segunda-feira, junho 27, 2005

Entre duas garfadas

- Leonor! Ouve! Precisamos de falar.
Pôs levemente a sua mão sobre a minha, inclinou-se por cima da mesa, somente o necessário, e disse - Mas estivemos a falar toda a noite!?!
- Eu sei! Mas isto é importante!
Retirou lentamente a mão que pousava na minha e inclinou-se para trás, mais do que o necessário. Mas dos seus lábios nunca lhe fugiu aquele sorriso que para mim sempre traduziu um estado de graça que eu nunca percebi.
Com um tom, e velocidade, de voz de quem está protegido do mundo, disse-me, olhando-me profundamente, de um modo até talvez apaixonado - Diz lá então! - O único deslize a que se permitiu foi um rápido passar dos olhos pelas outras mesas aproveitando o movimento que a deixou direita na cadeira, agora nem muito longe, nem muito próxima de mim.
Enquanto eu procurava as palavras, ela levou um garfo de comida à boca. Concentrei-me naquela boca, naquele mastigar e procurei no engolir, naquele pescoço, alguma demonstração de tensão. Nada.
- Querida! Nós… eu… – suguei algum ar, fiz uma pausa despropositada.
- Deixa estar! Vais me dizer que acabamos?... Melhor, que queres acabar?
Olhei para ela, algo esbugalhado. Aquela mulher ia me ajudar, até aqui, mesmo agora.
- Querida, não é bem isso… eu é que…
- Deixa estar, - insistiu - já percebi! Não vamos agora, e aqui, deixar de ser amigos, nem estragar o jantar. Se achas que acabou, acabou! - levou mais um garfo de comida à boca, num gesto calmo que garantiu uma continuidade que me ultrapassava.
A minha cabeça gritou, suplicou, porra, porra mulher. Zanga-te. Bate-me. Enfia-me esse garfo num olho.
Olhei-a nos olhos. Ia exigir que me matasse, de imediato. Na sua face um certo rouge invadiu-lhe de repente a zona alta por debaixo dos olhos e a ponta do nariz, do mesmo modo como no momento dos seus orgasmos, que eu via como uma oferenda sua, quando perdia ligeiramente o seu auto controlo
Estremeci. Defronte de uma mulher que me dando tudo não me dava nada, que sendo minha não era de ninguém, de tanto a odiar, acabava, de novo, aqui, entre duas garfadas, de me apaixonar.

6 comentários:

Paulo Henriques disse...

Só agora descobri que voltaste a este mundo...Bem-Vindo! Abraço.

TóZé disse...

Cá estou, mesma ilha, outros mares.
Obrigado pelo abraço que devolvo mais apertado, para aí, terra das Flores.

Caiê disse...

Mulheres assim... ;) Escritas assim... ;)

Aaohfowerhoheroihjaeroºjreo disse...

eu também estremeci

Anónimo disse...

Best regards from NY! » »

Anónimo disse...

Where did you find it? Interesting read »