sábado, maio 13, 2006

Desta não me Livro



Espectáculo que comprova a capacidade de muitos textos lusófonos em dizer grandes coisas, nem sempre com as palavras mais sérias e formais. Um espectáculo simplista, algo despido, tão-só suportado no fio das palavras, mas de humor potente!
É um solo de Luís Fernandes, no papel de músico-“diseur”, com guião de Odete Ferreira e textos humorísticos dos maiores vultos da literatura de expressão portuguesa.


Hoje às 21h30 no Teatro Micaelense
Dia 17/05 às 16h30

Os carrascos

Vestem-se em pontas para não fazer barulho; ares de aço, papel no olhar...Usam bandeiras; falam calados; soam a vento; sentem-se em tudo!
São oblíquos, chatos, teimosos. São embirrentos, pocinhentos, moquencos.
Regem-se em cantos, mas surram nas paredes num desafino de acovardar; desmemoriados, falam em código, enchem-se de oléo; apertam travões.
Enamorados pela miséria alheia, riem de todos.
Porém, morrem sozinhos.

sexta-feira, maio 12, 2006

quarta-feira, maio 10, 2006

Inacreditável






Este lugar chama-se Canto. Fica na freguesia de Santo Amaro, na ilha do Pico. A casa foi notícia, no passado dia 5 de Maio, no Jornal do Pico. A construção está em período de licenciamento...
Isto também é Cultura! Permitir que coisas destas sejam construídas é contribuir para a descaracterização de todo um espaço e abrir precedentes. Em Santa Luzia (freguesia do concelho de São Roque do Pico) outras casas iguais foram construídas e licenciadas pela Câmara Municipal de São Roque. Um crime!

Croniqueta XXIII ou o Fífia é um cidadão suplente




De todas as histórias, aquela que mais gostava de ouvir contar era a do Polegarzinho.
A ideia de poder apanhar as migalhas daquele menino perdido no meio da floresta deixavam-no extasiado e a vibrar de alegria. Foi, por isso, que nunca procurou emprego nas férias de Verão que não fosse no café da tia, onde pudesse beber os restos de café das chávenas ou lamber os restos de gelado nas taças. Desde muito novo, herdava as roupas dos primos mais velhos; não tendo nunca que comprar vestuário para si. Gostava de ouvir os fins das músicas; numa repetição de refrão e consta que nos bailes de freguesia pedia sempre para dançar a moça mais cansada; resultado acabava dançando com as fitas rasgadas dos balcões, restos da festa. Na escola, escrevia com lápis pequeninos dos colegas, depois de serem afiados dez vezes e a mochila era herdada do primo mais velho 20 anos. Obviamente, que isto acabou tornando a vivência do Fífia numa situação de suplente; a si via-se, aos 18 anos, como um cidadão de enormes potencialidades quiçá político na nação ou, então, por obrigação de substituir alguém; rei de um condado distante. Leitor atento das fábulas de La Fontaine, lia-as de traz para a frente; chegando ao princípio com uma sensação de inacabado.
Assim é ele. Um cidadão suplente; não se escusa se for obrigado; mas foge de todas as obrigações à primeira; não escreve, resume o que outros escreveram; não fala, cita e não opina, medita as opiniões dos outros, os ecos do que disseram para depois reproduzir fielmente os últimos dois minutos do discurso do seu chefe.
Em criança, não foi um filho “suplente”, mas o facto é que à mesa comia o que os irmãos não queriam e os brinquedos todos com excepção de um papagaio que o pai lhe ofereceu, foram herdados dos primos mais velhos.
O Fífia nunca gostou, sequer uma vez, de levar vantagem; nunca se preocupou em ganhar; nunca quis ser o melhor ou, pelo menos, nunca teve o brio de dizer: “consegui”. Pelo contrário, de menino vem-lhe o gosto de esperar que os da sua equipa ganhem para festejar a vitória; nas fotografias dos anos nunca aparece em nenhuma mas, ao vê-las, aponta fulano e sicrano como sendo parecidos com ele. Têm traços, diz, enquanto alisa o pouco cabelo que traz, “os seus restos de passado”.
O Fífia é então o que espera no canto para a finta; o que não desafia, mas fia uma teia de cetim para fazer cair nela o primeiro mais desprevenido; visto ao longe parece um Santo; ouvido de perto dá ares de estar sempre em “substituição de”. Não é determinado nem ousado; é pacientemente preguiçoso. Mas, volta e meia lá se safa. Num revolver de saias de bailarino, corta daqui puxa dali e com as linhas deixadas no chão pelas costureiras mais distraídas; faz fantasias, puxa risadas amarelas. No fundo, é desajeitado; enche-se de luz, a que resta do palco, rodopia e entra em apoteoses várias, inseguro; trapalhão o Fífia é um avião atrasado que ao que tudo indica não tem trem de aterragem. Veremos se, um dia destes, não encontramos, apenas, um resto de Fífia e mais nada com flor de laranjeira ao peito como se fosse uma caixa de aguarelas vazia da qual não resta nem sequer um pingo de tinta para alegrar os seus dias…
Esperemos.

domingo, maio 07, 2006



Santo amaro, Pico, Açores
Foto AM


Canto (pico, açores)

sábado, maio 06, 2006

Reflexão de fim-de-semana

Os eunucos devoram-se a si mesmos
Não mudam de uniforme, são venais
E quando os mais são feitos em torresmos
Defendem os tiranos contra os pais.

Em tudo são verdugos mais ou menos
No jardim dos harens os principais
E quando os mais são feitos em torresmos
Não matam os tiranos pedem mais.

Suportam toda a dor na calmaria
Da olímpica visão dos samurais
Havia um dona a mais na satrapia
Mas foi lançado à cova dos chacais.

Em vénias malabares à luz do dia
Lambuzam da saliva os maiorais
E quando os mais são feitos em fatias
Não matam os tiranos pedem mais.


Os Eunucos, Zeca Afonso

(Porque por hoje não me apetece escrever/dizer mais nada...)

sexta-feira, maio 05, 2006

A propósito...



Serenamente Abril encontra-nos de novo.
O tempo move-se numa era pós-pós-quase-tudo:
Auckland tem sonhos de golfinhos cor-de-rosa,
Petropavlosk começa a fundir o Inverno,
Nos arredores de Lhasa alimentam-se ritualmente os abutres,
Fogo de artifício preenche o firmamento de Rawalpindi,
Em Köningsberg mais um dia se extingue,
Reykjavik desfruta da tranquilidade de um café
Lisboa comemora um velho golpe de estado.

Contudo uma maléfica tempestade fermenta.
Fantoches representam num sinistro teatro de sombras.
Cães raivosos são lançados com uma fanfarra.
O Atlântico Norte transforma-se num lago de escuridão,
Soprando uma Primavera negra sobre Belgrado.

Uma nação luta por um continente.
Mil aviões poluem um céu sagrado.
Um ancião brande o punho aos mísseis.
Notas explodem numa rapsódia criminosa.
Pontes destruídas, monumentos ao entretenimento global,
Petróleo e ultraje fluem com o Danúbio.
Colunas de fumo são barras de aço no horizonte.
Sirenes transformadas em canções de embalar.
Flores de cerejeira varrem as crateras das bombas.

Resistindo com inquebrável tenacidade,
A Europa está a ser violada pelo rufião americano.
Arrogância, violência, o sustento de vândalos.
A civilização sobrevive em abrigos subterrâneos,
O espírito do príncipe Lazar exige reencarnação,
Invasores bárbaros são efémeros, a Europa é eterna.


Primavera Negra, M.Daedalus

Citação (importante)

"(...)VESTIBULANTE: adj. 2 gén. Que "faz" vestíbulo, que deambula por vestíbulos. S.2 gén. Aquele que desempenha uma função ainda mal defenida que se poderia definir como exercício, em qualquer ramo de actividade, do "espírito de vestíbulo", isto é, do espírito de lugar comum. Acima do recepcionista, abaixo do public relations, o vestibulante cultiva a mediania nas ideias e nos gostos. Sabendo de tudo um pouco, sem saber, realmente, de nada, promotor de situações comuns para homens particulares, de situações particulares para homens comuns, o vestibulante é subproduto de razoável consumo na sociedade do dito.(...)"

excerto de "Os Vestibulantes" de Alexandre O´Neill inserido na obra Uma Coisa em Forma de Assim

quarta-feira, maio 03, 2006

Croniqueta XXII ou o Fífia calça meias plim plim: até aos 20 é de príncipe; daí para cima é de Rei!!!




O Fífia sai à rua na sua meiazinha “plim-plim”; uma marca nova de meias, cujo lema é: “meias plim-plim e o seu pé fica assim” e depois aparece um pé a dormir numa alcofa de príncipe. Calçado, o Fífia, que já ultrapassou os 40 anos, julga que é Rei, dono de castelos e campos, herói e senhor de montes verdes e florestas de encantar com princesas, aias e aios. Depois de “loiro, gordinho e rosado” como no poema de Pessoa (com “p grande”, como se diz na gíria); o nosso Fífia diz-se hoje Rei; anunciador de um novo mundo, coberto por raízes de vida. Feudal. O nosso Fífia é feudal. De bico no ar; olhos abertos como um garajau; lembra um cabide de salão de baile: quando há festa está enfeitado por belos casacos de pele e tiras brilhantes de pano, que as senhoras enrolam nos pescoços delgados, deixando cobrir sinais pouco abonatórios das suas reputações; quando não há festa está o cabide nú da base aos braços. Despido como uma árvore em pleno período outonal…Mas adiante! O Fífia, cuja eira e beira começa e acaba numa rua normal da cidade dessas com passeios desenhados e lixo pendurado na porta, sem mal nenhum entenda-se, gosta de se armar; em cima das meias plim-plim calça sapatos de fivela e veste fatos de chiffon, porque brilhantes lhe dão um ar de poeta renascentista em espectáculos de praça. Quando fala e vê os holofotes das luzes do “show”, como diz; parece uma esponja de cozinha, das que são verdes por cima, aonde no meio do brilho do sabão, se vê bolhas de espuma. Nele são, apesar do grotesco da imagem, salivas que brotam do contentamento de ser aplaudido pelas multidões que, julgando-o um cómico, lhe dão muitas palmas e assobios de satisfação. O Fífia é um “entertainer”; uma batuta dobrada em cujo plástico “mora” um desafino constante. Mau orquestrador não se lhe segue a orquestra; marchando cada tocador para o lado que mais apetece naquele dia ou naquela hora; sem explicação plausível…Mas não faz mal, quando agarra nos seus pedaços de papel, destila poesia a rodos, como se as palavras servissem tão só e apenas para as brincadeiras de Carnaval que faz, porque para ele, o Entrudo é quando um homem quiser; daí que, mesmo sem patrocínio, o nosso Fífia meta água seja em que altura for ou seja em que lugar for; encharcando-se até aos ossos. Porém, normalmente safa-se, porque à conta dos olhos bonitos que faz (mas não tem) logo acorrem dezenas de aias para enxugar os aguaceiros. O Fífia é um sortudo; uma figura de Roda, ganha numa quermesse de festas; onde entre os pratos, os copos e os porta-chaves de miniatura está, em qualquer número, a sorte de sair um Fífia; mediano de orelhas em pé, com pequenas e delicadas faltas de cabelo; espevitando-se num andar de jibóia disfarçada de colar de diamantes.
O nosso Fífia gaba-se do que não tem; usa de um pronome pessoal narcísico em cujas primeiras palavras se lê o resto do discurso gasto e acabado como um gelado da Fábrica de Gelados Montanha a derreter-se no cone. Falhado nas bases, mas de meia de alcofa, que é de príncipe até aos 20 e Rei daí para cima, ainda não percebi porque ele, logo ele, não foi convidado para participar no Circo das Celebridades.

Lamento

Só se vive uma vez tem-se pena
mas morrer muitas vezes é obra.
Já que a vida é o pano de cena
o teatro da morte que sobra.

E a mulher traz no ventre um filho
e os olhos postos no mar largo.
Cada vez que morre é como um lírio,
em campa rasa e em chão sagrado. III
Só se vive uma vez tem-se pena,
mas morrer muitas vezes é triste.
Já que a morte é o pano de cena,
o teatro onde a vida resiste.

E a mulher tem no ventre um fardo,
e o olhar triste pelo mar.
Cada vez que morre é como um cardo,
em campa rasa e em chão lunar.


Letra: Fernando Reis Júnior
Música: João Miguel

sábado, abril 29, 2006

Danças


Foto


Danças e o mundo é azul, quando, em pontas,
desces a escada do céu para nos vir dar boa noite...

terça-feira, abril 25, 2006

Os Citas




Desamparados quais libelinhas nas primeiras núpcias de voos altos, estes homens e mulheres, em cujos dentes da frente cintila um reflexo, lembram, em dias de festejos, uma marcha de despedida tocada num tom, acima da medida, como que a desafinar. Aos nossos ouvidos atentos soam a vozes esganiçadas, porque quanto mais altas, piores…
Então, cantam baixo; estendem-se em cumplicidades e assombros; verificando-se, mais tarde, na pauta, que as claves de sol se perderam e nas escalas ninguém se entende; é um atropelo!
Sobem e descem; mandando recadinhos para disfarçar o que é evidente: à primeira quebra de compasso baralham-se todos confundindo Salsa com Repolho e ar doente com dificuldades de respirar.
Discos riscados; raízes entorpecidas por vocábulos de estranhar; fraco manuseamento das espingardas, resultando naquilo a que já todos assistimos: má pontaria, bicos caídos e tristes; alguns em debandada e outros, porque, quiçá mais espertos, sorrindo e assistindo ao funesto acontecimento. Depois dos bicos, há as asas tolhidas; redondas e quadradas; que nalguns se erguem como batatas presas a troncos demasiado frágeis para aguentar o peso da responsabilidade de uma batatada bem dada…A arte.
Situam-se como edições baratas de capa mole e quebrada em cima de prateleiras, cuja sustentabilidade da citação se deixa envolver por faces entre aspas.
- O Senhor está com ar de aspa hoje! Não trocou as aspas? - dizem, entre si, como quem se pontua por caracteres e soluções, cujas marcas de limitação, ultrapassam sempre o estabelecido; ou então, como quem, se julga a si e aos outros pela curva da aspa, que no lugar das asas, se transforma numa espécie de gancho, mas fraquinho.
Cansam as armações Quixotescas; irritam as panças de Sancho com que se passeiam armados em donos e duques de uma cidade ou de uma vila; aborrecem os olhares sibilantes, cofiando os bigodes ou, nelas, afagando os pulsos, subindo e descendo pulseiras, numa correria de montra.
Nisso lembram, ano após ano, na passagem de mais um dia 25 de Abril, que afinal lutar pela liberdade, para eles, em pondo-se as aspas, fica tudo consertado.
E é nisso, só nisso, que vivem concentrados: fazer da Liberdade uma palavra entre aspas…como quem cita.
Chamemos-lhe então os "Citas"; fãs dos Fífias, mas não Fífias, porque se lhes falta o empinar dos modos; as atitudes desertadas; os corre-corre humorísticos num tom de água quente a ferver sobre um pézinho gentil! Os Citas envergam fa(c)tos; destilam textos a que chamam "Reflexões", mas que, no fundo das mangas à boca de sino, não são mais nada do que meros espectadores do passado; figuras de colecção. Aspas.

domingo, abril 23, 2006