quarta-feira, janeiro 17, 2007

Parabéns...



...à dona da gata preta

Na Blogoesfera


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«(...)A folha amolece e desfaz-se com a rapidez de uma escala diatónica tocada ao piano por dedos compridos e treinados. Maestro tempo. Podia tê-lo desenhado com uma batuta na mão. A sinfonia escrevê-la-ia com os dedos dos pés, sobre linhas de pautas alinhavadas como as marrafas das crianças bem comportadas. Não o consegui enrolar. Desenrolar-se-á sempre até que o papel acabe e eu dê o último suspiro quente. Quando assim for, acabou-se tudo. Eu e o meu tempo.»


Bicho de Conta

E outra...



"Costumo sair de casa no verão com chapéu de chuva. Vou-me esquecendo dele em vários lugares: no comboio, no barco, na biblioteca. Depois de me esquecer dele pela quarta vez, volto para casa, mesmo que o sol ainda se não tenha posto. Foi exactamente assim que cheguei atrasado à morte de um amigo."


Ruy Belo, "Esquecimento", in Homem de Palavra [s], editorial Presença, Lisboa, 1997, pp. 126.

Mais uma...



(...) Há decadas passadas foi moda atacar José Régio por dizia-se contemplar o próprio umbigo. O mais que pode dizer-se, hoje, é que mais vale o próprio do que o alheio. Porque, se uma pessoa começa no umbigo, é um perigo onde acaba."

Jorge de Sena (nota introdutória de Mécia de Sena)" A poesia e a vida" in, Poesia e Cultura, lisboa, Edições Caixotim, 2005, pp. 106.

Recomendação de Leitura



"Tendo visto com que lucidez e coerência lógica certos loucos justificam a si próprios e aos outros, as suas ideias delirantes, perdi para sempre a segura certeza da lucidez da minha lucidez."


Bernardo Soares, Livro do Desassossego,volume I, Colecção Obras de Fernando Pessoa, Assírio & Alvim, Lisboa,2006,pp. 345.

domingo, janeiro 14, 2007

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Post Scriptum

E, só mais uma coisa:
Parabéns a Ponta Delgada pela 7ª posição no Ranking.
(Eu vivo bem na Fajã de Baixo. Vivia melhor (ainda) se me deixassem descer a Rua Direita.)

A(mostra)

E, ainda antes de ir dormir, que já se faz tarde e eu não quero pisar o risco das seis da manhã, gostava de saber da amostra, que deu origem a mais um estudo do sociólogo Alberto Peixoto, do qual tive conhecimento aqui
"Alberto Peixoto adianta que quem fica nos locais de divertimento nocturno até às 06h00 da manhã: "tem propensão para criar problemas, quer pelo excesso de consumo de alcool, quer de substâncias ilegais" (Diário Insular, 09.01.2007), citado do Açores SA

Anedótico.

Não m´acredito!


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"(...)Ao consumidor, além de alargar a sua oferta de mercado, vai permitir aproximar-se culturalmente das economias desenvolvidas. Não é que seja determinante ter um McDonald's, mas é uma forma de estar globalmente ligado a outras realidades mundiais.(...)"

De todos os parágrafos do artigo o que eu mais "apreciei" foi este, que acima transcrevo. Pode ser que o autor do texto (André de Oliveira Cabral), incluído na página: Laboratório Social, publicada ontem, dia 10 de Janeiro de 2007, no Açoriano Oriental até tenha razão.
Mas, a mim custa-me entender que se queira fazer crer às pessoas que a chegada de um restaurante deste género vai fazer com que Ponta Delgada se aproxime "culturalmente das economias desenvolvidas".
É que, lamento, mas o que é que o Mcdonnalds tem de Cultural?!
É igual em todo o lado...

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Canção e Poema

Tom Jobim - Eu sei...


"De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Hei-de vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei-de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou ao seu contentamento.

E assim, mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Talvez a solidão, o fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive)
Que não seja imortal, posto que é chama
Porém, infinito enquanto dure."



Vinicius de Moraes

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Poema para ler devagarinho



E havia muita gente nas janelas.
Pessoas, que, sem cair, eram de chuva miudinha.
Pessoas como flores nos campos verdes,
Presas pelas suas raízes ao bater do coração da terra.
Pessoas de ás e de bês; gentes em quem morava, por gosto,
Um olhar parado de areia, cumprindo a sua função imóvel
De velar pelo mar.

E havia muita gente pelas portas.
Sombras.
Gentes nas chaminés como se no alto tivéssem ninhos
E dentro deles mais gente. Gentes de acentos agudos
E mãos circunflexas e braços que mais pareciam tiles ou virgulas
Sempre que, na agitação do tempo, rolava mais uma dessa gente
Para o meio das reticências…

À noite quando chegamos não havia ninguém nas ruas
E os passeios lembravam sílabas ou vogais arredondadas
De espanto. Sibilantes como sussurros.
Dizem, que veio uma tempestade de objectividade
E, num ápice, matou-lhes a mãe.

E hoje já não havia ninguém em lado nenhum;
E entramos nas casas vazias de alguém;
E pusemos os pés em cima de exclamações que não se mexeram
E de interrogações que nem piaram…Choramos a morte dos sinais.

Havia, porém, de certeza, algures
Carpideiras a enterrar a poesia dos dias;
Como quem desmancha um terço, conta a conta…

(Há pássaros a morrer no meu quintal
Caindo como chuva, morrendo como a espuma
De um Mar que se esqueceu de voltar à sua areia…)

E não tentamos ficar. Porque não soubemos permanecer
Como a gente que não cai e é de chuva…

(Agora já é tarde)

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Croniqueta XLVI ou Fífia está com cara de passa; espumado...



O Fífia está espumando. Desde o dia 31, que ficou como as garrafas de champanhe. Cara de passa; gosto amargo, o Fífia, agora, perdido parece um pássaro de asas caídas. Triste. Rude. Enfeitiçado pelo líquido espumante, que lhe gaseificou as vistas, como se fosse um buraco de passeio, mal acabado, depois das picaretas frustradas e das pressas obreiras. E as mãos? Duas conchas de lapinha sem menino.
Na noite de Natal, depois da missa do Galo, de onde o Fífia veio triste, por não ter visto ave nenhuma, estavam, à sua espera, debaixo da árvore, três pares de cuecas, uma escova de cabelo, um bordado da Ivéti com dois corações e as portas da cidade (porque foi o lugar onde se conheceram em pleno Carnaval) e o CD da Floribela mais o microfone e a saia da cantora Lusa, que lhe mandaram as primas, que moram em Almada. No dia de Natal, foi um tal cantar as canções da série da Televisão, enquanto as tias e a própria Ivéti assistiam ao brilhar do seu menino, como se ele fosse uma estrela, uma flor, uma delicada melodia; tão delicada, que até parecia perder o ritmo...
A 31, armado de sacos e sacos de estrelinhas, porque o nosso Fífia é contra os foguetes e as bombas e, mesmo que não fosse, a mãe e as tias não o deixavam brincar com isso; lá foi nosso Fífia para as portas da Cidade, outra vez, dado que para ele, aquele é um lugar de culto e de amor, acender estrelinhas toda a noite, beber champanhe e desejar um Bom ano, aos berros, a todos quantos iam passando por aquela festa. No fim, depois de tudo, cansado acabou em braços e veio ao colo das tias para casa. Como um Menino Jesus, foi deitado nas palhinhas, enquanto uma Floribela, em caixa de música, o embalou ao som do "Miau Miau". Lógico, que à noite sonhou com gatos de saias rodadas e cores garridas. Um sonho só.
Ontem, tentando, restabelecer-se da esfrega da passagem de ano foi ao novo restaurante, que veio da América, o Mcdonnalds; levou a máquina para tirar um retrato e enviar para as primas, como oferta de natal. Afinal, não é todos os dias, que o Fífia se pode encontrar à porta de tão moderno espaço, que veio trazer mais modernidade à sua cidade. Grande. Cidade grande.
Em breve, vestido de toupeira, qual mergulhador dos filmes americanos, há-de mandar também uma fotografia aos pais da Ivéti; que não lhe enviaram nada do Brasil. Pode ser que eles lhe ofereçam, então, a bandeira do Brasil para ele fazer uma camisa para o seu casamento; ou então um CD do Netinho; para ele se ir treinando para os bailes do Carnaval. Não há nada como ser estrela. E o nosso Fífia, que é Fífia e não "Fíffia" já saliva a pensar nos bailes de Carnaval, em que ele vestido da estrela Floribela, com longos caracois castanhos e lentes de contacto, dançará colado à sua Ivéti - Frederico. Serão um show! A Ivéti de barbas amarelas como alcatifa por lavar e o Fífia de saia rodada com renda a ver-se e collants rosa choque. Porém, mesmo com todos estes sonhos, nosso Fífia continua com a cara passada; o olhar pingado e os braços descaídos como as asas de um pardal envergonhado.
Não anda nada bem. E, dizem, que é um enjoo. Pode que passe ou não.
Para alegrá-lo, as tias e a mãe têm ligado o microfone e deixado que o seu menino de oiro, qual "Eusebiozinho" lhes repita todos os êxitos da cantora lusa. A cada refrão de um Não tenho nada mas tenho tenho tudo. Sou rico em sonhos e pobre pobre em oiro, as tias choram e o Fífia que é Fífia e não Fíffia ri à gargalhada.
Afinal para que é que ele quer oiro se em breve vai poder ser toupeira?