domingo, julho 20, 2008

Olhá Roqueira


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Este ano e, curiosamente, contrariando o que aconteceu nos quatro anos anteriores, houve por parte da Câmara Municipal de Ponta Delgada, uma necessidade maior de fazer vingar a ideia de que as Festas do Espírito Santo, organizadas pela edilidade, são uma tradição. Por entre os meandros das reais intenções dessa insistência transparece uma fachada de espiritualidade, que me impressiona e intriga. Não esqueço, contudo que haverá, por certo, quem, levado pela fé (que não questiono) tê-las-á vivido como mais um momento de partilha e comunhão de sentimentos. Mas, na mesma medida e, por causa dessas mesmas pessoas, que respeito, não posso também, deixar de protestar veementemente, por mais sensatez e nobreza, no tratamento desta tradição do povo a que orgulhosamente pertenço.
As festas do Espírito Santo, as grandes festas de Ponta Delgada não são tradição coisíssima nenhuma! São espectáculo! São um aproveitamento propositado da espiritualidade de alguns para benefício de outros. Revelam uma atitude irresponsável e inqualificável. Ora, se dúvidas houvessem, olhe-se para as faixas colocadas nas paredes da Câmara, durante os dias da festa; olhe-se para a coroa sempre enorme, disforme, cheia de luzes, traduzindo, sem rodar, nem tocar música, mas só olhando para ela, uma espécie de “Futebol Espectáculo”. Pois bem, as tradições, às vezes, até dançam e balançam. Mas, neste caso, por mais voltas que se queira dar e rodas que se queira fazer, não há “pisca pisca” que lhes valha. Não são Tradição. Não falo de devoção, por respeito, mas não aceito e era isso que queria deixar hoje aqui escrito, que alguém ou alguns, por razões puramente propagandistas, queiram por força de sabe-se lá o quê, tomar uma Tradição, que é de todos os açorianos e reinventá-la, sem nenhum pudor.
Lamento, mas a vantagem de ser mordomo todos anos, mudando apenas a cor do fato; levar a coroa no procissão, fazer quartos do Espírito Santo, na própria Câmara Municipal, distribuir fatias de massa e fazer umas Sopas para distribuir ao povo, qual Rainha Santa Isabel, mesmo que repetindo o gesto cinco anos seguidos, não transforma ninguém, por mais fortes intenções, que tenha, em “alva pomba”.
Na vida real, as bênçãos de amor não estão ao alcance de todos. Por mais meiga que queira parecer ser a aparição. E, enquanto assim for, não há aproveitamento sem escrúpulos, que substitua a Tradição. Nem notícia que valha por centenas de coroações e mordomias que acontecem em centenas de lugares nos Açores e nas comunidades, há décadas e décadas. Muito menos, estou em crer, a devoção, seja de quem for, seja pelo que for…
A Tradição de que se fala é pois uma falácia!
E aqui se prova que, como diz o ditado, pode enganar-se alguns durante algum tempo, o que não se consegue é enganar-se todos para sempre. Para lá vamos.

7 comentários:

joão coelho disse...

Felicito-a pela sua lucidez, e pela capacidade de desmontagem das "iniciativas" ditas tradicionalistas, promovidas por politicos de meia-tijela,como essa senhora que responde pela Câmara Municipal de P.Delgada..Para pessoas que se dizem defensoras extremas da população, e da sua cultura, a "oportunidade" e "revestimento" destas comemorações representa uma enorme falta de respeito ( um insulto até ) pelos cidadãos e pelos seus costumes ancestrais.
Bem haja pela sua frontalidade. E parabéns, sinceros, pelo seu belo blogue.A sua escrita tem "pinta"...

Saudações atlânticas

João Coelho

Madrinha disse...

Parabéns Mariana !!! O João Coelho, disse tudo, não é preciso dizer mais ... E, já agora, se este Sr. João Coelho é quem eu penso que seja, saberá bem do que fala !!! E daqui lhe mando um abraço. E um beijo para ti.

Alfredo Gago da Câmara disse...

Mariana: Lindo texto, muito bem escrito e sem dúvida alguma com uma visão real e bastante inteligente. Não há história totalmente verdadeira. ela só será verdadeira quando, de facto, passar a ser realmente história. Estou plenamente de acordo quando repudias o aproveitamento do poder político através de crenças, e tradições populares religiosas e demonstras simultaneamante todo o respeito pela fé e devoção popular.
Agora pergunto: Como é que se convence uma criança de 12 anos, natural de Ponta Delgada, que já viveu 5 anos com estas festas, que afinal elas não são tradição. E se continuar por mais cinco e ela tiver dezassete ou vinte? Até vai achar mal que outro presidente eleito, que pode já ser o pai, tio, vizinho, primo, etc., (seja de que partido for) deixe de realizar as afamadas festas. É triste, mas é verdade.
Como é que se contraria esta criação oportunista de tradições?
Como???????????????
Será que nós e todos os poderes políticos da nossa geração sairão de cabeça erguida quando analisarem com consciência situações deste tipo???!!!
Bjs

joão coelho disse...

A Mariana, pelo que tenho lido aqui, é um consolo para a alma..pela originalidade e diferença da sua escrita - tem uma capacidade de "nonsense" magnifica - E depois acrescenta-lhe a frontalidade..virtude quase extinta nestes tempos..
Julgo ser esse J.Coelho que a "madrinha" refere, e é exactamente pelo que passei na minha terra - P.Delgada, S.Miguel -que dou muito valor, e me orgulho, de jovens como a Mariana.
Bem hajam, com abraços de volta.

Saudações atlânticas

J.Coelho

FB disse...

Quem conhece a sua ignorância revela a mais profunda sapiência. Quem ignora a sua ignorância vive na mais profunda ilusão.

Mariana Matos disse...

Por mim estou de consciência de tranquila. Digo e direi sempre que estas festas não são tradição; mas sim uma adulteração das Festas do Espírito Santo, usadas em benefício próprio. Um insulto, como disse e bem João Coelho, a quem agradeço os comentários anteriores. :)

Ana Teresa disse...

Berta Cabral mais não faz do que, aproveitando-se da devoção e da crença do povo micaelense (sim porque não vão a essas festas somente os cidadãos de PDL), um show-off sobre si própria. Aproveita para aparecer nas revistas, jornais e na televisão, tentando transparecer algo que não é. A política não se faz disso! E, pior, o Espírito Santo (o verdadeiro, a tradição, a devoção) não se festeja com bancadas vip's que, por mero acaso, até tapam uma das entradas para as Portas do Mar. Mete nojo!...