domingo, março 23, 2008

Croniqueta LIII ou o Fífia tem uma certa pronúncia no andar...


A correr, ele assobia; a saltar, rufa como um tambor e a dormir, guincha.
Depois, das férias que passou em casa das primas, regressou no Sábado de Aleluia. Veio pior que o que estava e as tias andaram, mesmo, assustadas por vê-lo, durante todo o Sábado, a percorrer os cantos da casa, como fazem os cães, de nariz rente ao chão, abanando o rabo ao ritmo de uma música estranha, que as senhoras nunca tinham ouvido. A mãe diz que é normal, que são as saudades e que ele está, apenas, a reconhecer o seu espaço. Para não se zangarem com a irmã, as tias concordam. Que remédio.
Hoje, à hora do almoço, disse às tias e à mãe que tem um sonho novo; quer ser escritor de peças de teatro. Amador porque ama a arte de escrever. Também já decidiu quais as personagens principais da obra que vai adaptar: Maria Eduarda e Simão Botelho. Egas fica de fora, porque lhe lembra a Rua Sésamo e Afonso também fica, porque Zeca Afonso há só um, o da malta e mais nenhum, diz gritando.
Os outros entram todos. E, com patrocínio da Junta de Freguesia, vai escrever e publicar, em verso, uma peça que se chamará: “Amores de Perdição dos Maias no Ramalhete”, falada em mexicano com cenários a imitar o Rio de Janeiro.
Já pôs mãos à obra e, durante toda a tarde de Sábado, as tias narraram-lhe as obras, em uníssono, para a inspiração vir, já misturada. Uma loucura.
A nosso Fífia tem restado pouco mais do que a boa vontade das tias e da mãe a vê-lo desfilar e fazer de Joaninha ou de Hermengarda; de Joane e de Brízida Vaz e a aplaudi-lo. E, como as três senhoras pareceram tão entusiasmadas, nosso Fífia já decidiu outras coisas, a respeito da peça que vai escrever e publicar com o apoio da Junta de Freguesia, que será divulgada nas rádios e televisões, com entrevistas e tudo: a peça para ser mais completa e não lhe faltar mesmo nada vai chamar-se: “Amores de Perdição dos Maias passados no Ramalhete, enquanto Hermengarda e Eurico viajam na terra e são apanhados por um dragão que vivia na barca do inferno”. Para não torná-la muito impressionante para crianças e para as suas tias e mãe, talvez, se o presidente da Junta permitir, acrescente que a barca em vez de ser do inferno, é do Noddy.
A capa do livro terá, claro, a sua cara e os braços tatuados com dedicatórias aos autores portugueses. Porém, Gil Vicente terá que ficar de fora.
O Fífia não gosta de futebol.

2 comentários:

António disse...

Adorava ver essa peça. Já sou fã do Fífia.
Muito bom!

Anónimo disse...

Ah, assim está muito melhor.
J. Morais