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domingo, junho 10, 2007

Domingo

"Um milhar de olhos para contar os grãos
asas para dividir o vento e uma
sirene [para anunciar a chegada e
breve a partida
tão evidente como a dos navios

minúsculo aparelho de descolagem vertical
tem ainda um milhar de lábios [para o
beijo gelado das paredes [patas para o
mal-estar das visitas [e para
caminhar no tecto de cabeça para baixo

tudo nela é tão pequeno e subitamente
tao útil
que a sua criação foi uma zombaria."


Discurso Sobre a Utilidade da Mosca, Emanuel Félix, in 121 Poemas Escolhidos, Edições Salamandra.

sexta-feira, abril 27, 2007

Para Joana



"Filha,

na areia movediça das palavras, eu tenho procurado, juro,
as que nasçam só nossas,
certas, insubstituíveis, insubmissas.
Com ternura lhes toco e as levo ao coração,
frias ou gastas quase sempre, de outros usos.
Como se fossem algas,
escorrem por entre os dedos que as seguram.
Outras, agarro-as bem, tinjo-as de sangue. São
as que me comovem.
Com elas choro e sigo a sua frustração de claunes que tornaram
[ainda mais triste cada infância.
Mas, persigo-as, sim, quero-as ainda, as palavras
trabalho-as
com a aplicação do alquimista.
E do athanor saem só pequenos peixes de ouro
que nada têm a ver com o mar que separa o velho galeão
que de gusanos
me construo
e o teu corpo de mulher que é preciso aceitar urgentemente.
Ou aceitar de outro modo:
como súbito se abrisse a porta da casa e lá fora estivesse caindo
[uma chuva quente que a todos nos molhasse de uma estranha doçura.
Ah, minha filha, com que rigor procuro
o sinal de sermos o que somos
neste rio sem margens
ou talvez nesta praia em cuja espuma quente
é possível molhar ritualmente os pés e as mãos e partir a correr
nus
em direcções opostas
sem nada sugerir
a morte nem a vida
apesar de ambas estarem sempre para chegar.
Ah, o que tenho procurado, juro.
E que inútil junto às frondosas árvores dos símbolos
mais doces mais íntimos mais ternos cruéis acusadores.
Também a esses os levo à altura do peito e os encontro escassos de forma.
Na bigorna não aguentam a violência apaixonada do ferreiro.
E, de novo, procuro entre nomes de flores cidades ou estrelas
e nem sequer nos empedrados rostos das catedrais que eu vi
encontrei nada que pudesse trazer para aqui
outras coisas que pudesse ir amontoando com o tempo
para ir compondo o poema, minha filha, que há dezasseis anos ando para te escrever
mas que não fui capaz
porque escusado é dizer que é dentro de mim que habita uma enorme rosa de fogo
que não se vê do lado das palavras ou das pedras."


Emanuel Félix

Fotografia e Poema citado na 1ª página do Suplemento de Cultura do Açoriano Oriental, que este mês contou com a colaboração de Célia Machado (fotos 1ª e 4 ªpágina), Lélia Nunes, Vitor Marques, Renata Correia Botelho, Miguel Rosa Costa, Ana Teresa Almeida e Mário Homem.

sábado, fevereiro 10, 2007

Canção para um Poeta Ausente



«Tua voz tua voz uma bandeira ao vento
árvore plantada à beira da ternura
pássaro voando na amplidão do sangue
poema espada flor ou pedra dura

Tua voz tua voz um vinho um vime
fustigando as ideias vigilantes
urgente como o apelo de um amigo
próxima como um povo distante

Tua voz tua voz um raio um rio
ardente como o querer do semeador
grito junto à manhã anúncio da chegada
de um navio branco como o nosso amor

Tua voz tua voz uma bandeira ao vento
espada plantada à beira da ternura
pássaro ardendo na amplidão do sangue
foice poema flor ou pedra dura»

Emanuel Félix, 121 Poemas Escolhidos

domingo, fevereiro 04, 2007

Um Poema de Carl Sandburg



Foto: CM

"Quero-te
como as raízes secas
desejam a chuva
no verão

como o vento deseja
as folhas
do chão

e perdoa
dizer tudo isto tão
depressa"


Emanuel Félix, 121 Poemas Escolhidos, Edições Salamandra, Lisboa, s.d., pp.114