domingo, maio 08, 2005

Tenho um intenso orgulho na palavra Açores*

Aos Domingos, depois da missa, a minha avó Ana, fazia molha na panela de pressão e a gente comia todos juntos. Havia sempre muita gente em casa. Muitas vozes a ouvir-se e muitas pernas e braços para dentro e para fora numa azáfama imensa, que nos fazia rodopiar de colo em colo. A casa, não muito grande, albergava em cada Verão, mais de 10 pessoas. Havia festa. Lembro-me que música e arroz doce, que o meu avô partia às fatias, para comermos. Para o banho, no porto, levávamos sandes de manteiga de amendoim, um chapéu por causa do sol e as bóias grandes e pretas.
O meu avô fazia barcos. Tinha um barracão de fazer barcos. E fazia-os. Grandes, médios, mais pequenos. Era, como eu chamo hoje, à distância de uns anos, quando eu beiro os 30 e ele é ausente, um fazedor de barcos. Fazedor, contribuinte activo, dos meus Açores. Tenho um intenso orgulho na palavra Açores, frase que peço emprestada à poetisa, para descrever as ilhas, onde nasci, de onde nunca me habituei a partir, ou a deixar que partissem, aqueles de quem eu gostava mais. Sentimental? Talvez.
Os Açores, as nove ilhas, que me compõem, como os recados que vamos deixando nos papeis perdidos pela casa, avisos extemporâneos, ordens, pedidos, foram as deixas dos meus papeis múltiplos. Eu, sentada, com três anos, na praia do Pópulo, comendo uma sandes de marmelada; eu caindo, aos quatro anos, na rocha do pesqueiro alto, sujando o meu vestido branco e verde, de algas e musgo, eu correndo, no Basket, aos 9 anos, e estatelando-me ao comprido; eu, aos 10 anos, “trabalhando” na papelaria Académica, em Ponta Delgada, aos 14 anos, eu, comendo meloa, em Santo Amaro, sentada numa cadeira azul de pano, ao lado do meu avô, a ver São Jorge, ali tão perto e as luzes todas acesas; eu aos 16 anos, escrevendo o meu primeiro poema sobre os Açores, mão imensa no centro das nossas vidas, eu aos 18 anos, vendo a minha ilha maior ir-se embora, como num filme, onde os actores se desprendem da cena, como num abalo, eu vendo os Açores irem-se embora, sem força para ficar...as minhas ilhas.
Os Açores, para mim, se me pedirem datas, anos, circunstâncias, modos são quase sempre um homem, dois, a gente todos nos meus anos, os baloiços de casa da minha avó, as cenas dos abraços, as rodas de mão dada, a minha escola primária, o meu pai, o nosso mehári cor de laranja, o casaco que alguém me trouxe, azul e vermelho, um kispo. Os Açores, meus pessoalmente meus, são uma escada, onde me encosto de quando em vez, agarrando-me ao corrimão, verde, pedindo auxílio às gaivotas e às brumas. Os Açores são eu, correndo descalça em casa da avó, atravessando o canal na Espalamaca, num dia de Verão, invernoso, subindo a maré de bicicleta, descendo ao fundo do mar com barbatanas e óculo, vendo o fundo do mar.
Os Açores são mar. Um universo de espécie, não melhor, diferente, ou superior. Mas espécie. Espécie de gente, de “ossos mergulhados no mar”, como escreveu Nemésio. Os meus Açores mergulham aqui. Mergulham aqui no meio do mar, com coordenadas efectivas e afectivas. Sujeitos, factualmente dispersos pelos manuais da história, descritos nos dicionários, nas enciclopédias, nas formas e nos verbos dos ensaios, é certo, mas aqui, aqui, nos Ardemares, onde me “ergo peça a peça”¨, os meus Açores são eu saltando ao pé coxinho, eu e os meus irmãos andando nas gaivotas da lagoa das Furnas, eu e os meus irmãos brincando com os nossos gatos. A gente todos de ilha em ilha, como quem desfia a vida, devagarinho, pé ante pé. Os meus Açores são a gente devagar, entre as brumas, as gaivotas e um prato de molha e arroz no Natal, quando debaixo da árvore havia bonecas e um postal da avó Ana.


* verso do poema Açores de Sophia de M. Breynner.
¨verso de Vitorino Nemésio

10 comentários:

Caiê disse...

Porque hoje me disseste "o essencial é não te esqueceres de respirar. o resto vem por acréscimo" ;)
oca, oca... mas respiro melhor com o vento que vem "da banda do Pico", com as vagas de oeste, com os gritos das cagarras nas Velas, com os joelhos rasgados em Porto Pim.
obrigada! :)
hey, sra escritora ... uma vénia, para o teu texto do fundo de ti.

gmarinho disse...

ui ui ui muito, muito bonito, de si sra dra...

frosado disse...

Fogo! faça-me o favor!

Andre Bradford disse...

Os meus Açores não têm nada a ver com a tua história pessoal e, no fundo, são exactamente a mesma coisa.

Nuno Barata disse...

Os meus Açores não são feitos de recordações de infância, são feitos das minhas esperanças futuras. Constroem-se e desconstroem-se todos os dias,, horas, minutos. Os meus Açores são do mundo, não são meus.

Mariana Matos disse...

NB, Tenho um intenso orgulho na palavra Açores. Parece-me que o título, pedido emprestado, a Sophia de M.B., diz tudo. Obviamente, que se os meus Açores, do mundo, não se construíssem e se descontruíssem todos os dias, eu não estaria aqui. E, pior, se eu não acreditasse nos Açores, não moraria aqui.
Os meus Açores, NB, são do mundo. Aceito e regozijo-me com isso. Mas são também meus. Disso, eu não prescindo.

gmarinho disse...

...olha e ainda bem que parte dos «teus» açores são agora «nossos» ;)

Rui Coutinho disse...

Mariana
Juro que continuei a tratar bem do teu Mehari.

frosado disse...

Eu andei com esse Mehari, que o Marcujá me emprestou!

Mariana Matos disse...

;)