Não quero deixar passar o dia mundial da Filosofia sem deixar aqui escrito um pensamento que hoje me ocorreu.
Vinha eu, a pé, do parque de estacionamento para o início do meu dia de trabalho quando fui atropelado por uma matilha desarida e desorganizada de cães que seguiam uma cadela escanzelada.
Ela fazia o que queria, atravessava a rua, intensa de tráfego, com cuidado, e eles todos kamikazes, sem cuidado, sem sequer memória do que seria um carro, um farol a milímetros e um PUM!, CRASH!, lá se atiravam, aos empurros, atrás daquela cauda levantada. Duas vezes ela parou e olhou para trás com ar cleopátrico de quem confirma o poder da natureza.
Ao mirar o olhar de sua escanzelada alteza pensei... (achei que esta pausa, aqui, ficaria bem) o cão não tem a mínima noção de estética, rasteja atrás de qualquer código genético, de qualquer cadela escanzelada. O homem não! Excepto um ou outro que tenha, por longos períodos de tempo, por morada uma prisão, o homem segue um meme traduzido em estética, a ideia de "féma", e isto sem ser atropelado. O homem não é um animal.
"E um dia os homens descobrirão que esses discos voadores estavam apenas estudando as vidas dos insectos..." Mário Quintana
sexta-feira, novembro 18, 2005
quinta-feira, novembro 17, 2005
Recomendação de Leitura
"(...)As palavras como os números, obtêm o seu valor do lugar, que ocupam; e os respectivos conceitos são, na sua determinação e relações, tão mutáveis como as moedas, segundo o lugar e o tempo. Quando a serpente garante a Eva: "Sereís como Deus" e Jeová profetiza:"Eis que Adão é como um de nós", quando Salomão exclama:"Tudo é vão" e quando um tolo qualquer papagueia a mesma frase...fica claro que verdades idênticas podem ser pronunciadas com espírito muito contrário.
Para além disso, qualquer frase, ainda que brote de uma mesma boca e de um mesmo coração, está sujeita a uma infinitude de conceitos colaterais que lhe atribuem os que a captam,precisamente do mesmo modo que os raios luminosos tomam esta ou aquela cor segundo a superfície a partir da qual se reflectem aos nossos olhos. Assim, quando Sócrates, com o seu "nada sei", prestava contas a Críton, quando com as mesmas palavras, afastava de si os eruditos e curiosos Atenienses, ou quando procurava aliviar da ilusão da vaidade os belos jovens que o acompanhavam e ganhar-lhes a confiança igualando-se a eles, as perífrases que teríamos que fazer desse seu lema segundo cada um desses três pontos de vista haviam de parecer tão diferentes como por vezes acontece com três irmãos que sejam filhos de um mesmo pai. (...)"
Hamann, Memoráveis Socráticas, ed. Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa,Lisboa,trad. de Miranda Justo, Colecção Philosophica - Opposita, 1999,pp. 51/52.
(Também) porque hoje se celebra o Dia Mundial da Filosofia.
quarta-feira, novembro 16, 2005
Poema
aqueles que têm nome e nos telefonam
um dia emagrecem - partem
deixam-nos dobrados ao abandono
no interior duma dor inútil muda
e voraz
arquivamos o amor no abismo do tempo
e para lá da pele negra do desgosto
pressentimos vivo
o passageiro ardente das areias - o viajante
que irradia um cheiro a violetas nocturnas
acendemos então uma labareda nos dedos
acordamos trémulos confusos - a mão queimada
junto ao coração
e mais nada se move na centrifugação
dos segundos - tudo nos falta
nem a vida nem o que dela resta nos consola
a ausência fulgura na aurora das manhãs
e com o rosto ainda sujo de sono ouvimos
o rumor do corpo a encher-se de mágoa
assim guardamos as nuvens breves os gestos
os invernos o repouso a sonolência
o vento
arrastando para longe as imagens difusas
daqueles que amámos e não voltaram
a telefonar
Al Berto
terça-feira, novembro 15, 2005


"(...)Nós os Açoreanos de cada ilha temos perdido muito tempo, e muito bôas ocasiões de trabalhar com juízo, pela pueril vaidade, pelo chauvinismo fútil, de não querermos reconhecer aquilo que, supomos, seria a superioridade de qualquer outra ilha sobre a nossa. E por assim ser andamos, por vezes aos solavancos à geografia e ao bom senso.
Manda a verdade todavia que se diga que o interesse de todos nós, e que o bom senso e a geografia aconselham - seria abdicarmos, por cálculo ou generosidade, dos nossos pergaminhos e fantasias, para reconhecermos de bom grado, como bons amigos, como bons irmãos, como inteligentes conterrâneos, que a terra açoreana vae de Santa Maria ao Corvo, porque não é o Atlântico que nos divide, é o mar dos Açores que nos une.E, sendo assim, como é, tão nossa Ponta Delgada, como a Horta, como Angra, ou como Santa Cruz das Flores. (...)
Enfim vamos ao Banco dos Açores, em primeiro logar - o resto virá como corolário. Quem dá o primeiro passo?
Para o seguir já somos muitos e de muito bôa vontade."
Lisbôa, 28 de Agosto, 1920
H. Linhares de Lima, " O Banco dos Açôres", in Na Senda da Identidade Açoriana (Antologia de Textos do Correio dos Açores), org. de Carlos Cordeiro, Ponta Delgada, 1995.
segunda-feira, novembro 14, 2005
Será que o Nuno tem razão
Parábola dos Talentos
Havendo subido com seus discípulos ao monte das Oliveiras, dias antes de ser crucificado, disse-lhes o Mestre: "O Senhor age como um homem que, tendo de fazer longa viagem fora do seu país, chamou seus servidores e lhes entregou seus bens. Depois de dar cinco talentos a um; dois a outro e um a outro, segundo a sua capacidade, partiu imediatamente. Então, o que recebera cinco talentos foi-se, negociou com aquele dinheiro e ganhou outros cinco. O que recebera dois, da mesma sorte, ganhou outros dois; mas o que apenas recebera um, cavou na terra e aí escondeu o dinheiro de seu amo. Passado longo tempo, o senhor daqueles servos voltou e os chamou a. contas. Veio o que recebera cinco talentos e lhe apresentou outros cinco, dizendo. - Senhor, entregaste-me cinco talentos; aqui estão, além desses, mais cinco que lucrei. Respondeu-lhe o amo: - Bem está, servo bom e fiel, já que foste fiel nas coisas pequenas, dar-te-ei a intendência das grandes. Entra no gozo de teu Senhor. O que recebera dois talentos, apresentou-se a seu turno e lhe disse: - Senhor, entregaste-me dois talentos; aqui estão, além desses, dois outros que ganhei. E o amo: - Servidor bom e fiel, pois que foste fiel em pouca coisa, confiar-te-ei muitas outras. Compartilha da alegria do teu senhor. Veio em seguida o que recebera apenas um talento e disse: - Senhor, sei que és severo, que ceifas onde não semeaste e colhes de onde nada puseste, por isso, como tive medo de ti, escondi o teu talento na terra; eis, aqui tens o que é teu. O homem, porém, lhe respondeu: - Servidor mau e preguiçoso, se sabias que ceifo onde não semeei e que colho onde nada pus, devias pôr o meu dinheiro nas mãos dos banqueiros, a fim de que, regressando, eu retirasse com juros o que me pertence. E prosseguiu: Tirem-lhe, pois, o talento que está com ele e dêem-no ao que tem dez talentos, porquanto, dar-se-á a todos os que já têm e esses ficarão cumulados de bens. Quanto àquele que nada tem, tirar-se-lhe-á mesmo o que pareça ter; e seja esse servidor inútil lançado nas trevas exteriores, onde haverá prantos e ranger de dentes" ( Mateus, 25 :14 a 30 ).
Havendo subido com seus discípulos ao monte das Oliveiras, dias antes de ser crucificado, disse-lhes o Mestre: "O Senhor age como um homem que, tendo de fazer longa viagem fora do seu país, chamou seus servidores e lhes entregou seus bens. Depois de dar cinco talentos a um; dois a outro e um a outro, segundo a sua capacidade, partiu imediatamente. Então, o que recebera cinco talentos foi-se, negociou com aquele dinheiro e ganhou outros cinco. O que recebera dois, da mesma sorte, ganhou outros dois; mas o que apenas recebera um, cavou na terra e aí escondeu o dinheiro de seu amo. Passado longo tempo, o senhor daqueles servos voltou e os chamou a. contas. Veio o que recebera cinco talentos e lhe apresentou outros cinco, dizendo. - Senhor, entregaste-me cinco talentos; aqui estão, além desses, mais cinco que lucrei. Respondeu-lhe o amo: - Bem está, servo bom e fiel, já que foste fiel nas coisas pequenas, dar-te-ei a intendência das grandes. Entra no gozo de teu Senhor. O que recebera dois talentos, apresentou-se a seu turno e lhe disse: - Senhor, entregaste-me dois talentos; aqui estão, além desses, dois outros que ganhei. E o amo: - Servidor bom e fiel, pois que foste fiel em pouca coisa, confiar-te-ei muitas outras. Compartilha da alegria do teu senhor. Veio em seguida o que recebera apenas um talento e disse: - Senhor, sei que és severo, que ceifas onde não semeaste e colhes de onde nada puseste, por isso, como tive medo de ti, escondi o teu talento na terra; eis, aqui tens o que é teu. O homem, porém, lhe respondeu: - Servidor mau e preguiçoso, se sabias que ceifo onde não semeei e que colho onde nada pus, devias pôr o meu dinheiro nas mãos dos banqueiros, a fim de que, regressando, eu retirasse com juros o que me pertence. E prosseguiu: Tirem-lhe, pois, o talento que está com ele e dêem-no ao que tem dez talentos, porquanto, dar-se-á a todos os que já têm e esses ficarão cumulados de bens. Quanto àquele que nada tem, tirar-se-lhe-á mesmo o que pareça ter; e seja esse servidor inútil lançado nas trevas exteriores, onde haverá prantos e ranger de dentes" ( Mateus, 25 :14 a 30 ).
Não há regresso possível mas podes errar no caminho
"quando vieres não toques nas pedras
nos joelhos das casas na alma do pó.
vem como se a nudez te enroupasse
impuro nas palavras
tão nobre como asa partida.
ao passares pelo chafariz
não chegues o pote da tristeza
à bica do tempo.
as dálias e a coragem dão flor
mas não dão fruto.
( a ilha mete medo e nem estás triste...)
sacode a boca das sandálias
e não olhes para trás.
quem o fizer - disse-me ontem à noite
( havia brisa caranguejos musgo e outras lástimas da
ilha) uma gaivota - fica de pé como árvore
condenado a ver o mar e não poder partir.
as gaivotas não mentem"
ÁLAMO OLIVEIRA, Itinerário das Gaivotas, Sec.Reg.Educação e Cultura, Colecção
domingo, novembro 13, 2005
CARTA I


Estou de partida como os navios no porto. Vou, entre as correntezas do abismo, selectas, enfeitiçadas por rasgos de braços e mãos perdidas, e as brisas dos mares, essas doidas bailarinas, cujas horas de sono perdidas, em passe doble enfeitiçam os olhos desprotegidos das chuvas.
Esqueço a meia vaga as hélices e quando, por algum momento, penso – quero atracar – logo me dizem as ondas: - não podes.
Sou, no intermédio da voz que fica, a frágil palavra. Qualquer coisa que não existe, mais não seja, porque o barulho de ti é tão grande, que eu não consigo dormir…
E as fadas, regressadas da faina, com luvas verdes, calçadas nas mãos, entoam aqueles musicais antigos, que me dizias serem postais do mundo inteiro. Não sei já se me devo esquecer que existes, fingir que talvez voltes...
Por mim, estou de partida, ajeitada para a viagem, como os navios do porto. Doca fora…entre as marés e o salto, o desejado, como quem larga as amarras e voa. Como as gaivotas, sabes? As mesmas dos bicos vermelhos escuros que hoje, particularmente hoje, dormiam na bacia da doca, enquanto eu te escrevia esta carta e as pessoas na avenida, enfiadas nos seus casacos de frio, até pareciam dançar.
Dançar.
PDL, 13 de Novembro, 2005
sábado, novembro 12, 2005
sombras 

Vitorino Nemésio


Todas as tardes levo a minha sombra a beber
Como uma nuvem ao mar de que saiu o meu ser.
Não é mais doce a sombra do cavalo
Aberta pelo luar, e o dono a acompanhá-lo.
Levo essa sombra que destinge
Da minha alma e conserva uma mancha de mágoa;
Triste vestido que me cinge,
Deixou a cor no fundo da água.
Eu, cortado de mim como uma flor (e tenho
Vergonha de me sentir flor), as mãos embebo
Nessa água que leva a visão de onde venho,
E é para a não perder que, bebendo-a, me bebo.
Vitorino Nemésio
sexta-feira, novembro 11, 2005
O reparo do amor
Não reparo no teu novo corte de cabelo
Não reparo que às vezes, pela noite, choras
Não reparo que há dias em que não me falas
Não reparo que há tempos não fazemos amor
Reparo quão curta é a saia com que saíste hoje
Reparo que o gajo do bar também repara
Reparo que tu também reparas no gajo do bar
Perdoa-me querida, porque te amo!
Não reparo que às vezes, pela noite, choras
Não reparo que há dias em que não me falas
Não reparo que há tempos não fazemos amor
Reparo quão curta é a saia com que saíste hoje
Reparo que o gajo do bar também repara
Reparo que tu também reparas no gajo do bar
Perdoa-me querida, porque te amo!
Onde?
adeus 

de Obra Ântuma, publicações Europa-América, 1986)
José Sesinando


Baden-Baden, Spitzberg, Salzburgo?
Acapulco, Vera Cruz, Pequim?
Thebas, Sebastopol, Hamburgo?
Nova Deli? Não? Ou Nova Iorca? Sim?
Saint-Etienne, Boston, Johanesburgo -
apartheid à parte em tempo inteiro?
Kansas City, Termópilas, Nanterre?
Rejkiavik, Puchóv, Iowa, Erre
de Janeiro?
Cartago, Liverpool, Fez ou Almodôvar?
Londonderry, Santarém, Amsterdam?
Nova Deli? Sim? Ou Nova Iorca? Nam?
A terra de Bolívar (ou para rimar Bolôvar)?
Postojna, Cairo, Loano, Figueiró
dos Vinhos? Reno, Colares, Chianti, Dão?
(Muito obrigado, mas só à refeição.)
Tanganika, Massachussets, Pampilho-
sa? Paris, Bornéu, Kalamazoo?
Nova Deli? Não? Sim? Ou na O. N. U.?
Brza Palanka? Bu Ngem? (Faça favor
de repetir.) Bu Ngem? Brza Palanka?
Bridgehead, Brest, Salamalanca?
Alhos Vedros, San Marino, Andorra?
Liechtenstein, Sarre, o Corredor
de Danzig, mesmo que não corra?
Onde, onde, onde? Dizei-me, por amor
de Deus - antes que eu repita a rima
de forma mais justa (e malcriada, inda por cima).
de Obra Ântuma, publicações Europa-América, 1986)
José Sesinando
quinta-feira, novembro 10, 2005
A verdade, segundo S. José
- José! Diz-me a verdade! Tu andaste a comer açúcar?
- …
- José! Tu sabes que não podes comer açúcar!
- Querida! Mas eu não comi açúcar!
- Não acredito! Jura que estás a dizer a verdade!
- Juro! Juro! Eu não comi açúcar!
- Não foste tu quem comeu o bolo que estava no frigorífico?
- ...! Mas o bolo não é açúcar!!?!!
- …
- José! Tu sabes que não podes comer açúcar!
- Querida! Mas eu não comi açúcar!
- Não acredito! Jura que estás a dizer a verdade!
- Juro! Juro! Eu não comi açúcar!
- Não foste tu quem comeu o bolo que estava no frigorífico?
- ...! Mas o bolo não é açúcar!!?!!
A mentira, segundo S. Carlos
- Carlos! Tu estás-me a mentir!
- Querida! Tu sabes que não tenho por hábito mentir-te!
- Mas tu estás-me a mentir!
- Querida! Eu não tenho por hábito mentir-te!
- Quero lá saber quais são os teus hábitos! Estás-me a mentir ou não?
- Querida! Eu não… esquece. Eu vou trabalhar. Nós falamos logo quando estiveres mais calma.
- Carlos!?!... Carlos!?!
- Querida! Tu sabes que não tenho por hábito mentir-te!
- Mas tu estás-me a mentir!
- Querida! Eu não tenho por hábito mentir-te!
- Quero lá saber quais são os teus hábitos! Estás-me a mentir ou não?
- Querida! Eu não… esquece. Eu vou trabalhar. Nós falamos logo quando estiveres mais calma.
- Carlos!?!... Carlos!?!
Eu sei, mas não devia
"Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos
e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.
E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz,
aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.
As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
A luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
A contaminação da água do mar.
A lenta morte dos rios.
Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães,
a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui,
um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.
Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se
da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta,
de tanto acostumar, se perde de si mesma."
Clarice Lispector
quarta-feira, novembro 09, 2005
Ao domingo todos temos fome
Sempre que possível os meus sobrinhos, Gonçalo 5 anos, Clemente 10 anos, José Maria 12 anos e Miguel 16 anos, dormem na casa dos avós de sábado para domingo. Este prazer é normalmente acompanhado com um convite para uma presença na missa de domingo nas Capelas. Convite que, com algum sacrifício, raramente é recusado, se bem que se adivinha para breve uma deserção por parte do Miguel.
Este domingo os meus pais foram surpreendidos pelo ar de pura infelicidade do Gonçalo à saída da missa. Olhos redondos vidrados para o chão, bochechas descaídas.
- Então Gonçalo?!? O que é que se passa? Que cara é essa querido?!? – perguntaram os avós.
- Eu não gosto da missa!
Enquanto os primos regozijavam com um novo aliado tão precoce, na realidade não contavam com o seu apoio por mais uns anitos, os avós surpreendidos insistiram – Porquê Gonçalo?!?
O Gonçalo levantou do chão aqueles olhos iluminados por uma lágrima e pela fé na justiça divina e, na sua inocência, lamuriou com tremor no queijo – Há comida para todos, menos para mim!!!
Toda a família não precisou de outro alimento todo aquele santo domingo.
Este domingo os meus pais foram surpreendidos pelo ar de pura infelicidade do Gonçalo à saída da missa. Olhos redondos vidrados para o chão, bochechas descaídas.
- Então Gonçalo?!? O que é que se passa? Que cara é essa querido?!? – perguntaram os avós.
- Eu não gosto da missa!
Enquanto os primos regozijavam com um novo aliado tão precoce, na realidade não contavam com o seu apoio por mais uns anitos, os avós surpreendidos insistiram – Porquê Gonçalo?!?
O Gonçalo levantou do chão aqueles olhos iluminados por uma lágrima e pela fé na justiça divina e, na sua inocência, lamuriou com tremor no queijo – Há comida para todos, menos para mim!!!
Toda a família não precisou de outro alimento todo aquele santo domingo.
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