sábado, dezembro 17, 2005

(Pro) Sempre

laranjas Posted by Picasa
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"Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade a quem chamamos fama!
Ó fraudulento gosto que se atiça
Cua aura popular que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldade neles experimentas!

"Dura inquietação d¹alma e da vida,
Fonte de desamparos e adultérios,

Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios!
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo digna de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana!

"A que novos desastres determinas
De levar estes reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas
Debaixo d¹algum nome preminente?
Que promessas de reinos e de minas
De ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?


- Mas ó tu, geração d'aquele insano,
Cujo pecado, e desobediência,
Não somente de reino soberano
Te pôs neste desterro e triste ausência
Mais ainda d'outro estado mais que humano,
Da quieta, e da simples inocência
Da idade d'ouro tanto te privou,
Que na de ferro, e d'armas te deitou:


- Já que nesta gostosa vaidade
Tanto enlevas a leve fantasia;

Já que é bruta crueza e feridade
puseste nome, esforço e valentia;
Já que prezas em tanta quantidade
O desprezo da vida, que devia
De ser sempre estimada; pois que já
Temeu tanto perdê-la quem a dá:


- Não tens junto contigo o ismaelita,
Com quem sempre terás guerras sobejas?
Não segue ele do Arábio a lei maldita,
Se tu pela de Cristo só pelejas?

Não tens cidades mil, terra infinita,
Se terras, e riqueza mais desejas?
Não é ele por armas esforçado,
Se queres por vitórias ser louvado?

- Deixas criar às portas o inimigo,
Por ires buscar outro de tão longe,
Por quem se despovoe o reino antigo,
Se enfraqueça, e se vá deitando a longe?
Buscas o incerto, o incógnito perigo,
Por que a fama te exalte, e te lisonje,
Chamando-te senhor, com larga cópia,
Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia?


Episódio de "O Velho do Restelo", de Os Lusíadas (Luís Vaz de Camões)
(bold meu)

6 comentários:

Achador disse...

eternos dizeres sobre a efemeridade de se ser..

bj.

Joao

Nuno Barata disse...

Meneio "três vezez a cabeça descontente".

lennyjackson48459084 disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Mariana Matos disse...

Compreendo-te.

Mariana Matos disse...

o comentário retirado era publicidade.

Anónimo disse...

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