sexta-feira, outubro 12, 2007

Possibilidades

«Prefiro cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos nas margens do Warta.
Prefiro Dickens a Dostoievski.
Prefiro-me gostando dos homens
em vez de estar amando a humanidade.
Prefiro ter uma agulha preparada com a linha.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar
que a razão é a culpada de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar com os médicos sobre outra coisa.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o rídiculo de escrever poemas
ao rídiculo de não os escrever.
No amor prefiro os aniversários não redondos
para serem comemorados cada dia.
Prefiro os moralistas,
que não prometem nada.
Prefiro a bondade esperta à bondade ingénua demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos países conquistadores.
Prefiro ter objecções.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de fadas de Grimm às manchetes dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães com o rabo não cortado.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que aqui não disse,
a outras tantas não mencionadas aqui.
Prefiro os zeros à solta
a tê-los numa fila de algarismo.
Prefiro o tempo do insecto ao tempo das estrelas.
Prefiro isolar.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro levar em consideração até a possibilidade
do ser ter a sua razão.»

Wislawa Szymborska
poema incluído na antologia: Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim, Porto, 2001, pág. 1614.

4 comentários:

Anónimo disse...

Não mais do que dois em mil pessoas se importam com a arte, não é assim? :)

mariana matos disse...

"Em cada cem pessoas:

Sabendo tudo mais que os outros:
cinquenta e duas,

inseguras de cada passo:
quase todas as outras,

prontas a ajudar desde que isso não lhes tome muito tempo:
quarenta e nove, o que já não é mau,

sempre boas porque incapazes de ser outro modo:
quatro; enfim, talvez cinco,

prontas a admirar sem inveja:
dezoito,

induzidas em erro por uma juventude, afinal tão efémera:
mais ou menos sessenta,


com quem não se brinca:
quarenta e quatro,

vivendo sempre angustiadas em relação a alguém ou a qualquer coisa:
setenta e sete,

dotadas para serem felizes:
no máximo vinte e tal,

inofensivas quando sozinhas, mas selvagens quando em multidão:
isso, o melhor é não tentar saber mesmo aproximadamente,

prudentes depois do mal estar feito:
não mais do que antes,

não pedindo nada da vida excepto coisas:
trinta, mas preferia estar enganada,

encurvadas, sofridas, sem uma lanterna que lhes ilumine as trevas:
mais tarde ou mais cedo, oitenta e três,

justas:
pelo menos trinta e cinco, o que já não é mau,

mas se a isso juntarmos o esforço de compreender:
três,

dignas de compaixão:
noventa e nove,

mortais:
cem por cento, número que, de momento, não é possível mudar."

(Cem Pessoas, Wislawa Szymborska)
:)

Anónimo disse...

Some Like Poetry
Some -
thus not all. Not even the majority of all but the minority.
Not counting schools, where one has to,
and the poets themselves,
there might be two people per thousand.
Like -
but one also likes chicken soup with noodles,
one likes compliments and the color blue,
one likes an old scarf,
one likes having the upper hand,
one likes stroking a dog.

Poetry -
but what is poetry.
Many shaky answers
have been given to this question.
But I don't know and don't know and hold on to it
like to a sustaining railing.

(da mesma, mas em inglês, ... já percebes o meu primeiro comentário?)

mariana matos disse...

agora sim. este poema não conhecia. :)