terça-feira, junho 07, 2005

Rimas Perfeitas

Não sei mais o que posso dizer da Terra. Dizer da sombra dos ossos molhados no chão e da culpa, como quando somos pequenos e, cá dentro, a culpa é um jardim sem meninos e sem meninas, porque escondidos, com rebuçados nas algibeiras, roubados das cestas das avós, tão novas...Não sei que dizer do vento quando ele chega e rasga e alumia e deixa transparecer mais funda a terra, por debaixo da relva e sujamos os pés, por causa da chuva e entramos em casa e sujamos o chão com as pegadas dos nossos sapatos, nº 28, pegadas pequeninas.
Não sei que dizer das bonecas vestidas de vermelho e azul e branco e amarelo e com os cabelos cortados, à Barbie, penduradas na casa de madeira, construída a propósito de uns anos quando, em casa, ainda havia alguém que usava fraldas e dormia de tarde, para não ficar cansada.
Já me faltam palavras que mais me bastem; que me cheguem para explicar o que é isto de ter a memória revoltada dentro da cabeça e andar por aí a fingir que não vejo o que vejo todos os dias, a todas as horas, a todos os minutos. Vejo. Eu, descendo a Avenida, de mão dada com ele, de lancheira cor de laranja debaixo do braço e, lá dentro uma maçã, talvez, ou uma laranja para comer à tarde, no intervalo, do trabalhinho que, alegremente, desempenhava,por brincadeira, atendendo simpáticos fregueses na papelaria Académica, de onde, todos os anos lectivos, da 1ª à 4ª classe, me chegava simpáticas e giras mochilas, lindos cadernos e canetas de nunca gastar, para eu escrever as minhas rimas, os meus poemas, embaraçados, numa linguagem só minha. Nessa altura Terra era palavra que eu não usava muito ( a não ser para fazer sopa!), mas lembro-me, como se fosse hoje, que avô rimava com Pierrot. e que essa era uma das minhas rimas perfeitas...

5 comentários:

Rui Coutinho disse...

Uma das únicas empresas que geri com sucesso foi o transporte de terra, a bordo dum estático camião cujas alvancas e comandos eram os galhos mais pequenos de uma árvore na casa dos meus avós.
O conta-quilómetros não estava a funcionar bem, mas ultrapassei claramente o milhão de quilómetros. Também nunca percebi que combustível o movia, para além da imaginação.

Caiê disse...

Avô, para mim, foi Pai.
Correndo o risco de ser classificada como edipiana, há poucos homens no mundo tão cheios de valor e de sabedoria como ele.
Sem aquelas tolices de rapazinhos pseudo-Tudo que deixam ir qualquer barco ao fundo. E escrevem posts e livros. Totós.
;) :) ;) :)

frosado disse...

Acho muito ternurenta, essas ligações da Mariana ao avô. Eu não o conheci, mas o Luís conheceu e está sempre a dizer o melhor que há...

Anónimo disse...

Looking for information and found it at this great site... brokers using financial planning tools invention patent Comtraindicatoons nexium Show the medication acyclovir bentley college summer camp Female strap domination Pda loan software As level geography bradshaw model She touched my penis Ethernet driveway gate access control Effexor withdrawal pregnancy Breast+enhanacement+surgery+photos 6 levitra dosage Kid with soccer ball

Anónimo disse...

What a great site » » »