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quinta-feira, junho 19, 2008

Croniqueta XLV ou o Fífia é um pinga amor (ou não é!) ou talvez seja...



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O Fífia é um pinga amor. Uma espécie de Romeu dos novos tempos, menos melodramático, mas tão dengoso como um Don Juan ou outra espécie dessas que a literatura universal retrata da cabeça aos pés. Werther de Goethe ou Eurico de Alexandre Herculano não lhe chegam aos calcanhares e, mesmo que chegassem, ele logo se diria superior. E toda a gente ia acreditar (porque era o Fífia quem dizia). Tem lábia, mas não tem mais nada.
Em andamento lembra um lagarto, esquivando-se entre as pedras da calçada, veloz, pata atrás de pata, rápido para não perder a vez ou não ser encontrado. O Fífia gostava de se perder nas ruas, sumir-se na multidão, esquivando-se aos recados da mãe e às repreensões das tias. Mas, nunca consegue. E muitas vezes, quando pensa que é desta, acontece-lhe como aos lagartos, deixa atrás o rabo a mexer, que é como quem diz, fica como os gatos, escondido, mas com o rabo de fora. E mexendo-se, leva logo. As tias não lhe perdoam e a mãe não o defende.
O Fífia é um pinga amor? Sim. Talvez. Fracalhote, é certo, mas esforçado. Esmera-se. Fala de Dante, de Camões, Fernando Pessoa. Diz que é escritor, músico e que também pinta quadros, além da manta. Quase ninguém acredita. E acham que ele é tudo menos pinga amor. É que, para a maior parte das pessoas, os pinga amor, até têm graça. Mas o Fífia? O Fífia não tem graça nenhuma.
E depois ele chora, choraminga muito, fingindo-se triste e só, abandonado como um periquito enjaulado, a quem cortaram as asas, por motivos de força maior. Não há quem consiga aguentar. Agora diz que este Verão vai procurar uma noiva. Quer casar rapidamente. A idade não o perdoa e ele também diz que não perdoa a idade. E di-lo tão sério, que muitas vezes pensamos, que vai brigar com a idade. Será que pensa que a idade é uma jovem ou uma mulher mais velha? Desconheço. Talvez vá (ou vaia, como ele diz) aceitar casar com a idade ou outra coisa qualquer. Matar a sua idade? Dele tudo se espera. Os mais mirabolantes raciocínios, que às vezes parecem ter saído da cabeça de uma criança de menos de seis anos, são normais no Fífia, para quem A Divina Comédia, não é, nada mais, nada menos, senão um livro de anedotas sobre deuses. E todos os dias, faça chuva ou faça sol, lá está ele, sentado na esplanada da sua rua, contando às pobres marlenes, às desgraçadas marias e às tontas beatrizes, mais uma anedota sobre Deuses ou histórias sobre a sua triste vida, que nunca começa na mesma data nem nunca acaba com a mesma noiva. Em meia hora, desmancha todos os seus pressupostos noivados, enquanto vão entrando e saindo do café, todas as flores mais belas do mundo. Diz ele.
Nós acreditamos, se quisermos ou, por via das dúvidas, se nos importarmos com isso...

domingo, março 23, 2008

Croniqueta LIII ou o Fífia tem uma certa pronúncia no andar...


A correr, ele assobia; a saltar, rufa como um tambor e a dormir, guincha.
Depois, das férias que passou em casa das primas, regressou no Sábado de Aleluia. Veio pior que o que estava e as tias andaram, mesmo, assustadas por vê-lo, durante todo o Sábado, a percorrer os cantos da casa, como fazem os cães, de nariz rente ao chão, abanando o rabo ao ritmo de uma música estranha, que as senhoras nunca tinham ouvido. A mãe diz que é normal, que são as saudades e que ele está, apenas, a reconhecer o seu espaço. Para não se zangarem com a irmã, as tias concordam. Que remédio.
Hoje, à hora do almoço, disse às tias e à mãe que tem um sonho novo; quer ser escritor de peças de teatro. Amador porque ama a arte de escrever. Também já decidiu quais as personagens principais da obra que vai adaptar: Maria Eduarda e Simão Botelho. Egas fica de fora, porque lhe lembra a Rua Sésamo e Afonso também fica, porque Zeca Afonso há só um, o da malta e mais nenhum, diz gritando.
Os outros entram todos. E, com patrocínio da Junta de Freguesia, vai escrever e publicar, em verso, uma peça que se chamará: “Amores de Perdição dos Maias no Ramalhete”, falada em mexicano com cenários a imitar o Rio de Janeiro.
Já pôs mãos à obra e, durante toda a tarde de Sábado, as tias narraram-lhe as obras, em uníssono, para a inspiração vir, já misturada. Uma loucura.
A nosso Fífia tem restado pouco mais do que a boa vontade das tias e da mãe a vê-lo desfilar e fazer de Joaninha ou de Hermengarda; de Joane e de Brízida Vaz e a aplaudi-lo. E, como as três senhoras pareceram tão entusiasmadas, nosso Fífia já decidiu outras coisas, a respeito da peça que vai escrever e publicar com o apoio da Junta de Freguesia, que será divulgada nas rádios e televisões, com entrevistas e tudo: a peça para ser mais completa e não lhe faltar mesmo nada vai chamar-se: “Amores de Perdição dos Maias passados no Ramalhete, enquanto Hermengarda e Eurico viajam na terra e são apanhados por um dragão que vivia na barca do inferno”. Para não torná-la muito impressionante para crianças e para as suas tias e mãe, talvez, se o presidente da Junta permitir, acrescente que a barca em vez de ser do inferno, é do Noddy.
A capa do livro terá, claro, a sua cara e os braços tatuados com dedicatórias aos autores portugueses. Porém, Gil Vicente terá que ficar de fora.
O Fífia não gosta de futebol.

terça-feira, dezembro 04, 2007

Croniqueta LI ou o Fífia tem a cara em obras, mas está feliz


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Depois dos feitos todos a que se dedicou nos últimos meses; depois de ter calçado e descalçado dezenas de vezes as botas de cano alto e sola rija para as tempestades; depois de ter tido que brigar com a madrinha; o Fífia voltou agora às pantufas do Rei Leão e ao xaile de romeiro. Prevê-se, assim, que nos próximos dias, até porque são de época festiva, o vamos encontrar de touca com laçarote a amarrar no pescoço, escondendo as arranhadelas das lutas por que passou durante estes tempos. Porém, qual Viriato, vindo dos altos Montes Hermínios, depois de ter descansado à sombra de uma árvore, nosso Fífia já está pronto para as festas que aí vêm. Natal, passagem de ano e Carnaval, já constam da sua agenda. Este ano não falhará o costume de Palhaço, que no Fífia se resume a um grande e brilhante laço cor de casca de amendoim para dizer com os olhos, que dizem a mãe e as tias, parecem dois ricos feijões semeados na sua cara em obras, mas feliz. Com efeito, ninguém sabe porque é que tem a cara assim, mas não se importa. Todas as manhãs lá começa, circulando pela casa, a ginástica facial, que o faz fingir que ri, mesmo que esteja chorando. Esfrega uns cremes, umas quantas pomadas e até misturas caseiras, que as vizinhas, daimosas e solidárias lhe preparam com amor. Mas nada resolve as valas, que a dureza dos combates (digo eu) lhe impôs na cara mal traçada, que transporta dia-a-dia no seu pescoço de fidalgo. Ainda não fez as compras de natal, mas sabe já que para a mãe e tias vai comprar agulhas, canetas e papel. Sabe que o mais certo será precisar que estas boas costureiras lhe fabriquem novos factos para os dias, que hão-de vir, não muito longe nem muito perto. E, nestas coisas de ofertas, não há como deixar implícito, já de princípio, uma ideia de utilidade. A mãe e as tias sabem que se não fossem os seus conselhos, o Fífia não valia nada. Por isso, vão preparar rezas e mezinhas para prevenir que a oferta da madrinha o faça mudar de rumo. É que ninguém sabe se o Fífia aceita calçar o par de patins em linha, que a dita lhe quer oferecer… Essa dúvida, esse medo tem agonizado a família Fífia. O próprio está em dúvida sobre os propósitos reais da boa senhora, que em tempos, lhe passou água benta pelos angélicos cabelos. As tias não vivem sem ele, a mãe muito menos e as vizinhas, as da sua própria rua, duas casas acima e duas casas abaixo, não querem ver desaparecer o menino por quem nutrem uma certa simpatia…

sábado, outubro 27, 2007

Croniqueta L ou o Fífia vai tornar-se Bailarino do Asfalto




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O Fífia lembra um cuco pendurado na porta de um relógio antigo, largo das molas, de asa caída e bico torcido para baixo. Se fosse um objecto não era um alicate. Se fosse um segredo não era um cofre. Era o contrário de um e de outro. Talvez um cadeado aberto sem código ou uma pá de batedeira; quiçá um envelope aberto ou uma torneira de quintal pingando a cada três segundos. Boiando dentro de si próprio, o nosso Fífia chega agora no fim do mês; suspenso de si mesmo, como um suplente, abraçando-se às poeiras do desconhecido, qual D. Sebastião ou Quixote do novo século. Iluminado dos pés, mas escurecido da face, o Fífia lembra uma “Joaninha” romântica de umas Viagens narradas em pleno século XIX. Preso à janela da sua própria vida, o Fífia espreita, acena, gesticula e cochicha, mas não se atreve a por pé fora da soleira da porta do casebre que o abriga. Corajoso!
Na livraria, ao Domingo, levado pela mão da Ivéti, de quem nunca arriscou separar-se, mesmo passados estes anos todos, compra os livros que estão no Top. E trá-los todos dentro dos sacos de uma só vez, enfileirando-os nas prateleiras da sala, como troféus. A literatura, como a música ou a pintura, são para ele, nada mais, nada menos, do que poderosos apêndices do saber adquirido por pagamento. Nada de conhecimento, pesquisa ou procura. “Dá muito trabalho”, pensa, mas não diz. Agora, vai comprar uma bicicleta para circular na cidade; pedalada acima, pedalada abaixo, entre os carros, cheio de “speed”, como se fosse uma ave veloz. Já comprou ténis abotinados com botões, porque não sabe dar laços e fato de treino de calças largas. A partir de Novembro, vai ser uma alegria. A mãe e as tias vão construir-lhe uma cesta para levar a Ivéti e transportar o rádio para ouvir todas as notícias de meia em meia hora. Nem pode esperar pelo dia em que escorregará nas ruas asfaltadas do centro da cidade; sentir-se como o bailarino que sempre sonhou ser. Um “bailarino do asfalto” leve e solto, como as palavras que soletra pausadamente como se fossem versos de um poema. Parecem versos, mas não são. Cidadão e filho da terra e da mãe, o Fífia fará uso do asfalto novo que “coroa” as ruas da cidade, como se de uma graça se tratasse. E, quando o virmos deslizando, enfiado no fato de treino vermelho, transportando a Ivéti e o rádio de antena em forma de palhinha, a gente quase que se esquecerá do olhar perdido dos condutores dos carros enfileirados nas ruas asfaltadas da cidade, secos de esperar que caia o verde…

sexta-feira, março 30, 2007

Croniqueta XLVIII ou o Fífia quer ir de branco na procissão


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Daqui por um mês, o Fífia faz anos. Já pediu às tias, que lhe oferecessem uma touca de atar ao pescoço com atilhos "verde choc" para nadar na avenida e não se perder, debaixo do chão, e à mãe um fato de mergulho para as aulas de natação. A sua pele tratada com cremes Nívea e o seu cabelo Oriflame, não podem correr o risco de apanhar algum vírus. De viroses, já bastou a que apanhou no Carnaval - varicela! Pois foi. Ficou todo marcado. Parecia uma vela vermelha, cheio de pequenos vulcões Vesúvio a enfeitarem-lhe a testa, o peito, as pernas, enfim, tudo. Hoje, restam-lhe as marcas desses tempos vividos em agonia, cheio de comichão, ardendo em pó de talco e pomadas que a Iveti ia receitando às tias. Não se lembra de tamanho inferno, porque delirou. Imaginou-se, até, na Batalha das Limas, lutando contra piratas careca. Por isso, diante dessas agonias, ao que consta, terá prometido ir na procissão do Senhor Santo Cristo, todo vestido de branco, qual anjo, mas sem asas. O Fífia tem medo que esteja vento e que possa levantar voo sem querer. Agora, que já está curado, é vê-lo pulando pela cidade, qual mosquito, saltitando entre máquinas devoradoras de calçada, à procura de um tecido branco para as tias lhe fazerem o fato, que há-de ter, no conjunto, um casaco comprido e, claro, uma gravata e um chapéu de cowboy. As botas brancas com duas estrelas nas biqueiras, simbolizando os seus dotes de cantor e poeta, chegarão do Brasil, mandadas pela Ivéti, que entretanto, terá ido participar no Carnaval do Rio de Janeiro. Para o ano, o Fífia já lhe prometeu, que ela há-de desfilar no Carnaval de Ponta Delgada, claro. E ele há-de conseguir cumprir a promessa, porque afinal é rei e aos reis, na cidade, ninguém nega nada. Afinal, se Ponta Delgada, está na rota das grandes cidades europeias, se Ponta Delgada é um concelho feliz, tudo se deve ao facto de ter a viver no concelho um rei, que é, tão somente, o melhor cliente das livrarias do burgo, o mais inteligente comprador do comércio tradicional e, claro, como não podia deixar de ser, o mais puro intelectual. Esta defesa diária, este convencimento é feito pelas tias e pela mãe que, pese embora os gritos sacudidos das vizinhas mais espevitadas, rindo nas costas delas, assumem a defesa incondicional do seu querido Fífia. A elas, como por agradecimento, ele chama-lhes ninfas e diz que quando um dia, que está quase a chegar, lhe erguerem uma estátua, lhe fizerem um busto ou, pura e simplesmente, lhe dedicarem uma festa no coliseu, ele nomeá-las-á logo suas damas de companhia. É o máximo que pode fazer por elas, pensa, enquanto vagueia pelas ruas, no seu passo iluminado qual saco vazio e mais nada.
O Fífia está cada vez mais parecido com um punhado de barro. Depois da ida ao forno, até parece que serve para alguma coisa. O Fífia parece uma abóbora. Uma couve de Bruxelas ou, quem sabe, um apito de plástico ou um brinde de sabão da máquina. De nada lhe serve a pose, os óculos riscados, a pulseira, que agora usa, para evitar as doenças ou, até, a camisa chinesa, que comprou na avenida. O Fífia parece um tambor de festa que, na quebra do dança e do balança, desafina e cai sem compasso. Do ritmo, nem se fala.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Croniqueta XLVII ou o Fífia não sabe o significado do significado disto e daquilo...


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O Fífia voltou depois do combate fortíssimo com que se defrontou no mês de Dezembro; quando entre gritos de negação e choro com lágrimas e tudo, tomou conhecimento de que o pai natal não existe. O grito. O drama, a enorme tristeza que se abateu sobre o nosso Fífia foram razão para que se lhe apagasse a memória e o ar se fosse como se morresse. Três dias de cama, a soro, papas de milho e leite com mel não foram suficientes para impedir a queda catastrófica de cabelo, as dores de estômago permanentes e, até, pese embora o esforço das tias, o espigo no beiço superior. Sinal de nervos. Ferido, qual fera sem toca, sobrevivendo ao ataque dos outros, o nosso Fífia recolheu ao cais, como um barco de mastro tombado, e, sem memória, desmaiou. Levado em braços pelos amigos do costume, um ou dois, num grupo de 20, acudiram-no mãe, tias e vizinhas. Durante dois meses cozeram-no num mimo morrinhento e, pronto, transformaram-no para sempre. Adjectivos não lhe cabem e são tantas as dores que, por mais que nos esforçássemos, não encontrávamos no melhor dos dicionários, definição para elas. Existem, mas não estão referenciadas em lado nenhum; porque esquisitas, medonhas, palavrosas e desmemoriadas, as ditas fazem-no andar em “contra mão”, esbarrando nos próprios actos, como se fosse um esguicho de spray para mosquitos; atinge-se a si mesmo, engasga-se, dobra-se, redobra-se e segue de banda, desasado.
Há quem diga, dos mais maldizentes que o seguram, que o Fífia já nasceu desta maneira; que, até Dezembro, levara um sopro de Espírito Santo (transportou uma coroa giratória), mas que, agora, passadas que estão as sopas e a carne assada com massa; caiu-lhe o manto e, na disputa, quem o apanhou foi a rainha. Xadrez da vida, penso. Mas, ao Fífia, nesta versão descabelada e gasta; bexiguenta e enriçada, falha tudo. Até os objectivos. Diz-se que a mira de outros tempos, mesmo, quando partilhada nos abates de outros alvos, era bem mais certeira do que esta. Nem mesmo os pombos de alfenim ou as donas Amélias o motivam. Verdade, seja, porém dita, o Fífia sempre foi sem motivo. Um inventor. Daí que ainda acreditasse no pai Natal e na sorte de ser rei toda a vida (a tempo inteiro). Mas vai nú, como na história. (A propósito diria Raul Brandão que a “história é dor”. Será?)
Sem reinado, encafuado num palrar desatinado, qual saco de açúcar pendurado ao sol ou, quem sabe, ramo de árvore cortado (não podado) o Fífia não acabou, mas o Fífia é hoje um palhaço triste. Uma máquina de falar em rotação diminuída e diminuta cujo nariz empinado, porque não convencido disto mesmo, lembra um substantivo uniforme cuja ideia não multiplica. E o género não se altera. Cansativo.

Notas importantes:
Memória: A memória é a capacidade de reter, recuperar, armazenar e evocar informações disponíveis, seja internamente, no cérebro (memória humana), seja externamente, em dispositivos artificiais (memória artificial).
Rainha: rainha ou dama é a peça de xadrez que fica ao lado do rei. Por sua capacidade de movimentação, recebe uma ênfase muito grande no jogo, a ponto de muitos jogadores desistirem do jogo quando a rainha é capturada sem que se consiga alguma vantagem ou igualdade com isso.
Substantivos Uniformes: Substantivos Uniformes são os que apresentam apenas uma forma para ambos os géneros.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Croniqueta XLVI ou Fífia está com cara de passa; espumado...



O Fífia está espumando. Desde o dia 31, que ficou como as garrafas de champanhe. Cara de passa; gosto amargo, o Fífia, agora, perdido parece um pássaro de asas caídas. Triste. Rude. Enfeitiçado pelo líquido espumante, que lhe gaseificou as vistas, como se fosse um buraco de passeio, mal acabado, depois das picaretas frustradas e das pressas obreiras. E as mãos? Duas conchas de lapinha sem menino.
Na noite de Natal, depois da missa do Galo, de onde o Fífia veio triste, por não ter visto ave nenhuma, estavam, à sua espera, debaixo da árvore, três pares de cuecas, uma escova de cabelo, um bordado da Ivéti com dois corações e as portas da cidade (porque foi o lugar onde se conheceram em pleno Carnaval) e o CD da Floribela mais o microfone e a saia da cantora Lusa, que lhe mandaram as primas, que moram em Almada. No dia de Natal, foi um tal cantar as canções da série da Televisão, enquanto as tias e a própria Ivéti assistiam ao brilhar do seu menino, como se ele fosse uma estrela, uma flor, uma delicada melodia; tão delicada, que até parecia perder o ritmo...
A 31, armado de sacos e sacos de estrelinhas, porque o nosso Fífia é contra os foguetes e as bombas e, mesmo que não fosse, a mãe e as tias não o deixavam brincar com isso; lá foi nosso Fífia para as portas da Cidade, outra vez, dado que para ele, aquele é um lugar de culto e de amor, acender estrelinhas toda a noite, beber champanhe e desejar um Bom ano, aos berros, a todos quantos iam passando por aquela festa. No fim, depois de tudo, cansado acabou em braços e veio ao colo das tias para casa. Como um Menino Jesus, foi deitado nas palhinhas, enquanto uma Floribela, em caixa de música, o embalou ao som do "Miau Miau". Lógico, que à noite sonhou com gatos de saias rodadas e cores garridas. Um sonho só.
Ontem, tentando, restabelecer-se da esfrega da passagem de ano foi ao novo restaurante, que veio da América, o Mcdonnalds; levou a máquina para tirar um retrato e enviar para as primas, como oferta de natal. Afinal, não é todos os dias, que o Fífia se pode encontrar à porta de tão moderno espaço, que veio trazer mais modernidade à sua cidade. Grande. Cidade grande.
Em breve, vestido de toupeira, qual mergulhador dos filmes americanos, há-de mandar também uma fotografia aos pais da Ivéti; que não lhe enviaram nada do Brasil. Pode ser que eles lhe ofereçam, então, a bandeira do Brasil para ele fazer uma camisa para o seu casamento; ou então um CD do Netinho; para ele se ir treinando para os bailes do Carnaval. Não há nada como ser estrela. E o nosso Fífia, que é Fífia e não "Fíffia" já saliva a pensar nos bailes de Carnaval, em que ele vestido da estrela Floribela, com longos caracois castanhos e lentes de contacto, dançará colado à sua Ivéti - Frederico. Serão um show! A Ivéti de barbas amarelas como alcatifa por lavar e o Fífia de saia rodada com renda a ver-se e collants rosa choque. Porém, mesmo com todos estes sonhos, nosso Fífia continua com a cara passada; o olhar pingado e os braços descaídos como as asas de um pardal envergonhado.
Não anda nada bem. E, dizem, que é um enjoo. Pode que passe ou não.
Para alegrá-lo, as tias e a mãe têm ligado o microfone e deixado que o seu menino de oiro, qual "Eusebiozinho" lhes repita todos os êxitos da cantora lusa. A cada refrão de um Não tenho nada mas tenho tenho tudo. Sou rico em sonhos e pobre pobre em oiro, as tias choram e o Fífia que é Fífia e não Fíffia ri à gargalhada.
Afinal para que é que ele quer oiro se em breve vai poder ser toupeira?

sábado, dezembro 02, 2006

Croniqueta XLV ou O Fífia é um cidadão com C grande e, só não o é com S, porque seria erro duplo...



O Fífia é um cidadão exemplar. Vai às compras todos os dias. Não fica fechado em casa.
O Fífia é um cidadão que se recomenda, um pirilampo, cujo rabo luz, por festejo, associado à iluminação da sua cidade, por dever e respeito aos seus concidadãos.
O Fífia é um cidadão com C grande e, só não o é com S, porque seria erro duplo!
O Fífia é um tapete vermelho; deitado no chão, parece de rolo, em pé, até podia forrar as estátuas ou fazer laços.
Cheguem-se a ele varandas, escadas, paredes, janelas ou até vidros, que ele, sem dó nem piedade, esguicha luz do seu rabo iluminado. Certeiro, como uma seta e astuto como um disparo à moda do Robin dos Bosques, anda, atarefado em compras. Já comprou meias para a mãe; agulhas para as Tias e umas barbatanas para a namorada. Umas lindas e verdes barbatanas fluorescentes para daqui a ano e meio, ele e a Iveti irem passear nos parques subterrâneos da avenida marginal. Os dois cidadãos exemplares, que não andam de Mini-Bus, mas que, de certeza, trarão o carro para debaixo do chão da avenida; contribuindo assim, para o desafogo do centro urbano.
Mas, voltemos às compras do Fífia. As lojas cheias de novidade e os anúncios na TV deixam o seu coração aos pulos. Viajar. Ir comprar ao continente.
O Fífia, cidadão exemplar, que compra todos os dias, nem que seja um copo de água, a 0,14 cêntimos no Hiper, e sai de casa para passear tranquilo, às 5 da tarde, no Campo de São Francisco, vai ao continente e quando chegar espera ter à sua espera: um Diploma. Afinal, ele é o cidadão mais exemplar com o rabo mais luminoso, que os anjos da matriz. Ele é o nosso Fífia, que já leu o Verdadeiro Método de Estudar, e até se sente Verney. Desta vez, neste Natal, quer, nada mais nada menos, do que um Diploma de Cidadão Exemplar; ele que sai de casa todos os dias; ele que fotografa os buracos da cidade; ele que atravessa todas as ruas da cidade, mesmo as mal iluminadas, às 8 horas da noite mais a sua Iveti; ele que já se ofereceu para ser cartaz turístico, vestido de Toupeira; ele que, nas Festas do Espírito Santo, até andou de coroa giratória e musical, ele, sim, só ele, merece receber um Diploma.(Para mais tarde fica o nome de rua).
É um cidadão exemplar. Agora, que fez o pedido e, porque é cuidadoso, vai esperar que a edilidade o anuncie mesmo, com provas e tudo, que é para ter a certeza, que o que recebe não é, apenas, um prémio de consolação pelo esforço.
E, claro que, também espera ser convidado para a sessão; em caso de ele não estar, por estar a cumprir a sua cidadania exemplar e estar, quem sabe, no Porto ou em Leiria, a fazer compras, pode, sempre, fazer-se substituir pelas tias.
Isto, para depois não se dizer, por lá, que ele não confirmou a sua presença. Não estaria certo. Porém, o Fífia tem confiança e sabe que tudo correrá bem.
Ele há-de estar e receber beijinhos e, quem sabe, até se não leva uma medalha.
Aguarda, agora, a chegada do primo “jerIMIas”. O primo que vem da Europa para ficar alojado durante 3 anos, em casa das tias. Vem de surpresa. Só o Fífia sabe as razões da sua vinda e está muito contente com isso. Afinal, não é todos os dias que se tem a oportunidade de ter um primo "jerIMIas". Um primo Europeu, que há-de trazer novas modas. Um primo que, ao telefone, lhe perguntou: há aí estacionamento para bicicletas? Um primo, sem sombra de dúvidas, bom. Em casa das Tias, "jerIMIas" ficará de graça. Parece que o rabo dele também luz. E que as lâmpadas que lhe coroam o dito têm autonomia suficiente para se manter aceso nos próximos 3 anos. Uma sorte, pensou o Fífia acerca desta novidade. As tias ficam a ganhar.
Ele também.