segunda-feira, outubro 23, 2006

Com medo de o perder nomeio o mundo*

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Eu sou, entre este e o outro tempo,
Uma vírgula marcada na distância pontuada;
Alguém a quem faltaram dedos mágicos e fadas
Para a corrida em patins desde a escola até à casa verde
Com janelas verdes e uma campainha de tocar a cantar.
Sou um sapato calçado numa imaginação em pausa;
Um atilho desapertado (nela mesma) revolta e devolvida
À sola, enrolada por baixo, não dita, segredada…
E sou, como certeza e credo, na distância do tempo dos navios no mar,
Nas suas chaminés altas e fumegantes o pescador que herdei nos braços,
O lavrador que, em tempos, me pegou ao colo ou, pura e simplesmente, o homem que, nos cabelos brancos, trazia a minha mão pequena impressa como um carimbo de passageiro frequente.
Tenho pessoas dentro. A minha gente.
E, nos meus olhos, sei-o, há muito tempo, havia isto por escrever.


Fajã de Baixo, 20/10/2006

* Verso do poema de Vitorino Nemésio "Nomeio o mundo"

3 comentários:

soniaq disse...

Bom dia!!!!

Vamso lá a acordar, já são horas, ehehehe

Tenho andado desaparecida e sem tempo para te ler, no entanto deixo-te um beijinho

até

Jose Augusto Soares disse...

Belo texto do grande Nemésio.
Gostei do blogue. Vou colocá-lo nos "links" do meu.
Parabéns!

Forte Mestre disse...

O texto não é de Nemésio; o título é que é um verso do poema "Nomeio o Mundo", do mesmo.

O que leu saiu das pontas dos dedos desta grande escritora...

Cumprimentos.