
Recebido via email de FRosado.
"E um dia os homens descobrirão que esses discos voadores estavam apenas estudando as vidas dos insectos..." Mário Quintana

"(...)Acode-me um relato de geógrafos arábes que intruiu os navegadores portugueses na demanda dos mistérios do Poente. Li-o ontem num livro de Claude Derven (Les Açores) que um patrício me mandou com um ramo de hortênsias a jeito de boas-vindas:"Diziam que nas extremidades do Ocidente havia uma Ilha encantada que de sete em sete anos se mostrava aos navegadores que sulcavam essas paragens...Era uma Terra coberta de bruma, embalada no dorso das marés, a qual seria um oásis de ventura para quem lhes quebrasse o encanto."
Pergunto-me se as caravelas lusíadas te quebraram o encanto, ó minha ilha das névoas que velam o arcano do Ocidente. Ou, porventura, àqueles que julgaram descobrir-te capitaneando naus cobiçosas do dízimo do teu trigo, da tua cevada e tuas frutas, negaste o segredo que virginalmente guardas no fundo do mar?(...)"
"(...)Não nos parece que haja falta de oxigénio nos Açores, a oposição é que, voluntariamente inspira monóxido de carbono e por isso mesmo sofre de asma… De pieira, como diz o povo."
Passava a vida a levar e a buscar
pessoas ao aeroporto. Até que um dia
decidiu ir.
A casa de Tatá é um silêncio perto da igreja.
Silêncio de lençóis engomados
para sua única pessoa.
A viuvez tão antiga que virou de nascença
derrama brancura em tudo.
O presépio de Tatá emerge de Belém como flor
cheirando a cânfora e alfazema.
Na ordem dos anjos e animais, a ordem estrita
de Deus.
O melhor da casa é a arca,
o melhor da arca, suspiros
feitos da brancura mesma de Tatá,
brancura surda.
"(...) Que é pois necessário para readquirirmos o nosso lugar na civilização? para entrarmos outra vez na comunhão da Europa culta? É necessário um esforço viril, um esforço supremo: quebrar resolutamente com o passado. Respeitemos a memória dos nossos avós: memoremos piedosamente os actos deles; mas não os imitemos. (...)"

Querido Emanuel,
Desculpa o afectuoso [querido]. Porém, estou certa, que não será ele, o causador da tua zanga, pior seria se como escreveu Michel Foucault eu, ao longo deste texto, repetisse “ a afirmação oca de que o autor desapareceu”, (O que é um autor? p.41). Isso já todos sabemos. Então como te escreverei diferente dos que já te escreveram? Já tantos falaram de ti. Já tantos te teceram loas e tão bonitas, que eu não sei se consigo, mas vou tentar… Quero escrever-te para que te leiam os leitores deste suplemento. Não quero traçar-te em metáforas, sublinhar-te termos, encher-te de quês e porquês; sentar-te no tempo, esticar-te todo, esperar-te ao canto, fazer-te uma finta e depois, deixar-te cair, a ver se entras, direitinho, na minha interpretação. No final, encher-te de predicados e adjectivos e dizer que foste o maior poeta que o mundo viu nascer. Não. Não quero nada disso. Se assim fosse, preferia que esta página ficasse em branco…
Então, deixa-me lembrar-lhes o teu sorriso. Um sorriso bonito. Apareces aqui por casa em fotografias de jornais e revistas que o pai e a mãe guardam. Pareces um navio.
Grande, enorme, atravessando o mar na “hora da nossa morte/na hora da nossa vida” (Tristes navios que passam, p.122). Os poetas, como tu [cá vem o tu atrevido] têm essa condição de permanência e é, talvez por isso, não te tendo conhecido pessoalmente, que me sinto à vontade para te tratar assim.
Querido Emanuel. Meu amigo ou irmão, se entendermos que esta condição de sermos dos Açores, sem que isso possa implicar, um umbiguismo bacoco e envergonhado, mas antes nos faça irmãos de sangue: "Sigamos a lição/Destas flores de lume/Que valem pelo que são/ e não por um perfume." (Dálias, p.62).
Assim estás tu, valendo pelo que és. Aqui, na minha secretária, do lado direito, em 121 Poemas Escolhidos, dizes: “Somos herdeiros dos quatro ventos/Sem uma vela para lhes dar/Temos amarras e temos lenços/Num cais de pedra para acenar ( Náufragos Tranquilos, p. 131). Somos não somos? Sempre tive essa ideia de que mesmo que façamos parte dessa outra história que me dizes aqui: “ (…) absoluto obsoleto medo filho por vir/o loiro infante o instante/ todo o alcácer – quibir” (A Palavra o Açoite, p. 124) somos Náufragos Tranquilos. Habituados ao “rombo aberto no nevoeiro secular” ( Náufragos Tranquilos, p 131).
Mas, Emanuel, vou tentar explicar aos possíveis leitores deste suplemento o que é que este livro tem de especial. Começa por ter 121 poemas escolhidos. É castanho e foi editado pela Salamandra. Os 121 poemas foram escolhidos por ti. É um livro de amor e amizade com tudo dentro, direi eu, esperando que concordes comigo. Tem letras dentro. Escolhidas para as dedicatórias e para as sombras, para as raparigas e para as flores, para a casa, a batalha, o segredo e a pedra. É um livro de Poesia. Deve ler-se devagar como quem mastiga…
Querido Emanuel. Acabo, quase, como comecei, escrevo-te desta minha pedra chamada minha casa que, há mais de 25 anos, o meu pai e os meus tios construíram na freguesia da Fajã de Baixo. É Domingo. Lá, em baixo a minha mãe frita malassadas, porque é Carnaval, enquanto o meu pai e o meu irmão se preparam para assistir ao Benfica - Porto.
Por aqui me fico fazendo votos de que gostes deste texto e de que as pessoas que, eventualmente, o lerem, acabem por adquirir o teu livro numa livraria.
Termino, citando-te:
““Sei que perdoas a simplicidade do tratamento/porque a morte é bem isto; uma coisa que tudo simplifica (…)” (Meu Adeus a Martinho, p. 121).
Obrigada Emanuel.