domingo, março 12, 2006

sábado, março 11, 2006

Natália...



"(...)Acode-me um relato de geógrafos arábes que intruiu os navegadores portugueses na demanda dos mistérios do Poente. Li-o ontem num livro de Claude Derven (Les Açores) que um patrício me mandou com um ramo de hortênsias a jeito de boas-vindas:"Diziam que nas extremidades do Ocidente havia uma Ilha encantada que de sete em sete anos se mostrava aos navegadores que sulcavam essas paragens...Era uma Terra coberta de bruma, embalada no dorso das marés, a qual seria um oásis de ventura para quem lhes quebrasse o encanto."
Pergunto-me se as caravelas lusíadas te quebraram o encanto, ó minha ilha das névoas que velam o arcano do Ocidente. Ou, porventura, àqueles que julgaram descobrir-te capitaneando naus cobiçosas do dízimo do teu trigo, da tua cevada e tuas frutas, negaste o segredo que virginalmente guardas no fundo do mar?(...)"


Natália Correia, excerto de "Ponta Delgada, 6 de Setembro de 1975", in Não Percas a Rosa (diário e algo mais de 25/04/1975 a 20/12/1975), Lisboa, Editorial Notícias, 2ª edição, 2003, pp. 287/288.

sexta-feira, março 10, 2006

Citação - Joaquim Pessoa

O piano de cauda das estrelas
tem raízes na música dos lagos.
Amar é a arte da música
num corpo moribundo. Morre-se
de um pequeno átomo de ansiedade e isso
é uma regra do jogo; só assim a morte andará descalça como
uma violeta pelos jardins da noite; só assim
nos restará a morte antes do fim.
O fruto do coração é pouco, semelhante à mágoa.
Olhar é uma página. Percorre-a a consciência de quando
não acontece nada. É preciso duvidar semeando limites
para ser-se ilimitado -- eis quando será legítimo enganar
os deuses. Maior que a montanha é
a gota de orvalho; maior que o sol é o movimento
da sombra. Os pássaros
não acontecem: vivem-se. É tarde
para inscrever o discurso da alegria
nas estruturas do ar?

in O Livro da Noite

(Com Poesia também se aguenta!)

A rir



é que a gente aguenta!

quinta-feira, março 09, 2006

Os bailes de Carnaval no Coliseu



Desde o dia 24 de Fevereiro que todos os dias encontro alguém que invariavelmente me pergunta – Então?! Não foste aos bailes do Coliseu? – ou – Estive com os teus irmãos no baile de sexta-feira! Porque é que não apareceste? – e – Epá! A gente divertiu-se tanto nos bailes de Carnaval! Devias ter vindo – e etc., e etc..
Só queria que ficasse muito clara qual a minha opinião sobre os bailes de Carnaval no Coliseu. Eu acho que aquilo é para a ralé, pequena burguesia, provincianos e principalmente para quem ainda consiga caber no seu smoking…

Bêços d´açucre

"(...)Não nos parece que haja falta de oxigénio nos Açores, a oposição é que, voluntariamente inspira monóxido de carbono e por isso mesmo sofre de asma… De pieira, como diz o povo."


D´Arrejeite

Saúdo a chegada de H.Galante à Blogolândia Insular

Decisão

Passava a vida a levar e a buscar
pessoas ao aeroporto. Até que um dia
decidiu ir.


Nuno Costa Santos, in Os Dias não estão para isso, Livramento, 2005, pp.28

quarta-feira, março 08, 2006

Croniqueta XII ou o Fífia é uma Sopa da Avó

O Fífia é uma bomba sem detonador, que cai na água e não faz espuma; uma escova sem pêlo, um carro sem acelerador, cuja única função é servir de vigia para as brincadeiras dos garotos. O Fífia é um ladrão do meu tempo descontraído, um esgar que observo, um traço, um manifesto, um cigarro fumado até ao filtro, uma marca rafeira de roupas, que a tia não usa porque é foleiro, mas a vizinha compra porque é mais barato. O Fífia é um ser animado pelas palmas dos outros. Sorri, aplaude e grita ao milímetro, como um reflexo do que os outros fazem. Chora para agradar tão facilmente como canta ou aplaude a pior cena de Teatro. O Fífia é um pano de cena para cima e para baixo, tapando mistérios, ocultando buracos, escondendo armas, às quais não tem acesso, não sabe do calibre, mas aguenta as provas e, se preciso, ainda se assume culpado, mesmo não o sendo. O nosso Fífia tem cara de óculos, cabeça de esferovite e um ar de feijão verde cheio. O nosso Fífia fechado numa caixa e chocalhado não faria barulho para não acordar os vizinhos. Gosta de passar despercebido, diz, mas não passa. Sobretudo, quando anda por aí de laçarote, cabelo no ar e fato amarelo. Diz ele, que está experimentando as fatiotas para o Carnaval de 2006, que vai ter muito mais camiões na avenida e ele próprio vai num. Mas não vai querer uma T-Shirt a dizer Anima. Para si prefere uma que diga: Soul. Assim como assim, se a batalha das Limas é cartaz turístico, quanto mais não vale uma palavra em inglês? Uma palavra que os estrangeiros, todos pingados, da cabeça aos pés, apontem e gritem: Soul! E tenham esperança. O Fífia pensa-se alento das pessoas desesperadas, guia dos infelizes, por isso, todos os domingos, na missa das 18 horas, entoa cânticos da sua autoria, à porta da igreja, para testar a sua voz e aquecer os presentes, que irritados, o mandam calar.
Vai, agora, concorrer para os Jogos florais. Fingir que se chama Anacleto e que tem 14 anos e concorrer com uma rima estúpida a que dá o título de 1º neto. Assim:
O Anacleto
É o primeiro neto
Do Felizberto

E está fofo com tal acontecimento. Parece uma chalupa à deriva no mau tempo no canal, agarrada pelas cordas dos braços; parece uma esferovite em forma de bolacha, quando desanca na mãe, porque esta lhe tenta explicar o que é uma sextilha e ele grita, dizendo que sexta ilha pode muito bem ser Graciosa, mas que não rima com 1º neto. O Fífia é um kalkito; um Epá com gama desfeita no fundo; um guarda-sol de varas partidas; uma bola de futebol vazia, um vendedor de gelados sem os nossos preferidos. O Fífia não tem morada, tem estada; de um lado ao outro da rua, passa por todas as vivendas, aonde cães de pêlo escovado e gancho no cabelo passeiam nos colos das donas, que hoje, estão particularmente, felizes: é dia da mulher. Os maridos vão buscar os filhos, levá-los ao judo e ao futebol, enquanto elas, de rosa na lapela, escutam conferências sobre as suas fraquezas.
Sabendo que a mãe não é dessas coisas, o Fífia já pensou. Vai levar-lhe uma Sopa da Avó. Um dia por ano, ela tem direito a sonhar.Comeremos todos. E ela até vai pensar que a mesa está cheia de netos, sorri pensativo, enquanto dispensa uma rosa, gentilmente oferecida, por um Homem de cesta no braço.

terça-feira, março 07, 2006

VISITA À CASA DE TATÁ

A casa de Tatá é um silêncio perto da igreja.
Silêncio de lençóis engomados
para sua única pessoa.
A viuvez tão antiga que virou de nascença
derrama brancura em tudo.
O presépio de Tatá emerge de Belém como flor
cheirando a cânfora e alfazema.
Na ordem dos anjos e animais, a ordem estrita
de Deus.
O melhor da casa é a arca,
o melhor da arca, suspiros
feitos da brancura mesma de Tatá,
brancura surda.

Carlos Drumond de Andrade

segunda-feira, março 06, 2006

Croniqueta XI ou o Fífia queria ser lavado numa selha

Fífia que é Fífia come de talheres no ar, gesticula de dedo espetado e usa marrafa a meio. Um luxo. Engomado até aos olhos, que é como quem diz, de cabelo esticado à dandy e sapato pontiagudo, às vezes preto e branco, outras vezes, bico de pato com atilhos de ponta envernizada à duque. As gravatas são compridas, compradas em série nas Feiras de Roupa em Santarém ou Odivelas, bem como as calças de ganga que, com defeito, afunilam e encurtam deixando antever a meia branca e a raquette de ténis a azul.
Agora o Fífia anda a ler a revista Visão, de onde tira imensas ideias para o seu artigo semanal no jornal. Aliás, a Visão e a Focus são as suas duas fontes de inspiração além da fotografia que ostenta, por cima da sua cama, onde se pode ver a rir, a Rainha Santa Isabel. O Fífia queria ser rei, para ter os pés lavados e perfumados pelas mãos das aias…Queria ser rei para ter uma coroa e usá-la à banda como os actores dos filmes. Uma coroa de oiro e um pássaro ao ombro fazia dele Rei. Rei. Ah! E o manto. Vermelho como o do Super-Homem, felpudo como os gatos do seu vizinho. Olha para eles e pensa: manto!
Para a semana tem um baptizado e de certeza vão estar lá imensas amigas da sobrinha. Pode que haja uma que queira ser rainha, pensa todas as manhãs, enquanto cofia o bigode imaginário e ajeita o cabelo para fingir que põe a coroa. Anda por aí todo espigado e direito como se isso lhe desse formato de rei. O Fífia é um desinformado; uma gaveta de espuma; um saco de asa rasgado; um pato que grasna baixinho e, na banheira, perde a bravura, quando grita, em dó menor, a dor da água a ferver!...
Queria lavar-se numa selha e falar à janela, não com o padeiro, mas sim para uma multidão de povo. Homens, mulheres e crianças descalças ouvindo a sua voz de pau oco, contemplando histórias não vividas de cavaleiros…
O Fífia é uma anedota; das que não são para rir, mas que empalham o nosso raciocínio de tão estúpidas que são. O Fífia é uma aventura por escrever; um inquérito que peca por não ter perguntas; um carro avariado e rebocado.
O Fífia é um reboque. Um gancho…qualquer coisa entre os dois…a pecar na roda do carro que morre a cada empurrão…
O Fífia é uma vassoura sem arame. O Fífia é a forma de dizer que talvez...

Blog Faialense

Feito nas Américas.

domingo, março 05, 2006

Citação

"(...) Que é pois necessário para readquirirmos o nosso lugar na civilização? para entrarmos outra vez na comunhão da Europa culta? É necessário um esforço viril, um esforço supremo: quebrar resolutamente com o passado. Respeitemos a memória dos nossos avós: memoremos piedosamente os actos deles; mas não os imitemos. (...)"


Antero de Quental, Causas da decadência dos povos peninsulares, ulmeiro, Lisboa, 8ªedição,s.d.,pp.67.

sexta-feira, março 03, 2006

quinta-feira, março 02, 2006

Ódio de pai

O que é que eu estou aqui a fazer, sentado ao lado de um cadáver, dobrado sobre mim mesmo, com a cabeça, a minha, entre as mãos. Estou aqui para testemunhar o enterro da semente dos meus ódios, que já deu flor murcha há muito tempo. Estou perante o corpo do meu pai que, agora e sempre, se me apresenta sem alma nem coração.
Lembro-me perfeitamente como, já com 4 ou 5 anos, eu o odiava e como ele berrava com a minha mãe e a duchava com perdigotos. Ás vezes concentrava-me em seguir os perdigotos em contra-luz do candeeiro da cozinha, para não olhar nos olhos de medo da minha mãe. A valentia da minha mãe é que só chorava depois de ele sair disparado pela porta fora, aí eu abraçava-a e não pensava em nada. Nessa altura o meu ódio passava depressa e acreditava que éramos felizes. Pelos meus 10 anos a raiva do meu pai passou a ter um segundo acto que incluía empurrões e abananços, e por fim um terceiro acto que acabava sempre com um múltiplo par de bofetadas. De empurrão em empurrão, de bofetada em bofetada, deixei de abraçar a minha mãe, deixei de acreditar que éramos felizes e o ódio levava mais e mais tempo a passar até que se tornou constante, devorador. E é ainda esse ódio que sinto por este corpo inofensivo que jaz aqui a centímetros das minhas mãos. E tremo de ódio por mim mesmo porque sei que o meu filho de 14 anos, sentado ali ao fundo da ermida, me odeia, cada vez por períodos mais longos, senão já permanentemente. Sim, eu bato na minha mulher. Ela leva-me a um ponto em que não me controlo, como quem queima uma calda de açúcar e depois por vontade própria não desliga o lume e me deixa endurecer, escurecer, queimar por dentro e por fora e eu, por fim, estalo… Se pelo menos ela me deixasse, se fosse embora… Ai que ódio, aqui, a centímetros das minhas mãos e ali, tão perto, ao fundo da ermida…

quarta-feira, março 01, 2006

Carta ou Canção para um Poeta Ausente






Querido Emanuel,

Desculpa o afectuoso [querido]. Porém, estou certa, que não será ele, o causador da tua zanga, pior seria se como escreveu Michel Foucault eu, ao longo deste texto, repetisse “ a afirmação oca de que o autor desapareceu”, (O que é um autor? p.41). Isso já todos sabemos. Então como te escreverei diferente dos que já te escreveram? Já tantos falaram de ti. Já tantos te teceram loas e tão bonitas, que eu não sei se consigo, mas vou tentar… Quero escrever-te para que te leiam os leitores deste suplemento. Não quero traçar-te em metáforas, sublinhar-te termos, encher-te de quês e porquês; sentar-te no tempo, esticar-te todo, esperar-te ao canto, fazer-te uma finta e depois, deixar-te cair, a ver se entras, direitinho, na minha interpretação. No final, encher-te de predicados e adjectivos e dizer que foste o maior poeta que o mundo viu nascer. Não. Não quero nada disso. Se assim fosse, preferia que esta página ficasse em branco…
Então, deixa-me lembrar-lhes o teu sorriso. Um sorriso bonito. Apareces aqui por casa em fotografias de jornais e revistas que o pai e a mãe guardam. Pareces um navio.
Grande, enorme, atravessando o mar na “hora da nossa morte/na hora da nossa vida” (Tristes navios que passam, p.122). Os poetas, como tu [cá vem o tu atrevido] têm essa condição de permanência e é, talvez por isso, não te tendo conhecido pessoalmente, que me sinto à vontade para te tratar assim.
Querido Emanuel. Meu amigo ou irmão, se entendermos que esta condição de sermos dos Açores, sem que isso possa implicar, um umbiguismo bacoco e envergonhado, mas antes nos faça irmãos de sangue: "Sigamos a lição/Destas flores de lume/Que valem pelo que são/ e não por um perfume." (Dálias, p.62).
Assim estás tu, valendo pelo que és. Aqui, na minha secretária, do lado direito, em 121 Poemas Escolhidos, dizes: “Somos herdeiros dos quatro ventos/Sem uma vela para lhes dar/Temos amarras e temos lenços/Num cais de pedra para acenar ( Náufragos Tranquilos, p. 131). Somos não somos? Sempre tive essa ideia de que mesmo que façamos parte dessa outra história que me dizes aqui: “ (…) absoluto obsoleto medo filho por vir/o loiro infante o instante/ todo o alcácer – quibir” (A Palavra o Açoite, p. 124) somos Náufragos Tranquilos. Habituados ao “rombo aberto no nevoeiro secular” ( Náufragos Tranquilos, p 131).
Mas, Emanuel, vou tentar explicar aos possíveis leitores deste suplemento o que é que este livro tem de especial. Começa por ter 121 poemas escolhidos. É castanho e foi editado pela Salamandra. Os 121 poemas foram escolhidos por ti. É um livro de amor e amizade com tudo dentro, direi eu, esperando que concordes comigo. Tem letras dentro. Escolhidas para as dedicatórias e para as sombras, para as raparigas e para as flores, para a casa, a batalha, o segredo e a pedra. É um livro de Poesia. Deve ler-se devagar como quem mastiga…
Querido Emanuel. Acabo, quase, como comecei, escrevo-te desta minha pedra chamada minha casa que, há mais de 25 anos, o meu pai e os meus tios construíram na freguesia da Fajã de Baixo. É Domingo. Lá, em baixo a minha mãe frita malassadas, porque é Carnaval, enquanto o meu pai e o meu irmão se preparam para assistir ao Benfica - Porto.
Por aqui me fico fazendo votos de que gostes deste texto e de que as pessoas que, eventualmente, o lerem, acabem por adquirir o teu livro numa livraria.
Termino, citando-te:
““Sei que perdoas a simplicidade do tratamento/porque a morte é bem isto; uma coisa que tudo simplifica (…)” (Meu Adeus a Martinho, p. 121).
Obrigada Emanuel.


Fajã de Baixo, 26 de Fevereiro de 2006


* Todos os poemas citados ao longo deste texto estão incluídos no livro “121 Poemas Escolhidos” editado pela Salamandra no ano de 2003.

[Texto Publicado no Suplemento de Cultura nº 10, hoje, no Açoriano Oriental]