domingo, março 25, 2007

Muz´ka

e isso ai -ana car...

Nota Informativa

Mudamos de ares. Não de mares. Foi por um triz que não nos perdemos. Eu e o blog. Perdemos o contador (que voltou a zero).
Quase perdíamos os links.
Enfim, tratar disto depois da meia noite tem que se lhe diga. Mas, ele há coisas inexplicáveis. Para já, permanecemos azuis e brancos. Qualquer semelhança com o FCP é pura coincidência. Somos assumidamente do Benfica. Resumindo e concluindo: somos uns nabos: eu e o Ardemares, mas estamos felizes. Como diria o outro, é da vida!

sábado, março 24, 2007

Ou assim...

Quero morrer dos meus passos
como docemente morrem os saltos
na pancada do acto.
As ágeis mãozinhas do Espanto,
entrecortado, por duas sombras
de espécie ligeira e fresca como
as manhãs de Primavera,
de onde partíamos os dois são encantamentos.
Não mais morrer a solo sem consigo,
contigo ou comigo.
Não mais violas a morrer na areia;
não mais esta garganta a arder de inferno
Como se no Verão fôssemos unos.
As esferas circundantes do sonho
são como os pássaros enjaulados nas mãozinhas do Espanto;
surpresos e atacados por cordas de nylon,
que o espírito ata às coisas vivas.
Quero morrer dos meus passos,
deixar-me cair entre os teus dedos;
Como a adivinha de um conto infantil,
moralmente digno das esperas e das partidas
em aviões cheios de gente para ilhas que
nunca mais acabam e que são de chocolate;
Quero morrer dos meus passos como
docemente, morreste, quando as janelas
das casas estavam fechadas,
e por dentro havia a luz dos olhos
que, quando dorme, fica da cor do néon.
As vozes são passadeiras,
arquitecturas bicadas; palavras que,
ao vento norte, numa noite, crua e verdadeira,
morrem dos nossos passos;
com os pés calcados do barro,
que nas ilhas a fortuna feita sorte,
fez nascer nos nossos lábios.
Sangra-me a carne em pedaços e
leva à ceia das sete damas,
onde o morto, por desmazelo,
não possui ninguém que o possa carpir.
Leva-me nos braços;
carrega-me, como quando,
saltando entre as poças da água
me feri de mimo e beijos
nas pontas dos dedos das mãos.
Quero morrer dos meus passos;
deixar de ouvi-los no seu mistério oco
de barulho feio e grosso;
na chinela cruzada,
que comprei para o Natal.
Deixa-me morrer em descanso!
Deixa-me, que ao tempo do meu tempo
não resta mais minuto, hora ou dia,
em que não pense de como, ou
que como, ou onde, ou
quem sabe talvez nesta vida
a onomatopeia pudesse entrar
seguida da interjeição e
caísse, pimba,
morta, descalça como
a Lianor pela verdura
dos versos provençais.
Ah! Deixa-me morrer morta!
Deixa-me nos cânticos da aurora,
põe-me Mozart;
canta-me tudo de novo;
as primeiras músicas
como o principio das letras
na escola no quadro preto e
diz-me das vogais e da praia,
da avó, da toalha.
Ensina-me a escrever a letra h;
a letra m, ensina-me o meu nome;
põe-mo na cartolina,
dobrada à minha frente,
um nome grande, enorme;
um nome que soletrado parecia meu
e tinha um eco; uma melodia…
uma transformação de qualquer coisa
menos ácida;
menos triste;
menos apagada; menos isto
ou aquilo.
Dá-me Poesia.
Enche-me as veias
desta Metáfora que embala
o sono dos poetas;
dá-me esta palavra em Latim;
os versos todos dentro
uns dos outros, como se as
passagens de cada um,
linha a linha, fossem de fogo,
a arder e a ver-se…
Chega de disfarces;
de rimas que morrem no
começo da página;
de folhas não numeradas
e de ares e de mares
e de pessoas a rir
para o primeiro clique
da armazenagem de catálogo.
Quero morrer dos meus passos.
Deixá-los como herança a quem os quiser
comprar; não para usar,
mas para fechar nas curvas
imaginárias de um poema que
nunca tive coragem de reescrever…
...

Há dias assim....



Fotografia: Paulo Afonso

quinta-feira, março 22, 2007

Arco-Íris



Célia Machado

Ele há dias em que dava (quase) tudo para desaparecer num arco-íris destes, partindo, principalmente, deste lugar. Os amigos sabem estas coisas e, por isso, oferecem-nos estas imagens. :)

O Livro da Marta ou “O poeta é como um planeta sobre a luz” (*)

Escolho o livro da Marta para tema da minha primeira crónica no jornal Correio do Norte. O livro foi oferta de uma amiga. É azul. Tem letras brancas na capa. Parece o céu limpo do norte de São Miguel, quando é Verão e é de tarde e as árvores parecem querer soltar-se do chão para se opor à lei que manda que estejam quietas, cumprindo o ofício de ser sombra e mais nada. O livro é de poesia e não tem fim: é como a Marta, penso. Nesta noite, trouxe-o para cima para o lugar onde, normalmente escrevo, depois de ter viajado comigo na mala, entre as ilhas do grupo central. De vez em quando, tirei-o, abri-o, li-o, tornei a fechá-lo e pensei na Marta. (Eu, que nunca falei com a Marta. Hoje, tenho-a aqui a falar comigo). Por isso, escrevo devagar para não me distrair do que me conta e, sobretudo, não lhe traçar um perfil fixo. Demasiado analítico. (Também acredito que “o poeta é como uma planeta sobre a luz”). Enquanto, o folheio e leio, lembro-me de um verso de Gonçalo M. Tavares: “Há tantas coisas que falam ao mesmo tempo”. É assim que sinto o livro da Marta. Voando entre as ilhas, conheci a avó da Marta e lembrei-me das minhas duas avós. Nos seus vestidos pretos e os seus olhares destemidos, como borboletas em passo de gigante, enchendo-me a vida de ar, combatendo os malditos (Maria e Ana. Eu: elemento). O livro da Marta tem isso e “o som ilumina o silêncio” porque em mim (também) “havia uma casa feita de respirações (…)” O livro da Marta também é isto e de dentro parece que saltam papéis de cores muito variadas e por dentro dele volto a correr com os meus onze anos, em direcção a um barco de gente carregada de afectos e armada até aos ossos com mãos (de avó). O livro da Marta tem muitas coisas verdadeiras. Talvez, por isso, Daniel de Sá, na introdução do livro tenha escrito que os poemas da Marta são “para rezar”. Eu não desminto. Encontrei-me comigo mesma em quase todos. Encontrei-me com a minha gente neles todos; às vezes, nas entrelinhas, cheguei a ter a sensação de ver sentado, um avô ao leme, outro velejando nas palavras que escrevia e que me deixou para não morrer nunca mais em mim. As palavras também servem para isso: para não morrer. O livro da Marta não tem fim. É como a Marta. Tenho a certeza, agora. E, por tê-la, quero dedicar a minha primeira crónica no Correio do Norte à Marta. “ Não sou eu que sou diferente/ vocês é que são muito/uns iguais aos outros.” (Assim foi). Assim é e assim seja. Amen.

(*) Todos os versos citados nesta crónica foram retirados do livro Num Campo de Nada de Marta Furtado.





Fajã de Baixo, 11 de Março de 2007


Publicada no Correio do Norte, a 20/03/2007

galhofa :)


imagem

quarta-feira, março 21, 2007

Poesia



«Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem
Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas
Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas
Homens que são como danos irreparáveis
Homens que São sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar
Homens que trabalham sob a lâmpada
Da morte
Que escavam nessa luz para ver quem ilumina
A fonte dos seus dias
Homens muito dobrados pelo pensamento
Que vêm devagar como quem corre
As persianas
Para ver no escuro a primeira nascente
Homens que escavam dia após dia o pensamento
Que trabalham na sombra da copa cerebral
Que podam a pedra da loucura quando esmagam as pupilas
Homens todos brancos que abrem a cabeça
À procura dessa pedra definida
Homens de cabeça aberta exposta ao pensamento
Livre. Que vêm devagar abrir
Um lugar onde amanheça.
Homens que se sentam para ver uma manhã
Que escavam um lugar
Para a saída.»

terça-feira, março 20, 2007

Coração de Pedra



Hoje vinha escrever um post com "pés e cabeça", mas não consigo. De modo que, por amanhã ser Dia Mundial da Poesia e ser também o aniversário da TUCA - 13 anos - deixo, apenas, a fotografia que a Célia Machado, mais uma vez, gentilmente me cedeu e um poema para celebrar amanhã e não (ter que) dizer mais nada...

»A minha rua é longa e silenciosa como um caminho que foge
E tem casas baixas que ficam me espiando de noite
Quando a minha angústia passa olhando o alto.
A minha rua tem avenidas escuras e feias
De onde saem papéis velhos correndo com medo do vento
E gemidos de pessoas que estão eternamente à morte.
A minha rua tem gatos que não fogem e cães que não ladram
Tem árvores grandes que tremem na noite silente
Fugindo as grandes sombras dos pés aterrados.
A minha rua é soturna…
Na capela da igreja há sempre uma voz que murmura louvemos
Sozinha e prostrada diante da imagem
Sem medo das costas que a vaga penumbra apunhala.
A minha rua tem um lampião apagado
Na frente da casa onde a filha matou o pai
Porque não queria ser dele.
No escuro da casa só brilha uma chapa gritando quarenta.

A minha rua é a expiação de grandes pecados
De homens ferozes perdendo meninas pequenas
De meninas pequenas levando ventres inchados
De ventres inchados que vão perder meninas pequenas.
É a rua da gata louca que mia buscando os filhinhos nas portas das casas.

É a impossibilidade de fuga diante da vida
É o pecado e a desolação do pecado
É a aceitação da tragédia e a indiferença ao degredo
Como negação do aniquilamento.

É uma rua como tantas outras
Com o mesmo ar feliz de dia e o mesmo desencontro de noite.
É a rua por onde eu passo a minha angústia
Ouvindo os ruídos subterrâneos como ecos de prazeres inacabados.
É a longa rua que me leva ao horror do meu quarto
Pelo desejo de fugir à sua murmuração tenebrosa
Que me leva à solidão gelada do meu quarto...

Rua da amargura…»





Vinicius de Moraes, "Rua da Amargura" Rio de Janeiro, 1933, in O caminho para a distância, Poesia completa e prosa: "O sentimento do sublime"

segunda-feira, março 19, 2007

A reler



Depois de deixar um comentário aqui reli mais umas linhas deste livro de António Lobo Antunes. Fenomenal a escrita do Lobo.
"(...)- Quem é?
as pessoas olhavam para nós
na igreja através das corolas dos gerânios
(-Que interesse pode um garoto achar numa mulher desta idade?)
e o meu tio, didáctico, mostrando-me a fotografia de um senhor de brilhantina e lábios pintados, com um sorriso de anjo deposto
- o grande Carlos Gardel, ignorante
e apenas o álvaro, do outro lado da urna, enfiado numa gabardina idiota, apesar do calor, não reparava em mim nem se indignava, distraído, hesitante apatetado
(-Cuidei que gostava de ti, mas não gosto, sentia-me sozinho, é tudo)
a tirar fósforos e cigarros da algibeira, a aperceber-se que não podia fumar, a guardá-los de novo, a levantar-se do sofá e a debruçar-se para o gira-discos a fim de aumentar a intensidade da música
-Dá ideia que vamos morrer a cada nota, não é?(...)"

p. 161

A ouvir



«Agarro-te na luz
Apanho-te no escuro
Seguro-te no céu
No teu mais fundo eu

Cintilas meu amor

Afago-te na chama
Toco-te na alma
Amarro-te nos olhos
No teu mais fundo eu

Cintilas meu amor

Voo mais alto
Voo mais perto
Na tua vertigem
No teu mais fundo eu

Cintilas meu amor

Não te escondas meu amor
É que a noite mata-me só
E não tarda a ser dia
No teu mais fundo eu

Cintilas meu amor»

O Fundo do Céu
João Gil

Citação (importante)

05 Adagio.mp3

Poema para os meus navios



Foto: AM

Não sei descrever o caminho das palavras,
volteadas nos mistérios do mundo.
Não sei descobrir as sinas,
antever os princípios, por isso
não vejo a intenção das asas nos mastros do mar,
por cima das ilhas.
(Aposto que os navios morreram no mar,
aposto que os navios lutaram diante
da raiva das ostras num abrir e fechar de conchas,
intercalado, por zumbidos tenebrosos
de batimentos de cascas;
deixaram-se levar no ondear das
águas como quem foge aos bocados,)
E eu não dei por nada.
Não dei por eles.
Por isso,
Já não sei dobrar os versos das palavras,
escrever-lhes na contracapa os nomes,
silogismos e acentos.
Esqueci-me do golpear dos versos, das mãos cheias
da gente, dos rostos nas fotografias.
Têm-me tirado mãos. Têm saído da minha vida,
Aos bocados, as mãos, os abraços, os colos e
as palmas.
Aposto as estrelas nas margens das folhas,
os papeis dispersos na linha da frente,
entrelaçados nas luzes,
nas sombras da malabarista, palhaça, caída em rede
falsa em cima do rombo no casco, dito coração,
das pessoas, do meu.
Dou a volta à metafísica numa finta descarada,
vou por cima, vou por baixo, dobro as mãos,
subo as escadas, à procura de (me) ver
nos meus navios; ganhar às ostras, terrivelmente
mecânicas, abrindo e fechando as conchas
num batimento infernal de cascas.
Mas
Perco as sombras, dobro os passos, apresso e escrevo:
Esta manhã, aqui, o mar
E os ecos dele rasgando a calçada da avenida,
Esta manhã, aqui, o mar
E a gente de há anos correndo nos mastros,
dos meus navios.
A minha vida toda
Já não é inteira.
Eles também não.

(Revista Magma)

domingo, março 18, 2007

A ouvir




«Na fria planície me quedo em silêncio;
Um sol mortiço vai descendo a ocidente.
Pálida, a lua assoma ao firmamento.

Em fumos se expande a terra orvalhada.
Nos campos hirtos, sob o Verão quente
E fugaz, esconde-se o gelo eterno:
É o Inverno numa farsa de Verão.

Ainda se ouvem os chocalhos tilintar,
Ainda se avista o trilho irregular,
A carroça, essa, deixou de se ver.

Sim, tudo passa, desaparece...
E, embora inspire ternura,
O pouco que ficou
Não chega para viver.»


Cristina Branco