"E um dia os homens descobrirão que esses discos voadores estavam apenas estudando as vidas dos insectos..." Mário Quintana
quinta-feira, maio 10, 2007
quarta-feira, maio 09, 2007
terça-feira, maio 08, 2007
segunda-feira, maio 07, 2007
Citação

"Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças."
Miguel Torga
sábado, maio 05, 2007
Fachadas
A Praça dos Direitos da Criança na Fajã de Baixo foi alvo de obras de restauro: bancadas e paredes do campo de futebol foram pintadas de vermelho e cinzento. Um luxo. Olhando bem para lá, se acrescentarmos as colunas amarelas e cinzentas, julgamos por minutos estar a ver o cubo mágico plantado no meio do bairro. Na verdade, desconheço as reais intenções da obra, mas, espero, sinceramente que, finalmente, na fúria das pinceladas, venha também o arranjo das redes que, há anos, desde o tempo das pedras ali colocadas para evitar que as crianças jogassem futebol (ou dos tiros disparados ao final de tarde!), esperam o seu "embelezamento". Pode ser que sim ou pode ser que não.
sexta-feira, maio 04, 2007
Croniqueta XLIX ou ao Fífia fica bem babete com bolsa de retenção

Se o Fífia fosse um brinde de publicidade seria um par de peúgas brancas com bordado no dedo grande; uma almofada cheia de corações para o dia da mãe, ou melhor, um porta-chaves doirado com pilhas e lupa. O Fífia fala de cor, mas não salteia e dos seus olhos, quais pirilampos (de rabo reluzente), sai, por desespero, uma lágrima fingida. Deste Fífia, cuja cédula profissional tem carimbo de validade (há quem diga que varia com os amores que se lhe dão) há pouco a dizer. A mãe deste não lhe quer costurar nada, senão a boca; as tias não o conhecem verdadeiramente e o pai, qual alfinete de prata, vai picando como pode neste Fífia esponja, de costas voltadas ao tempo. Fífia. Mesmo. Fífia. Nenhuma acção lhe sai direita e, às vezes, parecendo engasgado, baba. O espectáculo é tal que, entre os poucos que assistem, consta que já houve corridas à feira para comprar babetes de plástico com bolsa de retenção; não vá, no ensejo o homem, meter água onde não deve.
Se o Fífia fosse uma escada teria quatro degraus e uma pedra no terceiro. Primeiro degrau: para poisar um pé. Segundo degrau: para poisar o outro pé. Terceiro degrau com pedra: para se sentar depois de ultrapassar a tremenda dificuldade de ter que retirar a pedra. Quarto degrau: para deitar a cabeça e descansar do enorme esforço de ter afastado a pedra.
Se o Fífia fosse um livro era um livro de citações anónimas. Uma espécie de bloco de notas, agrafado na lombada, com dizeres de todas as origens, em português; porque de outras línguas, nosso Fífia, não pesca nada. Até mesmo as metáforas o confundem; imaginando que estas não são mais do que tiros ou fantasmas de um passado que quer mais escondido do que as célebres histórias que contam da sua infância engravatada; metido debaixo de si próprio como se fosse um caracol. Se pudesse, o Fífia era rei. Se pudesse o Fífia fazia-se passar por figura monárquica. Aí sim é que era bom; já não eram precisos sequer os quatro degraus e a pedra da escada, tudo se resolveria de uma assentada. Mas, no fundo, nosso Fífia sabe que não passa de um saco de asas sem publicidade, porque ninguém arrisca ou de uma moeda falsa que, só ultrapassa a pedra no terceiro degrau da sua escada inventada, porque isto é uma croniqueta e na vida real, fora deste blog e da minha pena, Fífias como este, não têm outro remédio senão mesmo passar o resto da vida a vazar a baba do babete de plástico; o que convenhamos é, para eles, grande e esforçado trabalho.
quinta-feira, maio 03, 2007
Quote
Era um grande nome — ora que dúvida! Uma verdadeira glória. Um dia adoeceu, morreu, virou rua... E continuaram a pisar em cima dele.
Biografia, Mário Quintana
Os Crocodilos
Pior, mas muito pior mesmo do que as lágrimas de crocodilo são os sorrisos de crocodilo.
Mario Quintana; Da preguiça como método de trabalho, 1987.
terça-feira, maio 01, 2007
Maio

"(...) Colocados na madrugada do primeiro dia de Maio, são retirados ao anoitecer.
Um dia em exposição.
Conhecemo-los ao longo da fronteira (Centro-Sul) Portugal-Espanha, em especial em Espanha, Estremadura, (San Vicente de Alcantara, Santiago de Alcantara, Valencia de Alcantara, Puebla de Obando, ...), mas nós conhecemo-los especialmente no Algarve, concelho de Olhão, nos Açores (ilhas Terceira, Graciosa, ...), nas Canárias (Santa Cruz de La Palma). Mas aparecem também noutros locais, como Jimenez de Jamuz (La Bañesa, León) e Alhama de Murcia (Valencia).(...)"
daqui
"(...)As origens desta tradição remontam às festas pagãs de Roma antiga, em que o mês de Maio era celebrado como o mês em que se festejava a deusa Maia, considerada a deusa da fecundidade por excelência.
Por conseguinte, ao longo dos tempos esta tradição surgia como símbolo da chegada da Primavera ou renascimento da vida vegetal; outros faziam os "Maios" para dar as boas vindas ao mês de Maio, com muitos trabalhos para o agricultor, para que as colheitas corressem bem; outros colocavam os Maios para que o diabo ou as bruxas não entrassem em casa. (...)"
Diário dos Açores
Desde pequena que no meu alpendre há um Maio sentado, neste dia, que se vai embora à noite e volta no ano seguinte.
segunda-feira, abril 30, 2007
Com medo de o perder nomeio o mundo (*)
Aos Sábados, depois de acordarmos da folia da sexta-feira, normalmente passada na casa da filarmónica, ouvindo o ensaio da banda ou comendo chocolates de bico traçado, íamos passear à quinta, onde enquanto apanhávamos laranjas e limões, o avô nos contava histórias de barcos perdidos no mar e passageiros envolvidos em grandes aventuras de resgates e naufrágios. Sentados, debaixo dos limoeiros, nós, a equipa do Benfica (porque somos onze!) ouvíamos aquela velha glória com entusiasmo, querendo saber dos salvamentos e das vezes em que chegaram barcos ao nosso estaleiro para consertar. No fundo, sabíamos que aquele avô, que, aos Domingos, no Verão, depois do almoço, nos partia arroz doce às fatias ou nos fazia sandes de manteiga de amendoim para levarmos para o porto, com “manteiga bastante”, como dizia, era um artista. Um fazedor de barcos. No meu imaginário, passados que são mais de 10 anos, ficaram as bonecas de madeira com olhos de feijão castanho e cabelo de fita ou os barcos, com que o meu irmão e primos brincavam nas poças do pesqueiro alto. Isso, mesmo parecendo que não, contribuiu, em muito para a minha identificação com as ilhas, onde nasci e vivi. Se me pedirem datas, anos, circunstâncias ou mesmo modos para definir a palavra Açores direi que este mundo, que nomeio, porque tenho medo de o perder (parafraseando Nemésio) é um homem, dois; a gente todos nos meus anos, os baloiços de casa da avó Maria, os abraços, os meus irmãos; uma escada, onde me encosto de vez quando em vez, agarrando-me ao tecto da garagem do avô, que aos seis, sete anos, parecia o mar revolto das histórias da quinta. A palavra Açores sou eu, correndo descalça em casa da avó Ana, atravessando o canal na Espalamaca, descendo a avenida Gaspar Frutuoso num carro de pedais, mergulhando no caneiro para ver o fundo do mar. A palavra Açores é um universo de espécie. Não melhor nem pior. Diferente. Espécie de gente, com “ossos mergulhados no mar”, como escreveu Vitorino Nemésio. Os meus Açores mergulham aqui. No meio do mar com coordenadas efectivas ou afectivas. São sujeitos factualmente dispersos pelos manuais de história, descritos nos dicionários e nas enciclopédias, exactos, é certo, mas aqui, neste espaço, onde escrevo as minhas crónicas quinzenais, posso dizer que os meus Açores são eu saltando ao pé coxinho com os meus irmãos e a gente todos de ilha em ilha, como quem desfia a vida, devagarinho, pé ante pé. Os meus Açores são a gente devagar, entre as brumas, as gaivotas e um prato de molha e arroz no Natal, quando debaixo da árvore havia bonecas de madeira com cabelo de fita e um postal da avó Ana.
(*) verso do poema “Nomeio o mundo” de Vitorino Nemésio
Publicada no jornal Correio do Norte (2ª quinzena de Abril)
(*) verso do poema “Nomeio o mundo” de Vitorino Nemésio
Publicada no jornal Correio do Norte (2ª quinzena de Abril)
sexta-feira, abril 27, 2007
Para Joana
"Filha,
na areia movediça das palavras, eu tenho procurado, juro,
as que nasçam só nossas,
certas, insubstituíveis, insubmissas.
Com ternura lhes toco e as levo ao coração,
frias ou gastas quase sempre, de outros usos.
Como se fossem algas,
escorrem por entre os dedos que as seguram.
Outras, agarro-as bem, tinjo-as de sangue. São
as que me comovem.
Com elas choro e sigo a sua frustração de claunes que tornaram
[ainda mais triste cada infância.
Mas, persigo-as, sim, quero-as ainda, as palavras
trabalho-as
com a aplicação do alquimista.
E do athanor saem só pequenos peixes de ouro
que nada têm a ver com o mar que separa o velho galeão
que de gusanos
me construo
e o teu corpo de mulher que é preciso aceitar urgentemente.
Ou aceitar de outro modo:
como súbito se abrisse a porta da casa e lá fora estivesse caindo
[uma chuva quente que a todos nos molhasse de uma estranha doçura.
Ah, minha filha, com que rigor procuro
o sinal de sermos o que somos
neste rio sem margens
ou talvez nesta praia em cuja espuma quente
é possível molhar ritualmente os pés e as mãos e partir a correr
nus
em direcções opostas
sem nada sugerir
a morte nem a vida
apesar de ambas estarem sempre para chegar.
Ah, o que tenho procurado, juro.
E que inútil junto às frondosas árvores dos símbolos
mais doces mais íntimos mais ternos cruéis acusadores.
Também a esses os levo à altura do peito e os encontro escassos de forma.
Na bigorna não aguentam a violência apaixonada do ferreiro.
E, de novo, procuro entre nomes de flores cidades ou estrelas
e nem sequer nos empedrados rostos das catedrais que eu vi
encontrei nada que pudesse trazer para aqui
outras coisas que pudesse ir amontoando com o tempo
para ir compondo o poema, minha filha, que há dezasseis anos ando para te escrever
mas que não fui capaz
porque escusado é dizer que é dentro de mim que habita uma enorme rosa de fogo
que não se vê do lado das palavras ou das pedras."
Emanuel Félix
Fotografia e Poema citado na 1ª página do Suplemento de Cultura do Açoriano Oriental, que este mês contou com a colaboração de Célia Machado (fotos 1ª e 4 ªpágina), Lélia Nunes, Vitor Marques, Renata Correia Botelho, Miguel Rosa Costa, Ana Teresa Almeida e Mário Homem.
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Emanuel Félix
quarta-feira, abril 25, 2007
"Segurados" (ou não!)
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