
1907-2009
"E um dia os homens descobrirão que esses discos voadores estavam apenas estudando as vidas dos insectos..." Mário Quintana


Uma Nova Oportunidade para os Açores
Os resultados eleitorais de domingo último deram uma vitória expressiva ao Partido Socialista nos Açores. Pela primeira vez na história da autonomia regional, o PS governará a maioria das câmaras municipais e juntas de freguesias nos Açores.
A meu ver a vitória obtida deve-se, para além dos factores, óbvios, específicos da governação de cada localidade, a uma estratégia regional do PSD/Açores profundamente errada. A líder do PSD/Açores desde cedo optou por colocar as câmaras e juntas de freguesia, afectas ao seu partido, a fazerem oposição ou concorrência ao Governo dos Açores. Chegamos inclusive a observar candidatos autárquicos do PSD a criticar o Governo Regional em vez dos seus adversários directos. Esta posição de oposição intransigente cansou as populações, que se sentiram prejudicadas com o permanente desperdício de dinheiros públicos e por sentirem também que o que motivava os autarcas sociais-democratas, não era o bem comum, mas sim a derrota da governação socialista.
Outra lição que as populações, como sempre com razão, dão a todos nós políticos, é que ter muita obra feita não é razão suficiente para ganhar eleições. As pessoas reconhecem se as obras públicas têm ou não utilidade ou qualidade quando são feitas. Os cidadãos percebem facilmente que a piscina X ou o pavilhão Y, foram feitos ou mal feitos, sem possibilidade de serem pagos num futuro próximo, comprometendo durante muitos anos a economia do concelho. Um bom exemplo do que digo, é o facto dos projectos vencedores no concelho da Povoação e de Vila Franca preconizarem a boa gestão das contas públicas e do pagamento a fornecedores a tempo e horas como sua principal bandeira, em contraste com os projectos derrotados que tinham deixado as câmaras em falência técnica.
Penso que após a análise destes resultados eleitorais, é tempo de falarmos de um novo ciclo de governação local que agora se inaugura e das oportunidades que temos pela frente. Com uma nova direcção na Associação de Municípios dos Açores e de São Miguel, temos finalmente a possibilidade de pensarmos e resolvermos conjuntamente vários problemas graves que individualmente nunca poderiam ser resolvidos. Falo de sinergias entre o Governo dos Açores e as câmaras municipais que podem levar ao reforço de economias de escala, que tanta falta nos fazem, e ao aparecimento de novos sectores de actividade económica como a gestão de lixos e da água.
Sempre me fez alguma confusão o facto da maioria das câmaras dos Açores encararem a gestão dos lixos como um triste prejuízo inevitável, sem perceberem que se trabalharem juntos podem vir a ter matéria-prima suficiente para tornar este problema num negócio rentável que crie economia, mais emprego e externalidades positivas.
Em relação à gestão da água, sempre me pareceu ridículo que alguns autarcas pensassem que as nascentes e os lençóis de água que nos abastecem, abrangem religiosamente os limites concelhios. Numa terra tão rica em água, parece-me quase irresponsável não pensar que a gestão do abastecimento às populações deva ser feita de uma forma conjunta.
Têm agora a oportunidade de fazer as coisas bem-feitas.
O tempo o dirá...
A Santanização de Ponta Delgada
Sou crítico da actual gestão camarária de Berta Cabral há muito tempo. Quanto a mim, esta câmara municipal cometeu muitos erros estruturantes que, mais cedo ou mais tarde, todos os açorianos vão ter de pagar do seu bolso. Não falo, apenas, da história ridícula de construir um parque de estacionamento ao lado de outro já feito nas Portas do Mar, enquanto o outro lado da cidade desespera por um parque de estacionamento há muito prometido.
Falo, também, da actual câmara de Ponta Delgada ter permitido e incentivado a construção em altura em praticamente tudo que é sitio nas zonas envolventes da cidade, cedendo ao lóbi do betão, que, como contrapartida, aumenta as receitas da câmara municipal, para que esta promova festas e festinhas no campo de São Francisco. O resultado desta política explica o desinvestimento na reabilitação do centro da nossa cidade. Hoje, qualquer transeunte facilmente repara que o centro da cidade praticamente não tem habitantes, que existem centenas de edifícios fechados, em ruínas ou gravemente afectados estruturalmente pelas térmitas. Hoje, ninguém quer restaurar edifícios antigos para viver, apesar da sua centralidade, pelo facto de existirem centenas de casas e apartamentos, muitas vezes de fraca qualidade, à venda a preços muito competitivos na periferia da cidade. Com esta receita não auguro bom futuro, nem para o ramo imobiliário, nem para o centro da nossa cidade. Estamos perto do limite de construção.
Mas, verdadeiramente, o que mais me atormenta na gestão da actual edil, é o facto de estar a utilizar os dinheiros camarários para se catapultar para as próximas eleições regionais. O maior exemplo disso é o mais recente anúncio da líder do PSD de construir um centro de arte contemporânea em Ponta Delgada. O anúncio, só por si, não me assustava, não fosse o facto de o Governo dos Açores já ter em marcha a construção do centro de arte contemporânea de São Miguel, na Ribeira Grande, e do arquitecto contratado pela câmara ser um ilustre senhor de 101 anos de vida que será pago a peso ouro, à semelhança do que aconteceu em Lisboa com o Parque Mayer aquando da gestão de Santana Lopes.
Precisamos de dois centros de arte contemporânea em São Miguel? Temos arte contemporânea açoriana que chegue para dois edifícios desta dimensão? Não poderia o dinheiro dos nossos impostos ser gasto na reabilitação urbana do centro da cidade?
Chega de disparates dra. Berta Cabral! Deixe de santanizar a nossa cidade! Já vimos os resultados em Lisboa, não queiramos ver o mesmo em Ponta Delgada.