terça-feira, maio 28, 2013

"Prefiro ter um pequeno nome na literatura nacional do que ser um príncipe da literatura açoriana" - Daniel de Sá




1944-2013

"UM HINO À VIDA

Nem flor efémera, leve
Como um sorriso perdido.
Nem borboleta tão breve
Que num voo só alcança
O tempo de ter sido,
Num bater de asa que dança.
Nem um até amanhã,
Que amanhã é outro dia,
É dia de outros, mamã,
E com a mesma alegria.
Nem mil beijos ou abraços.
Nem mais passos… nem mais passos…
Nem flores de despedida,
Nem vozes contra o destino.
Só isto: mudei de vida
E serei sempre menino."

Daniel de Sá

À MEMÓRIA DE RUY BELO

À MEMÓRIA DE RUY BELO

Provavelmente já te encontrarás à vontade
entre os anjos e, com esse sorriso onde a infância
tomava sempre o comboio para as férias grandes,
já terás feito amigos, sem saudades dos dias
onde passaste quase anónimo e leve
como o vento da praia e a rapariga de Cambridge,
que não deu por ti, ou se deu era de Vila do Conde.

A morte como a sede sempre te foi próxima,
sempre a vi a teu lado, em cada encontro nosso
ela aí estava, um pouco distraída, é certo,
mas estava, como estava o mar e a alegria
ou a chuva nos versos da tua juventude.

Só não esperava tão cedo vê-la assim, na quarta
página de um jornal trazido pelo vento,
nesse agosto de Caldelas, no calor do meio-dia,
jornal onde em primeira página também vinha
a promoção de um militar a general,
ou talvez dois, ou três, ou quatro, já não sei:
isto de militares custa a distingui-los,
feitos em forma como os galos de Barcelos,
igualmente bravos, igualmente inúteis,
passeando de cu melancólico pelas ruas
a saudade e a sífilis do império,
e tão inimigos todos daquela festa
que em ti, em mim, e nas dunas principia.

Consola-me ao menos a ideia de te haverem
deixado em paz na morte; ninguém na assembleia
da república fingiu que te lera os versos,
ninguém, cheio de piedade por si próprio,
propôs funerais nacionais ou, a título póstumo,
te quis fazer visconde, cavaleiro, comendador,
qualquer coisa assim para estrumar os campos.
Eles não deram por ti, e a culpa é tua,
foste sempre discreto (até mesmo na morte),
não mandaste à merda o país, nem nenhum ministro,
não chateaste ninguém, nem sequer a tua lavadeira,
e foste a enterrar numa aldeia que não sei
onde fica, mas seja onde for será a tua.

Agrada-me que tudo assim fosse, e agora
que começaste a fazer corpo com a terra
a única evidência é crescer para o sol.

© EUGéNIO DE ANDRADE 
Homenagens e outros Epitáfios, 1974 

terça-feira, maio 21, 2013

A dar uma de "Jacinta"



Se Cavaco Silva fosse o devoto que quis parecer ser na passada semana, evocando primeiro Nossa Senhora de Fátima, a propósito do fim da sétima avaliação da troika, e depois São Jorge, referindo-se à vitória do bem sobre o mal, teria aproveitado ontem, 2ª feira do Espírito Santo, para evocar o “Criator Spiritus”.

Mas isso é claro, só podia acontecer se Cavaco não ignorasse que ontem foi “Dia dos Açores” (como bem lembrou Carlos César), 2ª feira do Espírito Santo, e, por causa disso não convocasse o Conselho de Estado para exatamente a mesma data.

Cavaco Silva passou por cima da data, sem sequer ter dirigido umas palavras, circunstanciais que fossem, aos Açores e aos Açorianos. É uma pena lastimável. Mas é o que temos. 

O Presidente da República já nos provou que só sabe de nós quando lhe interessa. Para vir cá falar do sorriso das vacas; para interromper as férias e avisar um país inteiro dos perigos que podia encerrar o nosso Estatuto Político Administrativo…  

Depois recolhe-se à sua religiosidade oportunista, que faz enraivecer o mais sereno cidadão…e corar de vergonha, qualquer um de nós, pelo patético da cena e pelo que ela demonstra (mesmo) de um certo aproveitamento da fé dos portugueses.

De resto, como se provou ontem: silêncio absoluto, que nem foi quebrado pela ausência anunciada e explicada do Presidente do Governo dos Açores na reunião do Conselho de Estado.

Para as sopas do Divino e para os croquetes do resto dos dias, tem cá o Representante da República. Dá (por enquanto) bastante.

Podia ter falado da partilha que o Espírito Santo simboliza, podia até ter ido às raízes monárquicas da cultura portuguesa e falar da Rainha Santa Isabel ou de Afonso Henriques, podia ter usado os conselhos da sua Maria e podia, entre uns e outros reis ou santos, dirigir umas palavras, por mais curtas que fossem, a este povo português das ilhas, que, entre outras coisas, já deu à República a que preside, dois Presidentes: Manuel de Arriaga e Teófilo Braga.

Mas não. Preferiu manter-se reservado aos sagrados do país de norte a sul; recolhido à fé da rendição de Paulo Portas; agarrado à coligação, rezando a todos os santos para que o fio que a sustenta não se rompa. 

Vítor Gaspar que não soma nem segue em Portugal é admirado pelos alemães; o desemprego aumenta, as falências multiplicam-se; a fome desarma famílias inteiras, não temos nenhuma credibilidade para sermos um país a sério.

Nossa Senhora de Fátima substituiu de uma assentada só os esforçados portugueses, cuja penúria, passou de repente a uma espécie de recompensa divina. Foi isso que Cavaco Silva quis dizer, mesmo que depois tenha disfarçado. Temos um Presidente da República que anda pelo país a dar uma de “Jacinta”.

Esperemos pois todos com a paciência possível pela próxima aparição de Cavaco. 

Virá, entre nuvens, fumos e anjos, avisar um mundo novo, quiçá em aramaico.

É tudo uma enorme palhaçada. 

Serenamente, AO hoje

terça-feira, maio 07, 2013

O convidado



Já não nos falta (quase) nada para batermos no fundo. Já aqui escrevi linhas e linhas, a brincar e mais a sério, sobre o estado do país…

Falta-nos alguém com sentido de liderança, alguém que tranque os pés no chão e combata deveras, como se diz em São Miguel. Mesmo deveras.
A última semana trouxe nova novela trágica e cómica. De rir e de chorar. Primeiro Passos Coelho nervoso e inquieto, depois Paulo Portas ufano e medíocre. Ambos à vez a “pregar aos peixes” num discurso surdo, sádico e humilhantemente vergonhoso, cuja única verdade são as políticas que são para aplicar doa a quem doer.

Já chega! Já basta! Já não se vê mais do que braços caídos, olhos cruzados de cansaço. É todos os dias, hora atrás de hora, se não é Passos Coelho, é Vítor Gaspar, se não é Vítor Gaspar, é Paulo Portas; se não é nenhum dos três, é Cavaco Silva, se não é Cavaco Silva é a oposição. Basta!

Um grupo de reformados entrou nas galerias da Assembleia da República e cantou “Grândola Vila Morena”. A Presidente da Assembleia da República considerou que a atitude não ajudava a democracia. Pergunto: teria ajudado a democracia se um, de entre os deputados, tivesse batido palmas aos reformados? Respondo: teria. Eu preferia tê-los visto tomar partido; eu preferia ter ouvido uma voz que quebrasse o gelo daquele momento, dizendo ao grupo de reformados, em manifestação pacífica: “Estou aqui!” Mas não. Silêncio absoluto e mais uma vez humilhantemente vergonhoso.

“Eu não fui eleito coisíssima nenhuma”, disse Vítor Gaspar à deputada Ana Drago. Vítor Gaspar tem esse dom, na relação que tenho com ele, quando penso que já ouvi tudo, ele faz logo questão de me lembrar que pode descer mais um grau na minha consideração, que se não houver grau, ele descobre um e vai mais baixo.

Gaspar provou-me que se orgulha de não ter sido eleito pelo povo português, que se orgulha de ser o mentor de um governo que não tem vergonha de por em prática as políticas que ele inventa. Merecia ser insultado. 

Enquanto Paulo Portas falava aos portugueses, no Domingo, com a frontalidade(zinha) que lhe é reconhecida, diante dos focos e das filmagens, longe do povo, um grupo de populares entrou numa moradia em Leiria e agrediu dois dos habitantes. As razões, não se sabe quais foram, mas sabe-se que os agredidos foram transportados para o hospital mais próximo…e os agressores presos.

Terão (talvez) enlouquecido, o que a continuar a andar o país da forma que anda, sem que ninguém de fibra lhe deite a mão, é perfeitamente possível e até mesmo natural que comece a acontecer por aí. Enlouquecer num lado qualquer, quando menos se espera e gritar: “ Eu não votei em ti coisíssima nenhuma!”

Com uma única, mas crucial diferença: não nos servir de nada…a não ser mudar qualquer coisa em nós.  Ao passo que a Gaspar servirmos para tudo, incluindo para agradecer o convite que Pedro Passos Coelho lhe fez há dois anos, exercendo o seu cargo sem qualquer afecto... (Que fosse afecto. Simplesmente afecto e já era tão bom).


Serenamente, jornal Açoriano Oriental, 7 de Maio de 2013

terça-feira, abril 30, 2013

Brindes



Três homens foram expulsos da Arábia Saudita por serem considerados demasiado bonitos pela polícia religiosa de Riade. A polícia explicou que os membros da comissão para a promoção da virtude e prevenção dos vícios temiam que as mulheres se apaixonassem por eles e por isso tomaram medidas para deportar os homens. A notícia correu páginas e páginas de jornais, parecendo insólita é, no entanto, real.
Um outro homem de 49 anos, ao que consta desempregado, deixou em pânico o governo italiano. Agarrou numa espingarda, saiu de casa, feriu dois polícias e uma senhora. Queria, disseram as televisões no Domingo, matar políticos.
Por cá não há dessas novidades, nem homens expulsos por serem bonitos, nem homens que queiram – realmente – matar políticos. Tudo é simbólico neste nosso país. Só as políticas do governo não o são.
A bandeira portuguesa foi hasteada a meia haste, a preto e branco, num edifício no Porto, entre os dias 25 e 26 de Abril; um vaso de cravos revirou enquanto Cavaco Silva falava na cerimónia do 25 de Abril; João Vieira Pinto e Jorge Gabriel são candidatos do PSD a freguesias do Porto; Marques Mendes considerou na SIC que Paulo Portas deu um murro na mesa no Conselho de Ministros desta semana, acrescentando ainda que Vítor Gaspar quer cortar nas áreas sociais, mas que Portas está “noutra rota” (seja lá o que isso queira significar) e, por fim, Cavaco Silva, que falava na sessão de abertura do 34º Congresso Nacional de Cardiologia, apelou aos partidos políticos para estudarem cuidadosamente a fase “pós troika”, depois de ter estado a desenhar corações (quase que pensei que ia escrever um “Cavaco + Maria”) num papel à entrada….
Concluo que é uma pena Vítor Gaspar não ser bonito, ao ponto de ter que ser expulso do país, para não fazer com que as mulheres se apaixonem por ele ou por poder ser um perigo para a virilidade dos restantes, ou coisa que o valha...
Não concluo nada sobre a história do italiano de 49 anos. Deixo ao critério dos leitores, mas relembro que a última vez que um português atirou qualquer coisa a um político foi um ovo. E que esse político, que é uma senhora está agora grávida de uma menina.
Enquanto isto tudo foi acontecendo, Portugal também foi brindado com um insólito. Brindado é a palavra certa e não, não foi o sexagenário de Penacova que se fez passar por Mikael Carreira para as mulheres (oh mulheres do meu país?!) se despirem em frente ao computador. Não foi isso...
O brinde é outro. A Sé de Braga está a comercializar “vinho de missa” a 5, 50 euros a garrafa, preço acessível para todos os párocos, diz a notícia do jornal Público que li. É um vinho com marca própria, que está ao dispor de todos os sacerdotes na recepção ou na Loja do Tesouro – Museu da Sé de Braga. Utilizado para fins litúrgicos, natural da videira e sem químicos.
É negócio, portanto, entre padres. A notícia diz ainda que o teor do álcool não pode ultrapassar os 18%.
Finalmente, e para variar um pouco, uma recomendação de leitura “ Levels of Life”, de Julian Barnes. Vida e Morte lado a lado. Quando se juntam duas coisas que nunca se tinham juntado antes e o mundo muda e, muitas vezes, emudece, escurece ou, pura e simplesmente, desaparece. Boas leituras deste ou de outro livro qualquer.
… E bons brindes. 

Serenamente, jornal Açoriano Oriental, hoje 30 de Abril

terça-feira, abril 23, 2013

“Torre é, siné fogaça”

Estou em crer que a ida da Dra. Berta Cabral para a República, para o Governo de Passos Coelho resolverá alguns dos problemas pendentes entre a Região e a nação. 
Com uma interlocutora tão experimentada nestas coisas do governar, liderar, administrar e presidir sairemos todos a ganhar. Até pode ser que a senhora consiga convencer os seus colegas nacionais a não penitenciarem os deputados dos Açores, eleitos pelo PSD, por terem infringido a disciplina de voto ou quiçá consegue convencer o agora seu Governo a transferir para a Região os montantes necessários para reconstruir o que o mau tempo de há dias destruiu. 
Acredito mesmo que os Açores terão em Berta Cabral a melhor defensora dos nossos interesses e que a Base das Lajes será agora mais do que nunca considerada uma mais-valia para o continente português. Com a determinação que lhe reconheço, Berta Cabral porá mãos à obra por Portugal, na defesa dos nossos interesses comuns. Só assim posso conceber que tenha querido ser Secretária de Estado da Defesa de um Governo da República que tudo tem feito para desconsiderar os Açores, os Açorianos e a Autonomia… 
Daqui a dias temos eleições autárquicas. Aí veremos se a antiga edil de Ponta Delgada virá ou não fazer campanha com o seu ex-vice-presidente ou se apoiará Rui Melo e Alexandre Gaudêncio, em Vila Franca do Campo e Ribeira Grande, respectivamente. A propósito, espero sinceramente que Alexandre Gaudêncio colha da experiência de candidatura à Câmara Municipal da Ribeira Grande melhores memórias do que as que ainda deve ter da “luta” pela presidência da Juventude Social-Democrata. 
Foi com gosto que assisti à inauguração das obras de requalificação da Torre Sineira da Câmara Municipal de Ponta Delgada. A autarquia está de parabéns. Ponta Delgada merece ser vista de vários ângulos e a avaliar pelas imagens que fui tendo oportunidade de ver estes dias nas redes sociais e jornais, de lá de cima, é possível ter uma belíssima visão desta nossa linda cidade. 
Porém, não posso deixar de recordar uma história que me contaram pessoas mais velhas e que tem como pano de fundo esta Torre Sineira. Reza a história que há muitos anos havia na nossa cidade um senhor, que era uma espécie de guia turístico, que não falava línguas estrangeiras, mas que recebia os turistas que chegavam à doca de Ponta Delgada e os acompanhava explicando-lhes os monumentos da cidade. 
Sempre que chegava ao pé da Torre Sineira, dizia: “Torre é, siné fogaça” no seu inglês latino germânico. Contam-me que os sinos da Torre tocavam quando havia fogo na cidade e que era essa a razão do senhor dizer: “Torre é, siné fogaça.” Os turistas que cá vieram nesse tempo, nunca devem ter percebido nada do que o senhor queria dizer, mas a história não deixa de ser tão engraçada, como também irónica. Passaram-se anos e anos. 

O que pensarão hoje os turistas que desembarcando nas Portas do Mar vagueiam sozinhos pela nossa linda cidade de Ponta Delgada? Não, não espero que os sinos toquem ou sequer que haja fogaça. Mas, como a história desta nossa terra, a seu tempo provará, não basta ver as coisas só de cima. Às vezes convém olhar para os lados, para trás e para a frente. É que um dia os sinos dobram. Não é fogaça. É simplesmente tarde demais… 

  Serenamente, jornal Açoriano Oriental de 23 de Abril

terça-feira, abril 16, 2013

Cavaco "Colombo"

Enquanto o conselho editorial do “New York Times” usa o exemplo de Portugal, Espanha e Itália para defender que a austeridade está a matar o doente, escrevendo mesmo que “as provas mostram que estes remédios amargos estão a matar o paciente”, ou seja, as medidas de austeridade não estão a ter o efeito pretendido: crescimento económico, o nosso Presidente da República partiu à descoberta da América Latina. Primeiro vai à Colômbia para inaugurar uma Feira do Livro, depois segue viagem para o Perú… Procura, dizem as notícias, as oportunidades de um “novo mundo”, onde já se instalaram algumas empresas nacionais, por isso também se noticia, que a componente económica é fundamental para a visita do Presidente da República. Na comitiva do Presidente vão 40 empresários portugueses, o Secretário de Estado da Cultura, o Ministro da Economia e ainda o Ministro do Estado e dos Negócios Estrangeiros. Desconhece-se a restante comitiva de assessores, seguranças e demais pessoas que costumam acompanhar o Presidente da República nestas viagens mas imagina-se grande. Não deixo de achar curioso (embora não seja de todo surpreendente) que a comitiva de Cavaco Silva tenha partido, quando a troika volta a Portugal. Embora a visita da troika aconteça antes do previsto e seja motivada pela necessidade de encontrar alternativas ao chumbo de quatro artigos do Orçamento do Estado pelo Tribunal Constitucional. Não se sabe ainda a que conclusões chegarão, mas Cavaco Silva não parece motivado para isso. Há 3 ou 4 dias atrás declarou que falar de esperança não chega e acrescentou ser urgente concebê-la e transmiti-la através de uma visão fundamentada e coerente. Que mais esperança pode ter um Povo, como o português, senão aguardar pausada e serenamente, que entre os escaparates da Feira do Livro em Bogotá, Cavaco Silva (às tantas) declame um ou dois cantos d´Os Lusíadas, enobrecendo em todos nós, espoliados da cabeça aos pés, esse sentimento heroico com que nos evoca Camões? Considero de uma imensa falta de noção do real e do tempo, partir na demanda da América Latina, num momento destes para Portugal. Mas, lá está, é Cavaco Silva e a ele, que foi o homem que viu sorrir as vacas na ilha Graciosa, tudo se vai perdoando… mesmo que por mais que se denuncie a vergonha ela se mantenha…e insista. E por falar em insistir devemos todos, sem excepção, continuar a insistir com os chantagistas da SATA para que ponham fim à greve anunciada para os dias do Rally e das Festas do Senhor Santo Cristo. De todos os Açores e comunidades têm surgido vozes contra, apelando ao bom senso desses senhores e dessas senhoras que, não por acaso, escolheram essas datas fundamentais para a nossa economia, para travar a sua luta. Ora, a acontecer mesmo esta greve, ela é uma “vigarice”, como disse na RTP/Açores, no passado Domingo, o Provedor da Irmandade do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Concordo absolutamente. É uma enorme vigarice contra os Açores, à qual ninguém deve ficar indiferente. Nem mesmo Cavaco Silva que tanto quanto me constou foi de SATA para a Colômbia. Serenamente, AO 16 de Abril

terça-feira, abril 09, 2013

“Pim pam pum…”

Se fosse vivo Almada Negreiros faria 120 anos. Na Calçada da Glória, em Lisboa, estão sete gigantes painéis que dão início a um ano inteiro de celebração e homenagem à sua obra. No fim de semana foi apresentada a Galeria de Arte Urbana, pela Comissão encarregue de celebrar o acontecimento, que conta com o apoio de várias entidades, como a Câmara Municipal de Lisboa, entre outras. Haverá tertúlias, exposições, documentários, espetáculos, edições e reedições do “Manifesto Anti-Dantas”, um colóquio internacional e a inauguração de um monumento também de homenagem a um dos nossos maiores ícones culturais. De todas as declarações que ouvi sobre o assunto, guardei a de Catarina Vaz Pinto, vereadora da Câmara Municipal de Lisboa. Perguntaram-lhe o que diria Almada Negreiros sobre o actual estado da arte em Portugal. Diria “Pim pam pum”, respondeu. Já em 1995, Mário Viegas readaptou o “Manifesto Anti-Dantas” escrevendo e declamando a conhecida peça literária “Manifesto Anti-Cavaco”, no Teatro São Luís, em Lisboa. É um texto de absoluta coragem frontal, que lido hoje, nestes dias turbulentos, nos faz lembrar que a razão de Mário Viegas se mantém, como a de Almada, viva e real. Não sei se tal circunstância nos deve alegrar ou fazer enfurecer, facto é que quer o Dantas de 1915, quer o Cavaco de 1995 não mudaram nada na imagem deste país que Cesariny queria que fosse “de bondade e de bruma”… [“O Professor Aníbal Cavaco Silva nasceu para provar, que nem todos os que governam sabem governar.” – Mário Viegas] Não somos. Nem de bondade, nem de bruma. Muito menos de “rosa de espuma” (do mesmo Cesariny). Somos reféns de prioridades que nunca foram as nossas. Vítimas dos que nos impõem a sua vontade, diante dos que indiferentes ou incapazes, assistem cúmplices ao degradar destes heróicos descobridores do nosso fim. Já quase nada faz sentido nestes dias. Se é verdade que Pedro Passos Coelho reagiu de forma lamentável à decisão do Tribunal Constitucional, não é menos verdade que a restante oposição, enredada em jogos de palavras e outras tibiezas, não apresentou uma única solução capaz de dar esperança ao mais desesperado português. Assim vamo-nos dividindo entre os que choram o país que já não somos, os que já nem Portugal no mundo conseguem ver e os que, entre uns e outros, desconfiam que possamos merecer um Portugal melhor, futuro e concretizado. Sem Dantas de espécie alguma a desempenhar papéis de importância séria. Nota de Agenda: “Acordosdias” é o nome de uma exposição solidária de Arte Contemporânea, comissariada por Carlos Mota, de apoio à família Soares do Faial da Terra, Povoação. Inaugura dia 12 de Abril, às 18h30, na Academia das Artes, e estará patente ao público, entre as 15h e as 20h, até ao dia 14 de Abril. Não deixe de passar por lá. Serenamente, jornal Açoriano Oriental, 9 de Abril

sábado, março 30, 2013

Todos deviam ler este texto

Auto-Retrato Cardoso Pires por Cardoso Pires "FUMAR AO ESPELHO" "Aos cinquenta anos dei por mim a fumar ao espelho e a perguntar E agora, José. Fumar ao espelho, qualquer José sabe isso, é confrontarmo-nos com o nosso rosto mais quotidiano e mais pensado. Por trás, em fundo, tem-se um cenário do presente imediato (a porta do quarto, um cabide vazio) mas esse presente, logo à segunda fumaça já é passado (a porta desfez-se, o cabide voou) e tanto mais passado quanto mais mergulhamos no cigarro. O olhar envelheceu, foi o que foi. E então, por mais que a gente diga que não, começam a aparecer as pegadas históricas do Dinossauro que nos andou a foder a vida durante cinquenta anos. Adivinhamo-las à super- -superfície do vidro, são manchas fósseis, gretadas, então não se vê logo?, e, escuta à distância, ouve-se o carrossel do medo. Aqui e ali vão-se levantando farrapos do muito que em nós se adiou e do muito que em nós se morreu, e nalguns casos podemos até distinguir o traço de liberdade que abrimos com os nossos livros nessa desolação prolongada. Pronto, estamos feitos, José. De agora em diante começa o rememorar, devias saber. Certo, cinquentas... muito ano. Muito silêncio, muita humilhação. Mas diz-me, espelho, vale a pena recordá-los? A que propósito agora esse arranhar de ferida, essa recriminação? José, no espelho, encolhe os ombros. É como se não me ouvisse, como se não se ouvisse, nada a fazer. No espelho os olhos só se vêem reflectidos noutras coisas, segreda-me por cima do ombro o honorável William Shakespeare a páginas tantas (e com franqueza, deitam um bafo podre, estas palavras). Mas nem assim, José continua na dele. José é José, suspeita que o querem despir do passado para que fique incapaz de o reconhecer quando lho puserem pela frente na primeira oportunidade. E defende-se, não desarma. Daqui a pouco está com certeza a citar Santayana (não me admirava nada) e a sublinhar desgraças. Revê exemplos, concita mortos porque (palavras de Santayana, eu não dizia?) «quem esquece o passado arrisca-se a vivê-lo outra vez» e ao chegar a este ponto não adianta mais. Disse. Ou melhor, eu disse. Mas fumar ao espelho não é só ver para trás olhando de frente. É também um modo-josé de futurar, para lá do rosto que o repete e que fumega. E aí, deixa que te diga, o pessimismo ... que nos lixa. Porquê? Ah bom, porque... uma dor de colhões, não te rias. Absolutamente. O pessimismo, se não sabes ficas a saber, sempre teve a ver com carências afectavas. Daí que ele seja incómodo por natureza. Incómodo para o próprio que, sabe Deus, tem de viver toda a vida com essa dor, esse nó, e incómodo para a Pátria que já mandou para o Camões todos os Velhos do Restelo que lhe andavam a dar azar. Isto - por um lado, aquele a que podemos chamar Da Saúde Nacional. Mas há o outro, o da superstição. Absolutamente. O pessimismo acaba sempre por funcionar como uma superstição de prudência: prevê o pior para ir acumulando resistências contra o mau mas sempre na esperança de que o mau nunca venha a acontecer. E se acontecer, percebes, também já não perde tudo, ganhou pelo menos a glória da razão. Uma superstição pela negativa ou por efeito contrário, dirá algum, mas muitas ... realmente nesse jogo a dois gumes que acaba o austero pessimismo. Que horas serão isto? Horas? Nos colóquios de espelho nunca é tarde nem é cedo nem hora certa sequer, quem me ensinou isto foi o reverendo Lewis Carrol que tinha a mania dos vidrinhos às cores. Se calhar ... Por isso que estes exercícios, se a gente não tiver cuidado, acabam num ritual que não interessa nem ao Menino Jesus. Um ritual, José, onde o padecente, em vez de incenso se esfumaça em nicotina. Em vez de incenso, tabaco, em vez de hossanas, Provocações, e às duas por três, se a gente não mete travões, esta coisa, este frente-frente, acaba numa auto- contemplação. Ou numa autoflagelação, para o caso tanto faz. Porque aqui tudo se passa entre o indivíduo e as suas imagens e, curiosamente, numa conversa muda que sabe tanto a círculo vicioso como este cigarro que eu tenho nos dedos. Fumo-o e ele fuma-me, estás a ver? Fumar ao espelho, solidão dobrada - diria o meu irmão se aqui estivesse (mas não está, morreu aos vinte e um anos num avião militar), ele que, sem cigarro e sem espelho, acabou por conhecer a mais estranha e a mais ampla solidão que se pode conhecer. A do espaço final, vê tu. A da imensidão azul onde a morte o foi procurar, 3500 pés acima do planeta dos homens. Não, nisto de alguém se interrogar ao espelho, olhos nos olhos, é consoante. Tem muitos ângulos - e tu estás aí, que não me deixas mentir. Vários ângulos. Há quem procure, santa inocência, fazer um discurso de silêncio capaz de estilhaçar o vidro e há quem espere receber, por reflexo da própria imagem, algum calor animal que desconhece. Seja como for, o que dói, e assusta, e é triste e desastradamente cómico neste exercício, é o pleonasmo de si mesma em que a pessoa se transforma. Repete-se. Se bem que com feroz independência (todo o seu esforço é esse) repete-se em imagens controversas que a possam explicar. Quanto à solidão de há pouco não há pleonasmo nem desdobramento que a salve nem mesmo os psicanalistas que temos cofres cheios dela. Para o vulgar contribuinte, a solidão resume-se a um vocábulo lamentoso ou a um fatalismo social de crédito comprovado, mas em boa verdade talvez não passe de uma metáfora do medo, simplesmente. Seja ela o que for, peço desculpa mas sem solidão ninguém vive. Solitário, não vamos mais longe, é este escritor que aqui está quando se entrega ao acto de escrever. Quer ele queira, quer não, só assim pode cumprir linha a linha a sua escrita na qualidade simultânea de autor e de leitor que são duas figuras distintas da Utopia de si mesmo. E depois? Há algum mal nisso? De modo que fuma, José, deixa correr. Solidões, duplicações, masturbações, é tudo conversa ou pouco menos. Queimam os dedos, reduzem-nos a fibras secas se nos deixamos arrastar por elas. Concreto, concreto, só esse alguém que nos vigia, que te vigia, aí no espelho, e que nos escuta por dentro. Mas escutar, realmente? Para te ser sincero, ainda não percebi. Ainda não sei se... por arrogância, se por desconfiança que ele nos encara com tanta dureza. Somos três agora. (Sempre fomos, tu é que não reparaste: dois que se olham e um terceiro que os escreve, olhando-se). No entanto, o rosto que nos é comum aos três está devastado pelo tempo. Esse aí não tarda muito que lhe caiam os dentes e fique coberto de rugas a bulir de vermes. Duvidas? Então espera por mais dois ou três outonos de cigarros e já vais ver. Três outonos, não lhe dou mais. Até lá vai continuar assim, em aresta viva, e com a tal contensão que, não sendo arrogância nem suspeita, ser o quê? Orgulho? Não, orgulho, nem pensar. E se fosse, pior para ele que se calhar pouco fez para mudar o mundo e muito para não se deixar mudar. Aceitemos que é, antes, um endurecimento defensivo, para aí, sim. E aguardemos. O resto, Deus o dirá, se alguma vez o souber ler devidamente. Tudo isto, já te disse, tem de ser encarado a vários ângulos. Sempre a vários ângulos, não te esqueças, porque, segundo alguns, os personagens deste tipo são de visagem errante. Como toda a gente? Como toda a gente, possível. Só que esse que tens diante de ti nunca na vida soube administrar a sua ima em pública, como se pode depreender logo à primeira abordagem. Porquê, não se sabe; as razões podem ser muitas. Pudor, impaciência, falta de traquejo, sei lá. Há também a independência, a independência... demasiado impeditiva, sempre foi, mas por essa ou por outras razões, a verdade é que esse talento nunca ele teve. E não se julgue que a lacuna não é grave porque a imagem de marca que os corretores das Letras e os lobbies da Opinião põem a circular no mercado a cotações de estarrecer. Ah, os lobbies, ah, os lobbies. Ah, perfumadas sacristias onde o livro em branco, antes de ser livro, já foi condenado ou marcado com uma pétala seca na página da eternidade. Uma vez mais, silêncio, José mantém-se olhos nos olhos. Parece desconhecer que em qualquer álbum de glórias o verdadeiro retrato do paciente pode ser desfigurado com a mesma facilidade com que o fumo do cigarro o encobre ali no espelho. Nesse caso que se lixe e cara alegre, então não é? Deixemo-lo portanto assim. Em directo e ao natural. Como se vê, tem o cabelo mais branco neste momento mas mantém a vislumbrada malícia de si mesmo que sempre se lhe conheceu. Pelo menos... o que eu penso - ou, antes, o que ele pensa. Vez por outra nota-se-lhe um perpassar de ironia pelo olhar, mas se o tem... luz breve e em geral magoada, não dá sequer para temperar o desalinho aparente que há nele e que provém mais de uma certa Lisboa à balda do que propriamente de outra coisa. Quanto ao mais, pouco a acrescentar. Visagem martelada (já se disse), máscara prevenida, assimetrias de quem se talhou ao azar - e é tudo. Ah, e os cigarros! Em 1990, este autor ainda continua a fumar, imagine-se, e a perguntar todos os dias E agora, José. A cada interrogação aspira, fundo e lento, até o morrão do cigarro abrir brasa no vidro do espelho, e há alturas em que encolhe os ombros e pensa de alto «Acta est fabula», se assim me posso exprimir em sinal de despedida. Mas é um dizer por dizer, nada de especial. Quando menos se esperar, ele aí estará outra vez nesta cadeira e neste lugar, a fazer resumo e projecto de si mesmo, e diga-se de passagem que não se dá mal assim. Como sempre, não tem angústia nem surpresa porque vai encontrar alguém que amanhã, dia comum, recomeça de novo a vida na primeira linha do capítulo que se segue. Aqui tens, José, o homem que te interroga. Que te fuma e te duvida. Que te acredita. E com esta me despeço, adeus até outro dia, e que a terra nos seja leve por muitos anos e bons neste lugar e nesta companhia. Pá, apaga-me essas rugas. Riscam o espelho, não vês? Cardoso Pires por Cardoso Pires, entrev. de Artur Portela, 1ª edição, Publicações D. Quixote, 1991, 124 p., pp. 89-94

terça-feira, fevereiro 26, 2013

"O Povo é quem mais ordena"

Vive-se um descontentamento generalizado com a política e os políticos, que vai ficando, a passos largos, cada vez mais visível. Ora é um ministro que é interrompido pela canção de Zeca Afonso, ora são milhares de faturas que dão entrada nas finanças com o nome de Passos Coelho ou Vítor Gaspar, ora são apupos e manifestações de repúdio à actuação de Miguel Relvas, por exemplo. A leitura que se faz destes momentos é a de uma saturação nunca antes experimentada em Portugal (que eu me lembre), que deve conduzir a que, pelo menos, se comece a pensar a sério numa reforma total do sistema político português. É cada vez maior o fosso entre políticos e pessoas. E esse fosso cavado há largos anos já não se resolve, creio, só com a mera redução do número de deputados. As pessoas observam de baixo para cima um “planeta de políticos” que “flutuam”, primeiro pregando, depois pecando, num ciclo vicioso que aniquila a democracia, mata a vontade de participar e, pior ainda, um dia destes explode de vez. Antes que isso aconteça espera-se que sejam tomadas medidas no sentido de acabar com esse descrédito, ou de pelo menos fazer com que se vá atenuando, de modo a que as novas gerações possam crescer e participar numa sociedade mais justa, mais ouvida e, por isso, mais interventiva. Exige-se que se pense mais nas pessoas e menos na vantagem eleitoral; que os políticos sejam homens e mulheres de mais acção e coração e menos imagem de televisão ou fotografia de jornal; que tenham noção que de cada vez que falam dos problemas das pessoas, esses (os problemas) não são apenas um substantivo a pairar no papel. São reais, sentem-se e precisam de soluções rápidas e eficazes. Quer o desgaste dos partidos políticos, que acabam por ser também vítimas das circunstâncias, quer a crise financeira que vivemos, obriga a pensar numa reforma do sistema político português que possa acolher mais e melhor as pessoas e a sua participação. Seria muito mais fácil dizer que as pessoas não participam, nem querem saber. Ponto. Mas todos sabemos que não é sempre assim. Temos, sem sequer ter que chegar ao continente, exemplos disso mesmo na Região: pessoas que se organizam em associações ou grupos informais e que cumprem um papel fundamental, em vários campos de actuação sem pedir nada em troca. O século XXI – que já vai no ano de 2013 e quase no mês de Março – exige uma visão mais alargada e combinada e não linear e cega das políticas, dos políticos, das pessoas e das suas vidas, que deve abranger mais o trabalho em equipa, a autonomia das pessoas, a liberdade de escolha e opção de vida. Não tenho a menor dúvida de que é nas pessoas que estão as respostas para os desafios para vencer a crise, nem tenho a menor dúvida de que é urgente e é agora que se deve ouvir mais e ouvir melhor as diversas vozes da sociedade civil que se fazem ouvir sempre que são chamadas a isso. Não há outra saída. E, acreditem que não vale a pena pensar (só) em nós de gravatas. Há outros nós. Há um “nós” em cada português que canta em qualquer lado: “O povo é quem mais ordena.” E é mesmo. Serenamente, AO de hoje, 26 de Fevereiro

terça-feira, fevereiro 12, 2013

Morreste-me

É muito difícil escrever sobre a vida ou sobre a falta dela, sobre o que nos morre, quando morre alguém de quem gostamos muito, ou quando morrem coisas em que acreditávamos muito. É por isso que admiro os escritores Philip Roth e José Luís Peixoto. O primeiro, porque escreveu um livro sobre o património humano – além dos museus, das igrejas e das bibliotecas – deixado pelo pai, num tom sensível, impressionantemente verdadeiro e cruel, na espera angustiosa da morte que havia de chegar, num dia qualquer, ou nos frios corredores dos hospitais, ou no carro ou no caminho de casa… Escrever sobre a morte pode tomar rapidamente forma de lamechice, porque não há (ou não havia) muito mais a dizer, mas aqui existe, está lá, em cada página, a identificação constante entre quem lê, tendo passado por isso, e quem escreve coisas como, por exemplo, esta: “O que os cemitérios provam, pelo menos a pessoas como eu, não é que os mortos estão presentes, mas sim que partiram. Eles partiram e, por enquanto, nós não.” Perdemos tempo de mais a discutir o evidente, a debater o insignificante, a falar sem ouvir a própria voz, a calar as ausências, a esconder absurdos e um dia morremos num ápice. A imortalidade das lesmas é uma metáfora (irónica, talvez) mas não deixa de ser tão grande como a nossa própria metáfora. Um dia, não resistimos mais ao passar dos dias e chegamos à forma infinitiva e antónima do verbo viver. Se enquanto vivermos percebermos que tal como as moscas nenhum de nós é imortal pode ser que vivamos melhor. Acho eu. O outro livro, cujo título escolhi para chamar ao “Serenamente” de hoje é de José Luís Peixoto, publicado em 2000, em edição de autor. “Morreste-me” é um património para a língua e literatura portuguesa, escrito, quase de um fôlego, lido depressa, parece um ensaio sobre a vida e sobre a morte. Sobre a falta de vida e sobre a ligeireza da morte, sobre o que nos morre e o que nos fica, sobre o imaginário e a cruel ausência dos que gostamos mais. Muito poucos (penso eu) conseguiram escrever assim de forma tão dura, palavras que acabam por nos invadir e fazer pensar (de facto) nesta nossa “insustentável leveza de ser” (Milan Kundera). Não há ali prazer no sofrimento, nem qualquer espécie de exposição de dor. É tão só e apenas uma dor, a dor de quem se vê, num ápice, sozinho (ou quase) no mundo. Podem morrer-nos pessoas, desaparecendo ou não, podem morrer-nos ideias, ideais, mas que não nos deixemos morrer antes do tempo parece-me fundamental. Sem apegos a moralidades ou a moralistas, sem desapego ao que é nosso de dentro, ou de fora, como a carne que nos enforma ou as palavras que escrevemos ou dizemos, o “Serenamente” de hoje vai com dedicatória a quem me morreu mais cedo do que eu julgava que era permitido, que gostava mais da sua gente do que do resto das coisas, que brigava por uma ideia, como eu nunca mais vi ninguém brigar, que tinha a mão que nestes dias mais falta me faz. Ensinou-me (entre outras coisas) que “Quand le doigt montre la lune, l'imbécil regarde le doigt" (em português: "quando o dedo mostra a lua, o imbecil olha para o dedo") … É isso que me tem feito segurar nos dias, em que parece que seria mais fácil viver dentro de um aquário, só preocupada com as borbulhas perfeitas que, como peixe (sem cérebro) havia de treinar e fazer… Let it be…(mother Mary). Serenamente, AO 12 de Fevereiro

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

Não faz mal: temos a TV Rural!

Na mesma semana em que Merkel decidiu assinalar os 80 anos da chegada ao poder de Adolf Hitler, discursando nas instalações da GESTAPO, e exibindo, por diversos locais da Alemanha, exposições sobre o famoso ditador, Portugal viu “renascer” duas belíssimas figuras: primeiro Fernando Ulrich, depois Franquelim Alves, entre ambos o de sempre, Pedro Passos Coelho… Fernando Ulrich, presidente do BPI, em declarações prestadas, aquando da apresentação de resultados do seu banco, perguntou porque é que os portugueses não aguentariam mais austeridade, se os sem-abrigo sofrem tanto e aguentam. Ora o banqueiro Ulrich definiu (e ninguém contrariou) o que aguenta um português, um grego ou um sem-abrigo (que deve ser para o banqueiro outra nacionalidade qualquer), anunciando ao mesmo tempo os lucros do seu banco... Sobre as suas declarações quase ninguém abriu a boca. Por outro lado, e na mesma semana, a nomeação de Franquelim Alves para o Governo de Passos Coelho provocou uma onda de reacções negativas em toda a oposição nacional. António José Seguro disse que o Primeiro-Ministro devia explicações ao país; Jerónimo de Sousa que é uma vergonha a nomeação e o Bloco de Esquerda está indignado pela posse dada pelo Presidente da República. De todas as reacções, a melhor (na minha opinião) foi a de Manuel Alegre. Serenamente disse o ex-candidato a Presidente da República, que é uma vergonha ter sido indicado e empossado Secretário de Estado, devido à sua passagem pelo grupo SLN-BPN; que do ponto de vista da ética e da política da responsabilidade é também uma vergonha, mas que não é uma ilegalidade, porque Franquelim Alves não é arguido, nem está condenado. É só (e tanto) uma questão de ética pública. Pois é. Enquanto Ulrich vai e Franquelim vem, Passos Coelho anunciou no Parlamento que Portugal recuperou credibilidade internacional, que apesar de ter que fazer sacrifícios, está em condições de andar pelo seu “próprio pé”. (Nas redes sociais uma fotografia choca quem a vê. Tirada à noite, numa noite qualquer de Lisboa, as arcadas junto ao Terreiro do Paço, são cama de dezenas e dezenas de pessoas. Fernando Ulrich chama-lhes “sem abrigo”). Devemos sentir-nos todos orgulhosos, explicou-nos Ulrich sem falar de orgulho, aguentamos e por isso mesmo o governo vai brindar-nos com mais um programa de entretenimento: a TV Rural, que o Parlamento aprovou na semana passada. O desemprego atingiu um número recorde de 16,5%? Não faz mal. Temos a TV Rural, de cheiro podre e bafiento como a lembrança da “TV Rural”, emitida entre 1960 e 1990, apresentada por Sousa Veloso. Como agora ditou Pedro Passos Coelho já andamos pelo nosso próprio pé, talvez possamos gastar mais uns milhares num genérico para a “TV Rural”. Sugiro uma versão estilo “gangnam style” do fado: “Uma casa portuguesa”. Para dar voz pode ser Marcelo Rebelo de Sousa. Afinal o professor fala de tudo e de todos. Cantar também deve saber. Se não souber peça ajuda a Ulrich. Por certo, um e outro não terão dificuldades, desde que deixem crescer as patilhas...e peçam a Franquelim Alves para, sei lá, fazer o coro…

terça-feira, janeiro 29, 2013

Ponta Delgada mais livre

Necessitada de políticas inovadoras e criativas, a cidade de Ponta Delgada está amorfa e alheada dos novos desafios da cidadania participativa, dos novos modelos de gestão pública e, pior, da prática de um serviço público de qualidade. É urgente assim dar uma perspetiva humanizadora com coração do que se faz por e em Ponta Delgada, para que, com isso, se criem condições sobre novas formas de interação entre a autarquia e o tecido empresarial, entre a autarquia e as relações e competências dos outros poderes; na descentralização das estratégias, na inclusão de todas as suas freguesias e sobretudo na assunção das suas novas missões. E as suas novas missões serão – em pleno século XXI – desenvolver de forma sustentável esta nossa cidade e concelho, fazendo esse desenvolvimento coincidir com o crescimento económico. Uma tarefa que não sendo fácil está ao alcance de quem quiser, verdadeiramente, por as mãos ao trabalho, assumindo um equilíbrio rigoroso entre as pessoas do concelho e a economia, a política social, a cultura, os transportes, as novas tecnologias, a juventude, os idosos, as crianças, enfim em tudo o que forma a vida das pessoas que nos rodeiam. Devia interessar mais a quem nos governa a melhoria das condições de acesso a recursos, o incremento de liberdades básicas, a divulgação cultural de Ponta Delgada integral e não parcialmente dividida pelos espaços ditos municipais. Ponta Delgada tem já há muito tempo dimensão para ter um roteiro cultural (além do já elaborado pela Direção Regional da Cultura), que incluísse cafés, restaurantes, museus e galerias, academias e associações culturais de índole vária, não só na cidade, como em todo o concelho, mas não tem, ainda não tem! Está atrasada e só agora ouvimos falar nesse assunto. Esperamos por ele há tempo demais. Enquanto isso os anos passaram-se e Ponta Delgada agonizou, só se virando ao mar, quando nasceram (e bem) as “Portas do Mar”… Podíamos ser muito mais do que somos aqui em Ponta Delgada. Ter espaços verdes cuidados e não espaços semiabandonados, como o caso do Jardim António Borges ou do Parque Urbano; podíamos ter há muito tempo (até já foi proposto) sinalização turística vertical, mas não temos e os turistas que nos visitam quase têm que adivinhar onde ficam os sítios; podíamos ter uma central de camionagem capaz, em vez de termos a avenida marginal como uma espécie de “Bangladesh”; os minibuses podiam servir para transportar mais e melhor os nossos concidadãos, se fossem os seus horários coordenados e os seus pontos de chegada, melhor articulados. Devíamos ter um festival de artes que nos caracterizasse como lugar de excelência, que fosse cartaz turístico e cultural, como tem a Praia da Vitória, São Roque do Pico ou a ilha do Corvo, por exemplo. Podíamos ter tantas coisas que não temos, mas um dia havemos de ter, porque merecemos, porque queremos e porque estamos fartos de ver os passeios despidos de esplanadas, as ruas escuras e as promessas de voltar a viver no centro histórico arrumadas na gaveta, por baixo do projeto para um Museu megalómano. Um dia Ponta Delgada vai acordar para isso. Esse dia será o dia em que seremos todos mais livres… Serenamente, AO 29 de Janeiro