Há duas semanas, a Rosa fez anos e apareceu na televisão com o seu ar calmo de sempre. Aliás, pensando bem, não me lembro de vê-la de outra maneira. Nem mesmo, quando vivia na casa ao lado da nossa, no Verão, e tomava conta de uma senhora de mais idade do que ela. Sempre que aparecia na janela para nos dizer adeus ou à porta para dar rebuçados, vinha com os mesmos óculos de massa e um lenço no cabelo esbranquiçado. Nunca conheci a Rosa nova, porque quando eu nasci a Rosa já existia e tinha a idade de uma avó. Morava numa casa muito pequenina com duas janelas e uma porta, aonde eu nunca entrei. Parecia uma casa de bonecas sem árvores à volta, mas com velas, que iluminavam as janelas quando era de noite e a lua começava a nascer por detrás do morro, ao pé da ponta do pico da ilha do Pico.
Sete dezenas de anos exactos nos separam. Quando a vi na televisão há duas semanas, falando com a jornalista e explicando que aquele era o dia dos seus anos, que ia festejá-lo com a família e com amigos da freguesia, depois de fazer o jantar para o sobrinho, com quem, agora mora, quase que me esqueci que a Rosa completava 101 anos, tal era o desembaraço com que falava, mexendo com a cabeça e sorrindo, diante da alegria de completar mais um ano. Estava de pé no jardim, de lenço, de óculos e trazia lenha nos braços para acender o forno, disse, enquanto sorria para a câmara de televisão.
Habituei-me à presença da Rosa com o passar do tempo. Às vezes, dou-lhe boleia para a missa, a que vai, religiosamente, aos Domingos; outras vezes visita-nos nas férias para levar laranjas ou figos. Abraçou-me sempre nos momentos mais difíceis da minha pequena vida e procurou explicar-me, na sua muito própria crença, o porquê de tantos e variados percalços. Nunca entendi nada disso, mas consenti sempre.
O ano passado, nos seus 100 anos, apareceu (também) muito bonita a falar na Televisão, com o seu sorriso grande e brilhante, onde eu sempre soube, que se lhe pedisse ou se precisasse, cabia por inteiro. Nessa vez, há um ano, foi a primeira vez, que a ouvi falar de si própria, explicando à jornalista que então a entrevistou que “nunca fez mal a ninguém”…
Tenho sempre e cada vez mais saudades do tempo de vigia da Rosa, da época em que ela nos espreitava para ver se nós nos portávamos bem e nós lhe cantávamos alegremente: “oh rosa, arredonda a saia”. Um outro tempo para nós, mas certamente o mesmo para ela, que ainda vai estar, sei e sinto, caminhando nas ruas para baixo e para cima com os seus óculos de massa de sempre, o lenço na cabeça, o casaco de malha e a sua passada curta, em Novembro de 2008 à espera da Televisão. E, quando eles chegarem, a Rosa vai sorrir e explicar que nunca fez mal a ninguém. Minha querida Rosa. Feliz Natal.
"E um dia os homens descobrirão que esses discos voadores estavam apenas estudando as vidas dos insectos..." Mário Quintana
A apresentar mensagens correspondentes à consulta os anos da rosa ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens
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sábado, dezembro 08, 2007
Os anos da Rosa
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Parabéns à Rosa da Quitéria
sexta-feira, dezembro 22, 2006
CARTA
“ (…) não devemos malquerer às mitologias assim,(Herberto Hélder, in Revista Via Latina, 1991)
porque são das pessoas
e, neste assunto de pessoas,
amá-las é que é bom(…)”
Querido.
Começo por te chamar querido, porque o és e, também, porque acredito que, sempre que quisermos chamar isso aos outros devemos fazê-lo, sob pena de perdermos a vez. A seguir, quero saber se estás bom e se passaste bem o ano, que está quase a acabar?
Pode que me respondas. Pode que me escrevas outra carta. Portei-me bem este ano. (Ponto).
Eu gosto tanto de receber uma carta, de abrir o envelope e ver as palavras todas arrumadas nas linhas. Gosto de desfiá-las uma a uma, como contas de um rosário ou, então ervilhas ou, ainda, pequenas pérolas de um colar rebentado há muitos anos na garagem da avó. Guardado como um segredo. (As pérolas caindo no chão como lágrimas. Fazendo aquele som, que só as onomatopeias sabem pronunciar).
Agora, sim, depois de tudo isto; de te perguntar pelo ano passado e o novo, de te dizer que me portei bem e de divagar um bocadinho como quem saltita num rolo de fita e agarra a rima num golpe de esgrima; passava a dizer-te como foi bom receber resposta às cartas que te escrevi ano após ano. Cartas para todos os gostos. Cartas sem linhas. Linhas com cartas. Cartas com quadrados; cartas enquadradas; cartas cortadas; incompletas; repetitivas. Os rebuçados que te mandei nas cartas. As gamas e as cores dos tecidos das saias e das blusas para as minhas bonecas; a lista infindável de nomes de livros e discos. Muitas cartas. A todas elas tive resposta em 1994. Tinha 18 anos. E, por falar em idades e datas, lembrei-me dos anos da Rosa.
Não sei se algum dia a Rosa te escreveu uma carta. Mas, conhece-la de certeza. A Rosa fez 100 anos o mês passado e apareceu muito bonita a falar na Televisão, com o seu sorriso grande e brilhante; onde sempre soube, que se lhe pedisse, cabia lá por inteiro. Talvez tenha sido a primeira vez, que a Rosa falou de si. Ela, que como explicou à senhora jornalista que a entrevistou: “nunca fez mal a ninguém”. E depois, não sei se viste (?), “bailhou” a Chamarrita. Tenho saudades do tempo de vigia da Rosa; da época, em que ela te substituía na tarefa de ver se nos portávamos bem. Eu, os meus irmãos e primos. (Minha querida Rosa. Digo). E lembro-me dela na Televisão e imagino-a nas ruas para cima e para baixo. Os seus óculos de massa, o lenço sempre na cabeça, o casaco de malha, a sua passada curta e um amor, um amor muito grande para dar sem “fazer mal a ninguém”.
Não quero parecer-te muito desorganizada por andar sempre atrás e adiante, mas ainda antes de recuar a 1994, quando me mandaste a carta escrita, a resposta a todas as outras cartas de há anos, naquele dia chuvoso e triste, deixa-me falar-te da primeira boneca que eu tive: a “Joana”. Não sei se te lembras? Deste-ma em 1979 e ela caiu de cima do sofá de casa do avô para o chão e ficou logo sem tomar leite. Tive que ta devolver. Voltou, meses depois, como nova. Fui buscá-la a casa dos avós, numa caixa, que imitava uma caminha e tinha um laço vermelho. Era linda. Ainda a tenho. Pode ser que o bebé que chega para o ano queira brincar com ela. Não sei. Se não quiser, pode brincar com o mini vermelho, que me deste, quase igual ao do pai, que era branco, ou então, com a bola de lã vermelha, que me ofereceste, quando nasceu o meu irmão. (Uma bola à Benfica). (Como vês, 2006 tem sido um ano de emoções). Voltando, a 1994 e à resposta da tua carta escrita em papel reciclado, uma folha. Foi um consolo. Abri-la e ler-te. Saber que não te vendo, estavas lá tu a ver-me. Saber que me ouvias, que me vias, que me lias; saber o que procurava há tantos anos. E, agora, deves estar a perguntar a ti próprio o que me leva, passados 12 anos, a escrever-te esta carta?
Tenho que me voltar a lembrar como é que se voa a fingir? Onde moram as fadas que curam as doenças? De que cor são os casacos dos duendes? Quem é a Carochinha? Como é que eu chego à lua?
E sei, que a estas perguntas, só tu me podes responder.
De modo que, a carta que me escreveste em 1994 e que era uma resposta a todas as que te enviei, desde 1978; primeiro com a letra da mãe e depois com a minha, vinha escrita pela tua mão e era curta e enorme ao mesmo tempo. Chegou num dia triste de Inverno. Ainda não era Natal. “Querida. Existe e Insiste. Um beijo do velho de Natal.” (Janeiro, 1994). A carta era esta.
Por isso, estou, com a devida distância - como o poeta -: “Com medo de o perder nomeio o mundo (…)” (Vitorino Nemésio) e é esta a razão para te escrever. (Simples, parece-me). Preciso de saber tudo o que já te disse e mais coisas. Onde se encontram as poções mágicas do Asterix e os espinafres do Popeye? As estrelas dormem?
Preciso de saber (também isto) para continuar a existir e a insistir. Por isso, aqui estou e aqui deixo escrito: com medo de te perder, nomeio-te: Querido Velho de Natal. (E chamo-te “querido” para não perder a vez )…
Texto publicado no dia 22 de Dezembro de 2006, jornal Açoriano Oriental, Suplemento de Natal
segunda-feira, abril 03, 2006
Croniqueta XVII ou modus fifendi ou então gravatas há muitas, oh Fífão

Andam desatinados, os nossos Fífias com a chegada da Primavera. Não sabem se hão-de comprar um descapotável; se por outra, hão-de investir em roupa nova para parecerem mais moços e menos velhos. Não são propriamente homens novos/idosos. Pelo contrário, estão gastos; cabelos ralos e olheiras. Para não falar nas rugas, que quais cachoeiras lhes caiem olhos abaixo como escorregas de crianças, amolgados pela dureza do sol. Fífias cheios de fífalhadas, exercendo o maior poder quando fífando aqui e acolá conjugam o verbo Fífer, cujo gerúndio progride fífando lentamente como se não fífessem sem fífar.
Os Fífões, essa espécie em nascimento bruto, cavalgante, dando à costa como navios de descobridores, cheios de si, como almofadas de pena de pato. Os Fífões, essa raça, de loiros e gordos e magros e altos e baixos, mereciam ter um Sindicato. Armados de livrarias debaixo do braço, cada sovaco uma prateleira; cada passo um verso de poesia moderna; desastrados como um jogo de ping-pong; armados em frutos silvestres, rareando na torcida do vime da cesta, que os guarda, quais peças preciosas do jogo de xadrez. Os Fífões, esses gnomos do saber; apregoando-se clientes fieis das lojas do Parque Atlântico, da Modalfa, da Belarte ou da Sapataria Rosa.
Os Fífões cuja gravata fífada assume papel distinto nas “encomendas” que, em discurso, nos deixam boquiabertos com tamanha asneirada saída de uma boca só. Paciência. Mesmo assim, gosto de os ver de asas esbatidas arrumadas nos casacos a dizer Gant. Gosto de os ver de bicos caídos à espera do beijo doce da loira que avança desde a porta da rua, num vestido vermelho sangue, apertando nos quadris; gosto de os ver cheios de ramelas, quando acordados de um sono profundo de anos, esbracejando, pelo passar do tempo, em que, por descuido, fraqueza ou, pura e simplesmente, burrice deixaram correr os dias dos calendários, sentando-se como espectadores, enquanto se pintavam quadros noutras mãos e com outros pincéis. Gosto de os ver armados em “críticos de arte” muito lavados e engomados; como se tivessem sido passados a ferro; com ar reciclado e emproado; cheirando a bons perfumes, vestindo boas camisas, mas dizendo sempre as mesmas asneiras. Gosto. Gosto de os ver comendo gelados em baldes, a novidade do fim-de-semana, com as mulheres gordas e os filhos, quais bichinhos de aquário, parasitas de peixe graúdo, esquecido por detrás das rochas no tempo da frota azul. Gosto de os ver todos juntos. Apetece pegar num camaroeiro e apanhá-los a todos para deitar aos gatos que, inexplicavelmente, andam esfomeados. Mas não se pode. Respeitá-los. Sempre. Enquanto, os Fífões arrotam postas de pescada; tecem categorias disto e daquilo como se a vida fosse como os postais que, no Natal, sentados nos seus sofás de veludo ditam à mulher obediente; os Fífões não vivem, subsistem. Sempre nervosos, preocupados com a armação dos óculos, de cuja segurança depende a vista maior ou menor do acontecimento; afagados por mãos alheias, cujas obras de festim e relíquia, as maiores e melhores do lugar, lhes ofuscam as vistas. Os Fífões, essa espécie, que anda em bando; vestindo camisas caras compradas nas feiras, de cada vez que alguém vai a Lisboa e traz a encomenda das calças para os pequenos, o top para a mulher e a camisa para o emprego; de preferência de tons amarelos para condizer com as calças bege e as gravatas fífadas, cuja largura, se estivermos atentos, vemos ser bem diferente das dos demais. Assistem aos fados, às danças espanholas da companhia “y” de copo de sumo na mão e guardanapo para limpar a baba sempre que ela fala; os Fífões vão aos bailes de sapatos apertados e calças descosidas nas algibeiras, à espera de que o flash os apanhe numa atitude aparentemente desprevenida, apertando a barriga da mulher para dentro a ver se ela fica mais pequena.
Os Fífões fífiamente descansados; de narizes amolgados nas vitrines do comércio tradicional mostram os dentes aos comerciantes; mas fogem quando eles vêm à porta. Almoçam nos restaurantes das cidades e das vilas gabando as mesas vazias, desculpando-as com o ar puro. Os Fífões não pedem desculpa, quando dão um encontrão na menina ou no menino que perde o balão; porque os Fífões são mais que os Fífias. São Fífões. E, por cada degrau, que sobem tornam-se mais flutuantes. E Fífam-se antes que ela lhes puxe as orelhas. Saem em bando nos seus casacos tirylenne e as suas camisas de tom amarelado; porque a Primavera lhes dá o toque de passarinhos que, no fundo gostavam de ser, para, todas as manhãs lhe cantarem à janela, a serenata da Primavera….como se o mundo fosse só dela.
sábado, janeiro 28, 2006
Amandar ou a falta que faz um cigarro - (a)variações às 3 da manhã

O vento é uma espécie de onda de lume sem asas; um mascarado do tempo, um louco, que asfixia a ventania, quando, porque narciso, se quer ver sozinho, diante do espelho de água, depois da tempestade.
O vento carece de segredos, porque os sussurra à brisa, quando, às sextas-feiras à noite a quer engatar para levar ao baile de Carnaval. Vestido a rigor, de peúgas vermelhas até ao joelho e chapéu à dandy, o vento, no seu sapato polido e gravata bem amarrada, dá ares de Shakespeare num To be or not to be, bem ritmado, mas mal decorado e mal pronunciado. Fanhoso, derruba as palavras, como se as cuspisse, julgando-se grande, porque é vento… e está disfarçado de Tempo. Mau Disfarce.mau tempo. minúsculo. azedo. chuvoso e frio. apanha-nos desprevenidos num ziguezaguear de guarda-chuvas e gabardines. Descarado, avarento, rude. Aparece derepente...por ele era Carnaval todo o ano.
Não passa de um mascarado do Tempo ou de Tempo. De ar ventoso, mal barbeado, como os sujeitos da baixa, de carteira debaixo dos braços e vozes sibilitantes, engatando as moças com frases tiradas dos almanaques à venda na “Roda da Sorte”, a tabacaria que dá dinheiro até à morte. Como sopra, meu Deus. Deselegante. Sorve a chuva e faz barulho como os tipos das cervejarias à beira da rua, com as meias brancas turcas a aparecer atrevidas na beira das calças, sorvem a "spita" ou como mastigam a asita de Pipi e se lambuzam com a cerveja.
O vento não tem nome. É António e mora numa casinha em São Roque. Tem uma mota de caixa e um capacete de pala verde e cor-de-laranja, comprado no "Jordão", antes da loja se tranformar em Restaurante. Ou então chama-se Maria Ivone e vende gravatas e boxers para os namorados que no dia 14 de Fevereiro vão receber cuecas aos corações. O vento chama-se qualquer coisa Silva e é português, mora em sítios todos e aos Domingos veste as calças Levis da Feira e os Ténis ( se em Lisboa); as sapatilhas ( se em Ponta Delgada) e é um tal galgar centros comerciais com a Bola debaixo do Braço e a mulher à vista de dois assobios: Onde vais, Judite, que eu não ganho para isso!
O vento é um bébé de berço. Um Martim. Um Tomás ou um Rodrigo se tiver agora uns dois ou três meses. Uma Inês. Uma Maria ou uma Sofia se for menina. Uma Vanessa. Uma Micaela ou uma Lissandra se agora tiver 6 anos. Um Miguel. Um António ou um Hugo se andar pelos 10 anos.
Sabe de cor os desenhos do Panda, os jogos todos das PS2 e por aí fora; as roupas novas da Barbie, as escovas de esticar cabelos...O vento é um mascarado do tempo. Já disse.
É um bailarino. De fato Branco e camisa Preta. Apologista do "Todos diferentes todos iguais"; eleitor. votante. Tem partido. É militante. Sabe dos seus direitos.
O vento é um monsieur de saxofone, um tocador de trombone, um menino que vende gelados no Rossio, um cão que ladra, uma tigela que rola no jardim e bate na tijoleira sem nos deixar pregar olho; um pescador; um blogger de blog em branco porque
opá não tenho ideias.
Um escritor de versos tristes e bóina. Um amador de Teatro de bochechas pintadas e dentes pretos; um dentista; um médico; um navegador. O vento tem qualquer coisa de ti, de mim, da gente.Um gesto, um feitio, um rebuliço, tocador de piano; às de espadas, produtor, ensaiador. O vento é um Don Juan. Quando ele chega com o seu passo doble pausado, o seu olhar caliente, o seu charme a derramar, eu ai sofro, sofro, sofro, mas não lhe dou atenção. O vento é tolo de vaidade.
O vento é cultural. Lê livros. Vai a Exposições. Cinemas. Teatros. Varre tudo, espreita tudo, cita este, cita aquele; escreve, dita, não copia. O vento não é plagiador. É artista. E é vê-lo declamar nas manhãs de nevoeiro. Nuvem a nuvem, mancha a mancha cada palavra um sinal de que é vento, vendaval, ventania, ventoso
a (in)ventar.
Faça chuva. Faça Sol. O vento é vento de Tempo mascarado. De fato vestido pronto para ensaiar, administrar a orquestra das Flores, das árvores, dos nossos cabelos que leva pelo ar. O vento é o frio que fica quando morremos daqui e nos abrimos à descoberta do céu, deixando espaços vagos no Livro do Destino, que como diz o cantor, às vezes tem erros de impressão.
O vento é leitor de jornais. Lê-os todos. Vê a Sic, a Tvi, a 2:, o canal 1; a RTP/A, a TVNET; ouve a RDP, a TSF; a Atlântida, a Horizonte, todas, tudo. Ler jornais é saber mais. Ele acredita. Vai à missa. Igreja adentro. Cabelos despenteados. Ouve a Palavra. Conhece-a. Deus por ti, seja louvado. Amen. Sabe Latim. Distingue. Latim de latino americano. Não se dá a gaffes dessas. Estuda. É atinado.
O vento é um mascarado do tempo. Este encosto na escrita.Esta vontade de dizer muitas coisas e, no fim, não dizer coisa nenhuma. Devotos. Às voltas. Os Votos. Revoltos. Pasmados. Atentos. Sedentos. Curiosos. Esse. Essa. Aquele. O outro. Sussuro. Vento. Mascaro-me de tempo e voo. Sou vento. Ando. Andarilho.
- A tua ilha fica em que andar?
Não sei. Não anda. Desanda. Tresanda. Amanda.
- Amanda? Mas isso é verbo?
Não. É nome. Amanda. Este Carnaval vou mascarar-me de Amanda!
Mas como?
Vou amandar-me como o vento…
Já são 4 da manhã. O vento continua "resaluto", soprando...inchado de orgulho, bate nas persianas, empurra a relva que está grande. O gato Canoa suspira. Não há noite que possa dormir descansado sem levar dois ou três açoites da Rosa que temos plantada ao pé da porta...
Uma chatice.
O vento é um mascarado.
Troça de mim. Faz-me num oito. Acaba comigo.
Embaraço. Desfaço o laço. Traço. Baço.
Não tenho aço.
Não caço. Não faço.
quarta-feira, março 08, 2006
Croniqueta XII ou o Fífia é uma Sopa da Avó
O Fífia é uma bomba sem detonador, que cai na água e não faz espuma; uma escova sem pêlo, um carro sem acelerador, cuja única função é servir de vigia para as brincadeiras dos garotos. O Fífia é um ladrão do meu tempo descontraído, um esgar que observo, um traço, um manifesto, um cigarro fumado até ao filtro, uma marca rafeira de roupas, que a tia não usa porque é foleiro, mas a vizinha compra porque é mais barato. O Fífia é um ser animado pelas palmas dos outros. Sorri, aplaude e grita ao milímetro, como um reflexo do que os outros fazem. Chora para agradar tão facilmente como canta ou aplaude a pior cena de Teatro. O Fífia é um pano de cena para cima e para baixo, tapando mistérios, ocultando buracos, escondendo armas, às quais não tem acesso, não sabe do calibre, mas aguenta as provas e, se preciso, ainda se assume culpado, mesmo não o sendo. O nosso Fífia tem cara de óculos, cabeça de esferovite e um ar de feijão verde cheio. O nosso Fífia fechado numa caixa e chocalhado não faria barulho para não acordar os vizinhos. Gosta de passar despercebido, diz, mas não passa. Sobretudo, quando anda por aí de laçarote, cabelo no ar e fato amarelo. Diz ele, que está experimentando as fatiotas para o Carnaval de 2006, que vai ter muito mais camiões na avenida e ele próprio vai num. Mas não vai querer uma T-Shirt a dizer Anima. Para si prefere uma que diga: Soul. Assim como assim, se a batalha das Limas é cartaz turístico, quanto mais não vale uma palavra em inglês? Uma palavra que os estrangeiros, todos pingados, da cabeça aos pés, apontem e gritem: Soul! E tenham esperança. O Fífia pensa-se alento das pessoas desesperadas, guia dos infelizes, por isso, todos os domingos, na missa das 18 horas, entoa cânticos da sua autoria, à porta da igreja, para testar a sua voz e aquecer os presentes, que irritados, o mandam calar.
Vai, agora, concorrer para os Jogos florais. Fingir que se chama Anacleto e que tem 14 anos e concorrer com uma rima estúpida a que dá o título de 1º neto. Assim:
O Anacleto
É o primeiro neto
Do Felizberto
E está fofo com tal acontecimento. Parece uma chalupa à deriva no mau tempo no canal, agarrada pelas cordas dos braços; parece uma esferovite em forma de bolacha, quando desanca na mãe, porque esta lhe tenta explicar o que é uma sextilha e ele grita, dizendo que sexta ilha pode muito bem ser Graciosa, mas que não rima com 1º neto. O Fífia é um kalkito; um Epá com gama desfeita no fundo; um guarda-sol de varas partidas; uma bola de futebol vazia, um vendedor de gelados sem os nossos preferidos. O Fífia não tem morada, tem estada; de um lado ao outro da rua, passa por todas as vivendas, aonde cães de pêlo escovado e gancho no cabelo passeiam nos colos das donas, que hoje, estão particularmente, felizes: é dia da mulher. Os maridos vão buscar os filhos, levá-los ao judo e ao futebol, enquanto elas, de rosa na lapela, escutam conferências sobre as suas fraquezas.
Sabendo que a mãe não é dessas coisas, o Fífia já pensou. Vai levar-lhe uma Sopa da Avó. Um dia por ano, ela tem direito a sonhar.Comeremos todos. E ela até vai pensar que a mesa está cheia de netos, sorri pensativo, enquanto dispensa uma rosa, gentilmente oferecida, por um Homem de cesta no braço.
Vai, agora, concorrer para os Jogos florais. Fingir que se chama Anacleto e que tem 14 anos e concorrer com uma rima estúpida a que dá o título de 1º neto. Assim:
O Anacleto
É o primeiro neto
Do Felizberto
E está fofo com tal acontecimento. Parece uma chalupa à deriva no mau tempo no canal, agarrada pelas cordas dos braços; parece uma esferovite em forma de bolacha, quando desanca na mãe, porque esta lhe tenta explicar o que é uma sextilha e ele grita, dizendo que sexta ilha pode muito bem ser Graciosa, mas que não rima com 1º neto. O Fífia é um kalkito; um Epá com gama desfeita no fundo; um guarda-sol de varas partidas; uma bola de futebol vazia, um vendedor de gelados sem os nossos preferidos. O Fífia não tem morada, tem estada; de um lado ao outro da rua, passa por todas as vivendas, aonde cães de pêlo escovado e gancho no cabelo passeiam nos colos das donas, que hoje, estão particularmente, felizes: é dia da mulher. Os maridos vão buscar os filhos, levá-los ao judo e ao futebol, enquanto elas, de rosa na lapela, escutam conferências sobre as suas fraquezas.
Sabendo que a mãe não é dessas coisas, o Fífia já pensou. Vai levar-lhe uma Sopa da Avó. Um dia por ano, ela tem direito a sonhar.Comeremos todos. E ela até vai pensar que a mesa está cheia de netos, sorri pensativo, enquanto dispensa uma rosa, gentilmente oferecida, por um Homem de cesta no braço.
terça-feira, abril 09, 2013
“Pim pam pum…”
Se fosse vivo Almada Negreiros faria 120 anos. Na Calçada da Glória, em Lisboa, estão sete gigantes painéis que dão início a um ano inteiro de celebração e homenagem à sua obra.
No fim de semana foi apresentada a Galeria de Arte Urbana, pela Comissão encarregue de celebrar o acontecimento, que conta com o apoio de várias entidades, como a Câmara Municipal de Lisboa, entre outras. Haverá tertúlias, exposições, documentários, espetáculos, edições e reedições do “Manifesto Anti-Dantas”, um colóquio internacional e a inauguração de um monumento também de homenagem a um dos nossos maiores ícones culturais.
De todas as declarações que ouvi sobre o assunto, guardei a de Catarina Vaz Pinto, vereadora da Câmara Municipal de Lisboa. Perguntaram-lhe o que diria Almada Negreiros sobre o actual estado da arte em Portugal. Diria “Pim pam pum”, respondeu.
Já em 1995, Mário Viegas readaptou o “Manifesto Anti-Dantas” escrevendo e declamando a conhecida peça literária “Manifesto Anti-Cavaco”, no Teatro São Luís, em Lisboa.
É um texto de absoluta coragem frontal, que lido hoje, nestes dias turbulentos, nos faz lembrar que a razão de Mário Viegas se mantém, como a de Almada, viva e real. Não sei se tal circunstância nos deve alegrar ou fazer enfurecer, facto é que quer o Dantas de 1915, quer o Cavaco de 1995 não mudaram nada na imagem deste país que Cesariny queria que fosse “de bondade e de bruma”…
[“O Professor Aníbal Cavaco Silva nasceu para provar, que nem todos os que governam sabem governar.” – Mário Viegas]
Não somos. Nem de bondade, nem de bruma. Muito menos de “rosa de espuma” (do mesmo Cesariny). Somos reféns de prioridades que nunca foram as nossas. Vítimas dos que nos impõem a sua vontade, diante dos que indiferentes ou incapazes, assistem cúmplices ao degradar destes heróicos descobridores do nosso fim.
Já quase nada faz sentido nestes dias. Se é verdade que Pedro Passos Coelho reagiu de forma lamentável à decisão do Tribunal Constitucional, não é menos verdade que a restante oposição, enredada em jogos de palavras e outras tibiezas, não apresentou uma única solução capaz de dar esperança ao mais desesperado português.
Assim vamo-nos dividindo entre os que choram o país que já não somos, os que já nem Portugal no mundo conseguem ver e os que, entre uns e outros, desconfiam que possamos merecer um Portugal melhor, futuro e concretizado. Sem Dantas de espécie alguma a desempenhar papéis de importância séria.
Nota de Agenda: “Acordosdias” é o nome de uma exposição solidária de Arte Contemporânea, comissariada por Carlos Mota, de apoio à família Soares do Faial da Terra, Povoação. Inaugura dia 12 de Abril, às 18h30, na Academia das Artes, e estará patente ao público, entre as 15h e as 20h, até ao dia 14 de Abril. Não deixe de passar por lá.
Serenamente, jornal Açoriano Oriental, 9 de Abril
terça-feira, outubro 30, 2007
Outubro
Se não fosse o mar de Inverno a rebentar nos olhos das pessoas e o tempo a parecer que morre nas mãos mais depressa do que há três meses; se não fosse a chuva a escalar-nos a cara, de volta a baixo como as lágrimas de riso ou de tristeza (mais vagarosas as últimas) diria que talvez pudessem ainda ser inventadas novas formas de escrever Outubro. Mas, o mês é isto. Uma tonalidade amarela enche-nos a memória e os dias passam depressa até ao Novembro, que ameaça ser mais rijo (ou mais valente). Agora todas as folhas caídas destoam da cor dos passeios e, quando chegam ao chão fazem o barulho das palmas. Como, por vezes, acontece no Teatro, quando se acabam os papéis e cai o pano.
Dezembro não tarda e trará com ele o vermelho dos baldes da praia, onde antes era possível guardar o mar e uma praia inteira de castelos e conchas e, de quando em vez, pequenos reis (só de brincar). A mão da minha mãe a apertar a minha, o pé do meu pai calçado no chinelo e o vento de outro Outubro a levar-nos pelo ar.
Para o Suplemento de Cultura de Outubro convidei os colaboradores: Susana Rosa, Renata Botelho, João Henriques, Nuno Martins, Mário Homem; Alexandre Pascoal e Célia Machado. Destaco na agenda o Festival de Cultura, que decorre na Ilha Terceira – Outono Vivo – até ao dia 4 de Novembro; a Exposição de Eduardo Nery, no Centro Cultural da Caloura e a Exposição de Nina Medeiros na Academia de Artes.
Por fim, dedico este Suplemento aos que fazem anos hoje.
Boas Leituras e até Novembro.
Nota de Abertura, Suplemento de Cultura do jornal Açoriano Oriental, a 30/10/2007.
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fotografia Célia Machado
sexta-feira, abril 27, 2007
Para Joana
"Filha,
na areia movediça das palavras, eu tenho procurado, juro,
as que nasçam só nossas,
certas, insubstituíveis, insubmissas.
Com ternura lhes toco e as levo ao coração,
frias ou gastas quase sempre, de outros usos.
Como se fossem algas,
escorrem por entre os dedos que as seguram.
Outras, agarro-as bem, tinjo-as de sangue. São
as que me comovem.
Com elas choro e sigo a sua frustração de claunes que tornaram
[ainda mais triste cada infância.
Mas, persigo-as, sim, quero-as ainda, as palavras
trabalho-as
com a aplicação do alquimista.
E do athanor saem só pequenos peixes de ouro
que nada têm a ver com o mar que separa o velho galeão
que de gusanos
me construo
e o teu corpo de mulher que é preciso aceitar urgentemente.
Ou aceitar de outro modo:
como súbito se abrisse a porta da casa e lá fora estivesse caindo
[uma chuva quente que a todos nos molhasse de uma estranha doçura.
Ah, minha filha, com que rigor procuro
o sinal de sermos o que somos
neste rio sem margens
ou talvez nesta praia em cuja espuma quente
é possível molhar ritualmente os pés e as mãos e partir a correr
nus
em direcções opostas
sem nada sugerir
a morte nem a vida
apesar de ambas estarem sempre para chegar.
Ah, o que tenho procurado, juro.
E que inútil junto às frondosas árvores dos símbolos
mais doces mais íntimos mais ternos cruéis acusadores.
Também a esses os levo à altura do peito e os encontro escassos de forma.
Na bigorna não aguentam a violência apaixonada do ferreiro.
E, de novo, procuro entre nomes de flores cidades ou estrelas
e nem sequer nos empedrados rostos das catedrais que eu vi
encontrei nada que pudesse trazer para aqui
outras coisas que pudesse ir amontoando com o tempo
para ir compondo o poema, minha filha, que há dezasseis anos ando para te escrever
mas que não fui capaz
porque escusado é dizer que é dentro de mim que habita uma enorme rosa de fogo
que não se vê do lado das palavras ou das pedras."
Emanuel Félix
Fotografia e Poema citado na 1ª página do Suplemento de Cultura do Açoriano Oriental, que este mês contou com a colaboração de Célia Machado (fotos 1ª e 4 ªpágina), Lélia Nunes, Vitor Marques, Renata Correia Botelho, Miguel Rosa Costa, Ana Teresa Almeida e Mário Homem.
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Emanuel Félix
quinta-feira, dezembro 28, 2006
Aos Amigos
Por esta altura o velho de Natal já esteve nas vossas casas; prometendo voltar para o ano; escorregando pela chaminé abaixo ou, então, como me explicou a Rita, que tem 4 anos e mora num apartamento, furando o tecto com os seus sapatos especiais. Concordei. Afinal, que seria do Natal se não fosse a nossa imaginação? Felizmente que nem a Rita nem nenhuma das crianças que conheço dá muita importância à mãe Natal, essa figura que, agora não sei porquê (?), resolveu começar a aparecer. No meu tempo, a mãe Natal não acompanhava o velho de Natal na distribuição das ofertas. Só as renas. Nem se passeava com ele pelas ruas. Penso que essa novidade não veio acrescentar nada de interessante. A ver vamos.
Despeço-me aqui de 2006. Despedir um ano é das despedidas mais alegres. Creio. De uma forma ou de outra, mesmo que não os rebentemos, foguetes cairão sobre as nossas cabeças, fazendo com que, mesmo interiormente e inconscientemente, façamos planos para 2007. É humano.
Nunca gostei de despedidas. Mas, desta gosto. Despedir um ano não é a mesma coisa que despedir de um lugar ou de um amigo. Por isso também, quero dedicar esta nota de abertura aos meus amigos que “ficaram” em 2006. De alguns, consegui despedir-me. De outros, não tive ocasião. Mesmo assim são para eles estas linhas. Sendo certo que, como a Rita, eu ainda sou capaz de acreditar que, se puderem, eles hão-de furar o tecto da minha casa para me visitar. Daqui a três dias chega 2007. Para o novo ano, uns mais que outros, preparam artilharias de boa disposição, pastilhas de saúde ou bolachas de investimentos.
Sejam quais forem os planos dos leitores/colaboradores deste Suplemento, aos quais agradeço toda a colaboração e apoio, desejo um bom ano 2007. Portem-se bem. Ás vezes resulta…
Nota de Abertura publicada hoje, dia 28-12-2006 na edição do Suplemento de Cultura do jornal Açoriano Oriental
Colaboram nesta edição: Mónica Goulart, Susana Rosa, Mário Homem, António Melo Sousa e Nuno Barata. Fotografias: Paula Leal e Augusto Macedo.
sábado, março 11, 2006
Natália...

"(...)Acode-me um relato de geógrafos arábes que intruiu os navegadores portugueses na demanda dos mistérios do Poente. Li-o ontem num livro de Claude Derven (Les Açores) que um patrício me mandou com um ramo de hortênsias a jeito de boas-vindas:"Diziam que nas extremidades do Ocidente havia uma Ilha encantada que de sete em sete anos se mostrava aos navegadores que sulcavam essas paragens...Era uma Terra coberta de bruma, embalada no dorso das marés, a qual seria um oásis de ventura para quem lhes quebrasse o encanto."
Pergunto-me se as caravelas lusíadas te quebraram o encanto, ó minha ilha das névoas que velam o arcano do Ocidente. Ou, porventura, àqueles que julgaram descobrir-te capitaneando naus cobiçosas do dízimo do teu trigo, da tua cevada e tuas frutas, negaste o segredo que virginalmente guardas no fundo do mar?(...)"
Natália Correia, excerto de "Ponta Delgada, 6 de Setembro de 1975", in Não Percas a Rosa (diário e algo mais de 25/04/1975 a 20/12/1975), Lisboa, Editorial Notícias, 2ª edição, 2003, pp. 287/288.
terça-feira, maio 24, 2005
Arcanjo ou ladrão
Ou arcanjo ou ladrão.
Devorador
De perfumes,
De corpos
E de mitos.
Rei nos países interditos.
Conviva solitário do festim
Em que a noite me chama à sua mesa,
Pescador de silêncios e jardins
Na cidade terrível e acesa.
Ou arcanjo ou ladrão. Destruidor
Da imagem do outro que transporto
Tatuada no peito.
Rosa de carne azul que me deslumbra
Quando penetro a solidão com o sexo
Que a minha solidão tornou perfeito.
Assim vogo e arremeto pelos tempos,
Invisível Apolo citadino,
Falus de herói coroado de giestas,
Transgressor voluntário do destino,
Pé de cabra forçando o impossível,
Brisa azul esquivando-se entre os outros,
Com laivos de infinito nas passadas,
Lampejos de infinito nos olhos admiráveis
E flores de estrume a definir-me a testa
De Príncipe e Senhor dos intocáveis.
José Carlos Ary dos Santos
Poema incluído nos livros A Liturgia do Sangue (1963), Vinte Anos de Poesia (1983)e Obra Poética ( 1994)
Devorador
De perfumes,
De corpos
E de mitos.
Rei nos países interditos.
Conviva solitário do festim
Em que a noite me chama à sua mesa,
Pescador de silêncios e jardins
Na cidade terrível e acesa.
Ou arcanjo ou ladrão. Destruidor
Da imagem do outro que transporto
Tatuada no peito.
Rosa de carne azul que me deslumbra
Quando penetro a solidão com o sexo
Que a minha solidão tornou perfeito.
Assim vogo e arremeto pelos tempos,
Invisível Apolo citadino,
Falus de herói coroado de giestas,
Transgressor voluntário do destino,
Pé de cabra forçando o impossível,
Brisa azul esquivando-se entre os outros,
Com laivos de infinito nas passadas,
Lampejos de infinito nos olhos admiráveis
E flores de estrume a definir-me a testa
De Príncipe e Senhor dos intocáveis.
José Carlos Ary dos Santos
Poema incluído nos livros A Liturgia do Sangue (1963), Vinte Anos de Poesia (1983)e Obra Poética ( 1994)
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