domingo, julho 22, 2007

Mulher bonita não tem que pedir adoçante…

Ela entrou no café e pausou na entrada. Ficou o momento necessário para que quem quisesse a olhasse a contra luz do sol de verão. Levou a mão ao cabelo, como quem dá ordem de arranque e entrou, agora sim, no pequeno café do cais. Trazia um daqueles vestidos, tipo Zara, com grandes prints a amarelos e branco. Aquela espécie de vestido que, quando de pé, parece de tamanho quase normal, mas quando sentadas lhes sobe pela perna acima, até níveis “indescritíveis”, mas controláveis com o cruzar das pernas. Ela sentou-se e cruzou as pernas de forma a deixar o vestido atingir cerca de 75% da capacidade Zara. Não era brejeira. Tirou os óculos como uma actriz de cinema, pela frente, deslizando-os pelo nariz abaixo. Ajeitou ligeiramente o cabelo para trás, no caso de haver alguém que quisesse ver melhor, e pediu um café e um copo de água à rapariga do café do cais.
Era do tipo de mulher que sofre de um terrível predicamento, era quase, quase bonita. Aquele tipo de mulher que, não o sendo, pensa que é, e espera ser tratada como pensa que deve ser tratada uma mulher bonita.
Percebendo que o café não seria servido de imediato, acendeu um cigarro. Ela sabe que, mesmo não sendo, ou quase sendo, uma mulher bonita não pára, não se abandona ao nada, existe a todo o momento. Ela esforça-se. Debruçou-se sobre os cotovelos. Retirou, com a ponta das unhas pintadas, de uma forma ligeiramente sensual, algo da ponta da língua. Uma nica de tabaco, talvez. Sugou no cigarro de uma forma que eu sei que tu sabes que eu sei que tu sabes, e controlou o tempo.
A rapariga do café do cais depositou na sua pequena mesa um café e um copo de água. Ela olhou para o café com tal concentração e espanto, de uma forma despropositada. Olhou, de imediato, para a rapariga do café do cais com raiva nos olhos. Desviou o olhar e sem a tornar a olhar levantou o pacote de açúcar, devolveu-o à rapariga do café do cais e cuspiu – É adoçante, se faz favor! –.
As suas nádegas nunca mais descansaram em uníssono naquela cadeira do café do cais, as pernas cruzaram e descruzaram, o vestido subiu e desceu sem plano nem cuidados e o cigarro foi esmagado como um insecto que magoa. A beata ficou erecta, com a marca de batom na ponta e uma fina coluna de fumo a fugir do cinzeiro. Mal lhe foi apresentado o pacote de adoçante ela arrancou-o da mão da rapariga do café do cais, rasgou o pacote com as unhas como se fosse uma prostituta que abre um preservativo que não lhe vai dar prazer, despejou o adoçante como quem despeja veneno no cálice do condenado, e engoliu o café escaldante como quem toma uma sentença. Ignorou a pureza do copo de água. Levantou-se, deixou umas moedas, as necessárias, e saiu sem encore. Era óbvio que aqui não fora tomada por mulher bonita.

2 comentários:

Henriques disse...

FANTASTICO...simplesmente GENIAL!!!

Anónimo disse...

É caso para dizer que o adoçante fez estalar o verniz da "beleza"...

:-)Gostei!!!

CMF