RETICÊNCIAS
Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na acção.
Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado;
Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa!
Vou fazer as malas para o Definitivo,
Organizar Álvaro de Campos,
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem — um antes de ontem que é sempre...
Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei.
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir...
Produtos românticos, nós todos...
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada.
Assim se faz a literatura...
Santos Deuses, assim até se faz a vida!
Os outros também são românticos,
Os outros também não realizam nada, e são ricos e pobres,
Os outros também levam a vida a olhar para as malas a arrumar,
Os outros também dormem ao lado dos papéis meio compostos,
Os outros também são eu.
Vendedeira da rua cantando o teu pregão como um hino inconsciente,
Rodinha dentada na relojoaria da economia política,
Mãe, presente ou futura, de mortos no descascar dos Impérios,
A tua voz chega-me como uma chamada a parte nenhuma, como o silêncio da vida...
Olho dos papéis que estou pensando em arrumar para a janela,
Por onde não vi a vendedeira que ouvi por ela,
E o meu sorriso, que ainda não acabara, inclui uma crítica metafisica.
Descri de todos os deuses diante de uma secretária por arrumar,
Fitei de frente todos os destinos pela distracção de ouvir apregoando,
E o meu cansaço é um barco velho que apodrece na praia deserta,
E com esta imagem de qualquer outro poeta fecho a secretária e o poema...
Como um deus, não arrumei nem uma coisa nem outra...
Álvaro de Campos
"E um dia os homens descobrirão que esses discos voadores estavam apenas estudando as vidas dos insectos..." Mário Quintana
sexta-feira, novembro 25, 2005
Periférica (s) :ilhas
Ó :ilhas, Ó :ilhas, dizei,
Adeus ó Periférica.
Ó assassinos blogs,
Ó vaidades, Ó armas de fast food,
Que assim matais
a nossa haute couture de papel.
Ó :ilhas, Ó :ilhas, desaparecidas,
de cabeça na bruma,
masturbação e sexo não são sinónimos.
Adeus ó Periférica.
Ó assassinos blogs,
Ó vaidades, Ó armas de fast food,
Que assim matais
a nossa haute couture de papel.
Ó :ilhas, Ó :ilhas, desaparecidas,
de cabeça na bruma,
masturbação e sexo não são sinónimos.
quinta-feira, novembro 24, 2005
terça-feira, novembro 22, 2005
Fragmento do homem
" Que tempo é o nosso? Há quem diga que é um tempo a que falta amor. Convenhamos que é, pelo menos, um tempo em que tudo o que era nobre foi degradado, convertido em mercadoria. A obsessão do lucro foi transformando o homem num objecto com preço marcado. Estrangeiro a si próprio, surdo ao apelo do sangue, asfixiando a alma por todos os meios ao seu alcance, o que vem à tona é o mais abominável dos simulacros. Toda a arte moderna nos dá conta dessa catástrofe: o desencontro do homem com o homem. A sua grandeza reside nessa denúncia; a sua dignidade, em não pactuar com a mentira; a sua coragem, em arrancar máscaras e máscaras.
E poderia ser de outro modo? Num tempo em que todo o pensamento dogmático é mais do que suspeito, em que todas as morais se esbarrondam por alheias à «sabedoria» do corpo, em que o privilégio de uns poucos é utilizado implacavelmente para transformar o indivíduo em «cadáver adiado que procria», como poderia a arte deixar de reflectir uma tal situação, se cada palavra, cada ritmo, cada cor, onde espírito e sangue ardem no mesmo fogo, estão arraigados no próprio cerne da vida?
Desamparado até à medula, afogado nas águas difíceis da sua contradição, morrendo à míngua de autenticidade - eis o homem! Eis a triste, mutilada face humana, mais nostálgica de qualquer doutrina teológica que preocupada com uma problemática moral, que não sabe como fundar e instituir, pois nenhuma fará autoridade se não tiver em conta a totalidade do ser; nenhuma, em que espírito e vida sejam concebidos como irreconciliáveis; nenhuma, enquanto reduzir o homem a um fragmento do homem. Nós aprendemos com Pascal que o erro vem da exclusão."
Eugénio de Andrade, in 'Os Afluentes do Silêncio'
E poderia ser de outro modo? Num tempo em que todo o pensamento dogmático é mais do que suspeito, em que todas as morais se esbarrondam por alheias à «sabedoria» do corpo, em que o privilégio de uns poucos é utilizado implacavelmente para transformar o indivíduo em «cadáver adiado que procria», como poderia a arte deixar de reflectir uma tal situação, se cada palavra, cada ritmo, cada cor, onde espírito e sangue ardem no mesmo fogo, estão arraigados no próprio cerne da vida?
Desamparado até à medula, afogado nas águas difíceis da sua contradição, morrendo à míngua de autenticidade - eis o homem! Eis a triste, mutilada face humana, mais nostálgica de qualquer doutrina teológica que preocupada com uma problemática moral, que não sabe como fundar e instituir, pois nenhuma fará autoridade se não tiver em conta a totalidade do ser; nenhuma, em que espírito e vida sejam concebidos como irreconciliáveis; nenhuma, enquanto reduzir o homem a um fragmento do homem. Nós aprendemos com Pascal que o erro vem da exclusão."
Eugénio de Andrade, in 'Os Afluentes do Silêncio'
sexta-feira, novembro 18, 2005
A Filosofia e a Estética
Não quero deixar passar o dia mundial da Filosofia sem deixar aqui escrito um pensamento que hoje me ocorreu.
Vinha eu, a pé, do parque de estacionamento para o início do meu dia de trabalho quando fui atropelado por uma matilha desarida e desorganizada de cães que seguiam uma cadela escanzelada.
Ela fazia o que queria, atravessava a rua, intensa de tráfego, com cuidado, e eles todos kamikazes, sem cuidado, sem sequer memória do que seria um carro, um farol a milímetros e um PUM!, CRASH!, lá se atiravam, aos empurros, atrás daquela cauda levantada. Duas vezes ela parou e olhou para trás com ar cleopátrico de quem confirma o poder da natureza.
Ao mirar o olhar de sua escanzelada alteza pensei... (achei que esta pausa, aqui, ficaria bem) o cão não tem a mínima noção de estética, rasteja atrás de qualquer código genético, de qualquer cadela escanzelada. O homem não! Excepto um ou outro que tenha, por longos períodos de tempo, por morada uma prisão, o homem segue um meme traduzido em estética, a ideia de "féma", e isto sem ser atropelado. O homem não é um animal.
Vinha eu, a pé, do parque de estacionamento para o início do meu dia de trabalho quando fui atropelado por uma matilha desarida e desorganizada de cães que seguiam uma cadela escanzelada.
Ela fazia o que queria, atravessava a rua, intensa de tráfego, com cuidado, e eles todos kamikazes, sem cuidado, sem sequer memória do que seria um carro, um farol a milímetros e um PUM!, CRASH!, lá se atiravam, aos empurros, atrás daquela cauda levantada. Duas vezes ela parou e olhou para trás com ar cleopátrico de quem confirma o poder da natureza.
Ao mirar o olhar de sua escanzelada alteza pensei... (achei que esta pausa, aqui, ficaria bem) o cão não tem a mínima noção de estética, rasteja atrás de qualquer código genético, de qualquer cadela escanzelada. O homem não! Excepto um ou outro que tenha, por longos períodos de tempo, por morada uma prisão, o homem segue um meme traduzido em estética, a ideia de "féma", e isto sem ser atropelado. O homem não é um animal.
quinta-feira, novembro 17, 2005
Recomendação de Leitura
"(...)As palavras como os números, obtêm o seu valor do lugar, que ocupam; e os respectivos conceitos são, na sua determinação e relações, tão mutáveis como as moedas, segundo o lugar e o tempo. Quando a serpente garante a Eva: "Sereís como Deus" e Jeová profetiza:"Eis que Adão é como um de nós", quando Salomão exclama:"Tudo é vão" e quando um tolo qualquer papagueia a mesma frase...fica claro que verdades idênticas podem ser pronunciadas com espírito muito contrário.
Para além disso, qualquer frase, ainda que brote de uma mesma boca e de um mesmo coração, está sujeita a uma infinitude de conceitos colaterais que lhe atribuem os que a captam,precisamente do mesmo modo que os raios luminosos tomam esta ou aquela cor segundo a superfície a partir da qual se reflectem aos nossos olhos. Assim, quando Sócrates, com o seu "nada sei", prestava contas a Críton, quando com as mesmas palavras, afastava de si os eruditos e curiosos Atenienses, ou quando procurava aliviar da ilusão da vaidade os belos jovens que o acompanhavam e ganhar-lhes a confiança igualando-se a eles, as perífrases que teríamos que fazer desse seu lema segundo cada um desses três pontos de vista haviam de parecer tão diferentes como por vezes acontece com três irmãos que sejam filhos de um mesmo pai. (...)"
Hamann, Memoráveis Socráticas, ed. Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa,Lisboa,trad. de Miranda Justo, Colecção Philosophica - Opposita, 1999,pp. 51/52.
(Também) porque hoje se celebra o Dia Mundial da Filosofia.
quarta-feira, novembro 16, 2005
Poema
aqueles que têm nome e nos telefonam
um dia emagrecem - partem
deixam-nos dobrados ao abandono
no interior duma dor inútil muda
e voraz
arquivamos o amor no abismo do tempo
e para lá da pele negra do desgosto
pressentimos vivo
o passageiro ardente das areias - o viajante
que irradia um cheiro a violetas nocturnas
acendemos então uma labareda nos dedos
acordamos trémulos confusos - a mão queimada
junto ao coração
e mais nada se move na centrifugação
dos segundos - tudo nos falta
nem a vida nem o que dela resta nos consola
a ausência fulgura na aurora das manhãs
e com o rosto ainda sujo de sono ouvimos
o rumor do corpo a encher-se de mágoa
assim guardamos as nuvens breves os gestos
os invernos o repouso a sonolência
o vento
arrastando para longe as imagens difusas
daqueles que amámos e não voltaram
a telefonar
Al Berto
terça-feira, novembro 15, 2005


"(...)Nós os Açoreanos de cada ilha temos perdido muito tempo, e muito bôas ocasiões de trabalhar com juízo, pela pueril vaidade, pelo chauvinismo fútil, de não querermos reconhecer aquilo que, supomos, seria a superioridade de qualquer outra ilha sobre a nossa. E por assim ser andamos, por vezes aos solavancos à geografia e ao bom senso.
Manda a verdade todavia que se diga que o interesse de todos nós, e que o bom senso e a geografia aconselham - seria abdicarmos, por cálculo ou generosidade, dos nossos pergaminhos e fantasias, para reconhecermos de bom grado, como bons amigos, como bons irmãos, como inteligentes conterrâneos, que a terra açoreana vae de Santa Maria ao Corvo, porque não é o Atlântico que nos divide, é o mar dos Açores que nos une.E, sendo assim, como é, tão nossa Ponta Delgada, como a Horta, como Angra, ou como Santa Cruz das Flores. (...)
Enfim vamos ao Banco dos Açores, em primeiro logar - o resto virá como corolário. Quem dá o primeiro passo?
Para o seguir já somos muitos e de muito bôa vontade."
Lisbôa, 28 de Agosto, 1920
H. Linhares de Lima, " O Banco dos Açôres", in Na Senda da Identidade Açoriana (Antologia de Textos do Correio dos Açores), org. de Carlos Cordeiro, Ponta Delgada, 1995.
segunda-feira, novembro 14, 2005
Será que o Nuno tem razão
Parábola dos Talentos
Havendo subido com seus discípulos ao monte das Oliveiras, dias antes de ser crucificado, disse-lhes o Mestre: "O Senhor age como um homem que, tendo de fazer longa viagem fora do seu país, chamou seus servidores e lhes entregou seus bens. Depois de dar cinco talentos a um; dois a outro e um a outro, segundo a sua capacidade, partiu imediatamente. Então, o que recebera cinco talentos foi-se, negociou com aquele dinheiro e ganhou outros cinco. O que recebera dois, da mesma sorte, ganhou outros dois; mas o que apenas recebera um, cavou na terra e aí escondeu o dinheiro de seu amo. Passado longo tempo, o senhor daqueles servos voltou e os chamou a. contas. Veio o que recebera cinco talentos e lhe apresentou outros cinco, dizendo. - Senhor, entregaste-me cinco talentos; aqui estão, além desses, mais cinco que lucrei. Respondeu-lhe o amo: - Bem está, servo bom e fiel, já que foste fiel nas coisas pequenas, dar-te-ei a intendência das grandes. Entra no gozo de teu Senhor. O que recebera dois talentos, apresentou-se a seu turno e lhe disse: - Senhor, entregaste-me dois talentos; aqui estão, além desses, dois outros que ganhei. E o amo: - Servidor bom e fiel, pois que foste fiel em pouca coisa, confiar-te-ei muitas outras. Compartilha da alegria do teu senhor. Veio em seguida o que recebera apenas um talento e disse: - Senhor, sei que és severo, que ceifas onde não semeaste e colhes de onde nada puseste, por isso, como tive medo de ti, escondi o teu talento na terra; eis, aqui tens o que é teu. O homem, porém, lhe respondeu: - Servidor mau e preguiçoso, se sabias que ceifo onde não semeei e que colho onde nada pus, devias pôr o meu dinheiro nas mãos dos banqueiros, a fim de que, regressando, eu retirasse com juros o que me pertence. E prosseguiu: Tirem-lhe, pois, o talento que está com ele e dêem-no ao que tem dez talentos, porquanto, dar-se-á a todos os que já têm e esses ficarão cumulados de bens. Quanto àquele que nada tem, tirar-se-lhe-á mesmo o que pareça ter; e seja esse servidor inútil lançado nas trevas exteriores, onde haverá prantos e ranger de dentes" ( Mateus, 25 :14 a 30 ).
Havendo subido com seus discípulos ao monte das Oliveiras, dias antes de ser crucificado, disse-lhes o Mestre: "O Senhor age como um homem que, tendo de fazer longa viagem fora do seu país, chamou seus servidores e lhes entregou seus bens. Depois de dar cinco talentos a um; dois a outro e um a outro, segundo a sua capacidade, partiu imediatamente. Então, o que recebera cinco talentos foi-se, negociou com aquele dinheiro e ganhou outros cinco. O que recebera dois, da mesma sorte, ganhou outros dois; mas o que apenas recebera um, cavou na terra e aí escondeu o dinheiro de seu amo. Passado longo tempo, o senhor daqueles servos voltou e os chamou a. contas. Veio o que recebera cinco talentos e lhe apresentou outros cinco, dizendo. - Senhor, entregaste-me cinco talentos; aqui estão, além desses, mais cinco que lucrei. Respondeu-lhe o amo: - Bem está, servo bom e fiel, já que foste fiel nas coisas pequenas, dar-te-ei a intendência das grandes. Entra no gozo de teu Senhor. O que recebera dois talentos, apresentou-se a seu turno e lhe disse: - Senhor, entregaste-me dois talentos; aqui estão, além desses, dois outros que ganhei. E o amo: - Servidor bom e fiel, pois que foste fiel em pouca coisa, confiar-te-ei muitas outras. Compartilha da alegria do teu senhor. Veio em seguida o que recebera apenas um talento e disse: - Senhor, sei que és severo, que ceifas onde não semeaste e colhes de onde nada puseste, por isso, como tive medo de ti, escondi o teu talento na terra; eis, aqui tens o que é teu. O homem, porém, lhe respondeu: - Servidor mau e preguiçoso, se sabias que ceifo onde não semeei e que colho onde nada pus, devias pôr o meu dinheiro nas mãos dos banqueiros, a fim de que, regressando, eu retirasse com juros o que me pertence. E prosseguiu: Tirem-lhe, pois, o talento que está com ele e dêem-no ao que tem dez talentos, porquanto, dar-se-á a todos os que já têm e esses ficarão cumulados de bens. Quanto àquele que nada tem, tirar-se-lhe-á mesmo o que pareça ter; e seja esse servidor inútil lançado nas trevas exteriores, onde haverá prantos e ranger de dentes" ( Mateus, 25 :14 a 30 ).
Não há regresso possível mas podes errar no caminho
"quando vieres não toques nas pedras
nos joelhos das casas na alma do pó.
vem como se a nudez te enroupasse
impuro nas palavras
tão nobre como asa partida.
ao passares pelo chafariz
não chegues o pote da tristeza
à bica do tempo.
as dálias e a coragem dão flor
mas não dão fruto.
( a ilha mete medo e nem estás triste...)
sacode a boca das sandálias
e não olhes para trás.
quem o fizer - disse-me ontem à noite
( havia brisa caranguejos musgo e outras lástimas da
ilha) uma gaivota - fica de pé como árvore
condenado a ver o mar e não poder partir.
as gaivotas não mentem"
ÁLAMO OLIVEIRA, Itinerário das Gaivotas, Sec.Reg.Educação e Cultura, Colecção
domingo, novembro 13, 2005
CARTA I


Estou de partida como os navios no porto. Vou, entre as correntezas do abismo, selectas, enfeitiçadas por rasgos de braços e mãos perdidas, e as brisas dos mares, essas doidas bailarinas, cujas horas de sono perdidas, em passe doble enfeitiçam os olhos desprotegidos das chuvas.
Esqueço a meia vaga as hélices e quando, por algum momento, penso – quero atracar – logo me dizem as ondas: - não podes.
Sou, no intermédio da voz que fica, a frágil palavra. Qualquer coisa que não existe, mais não seja, porque o barulho de ti é tão grande, que eu não consigo dormir…
E as fadas, regressadas da faina, com luvas verdes, calçadas nas mãos, entoam aqueles musicais antigos, que me dizias serem postais do mundo inteiro. Não sei já se me devo esquecer que existes, fingir que talvez voltes...
Por mim, estou de partida, ajeitada para a viagem, como os navios do porto. Doca fora…entre as marés e o salto, o desejado, como quem larga as amarras e voa. Como as gaivotas, sabes? As mesmas dos bicos vermelhos escuros que hoje, particularmente hoje, dormiam na bacia da doca, enquanto eu te escrevia esta carta e as pessoas na avenida, enfiadas nos seus casacos de frio, até pareciam dançar.
Dançar.
PDL, 13 de Novembro, 2005
sábado, novembro 12, 2005
sombras 

Vitorino Nemésio


Todas as tardes levo a minha sombra a beber
Como uma nuvem ao mar de que saiu o meu ser.
Não é mais doce a sombra do cavalo
Aberta pelo luar, e o dono a acompanhá-lo.
Levo essa sombra que destinge
Da minha alma e conserva uma mancha de mágoa;
Triste vestido que me cinge,
Deixou a cor no fundo da água.
Eu, cortado de mim como uma flor (e tenho
Vergonha de me sentir flor), as mãos embebo
Nessa água que leva a visão de onde venho,
E é para a não perder que, bebendo-a, me bebo.
Vitorino Nemésio
sexta-feira, novembro 11, 2005
O reparo do amor
Não reparo no teu novo corte de cabelo
Não reparo que às vezes, pela noite, choras
Não reparo que há dias em que não me falas
Não reparo que há tempos não fazemos amor
Reparo quão curta é a saia com que saíste hoje
Reparo que o gajo do bar também repara
Reparo que tu também reparas no gajo do bar
Perdoa-me querida, porque te amo!
Não reparo que às vezes, pela noite, choras
Não reparo que há dias em que não me falas
Não reparo que há tempos não fazemos amor
Reparo quão curta é a saia com que saíste hoje
Reparo que o gajo do bar também repara
Reparo que tu também reparas no gajo do bar
Perdoa-me querida, porque te amo!
Onde?
adeus 

de Obra Ântuma, publicações Europa-América, 1986)
José Sesinando


Baden-Baden, Spitzberg, Salzburgo?
Acapulco, Vera Cruz, Pequim?
Thebas, Sebastopol, Hamburgo?
Nova Deli? Não? Ou Nova Iorca? Sim?
Saint-Etienne, Boston, Johanesburgo -
apartheid à parte em tempo inteiro?
Kansas City, Termópilas, Nanterre?
Rejkiavik, Puchóv, Iowa, Erre
de Janeiro?
Cartago, Liverpool, Fez ou Almodôvar?
Londonderry, Santarém, Amsterdam?
Nova Deli? Sim? Ou Nova Iorca? Nam?
A terra de Bolívar (ou para rimar Bolôvar)?
Postojna, Cairo, Loano, Figueiró
dos Vinhos? Reno, Colares, Chianti, Dão?
(Muito obrigado, mas só à refeição.)
Tanganika, Massachussets, Pampilho-
sa? Paris, Bornéu, Kalamazoo?
Nova Deli? Não? Sim? Ou na O. N. U.?
Brza Palanka? Bu Ngem? (Faça favor
de repetir.) Bu Ngem? Brza Palanka?
Bridgehead, Brest, Salamalanca?
Alhos Vedros, San Marino, Andorra?
Liechtenstein, Sarre, o Corredor
de Danzig, mesmo que não corra?
Onde, onde, onde? Dizei-me, por amor
de Deus - antes que eu repita a rima
de forma mais justa (e malcriada, inda por cima).
de Obra Ântuma, publicações Europa-América, 1986)
José Sesinando
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