- José! Diz-me a verdade! Tu andaste a comer açúcar?
- …
- José! Tu sabes que não podes comer açúcar!
- Querida! Mas eu não comi açúcar!
- Não acredito! Jura que estás a dizer a verdade!
- Juro! Juro! Eu não comi açúcar!
- Não foste tu quem comeu o bolo que estava no frigorífico?
- ...! Mas o bolo não é açúcar!!?!!
"E um dia os homens descobrirão que esses discos voadores estavam apenas estudando as vidas dos insectos..." Mário Quintana
quinta-feira, novembro 10, 2005
A mentira, segundo S. Carlos
- Carlos! Tu estás-me a mentir!
- Querida! Tu sabes que não tenho por hábito mentir-te!
- Mas tu estás-me a mentir!
- Querida! Eu não tenho por hábito mentir-te!
- Quero lá saber quais são os teus hábitos! Estás-me a mentir ou não?
- Querida! Eu não… esquece. Eu vou trabalhar. Nós falamos logo quando estiveres mais calma.
- Carlos!?!... Carlos!?!
- Querida! Tu sabes que não tenho por hábito mentir-te!
- Mas tu estás-me a mentir!
- Querida! Eu não tenho por hábito mentir-te!
- Quero lá saber quais são os teus hábitos! Estás-me a mentir ou não?
- Querida! Eu não… esquece. Eu vou trabalhar. Nós falamos logo quando estiveres mais calma.
- Carlos!?!... Carlos!?!
Eu sei, mas não devia
"Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos
e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.
E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz,
aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.
As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
A luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
A contaminação da água do mar.
A lenta morte dos rios.
Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães,
a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui,
um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.
Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se
da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta,
de tanto acostumar, se perde de si mesma."
Clarice Lispector
quarta-feira, novembro 09, 2005
Ao domingo todos temos fome
Sempre que possível os meus sobrinhos, Gonçalo 5 anos, Clemente 10 anos, José Maria 12 anos e Miguel 16 anos, dormem na casa dos avós de sábado para domingo. Este prazer é normalmente acompanhado com um convite para uma presença na missa de domingo nas Capelas. Convite que, com algum sacrifício, raramente é recusado, se bem que se adivinha para breve uma deserção por parte do Miguel.
Este domingo os meus pais foram surpreendidos pelo ar de pura infelicidade do Gonçalo à saída da missa. Olhos redondos vidrados para o chão, bochechas descaídas.
- Então Gonçalo?!? O que é que se passa? Que cara é essa querido?!? – perguntaram os avós.
- Eu não gosto da missa!
Enquanto os primos regozijavam com um novo aliado tão precoce, na realidade não contavam com o seu apoio por mais uns anitos, os avós surpreendidos insistiram – Porquê Gonçalo?!?
O Gonçalo levantou do chão aqueles olhos iluminados por uma lágrima e pela fé na justiça divina e, na sua inocência, lamuriou com tremor no queijo – Há comida para todos, menos para mim!!!
Toda a família não precisou de outro alimento todo aquele santo domingo.
Este domingo os meus pais foram surpreendidos pelo ar de pura infelicidade do Gonçalo à saída da missa. Olhos redondos vidrados para o chão, bochechas descaídas.
- Então Gonçalo?!? O que é que se passa? Que cara é essa querido?!? – perguntaram os avós.
- Eu não gosto da missa!
Enquanto os primos regozijavam com um novo aliado tão precoce, na realidade não contavam com o seu apoio por mais uns anitos, os avós surpreendidos insistiram – Porquê Gonçalo?!?
O Gonçalo levantou do chão aqueles olhos iluminados por uma lágrima e pela fé na justiça divina e, na sua inocência, lamuriou com tremor no queijo – Há comida para todos, menos para mim!!!
Toda a família não precisou de outro alimento todo aquele santo domingo.
Interacção
Foto Jose Avila 

Fonte: Tempo Novo e Cais do Barril


"O relacionamento dos homens com os animais nunca foi muito fácil, embora toda a gente conheça casos de sucesso.
Foi o que aconteceu com um Mero, com cerca de 25 anos, baptizado RO, que vivia algures, a uma profundidade de 40 metros, numa zona muita má para a utilização de artes de pesca. Por isso sempre se pensou que a interacção que foi imposta por nós, nunca lhe poderia ser fatal, até porque quem o visitava tinha o compromisso de não o deixar subir para zonas de acesso mais facilitado.
Era um animal extraordinário. Aproximava-se dos visitantes, primeiro desconfiado para logo depois se dispor às carícias de uma forma tão meiga e afável, que chegava a comover quem tinha o privilégio de o visitar. Foi fotografado e filmado inúmeras vezes. Foi a estrela das filmagens do programa televisivo sobre o Fotosub.
Mas em Agosto passado, uma tripulação de um barco de outra ilha, supostamente, após dias e dias de busca e paciente espera, teimou em caçá-lo, mesmo que para isso tenha utilizado um método ilegal (garrafa e uma arma de pesca submarina). O que nos custa é que o RO deve ter nadado docilmente em direcção ao arpão de quem o matou..."
Fonte: Tempo Novo e Cais do Barril
terça-feira, novembro 08, 2005
segunda-feira, novembro 07, 2005
Não Nuno!
Resposta a um convite de debate feito pelo Nuno do foguetabraze em relação a um comentário meu, referente à discussão que resultou dos seus post sobre Mujahedines Franceses
Para começar, Nuno, a minha "última frase inacabada e desistente de lutar" era para ser lida, com sarcasmo, pelos olhos do neoliberalismo.
Para continuar, aceito que seja discutível que um comportamento social de um grupo de homens e mulheres seja influenciado pela religião, e ou cultura, que infecta esse mesmo grupo, considero, no entanto, imoral que hoje alguém continue a achar que um comportamento criminoso, ou mesmo considerado inaceitável, de um indivíduo seja consequência do código genético, ou da raça, do grupo social de que descende esse mesmo indivíduo. Além de imoral, não conheço nenhuma evidência científica de tal barbaridade, aguardo saber da tua.
Também já não estranho que entre os crentes do globalismo abstracto do lucro se ignore o facto de que quando se escreve que "a culpa, nestes casos é dos próprios excluídos que mesmo excluídos vivem melhor nos guetos da Europa Social e da América Liberal do que nos seus países de origem", haja da parte desses globalistas uma incapacidade de perceber que em grande parte dos casos o país de origem dos indivíduos, independentemente da sua raça, que vivem nos guetos da Europa social e da América liberal, do Rio à cidade do México, de South Side ao Bronx, de Lille ao Peixe Assado, é essa mesma Europa social e essa América liberal e esses mesmos guetos por esse mundo fora.
Para terminar gostaria que reparasses que o exemplo que te deste ao trabalho de nos apresentar, sendo preciso, e se bem que visto por um prisma diferente, evidencia exactamente o que eu queria estabelecer quando escrevi no comentário que "devíamos falar em procurar os actos responsáveis por essa exclusão para que não se repitam os mesmos erros de sempre". Apresentaste as diferenças que tu acreditas foram o comportamento cultural dos emigrantes portugueses e chineses e o comportamento institucional por parte do estado francês e que resultou em diferenças na adaptação de grupos diferentes à realidade francesa. Mas, concluir que a culpa, neste exemplo que discutimos, é dos excluídos, e prontos, é que é exemplo das “atitudes que nos levam a esses becos sem saída”.
Para começar, Nuno, a minha "última frase inacabada e desistente de lutar" era para ser lida, com sarcasmo, pelos olhos do neoliberalismo.
Para continuar, aceito que seja discutível que um comportamento social de um grupo de homens e mulheres seja influenciado pela religião, e ou cultura, que infecta esse mesmo grupo, considero, no entanto, imoral que hoje alguém continue a achar que um comportamento criminoso, ou mesmo considerado inaceitável, de um indivíduo seja consequência do código genético, ou da raça, do grupo social de que descende esse mesmo indivíduo. Além de imoral, não conheço nenhuma evidência científica de tal barbaridade, aguardo saber da tua.
Também já não estranho que entre os crentes do globalismo abstracto do lucro se ignore o facto de que quando se escreve que "a culpa, nestes casos é dos próprios excluídos que mesmo excluídos vivem melhor nos guetos da Europa Social e da América Liberal do que nos seus países de origem", haja da parte desses globalistas uma incapacidade de perceber que em grande parte dos casos o país de origem dos indivíduos, independentemente da sua raça, que vivem nos guetos da Europa social e da América liberal, do Rio à cidade do México, de South Side ao Bronx, de Lille ao Peixe Assado, é essa mesma Europa social e essa América liberal e esses mesmos guetos por esse mundo fora.
Para terminar gostaria que reparasses que o exemplo que te deste ao trabalho de nos apresentar, sendo preciso, e se bem que visto por um prisma diferente, evidencia exactamente o que eu queria estabelecer quando escrevi no comentário que "devíamos falar em procurar os actos responsáveis por essa exclusão para que não se repitam os mesmos erros de sempre". Apresentaste as diferenças que tu acreditas foram o comportamento cultural dos emigrantes portugueses e chineses e o comportamento institucional por parte do estado francês e que resultou em diferenças na adaptação de grupos diferentes à realidade francesa. Mas, concluir que a culpa, neste exemplo que discutimos, é dos excluídos, e prontos, é que é exemplo das “atitudes que nos levam a esses becos sem saída”.
Profit over People
O linguista norte-americano Noam Chomshy foi escolhido pelos leitores da revista Prospect, em conjunto com a publicação Foreign Policy , como o mais importante intelectual vivo, liderando uma lista de cem nomes de personalidades que sendo especialistas numa matéria específica alcançaram um público global.
Descobri este Homem quando me envolvi na causa de Timor-Lorosae em NY. Passou a ser um dos formadores do meu pensamento.
Descobri este Homem quando me envolvi na causa de Timor-Lorosae em NY. Passou a ser um dos formadores do meu pensamento.
domingo, novembro 06, 2005
sexta-feira, novembro 04, 2005
O Vent(ilha)dor
Cavaco
(...)
"A "cooperação estratégica" que ele oferece ao actual governo não quer dizer outra coisa.
O importante não é o substantivo, mas o adjectivo, que está lá, precisamente, para esvaziar o substantivo."
(...)
Mário Soares
(...)
"Ele não quer a Presidência da Republica para "fazer" política, mas para impedir que Cavaco a "faça"(...)"
(...)
"A "cooperação estratégica" que ele oferece ao actual governo não quer dizer outra coisa.
O importante não é o substantivo, mas o adjectivo, que está lá, precisamente, para esvaziar o substantivo."
(...)
Mário Soares
(...)
"Ele não quer a Presidência da Republica para "fazer" política, mas para impedir que Cavaco a "faça"(...)"
quinta-feira, novembro 03, 2005
GAIVOTAS
gaivotas 

(Torquato da Luz, in «Destino de Mar»,Edições Margem,Lisboa, 1991)


"Caminhamos descalços sobre brasas,mas valem-nos as asas que ganhámos nos pés.
Gaivotas inseguras, nós roubamos à força com que, leves, caminhamos a força das marés.
Mas já nos atormenta este exercício de voo ao desatino.
Há que mudar de ofício e forçar o destino."
(Torquato da Luz, in «Destino de Mar»,Edições Margem,Lisboa, 1991)
terça-feira, novembro 01, 2005
Além da Terra, além do Céu
www.clix.pt 

Carlos Drummond de Andrade


Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempre amar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.
Carlos Drummond de Andrade
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