quinta-feira, março 02, 2006

Ódio de pai

O que é que eu estou aqui a fazer, sentado ao lado de um cadáver, dobrado sobre mim mesmo, com a cabeça, a minha, entre as mãos. Estou aqui para testemunhar o enterro da semente dos meus ódios, que já deu flor murcha há muito tempo. Estou perante o corpo do meu pai que, agora e sempre, se me apresenta sem alma nem coração.
Lembro-me perfeitamente como, já com 4 ou 5 anos, eu o odiava e como ele berrava com a minha mãe e a duchava com perdigotos. Ás vezes concentrava-me em seguir os perdigotos em contra-luz do candeeiro da cozinha, para não olhar nos olhos de medo da minha mãe. A valentia da minha mãe é que só chorava depois de ele sair disparado pela porta fora, aí eu abraçava-a e não pensava em nada. Nessa altura o meu ódio passava depressa e acreditava que éramos felizes. Pelos meus 10 anos a raiva do meu pai passou a ter um segundo acto que incluía empurrões e abananços, e por fim um terceiro acto que acabava sempre com um múltiplo par de bofetadas. De empurrão em empurrão, de bofetada em bofetada, deixei de abraçar a minha mãe, deixei de acreditar que éramos felizes e o ódio levava mais e mais tempo a passar até que se tornou constante, devorador. E é ainda esse ódio que sinto por este corpo inofensivo que jaz aqui a centímetros das minhas mãos. E tremo de ódio por mim mesmo porque sei que o meu filho de 14 anos, sentado ali ao fundo da ermida, me odeia, cada vez por períodos mais longos, senão já permanentemente. Sim, eu bato na minha mulher. Ela leva-me a um ponto em que não me controlo, como quem queima uma calda de açúcar e depois por vontade própria não desliga o lume e me deixa endurecer, escurecer, queimar por dentro e por fora e eu, por fim, estalo… Se pelo menos ela me deixasse, se fosse embora… Ai que ódio, aqui, a centímetros das minhas mãos e ali, tão perto, ao fundo da ermida…

7 comentários:

João Nuno disse...

...dá-lhe que isso te passa e se ela não souber porquê fica por conta de ódios futuros !!!

Caiê disse...

Este texto tem coisas muito interessantes:
primeiro, a velha ideia do ciclo eterno, que está aqui muito bem explorada;
depois, aquele gosto (?) humano de tentar encontrar explicações para o que acontece. Aqui, tenho sempre muito cuidado, porque adoro encontrá-las também (passo a vida nisso) mas desgosta-me pensar que isto sempre acontece, que farás aos outros aquilo de que foste vítima (até porque nem é verdade, sou contra essa opinião firmemente). Mas, sim, acontece às vezes!;
finalmente, o texto está muito bem escrito. Parabéns. Parecia que eu própria o estava a viver e que eu própria me debatia nestas contradições.
Ufa, já está.
Posso voltar a ser uma mulher de 28 anos outra vez. :)

João Nuno disse...

...só 28 aninhos Caiê !!!!!!! Mas então é uma jovem com uma mentalidade muito madura. ( Continuo a aguardar o Chá com Massa Sovada )

A.na disse...

.................??????
?????????????
(para o J.Nuno)?????????
??????????

Caiê disse...

Não sei se a minha idade é relevante, mas posso dizer que estou quase nos 29... ;) Em todo o caso, nunca sei se tenho 5 ou 80. :)

(Estou a viver no Canadá ainda. E agora para o "picar": um homem não espera, um homem toma uma atitude.)

João Nuno disse...

...pois mas fica assim um pouco fora de mão ir ao Canadá tomar Chá e Massa Sovada ! Ademais, um homem como eu a beirar os 40 já não é dado a grandes tropelias repentistas...seja como for deve estar um frio de rachar aí no Canadá e eu que sou friorento gosto mais de climas dito «temperados».

Anónimo disse...

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