domingo, junho 18, 2006

Pouca vergonha!!!


A 27 de Maio VM avisava. Passado quase um mês e depois de ontem ter visto o post do Alexandre Pascoal, a avenida está cheia de bandeiras e bandeiras de promoção do Festival. A vaca lá está com o respectivo Muuuuh.
Dado que a Muu é uma empresa de produções culturais; será uma coincidência o que consta nestes cartazes, bandeiras e lonas?
Veremos.

Almar

Almante,
Aquele que vive no meio do mar.
Almador,
Aquele que morre no mar.
Estar almado,
Condição de ter a alma presa ao mar.
Almar,
forma dialectal de viver.

sábado, junho 17, 2006

Onde?

"Baden-Baden, Spitzberg, Salzburgo?
Acapulco, Vera Cruz, Pequim?
Thebas, Sebastopol, Hamburgo?
Nova Deli? Não? Ou Nova Iorca? Sim?
Saint-Etienne, Boston, Johanesburgo -
apartheid à parte em tempo inteiro?
Kansas City, Termópilas, Nanterre?
Rejkiavik, Puchóv, Iowa, Erre
de Janeiro?
Cartago, Liverpool, Fez ou Almodôvar?
Londonderry, Santarém, Amsterdam?
Nova Deli? Sim? Ou Nova Iorca? Nam?
A terra de Bolívar (ou para rimar Bolôvar)?
Postojna, Cairo, Loano, Figueiró
dos Vinhos? Reno, Colares, Chianti, Dão?
(Muito obrigado, mas só à refeição.)
Tanganika, Massachussets, Pampilho-
sa? Paris, Bornéu, Kalamazoo?
Nova Deli? Não? Sim? Ou na O. N. U.?
Brza Palanka? Bu Ngem? (Faça favor
de repetir.) Bu Ngem? Brza Palanka?
Bridgehead, Brest, Salamalanca?
Alhos Vedros, San Marino, Andorra?
Liechtenstein, Sarre, o Corredor
de Danzig, mesmo que não corra?

Onde, onde, onde? Dizei-me, por amor
de Deus - antes que eu repita a rima
de forma mais justa (e malcriada, inda por cima)."

José Sesinando

sexta-feira, junho 16, 2006

Bom fim de semana!!!



Foto AM

"Era uma vez um lugar com um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para outro, e encontravam-nos, a eles,
ao inferno e ao paraíso, e tomavam-nos como seus, e eles eram seus de verdade.
As pessoas eram pequenas, mas faziam muito ruído.
E diziam: é o meu inferno, é o meu paraíso.
E não devemos malquerer às mitologias assim,
porque são das pessoas

e, neste assunto de pessoas,

amá-las é que é bom."


Herberto Hélder
poema

Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...
Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...


Mário Sá Carneiro

quinta-feira, junho 15, 2006

quarta-feira, junho 14, 2006

Croniqueta XXX ou o Fífia é um"pom-pom" de barretes e um Excritor


Agasalhado, qual barrete de “pom-pom” feito de lã e pouca fibra, nosso Fífia vagueia avenida abaixo avenida acima com ideias pouco favoráveis ao livre entendimento das pessoas. Muito impetuoso, algumas vezes mesmo intolerante, ao nosso Fífia já não lhe vale o bem escrever, porque, entre as paredes da sua sala, guarda o rancor invejoso dos maus perdedores. É uma pena, dirão os críticos literários da baixa citadina, que acomoda o seu brilho fosco de “Excritor”. De nada lhe valem, assim, as metáforas usadas em cada linha de fala. Mais se assemelha a pescador sem linha que, no corrico, por mais hábil e destro que possa ser, acaba perdendo o fio à meada. Nessas alturas, para nada lhe chegam os elogios dos seus heróis, nem tão pouco lhe são assegurados, métodos, modos e tipos de ensaio preparatório; não tendo, por isso, outro remédio, senão embrulhar-se qual barrete de “pom-pom” e falar alto avenida acima avenida abaixo, morrendo-se a cada sílaba…É um desastre. Temos pena.
O Fífia é um “Excritor”; o mote destas Croniquetas que, na volta, dos meus balanços, não perdeu o equilíbrio. As Croniquetas não perderam. O Fífia sim. Anda triste, desolado, arruinado, choramingão, cabisbaixo; anda perdido em desaires situacionais; em campanhas de promoção falidas, enfim, nosso Fífia é mais que Fífia, sem feed-back, sem reflexo, sem nada… O Fífia parece um bicho, cheirando a naftalina. Quando atiçado, perde o ar, comporta-se como um doido e corre. Porém, corre sozinho. E grita. Porém, grita sozinho. E chora. Chora quase sozinho. Felizmente, para nós, há cada vez menos ombros que lhe aguentem a cabeça e só meia dúzia de lenços lhe são estendidos, por dó.
O Fífia não aprendeu que do aprumo do método não consta a falta de educação.
O Fífia não aprendeu que se quer ser Escritor com um “S” sibilante não pode sentar-se à espera da inspiração. Tem que trabalhar.
O Fífia não aprendeu que para ser mais do que Fífia tem que deixar de ver os outros no seu espelho e passar a ver-se a si próprio. Reflectir-se.
O Fífia, apesar da idade avançada e dos cabelos brancos que lhe virgulam a cabeleira farta (infelizmente não o juízo) ainda não percebeu que mais vale ousar e arriscar do que ser “pom-pom” toda a vida, pendurado nos barretes, que servem em todas as cabeças.
O Fífia é um Excritor.

segunda-feira, junho 12, 2006

3º Balanço

Auto (de) tinha-se nas rodas
A andar.
Parecia um velocípede qualquer coisa de bípede encarnado (talvez) nas mãos milimétricas dos bonecos das pistas de carros tele-comandados.
Proto pintava tipos
de pessoas a gritar:
estão à venda nas praças as asas dos melros.
estão à venda nas praças as asas das gaivotas.
estão à venda nas praças as asas dos galos.
estão à venda nas praças as asas dos mosquitos.
Balões de grafemas; estrofes de palermas.
Esquemas de frases sintácticas; falta de ar das pessoas asmáticas.
Tudo. Vendido em furos. Todos. Vendidos como tordos. Caídos das asas dos anjos dos outros. Entramos no jogo, mexemos o arroz fervido na panela da inquietação.
Lavra, ama, seca a (tua) dor.
Só a palavra escritor não se escreve com dor,
porque [escridor] não existe
e as palavras certas estão à venda nas praças como as asas dos melros, das gaivotas, dos galos e dos mosquitos.
Pregão. Pregado. Prega (a) dor.
Faltam-me os pregos.

domingo, junho 11, 2006

2º balanço

Admit nothing
Blame everyone
Be bitter

Barbara Kruger


Se queres parecer inteligente,
desdenha de quem escreve coisas simples
e desconfia, desconfia sempre
dos sentimentos, das convicções.

Diz mal da tua época,
procura dar a tudo um ar difícil
e cita alguns autores que ninguém leu.

Se queres que te respeitem,
reserva a admiração e o elogio
pra certos mortos bem escolhidos,
de preferência estrangeiros,
e acima de tudo
não caias nunca na vulgaridade
de ser compreendido pelos que te lerem.


Fernando Pinto do Amaral
Conselho aos novos críticos do Século XX

1º balanço



Foto

terça-feira, junho 06, 2006



Pela minha parte o Blog fecha para Balanço. Se, entretanto, aparecer o meu sócio e primo que está, por ora, impossibilitado de escrever; as páginas deste Blog estão, obviamente, à sua disposição....

"(...)Dize tu: - Já começou, porém, a racionalização do
[trabalho.
Direi eu: - Todavia o manguito será por muito tempo
o mais económico dos gestos!
*
Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim...(...)"

Excerto de Saber viver é vender a alma ao Diabo de Alexandre O´Neill

sexta-feira, junho 02, 2006

Croniqueta XXIX ou o Fífia é uma "cantiga de Refrão"

O Fífia tem um único dom, perdido, num corpo de gente. Achá-lo é mais difícil do que procurar agulha em palheiros (plural propositado); encontrá-lo é fácil; mas porque hei-de eu apontá-lo? Ah. Pois. O Fífia é uma interjeição; um braço em elevação constante como quem, se votasse para eleger o Rei, buscasse a canção dos “sugus”, a do polícia sinaleiro, essa mesma; afinal, a memória, para ele, é uma frase batida e hoje é o primeiro dia do resto da vida dele: Jerónimo, grita, enquanto um povo unido, que nunca mais será vencido, sacode as peneiras do disposto e, desmascarando-o lhe grita ao ouvido: Vais partir naquela estrada!...
O Fífia é um “lança” poeira; uma cave escura, aonde se aproximam fantasmas da cor das crisálidas num desfile de hipóteses e criaturas, mais ou menos, disfarçadas de entusiasmantes aventuras! (Má-Criação, a minha). Devida, como se o tempo fosse um rebuçado que ele está cansado de chupar. De boca assada e aftas na ponta da língua (porque as aftas ardem e as feridas idem); num tom sempre fífado lá vai o Fífia lá anda; de manta para cobrir as orelhas, qual Linus, melhor amigo do Snoopy em cuja fralda se marca a marca dos marcados. O Fífia anda de olho em tudo. Mexe, remexe; se mexe mata se não mexe: assalta! O Fífia não tem culpa. É desculpa. É perdão em voz de compasso com cadências decadentes; é obra sem mão; é tinta sem água; é cal que não cai.
O Fífia dissipa-se no que toca; asfalta redes imaginárias de sonhos por descobrir, porquanto se lhe pesam as horas nos ombros dos anos que tem. Se tudo perdido, tudo por um fundo de ilusão, aonde na toada do assobio do mestre, está a chave do seu fracasso. O Fífia é assim uma espada de precocezinho. Preconceituoso; desatinado; o Fífia espera um quadro, que possa articular mesmo, com a sua mestria.
E qual alba de Poesia Trovadoresca, o Fífia espera de ouvido encostado à parede que a alma se salve numa cantiga de amigo ou de amor.
O que ele ainda não percebeu é que está a tornar-se uma “cantiga de refrão”:
Estes, que m’ora tolhem mia Senhor
Que a não posso aqui per rem veer,
Mal que lhe pês, não me podem tolher
Que a não veja sem nenhum pavor,
Que morrerei e tal tempo virá
Que mia Senhor fermosa morrerá:
Então a verei desi. Sabedor

Soom de tanto, por Nosso Senhor,
Que, se lá vir o seu bem-parecer,
Coita nem mal outro não posso haver
Em o Inferno, se com ela for;
Desi sei que os que jazem alá
Nenhum deles já mal não sentirá,
Que ante haverão de acartar sabor.
(Afonso Sanches)

quinta-feira, junho 01, 2006

À porta do mundo




Ó lua faz-me uma trança
P’ra de dia desmanchar
Guarda-me a última dança
Quando o fio se acabar

Gosto de ver o teu rosto
Que a mil caminhos se presta
Para uma noite desgosto
Por uma noite de festa

Voltaria à tua terra
Por um mergulho de mar
Entre a cidade e a serra
Fica algures o meu lugar

Este mundo não tem porta
Nem uma chave escondida
Por trás de tudo o que importa
Vem um sentido p’rá vida

Se te fizeres ao caminho
Em horas de arrebol
P’ra fermentar o meu vinho
Traz-me um pedaço de sol

Vamos escrever uma história
Rever um filme a passar
Logo virá à memória
O que eu te queria dar

Será verdade ou mentira
Como um segredo roubado
Sou como a lua que gira
Hei-de dançar ao teu lado

Este mundo não tem porta
Nem uma chave escondida
Por trás de tudo o que importa
Vem um sentido p’rá vida


Filipa Pais


Feliz Dia Mundial da Criança