terça-feira, dezembro 18, 2012

Contra “sorvêtxis” não há Fado que nos valha

Notícias recentes (não desmentidas) dão-nos conta de que o Governo brasileiro prepara um decreto presidencial para adiar a vigência obrigatória do Novo Acordo Ortográfico para 31 de Dezembro de 2015. Por cá (quase) ninguém se manifestou, cumprindo como sempre tudo o que é imposto, mesmo que sem explicação dada. Abrigámos um acordo que nos delapida como povo das nossas mais enraizadas etimologias e apelidámos os que por essa defesa se “bateram” de “antiquados” e “chatos” com o argumento (?) de que farmácia já se escreveu com “ph”… Esquecemos que uma pátria também se faz de língua e que a gente não é só feita de mãos e sapatos. Não soubemos proteger a língua portuguesa e agora assistimos impávidos e serenos ao adiar da vigência obrigatória no Brasil. Escrevemos “espetáculo”; “ata” e “ação” e estamos muito felizes porque já não damos erros de acordo. Somos parvos. Mais uma vez parvos. Apressados e ridículos. De terras brasileiras chegam mais notícias: de que o acordo está aquém do que poderia ser; de que é preciso rever tudo; de que os professores não sabem o que vão ensinar. Parece até – pelo que se lê – que o Governo brasileiro quer convencer outros países, incluindo Portugal, a fazer uma mudança total do acordo. (Sem dramas, podíamos ter aguardado mais um bocadinho). Mas o “sorvêtxi” é de facto mais forte que o Fado. E um “ônibus” ao pé de um “cacilheiro” é mais que um avião. Fomos, mais uma vez, os bobos da corte. Apressados na imposição, “adotamos” o Acordo e deixámos cair o “pê” de Portugal, de Pátria e de País sem dó e sem piedade. Porém, muito contentes porque o Fado é Património da Humanidade. Somos um país de bem-mandados e gostamos. Seja em brasileiro ou em alemão. Líricos Sempre que nos vejo – portugueses – enfiados nestes papéis lastimáveis, recordo-me de um livro de António Lobo Antunes, “As Naus”, cuja leitura recomendo vivamente. O romance traz para o século XX as figuras do discurso épico da história de Portugal e encena o desfecho trágico da colonização africana. As várias personagens do período de glórias ultramarinas, como Luís de Camões e Vasco da Gama, entre muitos outros, voltam ao cenário português, agora no papel de portugueses expulsos das colónias. E, apesar da ironia na escolha das personagens e do cómico de algumas situações, o que nos fica deste romance é uma imagem de Portugal desiludida e dolorida. Tudo parece ter acontecido em vão. E o que resta de tantas viagens, descobertas, partidas, naufrágios, epopeias e poetas é um grupo de tuberculosos que sentados numa praia, olham o mar e esperam que dele surja a salvação. Nesse tempo o Fado ainda não era Património. Nem nós tínhamos sido assim “acordados”. Serenamente, AO 18 de Dezembro

1 comentário:

Luiz de Mont'André disse...

A menina devia ler os meus escritos na Máquina em português escorreito, dedilhado sob o som do pensamento.