elvas, 1300 euros, por ter chamado os bois pelos seus nomes próprios: “Palhaço”- gritou o homem e não é que é mesmo?
De cá, na cerimónia que por cá se repercute, qual festa em colónia, o seu ilustre representante também não acertou no tema, falou do relacionamento entre Lisboa e os Açores e do necessário que é haver boas relações entre Governos.
Era escusado. Afinal nada tem dito sobre a falta recorrente e insistente de respostas a problemas dos Açores por resolver em Lisboa, pelo que podia ter-se reservado da lição de moral que quis dar sem razão.
E por fim, não posso deixar de referir o “fait-diver” da semana. O papa Francisco cometeu o erro de comparar a língua portuguesa com espanhol mal falado. Brincava o papa numa audiência com Durão Barroso. Logo as sinetas dos puristas fizeram soar o mais alto dos escândalos. Coitado do papa Francisco. Se tivesse comparado ao brasileiro (ou português do brasil) já não havia, por certo, problema... Hipocrisias.

Serenamente, Açoriano Oriental, 18 de Junho


terça-feira, junho 11, 2013

O Mau Tempo no País, o Dilúvio na Economia e os Disparates



A passada sexta-feira, que no meio empresarial muitas vezes é conhecida por casual-friday (dia da semana em que o ambiente empresarial, por opção própria, é menos formal, sobretudo na indumentária), passará a ser conhecida como silly-Friday (sexta-feira do disparate).

O dia começou mal com os juros da dívida portuguesa a 10 anos, novamente, a ultrapassarem os 6% (valor mais alto desde abril) e o INE a revelar que a riqueza gerada em Portugal nos primeiros 3 meses tinha decrescido, ultrapassando todas as previsões (extraordinário seria Gaspar ter acertado em alguma coisa!), no valor recorde de 4%  - a maior queda no PIB português desde a Grande Recessão.

Enquanto tudo isso se passava, o Ministro das Finanças do Governo PSD-PP apresentava no Parlamento mais um Orçamento de Estado Rectificativo que mantem e agrava a austeridade que temos vindo a sentir.
Se é certo que falar das consequências da austeridade na economia para a maior parte da população e dos economistas é “chover no molhado”, para o Ministro Gaspar não é bem assim.
O Ministro do PSD-PP dá outro sentido à minha anterior afirmação. Para este, as consequências da chuva e do banho que todos os portugueses passaram neste inverno (falo literalmente!), não só prejudicaram a economia e os Portugueses como não deixaram que o modelo de austeridade funcionasse como nos modelos de Excel do ministério das Finanças.
A minha primeira reacção foi de estupefacção. Como é que não me tinha lembrado dos efeitos macroeconómicos da chuva, do frio e do vento!?

Qual barragens cheias e eólicas a funcionar a todo o vapor, qual quê? Era óbvio, na Irlanda chove muito também e a Troika teve de salvar o país da bancarrota.

Na Serra da Estrela também chove muito e faz frio e, de facto, devido à crise económica instalada não vive lá ninguém em cima desde Viriato. Na montanha do Pico, ao que parece, acontece exatamente o mesmo.

Aliás, depois de saber que o mau tempo acelera a redução da procura interna, nomeadamente do investimento em valores perto de 4% do PIB, tenho de fazer um elogio aos últimos Governos dos Açores por terem conseguido, em 13 anos, fazer convergir a RAA em 11 p.p. com a média da União Europeia, apesar do constante mau tempo em que vivemos e das constantes calamidades que atravessamos.

Enquanto, na última sexta-feira, o Ministro das Finanças analisava a pertinência do mau tempo, no autêntico dilúvio de maus resultados económicos que tornam o novo orçamento retificativo num documento já ultrapassado, o FMI, inacreditavelmente, falava de assuntos pouco importantes como a assunção de erros nas previsões demasiado otimistas dos efeitos do programa de austeridade na Grécia e do facto de considerar que a União Europeia não está preparada para lidar com o problema das dívidas soberanas.

Enquanto o FMI e a União Europeia discutiam e trocavam acusações dos erros cometidos nos programas de assistência aos países em dificuldades, o Governo do PSD e do CDS/PP discutiam os efeitos da meteorologia na economia.

Assim vai o nosso país!


2º Disparate
Bem sabemos que nos Açores o PSD e CDS/PP estão a desenvolver um tímido esforço para descolar dos seus partidos a nível nacional, mas há limites para o ridículo e para as cortinas de fumo que tentam passar para enganar os açorianos.

A posição do PSD é muito simples e foi-me transmitida diretamente e em direto num debate na RDP por um ilustre social-democrata: “Eu não concordo com a maior parte das medidas do governo de Lisboa, mas acho muito importantes as medidas que este governo está a tomar e por isso apoio”.

No caso do CDS/PP Açores, um partido que nos Açores antes das últimas eleições regionais era um partido razoável e construtivo, agora na defesa do seu Governo da República vale tudo, sobretudo radicalizar o seu discurso sobre outros temas: o seu candidato a Ponta Delgada insulta diretamente dirigentes do PS/Açores de uma forma gratuita; a direção política do CDS/PP acusa na praça pública empresas de serem favorecidas pelo Governo dos Açores apenas porque um gerente de uma empresa concorre a uma junta de freguesia contra o candidato do CDS/PP; e chega ao cúmulo de criticar os atuais sistemas de incentivos ao investimento depois de os terem ajudado a construir de uma forma unanime.

Assim vai a nossa oposição nos Açores!

terça-feira, junho 04, 2013

Sem “pés nem cabeça”


A solução mista de circulação de trânsito e peões na rua dos Mercadores é paradigmática de algumas soluções encontradas para a cidade de Ponta Delgada, nos últimos anos…
Basta recuar a 2009 para lembrar que à data da reabertura desta rua, e a par com a justa homenagem aos calceteiros pelo seu trabalho extraordinário, a autarquia decidiu que por cima daquele belíssimo passeio circularia, além do comum cidadão, todo o tipo de trânsito…
Agora, novo caso deu à luz na cidade. Falo, claro está, das improvisadas ciclovias de Ponta Delgada que ocupam a faixa direita da estrada, entre o Clube Naval e o Forno da Cal, em São Roque, durante os fins-de-semana.
Não se pode dizer que a ideia de ter ciclovias em Ponta Delgada não é uma belíssima ideia, porque é, de facto. Porém aquelas, além de nos parecerem inseguras e absurdas, não deixam de nos fazer lembrar a solução mista da rua dos Mercadores…
Em quase todas as cidades do país há planos de redes de ciclovias urbanas, que disponibilizam aos cidadãos, inclusivamente, bicicletas na cidade, para serem usadas pelos habitantes e turistas.
Ainda recentemente, por exemplo, Torres Vedras anunciou estar a executar obras, com vista à construção de novas ciclovias e à reformulação de outras para estarem de acordo com as regras do novo código da estrada. Em homenagem ao ciclista Joaquim Agostinho, natural deste concelho, a autarquia baptizou as bicicletas de “Agostinhas”…
Quando as coisas são feitas com tempo, há possibilidade de fazê-las bem e com imaginação. Quando são feitas assim às “três pancadas”, o resultado é o que se tem visto nas últimas duas semanas: “Baias e cordinhas” a fazer de conta que se fez qualquer coisa… Uma lástima.
Podia o PSD que tem a maioria na Câmara Municipal de Ponta Delgada, há mais de uma década, ter feito um maior investimento em políticas de transportes públicos, que favorecessem a mobilidade no maior concelho dos Açores? Podia. Mas a autarquia tem sistematicamente negligenciado essa aposta, focando a sua intervenção numa política de mobilidade exclusivamente dedicada ao automóvel, nunca sendo sequer capaz de decidir a construção da tão famigerada central de camionagem ou de criar faixas de autocarros que deviam funcionar nas horas de ponta e ser melhor articuladas com os minibuses…
Já houve tempo suficiente para haver um maior investimento nesta área, incentivando transportes alternativos, como scooters e bicicletas, assim como investindo na maior utilização dos transportes públicos, juntando-se a isso investimento na qualidade das paragens de autocarros, um sistema de comunicações inteligente com informação electrónica sobre horários e percursos. Nada disto é novo. Os vereadores do PS de Ponta Delgada bem que têm insistido. Mas nada. Há muito tempo que a autarquia de Ponta Delgada se podia ter empenhado nestas e noutras soluções. Primeiro o Senhor Vice-Presidente da Câmara, José Manuel Bolieiro preferiu o Museu do Niemeyer. Agora, o Senhor Presidente da Câmara, José Manuel Bolieiro (sim, o mesmo) prefere um Pavilhão Desportivo na cidade.
Tudo por aqui é feito sem “pés nem cabeça”. Quando assim é, com mais ou menos variações, o cantor que era António de primeiro nome, já avisava: “o corpo é que paga”…

Para lá vamos…

Serenamente, AO 4 de Junho

terça-feira, maio 28, 2013

"Prefiro ter um pequeno nome na literatura nacional do que ser um príncipe da literatura açoriana" - Daniel de Sá




1944-2013

"UM HINO À VIDA

Nem flor efémera, leve
Como um sorriso perdido.
Nem borboleta tão breve
Que num voo só alcança
O tempo de ter sido,
Num bater de asa que dança.
Nem um até amanhã,
Que amanhã é outro dia,
É dia de outros, mamã,
E com a mesma alegria.
Nem mil beijos ou abraços.
Nem mais passos… nem mais passos…
Nem flores de despedida,
Nem vozes contra o destino.
Só isto: mudei de vida
E serei sempre menino."

Daniel de Sá

À MEMÓRIA DE RUY BELO

À MEMÓRIA DE RUY BELO

Provavelmente já te encontrarás à vontade
entre os anjos e, com esse sorriso onde a infância
tomava sempre o comboio para as férias grandes,
já terás feito amigos, sem saudades dos dias
onde passaste quase anónimo e leve
como o vento da praia e a rapariga de Cambridge,
que não deu por ti, ou se deu era de Vila do Conde.

A morte como a sede sempre te foi próxima,
sempre a vi a teu lado, em cada encontro nosso
ela aí estava, um pouco distraída, é certo,
mas estava, como estava o mar e a alegria
ou a chuva nos versos da tua juventude.

Só não esperava tão cedo vê-la assim, na quarta
página de um jornal trazido pelo vento,
nesse agosto de Caldelas, no calor do meio-dia,
jornal onde em primeira página também vinha
a promoção de um militar a general,
ou talvez dois, ou três, ou quatro, já não sei:
isto de militares custa a distingui-los,
feitos em forma como os galos de Barcelos,
igualmente bravos, igualmente inúteis,
passeando de cu melancólico pelas ruas
a saudade e a sífilis do império,
e tão inimigos todos daquela festa
que em ti, em mim, e nas dunas principia.

Consola-me ao menos a ideia de te haverem
deixado em paz na morte; ninguém na assembleia
da república fingiu que te lera os versos,
ninguém, cheio de piedade por si próprio,
propôs funerais nacionais ou, a título póstumo,
te quis fazer visconde, cavaleiro, comendador,
qualquer coisa assim para estrumar os campos.
Eles não deram por ti, e a culpa é tua,
foste sempre discreto (até mesmo na morte),
não mandaste à merda o país, nem nenhum ministro,
não chateaste ninguém, nem sequer a tua lavadeira,
e foste a enterrar numa aldeia que não sei
onde fica, mas seja onde for será a tua.

Agrada-me que tudo assim fosse, e agora
que começaste a fazer corpo com a terra
a única evidência é crescer para o sol.

© EUGéNIO DE ANDRADE 
Homenagens e outros Epitáfios, 1974 

terça-feira, maio 21, 2013

A dar uma de "Jacinta"



Se Cavaco Silva fosse o devoto que quis parecer ser na passada semana, evocando primeiro Nossa Senhora de Fátima, a propósito do fim da sétima avaliação da troika, e depois São Jorge, referindo-se à vitória do bem sobre o mal, teria aproveitado ontem, 2ª feira do Espírito Santo, para evocar o “Criator Spiritus”.

Mas isso é claro, só podia acontecer se Cavaco não ignorasse que ontem foi “Dia dos Açores” (como bem lembrou Carlos César), 2ª feira do Espírito Santo, e, por causa disso não convocasse o Conselho de Estado para exatamente a mesma data.

Cavaco Silva passou por cima da data, sem sequer ter dirigido umas palavras, circunstanciais que fossem, aos Açores e aos Açorianos. É uma pena lastimável. Mas é o que temos. 

O Presidente da República já nos provou que só sabe de nós quando lhe interessa. Para vir cá falar do sorriso das vacas; para interromper as férias e avisar um país inteiro dos perigos que podia encerrar o nosso Estatuto Político Administrativo…  

Depois recolhe-se à sua religiosidade oportunista, que faz enraivecer o mais sereno cidadão…e corar de vergonha, qualquer um de nós, pelo patético da cena e pelo que ela demonstra (mesmo) de um certo aproveitamento da fé dos portugueses.

De resto, como se provou ontem: silêncio absoluto, que nem foi quebrado pela ausência anunciada e explicada do Presidente do Governo dos Açores na reunião do Conselho de Estado.

Para as sopas do Divino e para os croquetes do resto dos dias, tem cá o Representante da República. Dá (por enquanto) bastante.

Podia ter falado da partilha que o Espírito Santo simboliza, podia até ter ido às raízes monárquicas da cultura portuguesa e falar da Rainha Santa Isabel ou de Afonso Henriques, podia ter usado os conselhos da sua Maria e podia, entre uns e outros reis ou santos, dirigir umas palavras, por mais curtas que fossem, a este povo português das ilhas, que, entre outras coisas, já deu à República a que preside, dois Presidentes: Manuel de Arriaga e Teófilo Braga.

Mas não. Preferiu manter-se reservado aos sagrados do país de norte a sul; recolhido à fé da rendição de Paulo Portas; agarrado à coligação, rezando a todos os santos para que o fio que a sustenta não se rompa. 

Vítor Gaspar que não soma nem segue em Portugal é admirado pelos alemães; o desemprego aumenta, as falências multiplicam-se; a fome desarma famílias inteiras, não temos nenhuma credibilidade para sermos um país a sério.

Nossa Senhora de Fátima substituiu de uma assentada só os esforçados portugueses, cuja penúria, passou de repente a uma espécie de recompensa divina. Foi isso que Cavaco Silva quis dizer, mesmo que depois tenha disfarçado. Temos um Presidente da República que anda pelo país a dar uma de “Jacinta”.

Esperemos pois todos com a paciência possível pela próxima aparição de Cavaco. 

Virá, entre nuvens, fumos e anjos, avisar um mundo novo, quiçá em aramaico.

É tudo uma enorme palhaçada. 

Serenamente, AO hoje

terça-feira, maio 07, 2013

O convidado



Já não nos falta (quase) nada para batermos no fundo. Já aqui escrevi linhas e linhas, a brincar e mais a sério, sobre o estado do país…

Falta-nos alguém com sentido de liderança, alguém que tranque os pés no chão e combata deveras, como se diz em São Miguel. Mesmo deveras.
A última semana trouxe nova novela trágica e cómica. De rir e de chorar. Primeiro Passos Coelho nervoso e inquieto, depois Paulo Portas ufano e medíocre. Ambos à vez a “pregar aos peixes” num discurso surdo, sádico e humilhantemente vergonhoso, cuja única verdade são as políticas que são para aplicar doa a quem doer.

Já chega! Já basta! Já não se vê mais do que braços caídos, olhos cruzados de cansaço. É todos os dias, hora atrás de hora, se não é Passos Coelho, é Vítor Gaspar, se não é Vítor Gaspar, é Paulo Portas; se não é nenhum dos três, é Cavaco Silva, se não é Cavaco Silva é a oposição. Basta!

Um grupo de reformados entrou nas galerias da Assembleia da República e cantou “Grândola Vila Morena”. A Presidente da Assembleia da República considerou que a atitude não ajudava a democracia. Pergunto: teria ajudado a democracia se um, de entre os deputados, tivesse batido palmas aos reformados? Respondo: teria. Eu preferia tê-los visto tomar partido; eu preferia ter ouvido uma voz que quebrasse o gelo daquele momento, dizendo ao grupo de reformados, em manifestação pacífica: “Estou aqui!” Mas não. Silêncio absoluto e mais uma vez humilhantemente vergonhoso.

“Eu não fui eleito coisíssima nenhuma”, disse Vítor Gaspar à deputada Ana Drago. Vítor Gaspar tem esse dom, na relação que tenho com ele, quando penso que já ouvi tudo, ele faz logo questão de me lembrar que pode descer mais um grau na minha consideração, que se não houver grau, ele descobre um e vai mais baixo.

Gaspar provou-me que se orgulha de não ter sido eleito pelo povo português, que se orgulha de ser o mentor de um governo que não tem vergonha de por em prática as políticas que ele inventa. Merecia ser insultado. 

Enquanto Paulo Portas falava aos portugueses, no Domingo, com a frontalidade(zinha) que lhe é reconhecida, diante dos focos e das filmagens, longe do povo, um grupo de populares entrou numa moradia em Leiria e agrediu dois dos habitantes. As razões, não se sabe quais foram, mas sabe-se que os agredidos foram transportados para o hospital mais próximo…e os agressores presos.

Terão (talvez) enlouquecido, o que a continuar a andar o país da forma que anda, sem que ninguém de fibra lhe deite a mão, é perfeitamente possível e até mesmo natural que comece a acontecer por aí. Enlouquecer num lado qualquer, quando menos se espera e gritar: “ Eu não votei em ti coisíssima nenhuma!”

Com uma única, mas crucial diferença: não nos servir de nada…a não ser mudar qualquer coisa em nós.  Ao passo que a Gaspar servirmos para tudo, incluindo para agradecer o convite que Pedro Passos Coelho lhe fez há dois anos, exercendo o seu cargo sem qualquer afecto... (Que fosse afecto. Simplesmente afecto e já era tão bom).


Serenamente, jornal Açoriano Oriental, 7 de Maio de 2013

terça-feira, abril 30, 2013

Brindes



Três homens foram expulsos da Arábia Saudita por serem considerados demasiado bonitos pela polícia religiosa de Riade. A polícia explicou que os membros da comissão para a promoção da virtude e prevenção dos vícios temiam que as mulheres se apaixonassem por eles e por isso tomaram medidas para deportar os homens. A notícia correu páginas e páginas de jornais, parecendo insólita é, no entanto, real.
Um outro homem de 49 anos, ao que consta desempregado, deixou em pânico o governo italiano. Agarrou numa espingarda, saiu de casa, feriu dois polícias e uma senhora. Queria, disseram as televisões no Domingo, matar políticos.
Por cá não há dessas novidades, nem homens expulsos por serem bonitos, nem homens que queiram – realmente – matar políticos. Tudo é simbólico neste nosso país. Só as políticas do governo não o são.
A bandeira portuguesa foi hasteada a meia haste, a preto e branco, num edifício no Porto, entre os dias 25 e 26 de Abril; um vaso de cravos revirou enquanto Cavaco Silva falava na cerimónia do 25 de Abril; João Vieira Pinto e Jorge Gabriel são candidatos do PSD a freguesias do Porto; Marques Mendes considerou na SIC que Paulo Portas deu um murro na mesa no Conselho de Ministros desta semana, acrescentando ainda que Vítor Gaspar quer cortar nas áreas sociais, mas que Portas está “noutra rota” (seja lá o que isso queira significar) e, por fim, Cavaco Silva, que falava na sessão de abertura do 34º Congresso Nacional de Cardiologia, apelou aos partidos políticos para estudarem cuidadosamente a fase “pós troika”, depois de ter estado a desenhar corações (quase que pensei que ia escrever um “Cavaco + Maria”) num papel à entrada….
Concluo que é uma pena Vítor Gaspar não ser bonito, ao ponto de ter que ser expulso do país, para não fazer com que as mulheres se apaixonem por ele ou por poder ser um perigo para a virilidade dos restantes, ou coisa que o valha...
Não concluo nada sobre a história do italiano de 49 anos. Deixo ao critério dos leitores, mas relembro que a última vez que um português atirou qualquer coisa a um político foi um ovo. E que esse político, que é uma senhora está agora grávida de uma menina.
Enquanto isto tudo foi acontecendo, Portugal também foi brindado com um insólito. Brindado é a palavra certa e não, não foi o sexagenário de Penacova que se fez passar por Mikael Carreira para as mulheres (oh mulheres do meu país?!) se despirem em frente ao computador. Não foi isso...
O brinde é outro. A Sé de Braga está a comercializar “vinho de missa” a 5, 50 euros a garrafa, preço acessível para todos os párocos, diz a notícia do jornal Público que li. É um vinho com marca própria, que está ao dispor de todos os sacerdotes na recepção ou na Loja do Tesouro – Museu da Sé de Braga. Utilizado para fins litúrgicos, natural da videira e sem químicos.
É negócio, portanto, entre padres. A notícia diz ainda que o teor do álcool não pode ultrapassar os 18%.
Finalmente, e para variar um pouco, uma recomendação de leitura “ Levels of Life”, de Julian Barnes. Vida e Morte lado a lado. Quando se juntam duas coisas que nunca se tinham juntado antes e o mundo muda e, muitas vezes, emudece, escurece ou, pura e simplesmente, desaparece. Boas leituras deste ou de outro livro qualquer.
… E bons brindes. 

Serenamente, jornal Açoriano Oriental, hoje 30 de Abril