eu queria dizer tantas palavras. palavras tantas. queria escrever um livro inteiro de palavras tantas. minhas. mas as palavras não são de ninguém. são livres. e há palavras de tudo, palavras de nada. há palavras secas nos lábios, em filas de espera, como nos supermercados; palavras que ficam penduradas como as teias das aranhas. palavras tantas. há palavras doidas, outras esmorecidas, palavras consumidas, palavras acesas, palavras que, mortas, são lembradas no movimento dos braços num esforço, esforçado, de vingar o eco das ditas ausentes. há palavras de silêncio, palavras de choro, palavras de ter por perto, de espírito aberto, palavras acentuadas, palavras sombrias, rasgadas, perdidas.
há palavras errantes. palavras paradas no centro da alma. palavras que partem, palavras que ficam, palavras que vão, palavras que vêm. palavras que ardem. palavras de mares, palavras de matos, palavras de mãe, palavras de pai. há palavras reluzentes, palavras baixinhas, palavras nas pontas dos pés, palavras em escadotes, palavras que trepam, palavras que descem. há palavras tantas. palavras trocadas por palavras. palavras vestidas de palavras. palavras em palavras, palavras por palavras, palavras com palavras, palavras de palavras. palavras. as palavras com que tu falavas. palavras tantas. palavras. pa(i) lavras.
"E um dia os homens descobrirão que esses discos voadores estavam apenas estudando as vidas dos insectos..." Mário Quintana
domingo, maio 08, 2005
sábado, maio 07, 2005
Por causa disto...

...lembrei-me disto:
"(...) São os Açores. É, para o comum dos continentais, a trapalhada geográfica que o nome Ilha abrevia. Para os Açorianos desterrados, é o berço, o amor, são as reminiscências, a família e, na esfera dos desejos que se criam mais ao peito, a tumba, a cova para o sono de que nunca mais se acorda e que o mar ali eternamente vigia:Sinto-me às vezes rei nalguma ilha
Tendo ao pé um leão familiar( Antero, Soneto.)
(...)
Os continentes exercem sobre ele uma fascinação singular. Atravessa isolado a infância e a adolescência, e muitas vezes a mocidade, a virilidade, e a velhice o vêm encontrar no mesmo ponto,- as suas quatro paredes de pedra basáltica e traquítica. Mas um dia vem para muitos em que o feitiço do mar já não cede, e ei-lo então a bordo do barco dos emigrantes ou em demanda das metrópoles carregadas de sedução. Assim cumpre o açoriano o seu secular destino. Por toda a parte se desenvolve e se adapta, e,- coisa singular - , já não é o mesmo homem aparentemente fatalista, lento de voz e meneios, que parece vergar na ilha sob o peso inclemente dum avatar geográfico. A sua adaptação não é cómoda, mas vigorosa e seguida de um rejuvenescimento salutar.(...) Esta conferência integra-se num plano de reabilitações regionais cuja iniciativa pertence à Associação Académica de Coimbra e que visa acordar na alma dos estudantes um inteligente amor às suas terras de origem (...) Mas há também nestas conferências uma função de exemplaridade que se dirige, não às capacidades de intervenção regional, de cada um, à sua preparação de procurador ou de munícipe, mas a elementos mais profundos, mais largamente humanos. E, nesse caso, o que há a fazer é mostrar, como um homem, nado e criado num ponto que se furta aos grandes meios de comunicação e de labuta, ao poder sugestivo de uma civilização energética, imediata e concentrada, enriquece o temperamento que se lhe talhou na terra a ponto de chegar aos mais altos resultados de pensamento e conduta. Para os Açores, esse homem foi Antero. (...) Foi um açoriano e um português, mas acima de tudo foi um homem. O seu regionalismo e o seu nacionalismo são pois um digno exemplar, que todos devemos somar.(...) Descontadas as argalhas de uma vida que se circunscreve a nove ilhas, nove minúsculos e pouco seguros apoios da frágil planta humana, a alma do ilhéu exprime-se pelo mar. O mar é não só o seu conduto terreal como o seu conduto anímico. As Ilhas são o efémero e o contingente: só o mar é eterno e necessário.(...)Quando o açoriano, certo de que procurou realizar neste mundo o ideal da humanidade que o exemplo de Antero lhe oferece vir que se estende para ele a mão direita de Deus - que saiba dizer, atravessando
Selvas, mares, areias do deserto,
Dorme o teu sono coração liberto
Dorme na mão de Deus eternamente"
excertos de " O Açoriano e os Açores" - Conferência realizada na Associação Académica de Coimbra a 13 de Fevereiro de 1928, in Vitorino Nemésio, Estudo e Antologia, [ por Maria Margarida Maia Gouveia], IAC, 1986, pp 317-329.
Isto não é um caso de açorianite aguda. É de homem livre.
Bom Fim de Semana
II
E era uma vez este homem
que era um chevrolet
casado com uma mulher de vidro
que era uma colher de prata
Tempos depois sobreveio uma zanga
que era uma criança nua
entre umas tábuas de passar a ferro
e dois elevadores lindíssimos
Metrónomo (disseram eles)
Verdadeira saudade pernilonga
o pára-raios pôs-se a esfardar romanticamente o toldo
de uma máquina de escrever disposta para o amor às quatro no
interior de um quarto
que era uma planície redonda semeada de vírgulas violeta
com um pequeno garfo nas costas
que era o amanhecer que é uma árvore
na boca de uma mosca de veludo rosa
Metrónomo metrónomo (disseram eles ainda)
é uma árvore é uma pedra que vai começar o terceiro canto?
É a aflição dos outros, meu amor.
Lembro-me de tudo como se fosse hoje
as crianças brincavam nos jardins
com um pequeno garfo nas costas
sem dúvida o mesmo de há bocado
e até era domingo vê lá tu
de repente apareceste muito devagar a meu lado
arrastando sem esforço dois aparadores baratíssimos
ai! minha tristeza não era uma barca
breve houve lapidações em série
com um ligeiro clic de chaufagem aberta
todos os meus irmãos começaram a andar velozmente para trás
pobres dos meus irmãos que será feito deles e de nós que fizemos?
Imossível saber-se até onde irá connosco a nossa confiança
Ficaste, mão que aperto todas as manhãs para atravessar incólumes
os espaços vazios
Ficaste, peito sangrento do mundo largada para o sol entre os bichos
e eu
meu único amor meu amor meu múltiplo amor meu
tu que és uma mesa redonda enamorada dos seus próprios círculos
um alcaide sem discos um maço de cigarros
que se descobriu flor
que se descobriu água
que se abriu de repente
que gritou de repente
que implantou na minha vida de repente a carola perfeita
da desorganização
Não me encontrarás como um anel na curvatura I - Z do teu dedo
mindinho
nem na treva que exalta os teus cabelos
nem no espantoso hall da tua testa fechada iluminadíssima
encontrar-me-ás numa nuvem de escamas milimétricas em torno da
tua boca
com toda a força principal na boca
ou nesta casa que é um homem morto
rodeado de rostos sempre translúcidos
- Onde está o homem que era um chevrolet
casado com uma vírgula de amianto?
Certo e sabido que anda sobre as águas que o matei sem querer
estas estrelas brilham com tal nitidez
que acabam sempre por tornar-se suspeitas
Não importa transfigurá-lo-ei em poderoso egípcio
Abracadabra! Vram! Abracadabra!
Os teus olhos estão belos como a lua dos rios exteriores
Mário Cesariny
E era uma vez este homem
que era um chevrolet
casado com uma mulher de vidro
que era uma colher de prata
Tempos depois sobreveio uma zanga
que era uma criança nua
entre umas tábuas de passar a ferro
e dois elevadores lindíssimos
Metrónomo (disseram eles)
Verdadeira saudade pernilonga
o pára-raios pôs-se a esfardar romanticamente o toldo
de uma máquina de escrever disposta para o amor às quatro no
interior de um quarto
que era uma planície redonda semeada de vírgulas violeta
com um pequeno garfo nas costas
que era o amanhecer que é uma árvore
na boca de uma mosca de veludo rosa
Metrónomo metrónomo (disseram eles ainda)
é uma árvore é uma pedra que vai começar o terceiro canto?
É a aflição dos outros, meu amor.
Lembro-me de tudo como se fosse hoje
as crianças brincavam nos jardins
com um pequeno garfo nas costas
sem dúvida o mesmo de há bocado
e até era domingo vê lá tu
de repente apareceste muito devagar a meu lado
arrastando sem esforço dois aparadores baratíssimos
ai! minha tristeza não era uma barca
breve houve lapidações em série
com um ligeiro clic de chaufagem aberta
todos os meus irmãos começaram a andar velozmente para trás
pobres dos meus irmãos que será feito deles e de nós que fizemos?
Imossível saber-se até onde irá connosco a nossa confiança
Ficaste, mão que aperto todas as manhãs para atravessar incólumes
os espaços vazios
Ficaste, peito sangrento do mundo largada para o sol entre os bichos
e eu
meu único amor meu amor meu múltiplo amor meu
tu que és uma mesa redonda enamorada dos seus próprios círculos
um alcaide sem discos um maço de cigarros
que se descobriu flor
que se descobriu água
que se abriu de repente
que gritou de repente
que implantou na minha vida de repente a carola perfeita
da desorganização
Não me encontrarás como um anel na curvatura I - Z do teu dedo
mindinho
nem na treva que exalta os teus cabelos
nem no espantoso hall da tua testa fechada iluminadíssima
encontrar-me-ás numa nuvem de escamas milimétricas em torno da
tua boca
com toda a força principal na boca
ou nesta casa que é um homem morto
rodeado de rostos sempre translúcidos
- Onde está o homem que era um chevrolet
casado com uma vírgula de amianto?
Certo e sabido que anda sobre as águas que o matei sem querer
estas estrelas brilham com tal nitidez
que acabam sempre por tornar-se suspeitas
Não importa transfigurá-lo-ei em poderoso egípcio
Abracadabra! Vram! Abracadabra!
Os teus olhos estão belos como a lua dos rios exteriores
Mário Cesariny
Última Vontade
Todas as noites adormeço
com um marulho de vagas nos ouvidos.
Trago do berço esta canção de embalo,
e já nem distingo se é do mar
ou se guardei em mim a sua música,
suave como a brisa das manhãs de Outubro,
ou dura, acutilante como a insónia
de esperar - e não esperar cousa nenhuma.
Mar!
devolve-me a tua presença viril,
cerra-me outra vez - e para sempre -
no abraço puro das tuas águas.
E canta, adormece-me,
conta-me histórias do meu avô baleeiro,
fala-me da viagem de meu pai
quando uma barca o levou, ainda menino,
até um porto da outra margem do mundo.
Ah! arraste-me a vida por todos os exílios,
nos desolados continentes hostis
ou nas cidades tentaculares e tumultuosas
- nunca me deixe a tua nítida lembrança,
vivas tu sempre no meu tino!
E, lá para o fim,
se nenhum navio me quiser a bordo
para a viagem de quem volta de coração vazio,
peguem na morte do que fui,
nu como nasci,
e levem-me até fora do porto mais próximo:
Sejas tu, assim, amigo Mar,
no fundo frio das tuas algas e peixes insensíveis,
a última cama de paz onde me deite!
Pedro da Silveira in Fui ao Mar buscar Laranjas 1, DRAC, 1999.
Fui ao mar buscar laranjas
que é cousa que lá não tem;
fui enxuto e vim molhado,
nem siquer vi o meu bem.
Do Cancioneiro Popular Açoriano
com um marulho de vagas nos ouvidos.
Trago do berço esta canção de embalo,
e já nem distingo se é do mar
ou se guardei em mim a sua música,
suave como a brisa das manhãs de Outubro,
ou dura, acutilante como a insónia
de esperar - e não esperar cousa nenhuma.
Mar!
devolve-me a tua presença viril,
cerra-me outra vez - e para sempre -
no abraço puro das tuas águas.
E canta, adormece-me,
conta-me histórias do meu avô baleeiro,
fala-me da viagem de meu pai
quando uma barca o levou, ainda menino,
até um porto da outra margem do mundo.
Ah! arraste-me a vida por todos os exílios,
nos desolados continentes hostis
ou nas cidades tentaculares e tumultuosas
- nunca me deixe a tua nítida lembrança,
vivas tu sempre no meu tino!
E, lá para o fim,
se nenhum navio me quiser a bordo
para a viagem de quem volta de coração vazio,
peguem na morte do que fui,
nu como nasci,
e levem-me até fora do porto mais próximo:
Sejas tu, assim, amigo Mar,
no fundo frio das tuas algas e peixes insensíveis,
a última cama de paz onde me deite!
Pedro da Silveira in Fui ao Mar buscar Laranjas 1, DRAC, 1999.
Fui ao mar buscar laranjas
que é cousa que lá não tem;
fui enxuto e vim molhado,
nem siquer vi o meu bem.
Do Cancioneiro Popular Açoriano
sexta-feira, maio 06, 2005
TESTE
Your #1 Match: INFJ |
The Protector You live your life with integrity, originality, vision, and creativity. Independent and stubborn, you rarely stray from your vision - no matter what it is. You are an excellent listener, with almost infinite patience. You have complex, deep feelings, and you take great care to express them. You would make a great photographer, alternative medicine guru, or teacher. |
via maluquices profissionais
quinta-feira, maio 05, 2005
Ainda o Pensador Açoriano
O que é ser um Pensador Açoriano?
Pensador Açoriano é quem vive nos Açores? Quem vive noutro lado, mas é Açoriano? Quem é " amigo dos Açores"? Afinal de contas, o que é ser um Pensador Açoriano?
O Pedro responde à minha pergunta e eu respondo-lhe pelo princípio verbal e substantivo, ou seja respeitando, por acção e palavra, as suas sempre muito estimadas reacções.
O Choque de Gerações, programa da nossa RTP, a Açores, é um programa, ao qual, desde o início, estava inerente o facto de ir ter presente, a nova geração de pensadores açorianos. Isto foi dito explícitamente pelo seu apresentador.
O CdG foi uma inovação na nossa RTP, é gravado numa ilha açoriana e apresentado por um Açoriano. Escolha ou Fatalidade? Deixo ao teu critério a resposta.
Se o que se pretende é levantar questões, discutir novas ideias, em suma, apresentar novos projectos, por mim, óptimo. Pense-se os Açores. Mas isso, caro Pedro, não é ser pensador açoriano, isso é pensar os Açores. E, obviamente, que nunca te direi que Pedro Mexia ou Francisco José Viegas não podem pensar os Açores. É claro que podem. Podem e Devem. Porque não? Mas não são pensadores Açorianos. A questão está é aqui. Tu ou eu se fossemos participar num programa como o Choque de Gerações sobre, por exemplo, a Madeira, não éramos pensadores madeirenses! Pensávamos a Madeira, pois naturalmente que sim. E se fosse o Canadá? Éramos pensadores canadianos? Não, Pedro, pensávamos o Canadá. E se fosse a China? Pensadores Chineses? Não, Pedro, pensávamos a China.
A questão é simples.
Quando Tabucchi, Romana Petri, Maria Orrico ou Raul Brandão escrevem sobre os Açores estão a pensar nos Açores ( a escrever sobre os Açores ), mas não são pensadores Açorianos. E, sim, é claro que há uma diferença entre estes quatro escritores e Vitorino Nemésio, Joel Neto e Nuno Costa Santos, por exemplo. Eles pensam os Açores e são açorianos.Vitorino Nemésio, Joel Neto e Nuno Costa Santos são pensadores açorianos.
Lamento Pedro, mas na minha questão não está insinuado qualquer tipo de questão a não ser esta: uma coisa é pensar os Açores, direito que me parece, inerente a todos quantos queiram pensar esta região, chineses, alemães, ingleses, franceses; a outra, completamente diferente, é ser pensador açoriano. Qualquer pessoa pode pensar os Açores, assim como qualquer pessoa pode pensar Cabo-Verde, mas isso não faz dessa pessoa um Pensador Açoriano ou Cabo Verdiano.
A minha questão levanta-se, obviamente, em relação ao CdG, por causa da expressão utilizada. Se tu próprio até encontras nela um certo ridículo presumo que, pela naturalidade, de alguns dos seus comentadores, então, parece-me, que não tenho muito mais a dizer sobre o assunto.
A não ser que, nada disto te deve perturbar, porque, se não sabes, ficas a saber, eu não me acho melhor que ninguém, por ser açoriana, a questão é, se quiseres linguística, pensar os Açores não é ser pensador Açoriano. Mais, também considero que as pessoas que participam nos programas que vejo são “(…) independentemente do local de nascimento, pessoas interessadas em reflectir sobre múltiplos aspectos da vida alguns deles relacionados com os Açores (…).”
Isto para mim seria o suficiente. Mas, ao contrário de ti, caro Pedro, eu não acredito que ser açoriano seja acaso, escolha e, muito menos, fatalidade.
Pensador Açoriano é quem vive nos Açores? Quem vive noutro lado, mas é Açoriano? Quem é " amigo dos Açores"? Afinal de contas, o que é ser um Pensador Açoriano?
O Pedro responde à minha pergunta e eu respondo-lhe pelo princípio verbal e substantivo, ou seja respeitando, por acção e palavra, as suas sempre muito estimadas reacções.
O Choque de Gerações, programa da nossa RTP, a Açores, é um programa, ao qual, desde o início, estava inerente o facto de ir ter presente, a nova geração de pensadores açorianos. Isto foi dito explícitamente pelo seu apresentador.
O CdG foi uma inovação na nossa RTP, é gravado numa ilha açoriana e apresentado por um Açoriano. Escolha ou Fatalidade? Deixo ao teu critério a resposta.
Se o que se pretende é levantar questões, discutir novas ideias, em suma, apresentar novos projectos, por mim, óptimo. Pense-se os Açores. Mas isso, caro Pedro, não é ser pensador açoriano, isso é pensar os Açores. E, obviamente, que nunca te direi que Pedro Mexia ou Francisco José Viegas não podem pensar os Açores. É claro que podem. Podem e Devem. Porque não? Mas não são pensadores Açorianos. A questão está é aqui. Tu ou eu se fossemos participar num programa como o Choque de Gerações sobre, por exemplo, a Madeira, não éramos pensadores madeirenses! Pensávamos a Madeira, pois naturalmente que sim. E se fosse o Canadá? Éramos pensadores canadianos? Não, Pedro, pensávamos o Canadá. E se fosse a China? Pensadores Chineses? Não, Pedro, pensávamos a China.
A questão é simples.
Quando Tabucchi, Romana Petri, Maria Orrico ou Raul Brandão escrevem sobre os Açores estão a pensar nos Açores ( a escrever sobre os Açores ), mas não são pensadores Açorianos. E, sim, é claro que há uma diferença entre estes quatro escritores e Vitorino Nemésio, Joel Neto e Nuno Costa Santos, por exemplo. Eles pensam os Açores e são açorianos.Vitorino Nemésio, Joel Neto e Nuno Costa Santos são pensadores açorianos.
Lamento Pedro, mas na minha questão não está insinuado qualquer tipo de questão a não ser esta: uma coisa é pensar os Açores, direito que me parece, inerente a todos quantos queiram pensar esta região, chineses, alemães, ingleses, franceses; a outra, completamente diferente, é ser pensador açoriano. Qualquer pessoa pode pensar os Açores, assim como qualquer pessoa pode pensar Cabo-Verde, mas isso não faz dessa pessoa um Pensador Açoriano ou Cabo Verdiano.
A minha questão levanta-se, obviamente, em relação ao CdG, por causa da expressão utilizada. Se tu próprio até encontras nela um certo ridículo presumo que, pela naturalidade, de alguns dos seus comentadores, então, parece-me, que não tenho muito mais a dizer sobre o assunto.
A não ser que, nada disto te deve perturbar, porque, se não sabes, ficas a saber, eu não me acho melhor que ninguém, por ser açoriana, a questão é, se quiseres linguística, pensar os Açores não é ser pensador Açoriano. Mais, também considero que as pessoas que participam nos programas que vejo são “(…) independentemente do local de nascimento, pessoas interessadas em reflectir sobre múltiplos aspectos da vida alguns deles relacionados com os Açores (…).”
Isto para mim seria o suficiente. Mas, ao contrário de ti, caro Pedro, eu não acredito que ser açoriano seja acaso, escolha e, muito menos, fatalidade.
Escola de Escrita
O chá com torradas desta manhã mostrou-me isto. Desconhecia a existência. Mea Culpa!
Diz-nos Margarida que:
"Antes de iniciar uma crónica, deve saber para que meio se destina e adaptar o seu tom ao meio em questão. Mas o tema escolhido também define o tom escolhido. E o autor deve ter a capacidade de escolher um tom adequado ao assunto. Depois, deve manter o tom escolhido, do princípio ao fim do texto."
A isto a Margarida chama Estilo.
Entre isto, a Quinta das Celebridades, o Teste da Fidelidade ( versão soft lacrimal na Sic, versão hard choque na TVI) poucas léguas vão....
Diz-nos Margarida que:
"Antes de iniciar uma crónica, deve saber para que meio se destina e adaptar o seu tom ao meio em questão. Mas o tema escolhido também define o tom escolhido. E o autor deve ter a capacidade de escolher um tom adequado ao assunto. Depois, deve manter o tom escolhido, do princípio ao fim do texto."
A isto a Margarida chama Estilo.
Entre isto, a Quinta das Celebridades, o Teste da Fidelidade ( versão soft lacrimal na Sic, versão hard choque na TVI) poucas léguas vão....
??????????
O que é ser um Pensador Açoriano?

Pensador Açoriano é quem vive nos Açores? Quem vive noutro lado, mas é Açoriano? Quem é " amigo dos Açores"? Afinal de contas, o que é ser um Pensador Açoriano?

Pensador Açoriano é quem vive nos Açores? Quem vive noutro lado, mas é Açoriano? Quem é " amigo dos Açores"? Afinal de contas, o que é ser um Pensador Açoriano?
quarta-feira, maio 04, 2005
As minhas filhas

bonecas
Eu queria escrever qualquer coisa de bonecas. Uma estória, uma frase, qualquer coisa, que, por alguns momentos, fosse uma homenagem às minhas filhas de quando eu tinha 5, 6,7,8,9,10 anos. Eu que fui a orgulhosa mãe daquelas que, hoje, estão sentadas na prateleira do “Quarto de Brinquedos” e que só saem quando chega cá a minha prima mais nova. Mas não consigo. Podia lembrar o dia em que bati na Madalena, porque ela não comia a sopa primorosa de cenoura, cascalho e girassol; ou então falar de quando as minhas primas me deixaram as suas filhas e eu as enchi de areia e as pequenas ficaram incapazes de abrir e fechar os olhos. Mas não era bem isto que queria dizer. Podia falar do João, um boneco que tive, aos 7 anos, e que se perdeu no cais, caiu ao mar, e eu chorei qual desgraçada mãe, vendo-o afundar-se sem remédio, mas depois fiquei logo boa, quando me ofereceram a Rita, a quem, passados dois meses cortei o cabelo a ver se crescia. Nunca cresceu, mas deram-me a Patrícia, que tinha uma fita no cabelo igual à que eu usava na altura, cor de laranja, um laço enorme…As minhas bonecas. Na minha casa havia e ainda há uma casa de bonecas, que o meu pai me fez e eu morava nela e tinha um marido pescador e fazedor de barcos, que sempre comigo, sem eu o ver, era o pai de crianças que iam e vinham, conforme a minha disposição. Tive como todas as meninas da minha idade um bebé careca e também cuidei dos bebés das minhas primas, depois do desastre da areia. Confiaram em mim, nada de mal aconteceu.
Num Natal, chegou-me a Matilde, vinha do Pico, com uma filha e uma mala. A minha irmã tinha igual e as minhas primas também, depois, como sempre, apareceram no mercado os cães da Matilde, a casa da Matilde, os sapatos de baile da Matilde, enfim, tudo para a Matilde. Dei papa à Matilde, substitui-a pela Joana, que caiu do sofá vermelho em casa da minha avó e lesionou-se no pescoço. O meu avô levou-a ao Hospital das Bonecas. Ficou como nova.
As minhas bonecas que hoje estão sentadas na prateleira do quarto aqui ao lado são imensas, de cabelos compridos, amarrados ou não, laços, vestidos da mãe, quando tinha os seus anos mais novos e cabia num vestido de 56 cm, casacos da tia com um mês; calças do tio, quando tinha um ano. As minhas bonecas na prateleira do quarto aqui ao lado chegaram do Pico, do Faial, de S. Jorge, de Lisboa, da América.
Eu queria falar das minhas bonecas, dos seus sorrisos traquinas, do seu andar desajeitado com falta de pilhas e olhos pestanudos, bochechas pintadas com pó vermelho e uns ares sempre felizes. Queria falar delas, das suas manias, dos seus cabelos penteados, das suas roupas coloridas, das suas confidências ao meu ouvido; queria falar dos seus ares de donas do mundo, dos seus berços de vime, dos que o avô me fazia de madeira e das suas malas que chegavam da papelaria embrulhadas em papel castanho nos dias dos anos, mas não sei como.
Os laços, os traços, as mãos de borracha, os olhos nunca cansados, os rostos sempre a sorrir, prontas para passear nas cadeiras de pano e nas rodas de esfera, nada queixosas, sempre contentes. Tive bonecas de pano, bonecas de lã, bonecas de louça, bonecas de papel, bonecas de barro, bonecas.
Nunca nenhuma das minhas filhas chorou.
A primeira Trombeta
[Não querendo transformar este meu blog num poemário, deixo aqui, mais este poema que julgo ser lindíssimo. Mais um dos que eu gostava de escrever...]
Para a Carol Loff
Atravessamos descalços a planície vermelha.
Em cada cela um condenado sonha,
Deitando a cabeça loira no ombro da distância
E fumando navios.
Em cada porto um veleiro fantasma aparelha para a grande viagem proibida,
Carregado de esperanças e palavras que não têm guarida em nenhum sítio da terra.
Atravessamos descalços a planície vermelha.
O sinal dos tempos apunhala-nos a memória.
Nada reconhecemos
A não ser a face impassível que nos ameaça,
A sombra das idades que nos persegue,
A terrível violência da voz que nos acusa
E nem o sangue dos séculos consegue aplacar.
Atravessamos descalços a planície vermelha.
Onde quer que paremos, espera-nos o cavaleiro da armadura de ferro,
Trespassando-nos o corpo com seus olhos de fogo
E não deixando nem um segredo aos nossos corações aflitos,
Nem um soluço às nossas gargantas estranguladas.
Atravessamos descalços a planície vermelha.
As cidades destruídas dormem ao relento do ódio,
As sentinelas de sal vigiam o repouso petrificado dos deuses,
A noite assiste em silêncio
A todos os crimes perpetrados no horizonte.
Atravessamos descalços a planície vermelha.
Os agoiros do céu predizem-nos os passos,
Os indícios do vento gelam-nos os ossos.
Despojados de lágrimas devoramos o medo
Enquanto em cada porto um veleiro se afunda,
Enquanto em cada cela se assasina um anjo.
Poema de José Carlos Ary dos Santos, incluído nos livros A Liturgia do Sangue (1963) e Obra Poética (1994).
Para a Carol Loff
Atravessamos descalços a planície vermelha.
Em cada cela um condenado sonha,
Deitando a cabeça loira no ombro da distância
E fumando navios.
Em cada porto um veleiro fantasma aparelha para a grande viagem proibida,
Carregado de esperanças e palavras que não têm guarida em nenhum sítio da terra.
Atravessamos descalços a planície vermelha.
O sinal dos tempos apunhala-nos a memória.
Nada reconhecemos
A não ser a face impassível que nos ameaça,
A sombra das idades que nos persegue,
A terrível violência da voz que nos acusa
E nem o sangue dos séculos consegue aplacar.
Atravessamos descalços a planície vermelha.
Onde quer que paremos, espera-nos o cavaleiro da armadura de ferro,
Trespassando-nos o corpo com seus olhos de fogo
E não deixando nem um segredo aos nossos corações aflitos,
Nem um soluço às nossas gargantas estranguladas.
Atravessamos descalços a planície vermelha.
As cidades destruídas dormem ao relento do ódio,
As sentinelas de sal vigiam o repouso petrificado dos deuses,
A noite assiste em silêncio
A todos os crimes perpetrados no horizonte.
Atravessamos descalços a planície vermelha.
Os agoiros do céu predizem-nos os passos,
Os indícios do vento gelam-nos os ossos.
Despojados de lágrimas devoramos o medo
Enquanto em cada porto um veleiro se afunda,
Enquanto em cada cela se assasina um anjo.
Poema de José Carlos Ary dos Santos, incluído nos livros A Liturgia do Sangue (1963) e Obra Poética (1994).
terça-feira, maio 03, 2005
Búzio

Búzio
sei que nunca viste o oceano,
que nunca olhaste a onda sobre a onda,
que nunca fizeste castelos para o mar ser forte.
mas sei que já viste o coração das coisas,
que já tocaste a ferida nos nossos braços,
que já escreveste para sempre o nome da terra.
por isso te digo que vou levar-te o mar
na concha das minhas mãos, azulíssimo,
para que nele descubras o meu nome
entre os seixos os búzios os rostos que já tive.
Vasco Gato, Um Mover de Mão, Assírio e Alvim, 2000.
segunda-feira, maio 02, 2005
Estória Simples
Cheguei hoje. Achei a cidade mais velha, os carros apertados de encontro às paredes sujas e as artes, perdidas no rastreio do olhar dos cidadãos para os corpos desnutridos dos pintores da Rua Augusta. Assustaram-me os (teus) olhos (do Tejo), chorando à partida das gaivotas, por cima da Ponte 25 de Abril, como se acabasse a Liberdade, ao chegarmos ao lado de lá, à outra banda. Abaixo do meu prédio, onde antes era uma loja de skates, abriu um chinês, mais um, vende papagaios de corda, garrafas de vidro azul para decorar com bolinhas, do tipo berlindes, com ervinhas dentro, e naperons brancos dobrados para sofá, disse-me a senhora chinesa, contente. A loja do canto que era de uma Florista de dentes amarelos e brincos de oiro fingido, onde se vendia “Florências dos Açores”– como dizia no cartaz – deu lugar a uma loja de pulseiras e colares de fantasia, e em frente, onde antes era o Frango, está uma casa de jogos.
Nas ruas, há pessoas sentadas ao lado de cães, com cartazes escritos a pedir ajuda ao “povo português” por não terem dinheiro e quererem comer. Nos autocarros, as pessoas vão caladas e os versos do concurso da Carris, que depois vieram nos pacotes de café, deram lugar às multas aplicáveis aos passageiros. (Saio de Lisboa com os olhos multados. Escrevo “olhos multados”)
A minha vizinha do 4º andar C morreu o mês passado e o marido, o Sr. Raimundo, esteve, estes cinco dias de manhã e à tarde, sentado à porta, à espera dela. (A minha Arlinda que queria tanto ir aos Açores. Foi ao mercado comprar abóboras.) Hoje ainda deve lá estar.
Voltei à cidade passados dois anos. Está quase tudo igual com excepção do nascimento do Rodrigo, que acabado de chegar me mandou uma mensagem, dizendo que esperava a minha visita nos Olivais. Encontrei-o pequenino como todos os bebés de um dia, tão pequenino que nem cabe no fatinho que lhe comprei, o mais pequeno da loja. Não lhe serviu, ainda.
No autocarro, de volta a casa, um homem chama ladrões e vigaristas à presença dos passageiros, dizendo que foi por causa deles que foi para a guerra, porque eles queriam dinheiro, os malandros que não trabalhavam, e que queriam matar os jovens portugueses. Gritos e Choro repentino, como um menino. Duas senhoras, muito bem postas, de olhos pintados do azul da moda, estendem-lhe uma moeda. Deitou-a fora quando, ao mesmo tempo, abandonamos o 46.
Já não há a igreja protestante na minha rua. Levaram o seu Jesus para outro lado, diz-me a porteira de olhos cor de rubi e estrelas prateadas num casaco de ganga achinesado. Sorrio.
Gostei de voltar a Lisboa de ver os (teus) olhos do Tejo pendurados no Cristo Rei, de visitar o Restaurante da Bárbara na Av. Miguel Bombarda, onde ficava a sede do BCA. Trouxe quilos de livros, duas ou três coisas esquecidas lá de casa e uma Cegonha de Benfica a bailar nos (teus) olhos do Tejo, que ficam aqui, para sempre.
Eu espero, pacientemente, pelas abóboras.
Nas ruas, há pessoas sentadas ao lado de cães, com cartazes escritos a pedir ajuda ao “povo português” por não terem dinheiro e quererem comer. Nos autocarros, as pessoas vão caladas e os versos do concurso da Carris, que depois vieram nos pacotes de café, deram lugar às multas aplicáveis aos passageiros. (Saio de Lisboa com os olhos multados. Escrevo “olhos multados”)
A minha vizinha do 4º andar C morreu o mês passado e o marido, o Sr. Raimundo, esteve, estes cinco dias de manhã e à tarde, sentado à porta, à espera dela. (A minha Arlinda que queria tanto ir aos Açores. Foi ao mercado comprar abóboras.) Hoje ainda deve lá estar.
Voltei à cidade passados dois anos. Está quase tudo igual com excepção do nascimento do Rodrigo, que acabado de chegar me mandou uma mensagem, dizendo que esperava a minha visita nos Olivais. Encontrei-o pequenino como todos os bebés de um dia, tão pequenino que nem cabe no fatinho que lhe comprei, o mais pequeno da loja. Não lhe serviu, ainda.
No autocarro, de volta a casa, um homem chama ladrões e vigaristas à presença dos passageiros, dizendo que foi por causa deles que foi para a guerra, porque eles queriam dinheiro, os malandros que não trabalhavam, e que queriam matar os jovens portugueses. Gritos e Choro repentino, como um menino. Duas senhoras, muito bem postas, de olhos pintados do azul da moda, estendem-lhe uma moeda. Deitou-a fora quando, ao mesmo tempo, abandonamos o 46.
Já não há a igreja protestante na minha rua. Levaram o seu Jesus para outro lado, diz-me a porteira de olhos cor de rubi e estrelas prateadas num casaco de ganga achinesado. Sorrio.
Gostei de voltar a Lisboa de ver os (teus) olhos do Tejo pendurados no Cristo Rei, de visitar o Restaurante da Bárbara na Av. Miguel Bombarda, onde ficava a sede do BCA. Trouxe quilos de livros, duas ou três coisas esquecidas lá de casa e uma Cegonha de Benfica a bailar nos (teus) olhos do Tejo, que ficam aqui, para sempre.
Eu espero, pacientemente, pelas abóboras.
Saber Viver é vender a alma ao Diabo
Gosto dos que não sabem viver,
dos que se esquecem de comer a sopa
((Allez-vous bientôt manger votre soupe,
s... b... de marchand de nuages?)
e embarcam na primeira nuvem
para um reino sem pressa e sem dever.
Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
transborda e escorre, já rio no chão,
e gosto de quem lhes segue o sonho
e lhes margina o rio com árvores de papel.
Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.
Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há tanto homem!»
(Dá Veloso-o-Frecheiro um grande grito?..)
Gosto do Napoleão-dos-Manicómios,
da Julieta-das-Trapeiras,
do Tenório-dos-Bairros
que passa fomeca mas não perde proa e parlapié...
Passarinheiros, também gosto de vocês!
Será isso viver, vender canários
que mais parecem sabonetes de limão,
vender fuliginosos passarocos implumes?
Não é viver.
É arte, lazeira, briol, poesia pura!
Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo;
não me bandeio (que eu já vi esse filme...)
com gerações perdidas.
Mas senta aqui, mendigo:
vamos fazer um esparguete dos teus atacadores
e comê-lo como as pessoas educadas,
que não levantam o esparguete acima da cabeça
nem o chupam como você, seu irrecuperável!
E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia...
Por que não põem cifrões em vez de cruzes
nos túmulos desses rapazes desembarcados p'ra
[morrer?
Gosto deles assim, tão sem futuro,
enquanto se anunciam boas perspectivas
para o franco frrrrançais
e os politichiens si habiles, si rusés,
evitam mesmo a tempo a cornada fatal!
Les portugueux...
não pensam noutra coisa
senão no arame, nos carcanhóis, na estilha,
nos pintores, nas aflitas,
no tojé, na grana, no tempero,
nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e
... sont toujours gueux,
mas gosto deles só porque não querem
apanhar as nozes...
Dize tu: - Já começou, porém, a racionalização do
[trabalho.
Direi eu: - Todavia o manguito será por muito tempo
o mais económico dos gestos!
*
Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim...
Alexandre O´Neill,
Poesias Completas 1951/1981, Biblioteca de Autores Portugueses, Imprensa Nacional Casa da Moeda
dos que se esquecem de comer a sopa
((Allez-vous bientôt manger votre soupe,
s... b... de marchand de nuages?)
e embarcam na primeira nuvem
para um reino sem pressa e sem dever.
Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
transborda e escorre, já rio no chão,
e gosto de quem lhes segue o sonho
e lhes margina o rio com árvores de papel.
Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.
Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há tanto homem!»
(Dá Veloso-o-Frecheiro um grande grito?..)
Gosto do Napoleão-dos-Manicómios,
da Julieta-das-Trapeiras,
do Tenório-dos-Bairros
que passa fomeca mas não perde proa e parlapié...
Passarinheiros, também gosto de vocês!
Será isso viver, vender canários
que mais parecem sabonetes de limão,
vender fuliginosos passarocos implumes?
Não é viver.
É arte, lazeira, briol, poesia pura!
Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo;
não me bandeio (que eu já vi esse filme...)
com gerações perdidas.
Mas senta aqui, mendigo:
vamos fazer um esparguete dos teus atacadores
e comê-lo como as pessoas educadas,
que não levantam o esparguete acima da cabeça
nem o chupam como você, seu irrecuperável!
E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia...
Por que não põem cifrões em vez de cruzes
nos túmulos desses rapazes desembarcados p'ra
[morrer?
Gosto deles assim, tão sem futuro,
enquanto se anunciam boas perspectivas
para o franco frrrrançais
e os politichiens si habiles, si rusés,
evitam mesmo a tempo a cornada fatal!
Les portugueux...
não pensam noutra coisa
senão no arame, nos carcanhóis, na estilha,
nos pintores, nas aflitas,
no tojé, na grana, no tempero,
nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e
... sont toujours gueux,
mas gosto deles só porque não querem
apanhar as nozes...
Dize tu: - Já começou, porém, a racionalização do
[trabalho.
Direi eu: - Todavia o manguito será por muito tempo
o mais económico dos gestos!
*
Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim...
Alexandre O´Neill,
Poesias Completas 1951/1981, Biblioteca de Autores Portugueses, Imprensa Nacional Casa da Moeda
domingo, maio 01, 2005
Dia da Mãe
Hoje celebra-se o dia da mãe.
Apesar de o festejarmos (sempre!) a 8 de Dezembro deixo aqui um dos poemas mais bonitos que conheço sobre as "mães". A minha é uma fofa (de frio).
Por que Deus permite
Que as mães se vão embora?
Mãe não tem limite,
É tempo sem hora,
Luz que não apaga
Quando sopra o vento
E chuva desaba,
Veludo escondido
Na pele enrugada,
Água pura, ar puro,
Puro pensamento.
Morrer acontece
Com o que é breve e passa
Sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
É eternidade!
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
De tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do mundo,
Baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
Mãe ficará sempre
Junto do seu filho
E ele, velho embora,
Será pequenino
Feito grão de milho.
Carlos Drummond de Andrade
Apesar de o festejarmos (sempre!) a 8 de Dezembro deixo aqui um dos poemas mais bonitos que conheço sobre as "mães". A minha é uma fofa (de frio).
Por que Deus permite
Que as mães se vão embora?
Mãe não tem limite,
É tempo sem hora,
Luz que não apaga
Quando sopra o vento
E chuva desaba,
Veludo escondido
Na pele enrugada,
Água pura, ar puro,
Puro pensamento.
Morrer acontece
Com o que é breve e passa
Sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
É eternidade!
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
De tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do mundo,
Baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
Mãe ficará sempre
Junto do seu filho
E ele, velho embora,
Será pequenino
Feito grão de milho.
Carlos Drummond de Andrade
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