quarta-feira, janeiro 03, 2007

Pensamento do ano


foto:CM

"Terra minha: não te afastes de mim,
não me faltes,
por mais longe que vá."


Canto da Terra, Argentina, Índios de Pampa
(tradução de José Agostinho Baptista)

terça-feira, janeiro 02, 2007

Citação (importante)

Um Homem Passa com um Pão ao Ombro...

"Um homem passa com um pão ao ombro
- Vou escrever depois sobre o meu duplo?

Outro senta-se, coça-se, tira um piolho do sovaco, mata-o
- Com que desplante falar de psicanálise?

Outro entrou em meu peito com um pau na mão
- Falar, em seguida, de Sócrates ao médico?

Um coxo passa dando o braço a um menino
-Vou, depois, ler André Breton?

Outro treme de frio, tosse, cospe sangue
-Convirá jamais não aludir ao Eu profundo?

Outro busca no lodo ossos e cascas
-Como escrever, depois, sobre o Infinito?

Um pedreiro cai de um Telhado, morre, já não almoça
-Inovar, em seguida, a metáfora, o tropo?

Um comerciante rouba um grama no peso a um freguês
- Falar, depois, da quarta dimensão?

Um banqueiro falsifica o seu balanço
-Com que cara chorar no teatro?

Um pária dorme com um pé ás costas
-Falar, depois, a ninguém de Picasso?

Alguém vai num enterro a soluçar
-Como em seguida ingressar na Academia?

Alguém limpa uma espingarda na cozinha
-Com que desplante falar do mais além?

Alguém passa a contar pelos dedos
-Como falar do não eu sem dar um grito?"


César Valejo
(tradução de José Bento)

Poema incluído na obra: Rosa do Mundo, 2001 poemas para o futuro, assírio & alvim, Lisboa, 2003, 3ª edição, pp. 1362.

domingo, dezembro 31, 2006

Citação (importante)




"Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Amen."


Natália Correia
"Poesia Completa", Publicações Dom Quixote, 1999.

sábado, dezembro 30, 2006

Bom ano!

Se danço avanço e lanço o verbo alcanço.
Não fosse o ruído dos ossos
E isto era um balanço.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Aos Amigos

Por esta altura o velho de Natal já esteve nas vossas casas; prometendo voltar para o ano; escorregando pela chaminé abaixo ou, então, como me explicou a Rita, que tem 4 anos e mora num apartamento, furando o tecto com os seus sapatos especiais. Concordei. Afinal, que seria do Natal se não fosse a nossa imaginação? Felizmente que nem a Rita nem nenhuma das crianças que conheço dá muita importância à mãe Natal, essa figura que, agora não sei porquê (?), resolveu começar a aparecer. No meu tempo, a mãe Natal não acompanhava o velho de Natal na distribuição das ofertas. Só as renas. Nem se passeava com ele pelas ruas. Penso que essa novidade não veio acrescentar nada de interessante. A ver vamos.
Despeço-me aqui de 2006. Despedir um ano é das despedidas mais alegres. Creio. De uma forma ou de outra, mesmo que não os rebentemos, foguetes cairão sobre as nossas cabeças, fazendo com que, mesmo interiormente e inconscientemente, façamos planos para 2007. É humano.
Nunca gostei de despedidas. Mas, desta gosto. Despedir um ano não é a mesma coisa que despedir de um lugar ou de um amigo. Por isso também, quero dedicar esta nota de abertura aos meus amigos que “ficaram” em 2006. De alguns, consegui despedir-me. De outros, não tive ocasião. Mesmo assim são para eles estas linhas. Sendo certo que, como a Rita, eu ainda sou capaz de acreditar que, se puderem, eles hão-de furar o tecto da minha casa para me visitar. Daqui a três dias chega 2007. Para o novo ano, uns mais que outros, preparam artilharias de boa disposição, pastilhas de saúde ou bolachas de investimentos.
Sejam quais forem os planos dos leitores/colaboradores deste Suplemento, aos quais agradeço toda a colaboração e apoio, desejo um bom ano 2007. Portem-se bem. Ás vezes resulta…


Nota de Abertura publicada hoje, dia 28-12-2006 na edição do Suplemento de Cultura do jornal Açoriano Oriental
Colaboram nesta edição: Mónica Goulart, Susana Rosa, Mário Homem, António Melo Sousa e Nuno Barata. Fotografias: Paula Leal e Augusto Macedo.

Reparo de fim d´ano




Se no Teatro Micaelense se vendesse Hamburguers, o que é que acontecia ás obras circundantes?!

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Último Poema

"É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os dióspiros ardendo na sombra.
Quem assim tem o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia."

Eugénio de Andrade, Rente ao Dizer (1992)

sexta-feira, dezembro 22, 2006

CARTA

“ (…) não devemos malquerer às mitologias assim,
porque são das pessoas
e, neste assunto de pessoas,
amá-las é que é bom(…)”
(
Herberto Hélder, in Revista Via Latina, 1991)

Querido.
Começo por te chamar querido, porque o és e, também, porque acredito que, sempre que quisermos chamar isso aos outros devemos fazê-lo, sob pena de perdermos a vez. A seguir, quero saber se estás bom e se passaste bem o ano, que está quase a acabar?
Pode que me respondas. Pode que me escrevas outra carta. Portei-me bem este ano. (Ponto).
Eu gosto tanto de receber uma carta, de abrir o envelope e ver as palavras todas arrumadas nas linhas. Gosto de desfiá-las uma a uma, como contas de um rosário ou, então ervilhas ou, ainda, pequenas pérolas de um colar rebentado há muitos anos na garagem da avó. Guardado como um segredo. (As pérolas caindo no chão como lágrimas. Fazendo aquele som, que só as onomatopeias sabem pronunciar).
Agora, sim, depois de tudo isto; de te perguntar pelo ano passado e o novo, de te dizer que me portei bem e de divagar um bocadinho como quem saltita num rolo de fita e agarra a rima num golpe de esgrima; passava a dizer-te como foi bom receber resposta às cartas que te escrevi ano após ano. Cartas para todos os gostos. Cartas sem linhas. Linhas com cartas. Cartas com quadrados; cartas enquadradas; cartas cortadas; incompletas; repetitivas. Os rebuçados que te mandei nas cartas. As gamas e as cores dos tecidos das saias e das blusas para as minhas bonecas; a lista infindável de nomes de livros e discos. Muitas cartas. A todas elas tive resposta em 1994. Tinha 18 anos. E, por falar em idades e datas, lembrei-me dos anos da Rosa.
Não sei se algum dia a Rosa te escreveu uma carta. Mas, conhece-la de certeza. A Rosa fez 100 anos o mês passado e apareceu muito bonita a falar na Televisão, com o seu sorriso grande e brilhante; onde sempre soube, que se lhe pedisse, cabia lá por inteiro. Talvez tenha sido a primeira vez, que a Rosa falou de si. Ela, que como explicou à senhora jornalista que a entrevistou: “nunca fez mal a ninguém”. E depois, não sei se viste (?), “bailhou” a Chamarrita. Tenho saudades do tempo de vigia da Rosa; da época, em que ela te substituía na tarefa de ver se nos portávamos bem. Eu, os meus irmãos e primos. (Minha querida Rosa. Digo). E lembro-me dela na Televisão e imagino-a nas ruas para cima e para baixo. Os seus óculos de massa, o lenço sempre na cabeça, o casaco de malha, a sua passada curta e um amor, um amor muito grande para dar sem “fazer mal a ninguém”.
Não quero parecer-te muito desorganizada por andar sempre atrás e adiante, mas ainda antes de recuar a 1994, quando me mandaste a carta escrita, a resposta a todas as outras cartas de há anos, naquele dia chuvoso e triste, deixa-me falar-te da primeira boneca que eu tive: a “Joana”. Não sei se te lembras? Deste-ma em 1979 e ela caiu de cima do sofá de casa do avô para o chão e ficou logo sem tomar leite. Tive que ta devolver. Voltou, meses depois, como nova. Fui buscá-la a casa dos avós, numa caixa, que imitava uma caminha e tinha um laço vermelho. Era linda. Ainda a tenho. Pode ser que o bebé que chega para o ano queira brincar com ela. Não sei. Se não quiser, pode brincar com o mini vermelho, que me deste, quase igual ao do pai, que era branco, ou então, com a bola de lã vermelha, que me ofereceste, quando nasceu o meu irmão. (Uma bola à Benfica). (Como vês, 2006 tem sido um ano de emoções). Voltando, a 1994 e à resposta da tua carta escrita em papel reciclado, uma folha. Foi um consolo. Abri-la e ler-te. Saber que não te vendo, estavas lá tu a ver-me. Saber que me ouvias, que me vias, que me lias; saber o que procurava há tantos anos. E, agora, deves estar a perguntar a ti próprio o que me leva, passados 12 anos, a escrever-te esta carta?
Tenho que me voltar a lembrar como é que se voa a fingir? Onde moram as fadas que curam as doenças? De que cor são os casacos dos duendes? Quem é a Carochinha? Como é que eu chego à lua?
E sei, que a estas perguntas, só tu me podes responder.
De modo que, a carta que me escreveste em 1994 e que era uma resposta a todas as que te enviei, desde 1978; primeiro com a letra da mãe e depois com a minha, vinha escrita pela tua mão e era curta e enorme ao mesmo tempo. Chegou num dia triste de Inverno. Ainda não era Natal. “Querida. Existe e Insiste. Um beijo do velho de Natal.” (Janeiro, 1994). A carta era esta.
Por isso, estou, com a devida distância - como o poeta -: “Com medo de o perder nomeio o mundo (…)” (Vitorino Nemésio) e é esta a razão para te escrever. (Simples, parece-me). Preciso de saber tudo o que já te disse e mais coisas. Onde se encontram as poções mágicas do Asterix e os espinafres do Popeye? As estrelas dormem?
Preciso de saber (também isto) para continuar a existir e a insistir. Por isso, aqui estou e aqui deixo escrito: com medo de te perder, nomeio-te: Querido Velho de Natal. (E chamo-te “querido” para não perder a vez )…

Texto publicado no dia 22 de Dezembro de 2006, jornal Açoriano Oriental, Suplemento de Natal

Boas Festas! (3)

Ó Gente da Minha ...



Mariza

Boas Festas! (2)

Tabacaria.mp3


"Tabacaria", Álvaro de Campos, dito por João Villaret

quinta-feira, dezembro 21, 2006

domingo, dezembro 17, 2006

Cerco


Foto:A.Pascoal

O «weekend postcards» do Alexandre retoma uma questão que foi referida no programa Estado da Região e, cuja resposta ficou por se saber...
As obras do parque em frente ao TM são hoje uma espécie de "cerco" ao espaço e, por via disso, dificultam em demasia quem quer assistir a um espectáculo naquele imóvel.
Será que se irá passar o mesmo nas Portas do Mar?
E se as obras fossem do Governo e estivessem a decorrer na Rua de Lisboa e na Avenida Roberto Ivens?