quinta-feira, abril 24, 2008

Linha de água

Muitas saudades tuas. Dos teus sapatos pretos furados à frente por ti mesmo com pontas de cigarros. Do teu andar lento e teimoso, de te ver a fingir que dormias, quando nos íamos embora para não te obrigares a ter que dizer até para o ano. Tenho tantas saudades tuas, que até escrever esta pequena crónica para o jornal, que me tem acolhido, para este momento de escrita, que é delicioso, me faz quase ver-te passear por detrás da estante dos livros, onde guardo algumas fotografias, em que estamos todos juntos, “em nossa casa”. Usavas esta expressão, muitas vezes, para te referires a nós todos, aos onze, a quem chamavas: a minha equipa do Benfica. E que bem jogávamos nós, desajeitados, caindo e levantando, com birras e manias misturadas nas coisas muito simples que nos ensinavas; coisas, que só podiam ser ensinadas por um avô. Um dia, disseste-me que parecíamos barcos, remando para chegar a um porto. Onze portos diferentes e eu ri-me da metáfora de barcos e da lembrança de todas as vezes serem esses os sintomáticos substantivos que sempre usaste para falar. Agora, dou por mim a escrever exactamente com os mesmos substantivos sintomáticos, os dos sintomas da alma, os dos sintomas da falta de roda de leme ou de vela para seguir viagem.
Tenho saudades tuas, do teu cabelo branco curto, das tuas mãos castanhas escuras, que me pareciam ser mágicas, da tua atitude de homem vencedor, do teu sorriso de índio, do teu carro branco, que dizias que era mais rápido do que a Espalamaca, de ver contigo os jogos do Benfica e desancar no árbitro, de te ligar, apenas, para te ouvir rir e não dizer coisa nenhuma, que fizesse sentido algum para mim, para ti ou para qualquer um dos habitantes da nossa casa. Aprendi coisas muito simples contigo. Nada de matemática nem sequer de português. Nunca falamos de poesia, nem de literatura; nunca discutimos sobre nada em particular, mas discutimos tudo, em geral, sem correr o risco da generalidade. Aprendi que os limites são os da linha de água e que os barcos sorriem quando chegam ao mar. Fazes-me muita falta. E, no fundo, era isto que eu queria hoje transmitir. Talvez o que escrevi encontre tranquilidade no sorriso de alguém. Assim espero. Vinha falar de poesia, do dia mundial que foi comemorado a 21, do que se seguiu, o do Teatro, que foi a 27 e de um dia de Março, que aconteceu há algum tempo. Perdi-me, na recordação de uns sapatos pretos furados com pontas de cigarro para arejar e num sorriso grande a lembrar o de um chefe de índios; nas histórias das aventuras marítimas e na primeira vez que eu vi um barco à vela. Se hoje me perguntassem: Quem tem farelos? Responderia eu, certamente: Tenho eu, tenho eu. Farelos no lugar dos sinais da pele. Como os barcos de madeira. Cheios de nós como “em nossa casa”.

3 comentários:

Anónimo disse...

Terno e muito bonito, Mariana.
Vavô

Renata Correia Botelho disse...

Que bonito. Que bem escrito. Que belo momento de leitura.

Madrinha disse...

Muito bonito Mariana, mesmo muito ! Beijo