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"Terra minha: não te afastes de mim,
não me faltes,
por mais longe que vá."
Canto da Terra, Argentina, Índios de Pampa
(tradução de José Agostinho Baptista)
"E um dia os homens descobrirão que esses discos voadores estavam apenas estudando as vidas dos insectos..." Mário Quintana
"Um homem passa com um pão ao ombro
- Vou escrever depois sobre o meu duplo?
Outro senta-se, coça-se, tira um piolho do sovaco, mata-o
- Com que desplante falar de psicanálise?
Outro entrou em meu peito com um pau na mão
- Falar, em seguida, de Sócrates ao médico?
Um coxo passa dando o braço a um menino
-Vou, depois, ler André Breton?
Outro treme de frio, tosse, cospe sangue
-Convirá jamais não aludir ao Eu profundo?
Outro busca no lodo ossos e cascas
-Como escrever, depois, sobre o Infinito?
Um pedreiro cai de um Telhado, morre, já não almoça
-Inovar, em seguida, a metáfora, o tropo?
Um comerciante rouba um grama no peso a um freguês
- Falar, depois, da quarta dimensão?
Um banqueiro falsifica o seu balanço
-Com que cara chorar no teatro?
Um pária dorme com um pé ás costas
-Falar, depois, a ninguém de Picasso?
Alguém vai num enterro a soluçar
-Como em seguida ingressar na Academia?
Alguém limpa uma espingarda na cozinha
-Com que desplante falar do mais além?
Alguém passa a contar pelos dedos
-Como falar do não eu sem dar um grito?"

"Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,
Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,
Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,
Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Amen."
Por esta altura o velho de Natal já esteve nas vossas casas; prometendo voltar para o ano; escorregando pela chaminé abaixo ou, então, como me explicou a Rita, que tem 4 anos e mora num apartamento, furando o tecto com os seus sapatos especiais. Concordei. Afinal, que seria do Natal se não fosse a nossa imaginação? Felizmente que nem a Rita nem nenhuma das crianças que conheço dá muita importância à mãe Natal, essa figura que, agora não sei porquê (?), resolveu começar a aparecer. No meu tempo, a mãe Natal não acompanhava o velho de Natal na distribuição das ofertas. Só as renas. Nem se passeava com ele pelas ruas. Penso que essa novidade não veio acrescentar nada de interessante. A ver vamos.
Despeço-me aqui de 2006. Despedir um ano é das despedidas mais alegres. Creio. De uma forma ou de outra, mesmo que não os rebentemos, foguetes cairão sobre as nossas cabeças, fazendo com que, mesmo interiormente e inconscientemente, façamos planos para 2007. É humano.
Nunca gostei de despedidas. Mas, desta gosto. Despedir um ano não é a mesma coisa que despedir de um lugar ou de um amigo. Por isso também, quero dedicar esta nota de abertura aos meus amigos que “ficaram” em 2006. De alguns, consegui despedir-me. De outros, não tive ocasião. Mesmo assim são para eles estas linhas. Sendo certo que, como a Rita, eu ainda sou capaz de acreditar que, se puderem, eles hão-de furar o tecto da minha casa para me visitar. Daqui a três dias chega 2007. Para o novo ano, uns mais que outros, preparam artilharias de boa disposição, pastilhas de saúde ou bolachas de investimentos.
Sejam quais forem os planos dos leitores/colaboradores deste Suplemento, aos quais agradeço toda a colaboração e apoio, desejo um bom ano 2007. Portem-se bem. Ás vezes resulta…
"É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os dióspiros ardendo na sombra.
Quem assim tem o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia."
“ (…) não devemos malquerer às mitologias assim,(Herberto Hélder, in Revista Via Latina, 1991)
porque são das pessoas
e, neste assunto de pessoas,
amá-las é que é bom(…)”
