quarta-feira, novembro 09, 2005

Interacção

Foto Jose Avila Posted by Picasa


"O relacionamento dos homens com os animais nunca foi muito fácil, embora toda a gente conheça casos de sucesso.
Foi o que aconteceu com um Mero, com cerca de 25 anos, baptizado RO, que vivia algures, a uma profundidade de 40 metros, numa zona muita má para a utilização de artes de pesca. Por isso sempre se pensou que a interacção que foi imposta por nós, nunca lhe poderia ser fatal, até porque quem o visitava tinha o compromisso de não o deixar subir para zonas de acesso mais facilitado.
Era um animal extraordinário. Aproximava-se dos visitantes, primeiro desconfiado para logo depois se dispor às carícias de uma forma tão meiga e afável, que chegava a comover quem tinha o privilégio de o visitar. Foi fotografado e filmado inúmeras vezes. Foi a estrela das filmagens do programa televisivo sobre o Fotosub.
Mas em Agosto passado, uma tripulação de um barco de outra ilha, supostamente, após dias e dias de busca e paciente espera, teimou em caçá-lo, mesmo que para isso tenha utilizado um método ilegal (garrafa e uma arma de pesca submarina). O que nos custa é que o RO deve ter nadado docilmente em direcção ao arpão de quem o matou...
"


Fonte: Tempo Novo e Cais do Barril

terça-feira, novembro 08, 2005

segunda-feira, novembro 07, 2005

Não Nuno!

Resposta a um convite de debate feito pelo Nuno do foguetabraze em relação a um comentário meu, referente à discussão que resultou dos seus post sobre Mujahedines Franceses

Para começar, Nuno, a minha "última frase inacabada e desistente de lutar" era para ser lida, com sarcasmo, pelos olhos do neoliberalismo.
Para continuar, aceito que seja discutível que um comportamento social de um grupo de homens e mulheres seja influenciado pela religião, e ou cultura, que infecta esse mesmo grupo, considero, no entanto, imoral que hoje alguém continue a achar que um comportamento criminoso, ou mesmo considerado inaceitável, de um indivíduo seja consequência do código genético, ou da raça, do grupo social de que descende esse mesmo indivíduo. Além de imoral, não conheço nenhuma evidência científica de tal barbaridade, aguardo saber da tua.
Também já não estranho que entre os crentes do globalismo abstracto do lucro se ignore o facto de que quando se escreve que "a culpa, nestes casos é dos próprios excluídos que mesmo excluídos vivem melhor nos guetos da Europa Social e da América Liberal do que nos seus países de origem", haja da parte desses globalistas uma incapacidade de perceber que em grande parte dos casos o país de origem dos indivíduos, independentemente da sua raça, que vivem nos guetos da Europa social e da América liberal, do Rio à cidade do México, de South Side ao Bronx, de Lille ao Peixe Assado, é essa mesma Europa social e essa América liberal e esses mesmos guetos por esse mundo fora.
Para terminar gostaria que reparasses que o exemplo que te deste ao trabalho de nos apresentar, sendo preciso, e se bem que visto por um prisma diferente, evidencia exactamente o que eu queria estabelecer quando escrevi no comentário que "devíamos falar em procurar os actos responsáveis por essa exclusão para que não se repitam os mesmos erros de sempre". Apresentaste as diferenças que tu acreditas foram o comportamento cultural dos emigrantes portugueses e chineses e o comportamento institucional por parte do estado francês e que resultou em diferenças na adaptação de grupos diferentes à realidade francesa. Mas, concluir que a culpa, neste exemplo que discutimos, é dos excluídos, e prontos, é que é exemplo das “atitudes que nos levam a esses becos sem saída”.

Profit over People

O linguista norte-americano Noam Chomshy foi escolhido pelos leitores da revista Prospect, em conjunto com a publicação Foreign Policy , como o mais importante intelectual vivo, liderando uma lista de cem nomes de personalidades que sendo especialistas numa matéria específica alcançaram um público global.
Descobri este Homem quando me envolvi na causa de Timor-Lorosae em NY. Passou a ser um dos formadores do meu pensamento.

domingo, novembro 06, 2005

sexta-feira, novembro 04, 2005

O Vent(ilha)dor

Cavaco

(...)

"A "cooperação estratégica" que ele oferece ao actual governo não quer dizer outra coisa.

O importante não é o substantivo, mas o adjectivo, que está lá, precisamente, para esvaziar o substantivo."

(...)



Mário Soares

(...)

"Ele não quer a Presidência da Republica para "fazer" política, mas para impedir que Cavaco a "faça"(...)"

quinta-feira, novembro 03, 2005

 Posted by Picasa


DOMINGO - 6 DE NOVEMBRO - 2005 - TEATRO MICAELENSE - 21H30
Haircut Posted by Picasa


Recebido via email

Roubado daqui

fox.
You are the fox.


Saint Exupery's 'The Little Prince' Quiz.
brought to you by Quizilla

GAIVOTAS

gaivotas Posted by Picasa


"Caminhamos descalços sobre brasas,mas valem-nos as asas que ganhámos nos pés.
Gaivotas inseguras, nós roubamos à força com que, leves, caminhamos a força das marés.
Mas já nos atormenta este exercício de voo ao desatino.
Há que mudar de ofício e forçar o destino."


(Torquato da Luz, in «Destino de Mar»,Edições Margem,Lisboa, 1991)

terça-feira, novembro 01, 2005

Além da Terra, além do Céu

www.clix.pt Posted by Picasa


Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempre amar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.



Carlos Drummond de Andrade

domingo, outubro 30, 2005

Tristes Navios que Passam

Foto AM Posted by Picasa


Para Daniel Santos
no outro lado do mar


"Tristes navios que passam
na hora da nossa vida
na hora da nossa morte

escuros vasos de guerra
cargueiros, tanques, paquetes
brancos navios de vela

levam óleo levam ódio
luxo lixo das cidades
levam gente gente gente

deixam ficar nostalgia

tristes navios que passam
na hora da nossa morte
na hora da nossa vida."

Emanuel Félix

quinta-feira, outubro 27, 2005

Novo Blog Insular

imagens soltas

A recompensa de um serviço à Democracia

Para alguns dos dias em que estava planeado fazermos campanha de rua, estava decidido que iríamos a algumas freguesias com tintas e placares e pediríamos às crianças que aparecessem, e sempre aparecem, que nos pintassem aquilo que mais e menos gostavam sobre a sua freguesia. Foi uma experiência espectacular, se bem que por vezes caótica.
Nos Fenais da Luz decidimos que o ataque ficaria marcado para o espaço entre o adro da igreja e o coreto, por volta das 17 horas. Quando a caravana, inha, do Bloco chegou, na hora marcada, ao dito cujo lugar não existia vivalma, nem sequer uma única criança desalmada. Esperamos um pouco e ainda passaram alguns homens, uns cansados do dia e outros prontos para começar o turno da taberna. Resumindo, ali não ia dar certo.
Alguém propôs que nos lançássemos ao bairro social não sei dos quantos, mesmo ali nos Fenais. E assim fomos. Quem precisa de crianças nunca sai desiludido de um bairro social.
Enquanto os outros montavam os placares e preparavam as tintas, a Lúcia e eu, fomos dar uma volta pelo bairro para chamar crianças e para aproveitar e meter conversa com algum adulto que aparecesse. As crianças começaram a aparecer como coelhinhos em hora da ração. Quando voltamos tínhamos obtido mas sucesso que a flauta mágica. E o divertido caos começou.
Já para o fim, depois de, por qualquer razão, a Lúcia me chamar pelo meu nome, um rapaz, mesmo ao meu lado, pela altura do meu ombro, vira-se para mim e pergunta:
- O senhor chama-se Tozé?
- Sim senhor!
- Eu também me chamo Tozé. – disse, como se fosse para ele uma honra saber que um “grande” político como eu tinha o mesmo nome que lhe coubera ter.
- Ai sim?!? Eu também me chamo Tozé, sim senhor! E quantos anos tens, Tozé?
- Eu tenho doze. Fiz ontem!!! Fiz ontem doze anos!
- Ena pá!!! Vocês!!! – chamei os outros – Aqui o nosso amigo fez anos ontem! E chama-se Tozé, como eu! – Toda a gente fez um forrobodó e deram-lhe um pouco de atenção devida.
O Tozé ficou envergonhado e corou, mas estava obviamente contente com a atenção dada. Pousei-lhe a mão aberta na cabeça, como quem pega numa bola de andebol, para lhe transmitir de uma forma mais pessoal os meus desejos de felicidade.
- E em que ano estás na escola, Tozé? – continuei a nossa conversa.
- Eu não estou na escola!
- Como é que não estás na escola?!? – disse eu, meio no gozo, pois pensava que o Tozé estava a brincar.
O Tozé encolheu os ombros, como quem procurou uma resposta e não a encontrou. – Não estou na escola!
- Como é que é isso?!?
- Ninguém me quer lá na escola.
Dito daquela forma e com aquela cara, aquela resposta atingiu-me como se tivesse sido atingido por um qualquer feixe de energia atirado por um daqueles monstrinhos dos pokeimon de aspecto terno e simpático. Percebi logo que estava tramado. Ia entrar numa história da qual não me ia conseguir livrar assim sem mais nem menos. Como num filme, a imagem passou a preto e branco e todo o fundo ficou desfocado, ficando focada só aquela criatura à minha frente. Eu já notara que ele estava descalço mas não deduzira mais do que a possibilidade de ser esse o seu modo de estar na brincadeira num fim de tarde ainda quente ou devido à pressa com que, como os outros, saíra de casa para vir connosco pintar o caneco.
O Tozé era gordinho e enquanto esteve ao meu lado esteve sempre com um sorriso na boca. Agora que lhe prestava mais atenção percebi que aquele sorriso era muito simples, simples demais mesmo para uma criança de 12 anos. Reparei também que tinha uma ligeira deficiência motora nos membros do seu lado direito, coisa pouca, mas agora que me concentrara era óbvio.
- Mas tu não queres ir para a escola ou …
- Eu quero! Eles é que não me querem na escola!
- Eles quem Tozé?!?
- Eles! A escola! – a cada resposta encolhia os ombros de uma forma inocente e derrotada.
- Porquê Tozé? Deve haver uma razão! Tu sabes porque é? – ele encolheu os ombros.
- Mas tu queres ir para a escola Tozé? – perguntei com uma voz agora mais baixa e um ar mais sério.
O Tozé respondeu-me que sim, com os olhos, com o sorriso, com a voz, com o corpo por inteiro.
- Lúcia!!! Lúcia! Anda aqui, se faz favor! – a Lúcia veio.
- Lúcia, o meu amigo Tozé, aqui, diz que não está na escola porque ninguém o quer lá…
- O quê?!? – e com isto a Lúcia entrou num estupefacto interrogatório muito parecido com o meu, que ele acompanhou com as mesmas respostas e o mesmo sorriso.
Ambos concordamos que algo não estava certo e que necessitávamos mais informação. A Lúcia foi à casa de onde viera o Tozé tentar falar com um adulto.
Para encurtar e simplificar esta história, o Tozé era na realidade um rapaz com uma deficiência motora e mental. Não conseguira completar os primeiros anos escolares, mas já ultrapassara a idade que lhe permitia manter-se na escola básica local. A escola mais próxima que lhe podia dar apoio escolar era, agora, a escola Canto da Maia. A família não tinha possibilidade de lhe proporcionar transporte e ele necessitava uma atenção mais particular do que o serviço de transporte público lhe podia proporcionar. À família foi aconselhado o serviço de um transporte, que penso, particular, chamado “os Verdinhos”, que lhes pediu uma mensalidade de 200 euros pelo serviço. Estava fora de questão, para a família do Tozé. E assim o Tozé e o seu sorriso estavam condenados a passar os dias no seu bairro social. Com quem? Não sei. Só sei que prometi ao Tozé que se ele queria ir para a escola a gente ia tratar do assunto… Estava tramado…
A Lúcia e a Emanuel, que é professora na Canto da Maia, fizeram equipa e propuseram-se a tratar do assunto. A minha ajuda reduziu-se a, quando nos encontrávamos, perguntar, - Então?!? E o problema do Tozé? - . A verdade verdadinha é que pouco tempo depois a Emanuel em resposta a essa pergunta me respondeu feliz, - É verdade, tinha-me esquecido de te dizer, o caso do Tozé está resolvido! Ele já está na Canto da Maia! - .
E prontos.

quarta-feira, outubro 26, 2005

Fui ter com as fadas...

Sininho Posted by Picasa


…E vi os barcos, os muitos barcos que passaram na palma da minha mão, onde desenhei ilhas. Vi os dias em que me davam papa e me contavam a história da cabra cabrês e dos saltos dela por cima dos montes, carregando porquinhos na sua barriga (Eu sou a cabra cabrês. Salto-te em cima e faço-te em três). Fiquei na disposição legal do verbo ficar, na arquitectura pleonástica do meu mundo, quando ele era verde, visto pelas lentes de uns óculos em forma de borboleta de plástico e o carrossel do Campo de São Francisco, onde havia uma panela gigante, que me levava dentro, como se eu fosse o João Ratão e a minha mãe a Carochinha. Há muito tempo, já, que me deixei ficar entre as vírgulas e os compassos num impedimento de movimentos e lembro os atrevimentos da minha infância: pequeninas perdas, poucos desgostos de amor e tantos amigos, como os sete anões. Fiquei num olhar cúmplice para a ilha que me viu nascer, de dentro para fora, como se o mar aonde pude abraçar, um dia, toda a minha gente e onde (lhes) escrevi fosse, pura e simplesmente, fácil de encontrar como a Casa de Chocolate ou o caminho de volta a casa do Polegarzinho.
Fiquei com a Gata Borralheira, a Alice do país das Maravilhas e o Capuchinho Vermelho. Fiquei de sandálias inglesas ao portão de casa do avô, à espera dele, para comermos um gelado no café Central e ele me contar quantos gnomos encontrou pelo caminho, o que lhe disseram, se já começaram a preparar o Natal. Fiquei com a certeza de que as estórias que me contaram, enquanto eu adormecia são reais. Fiquei de vestido de folhos e trança no cabelo com a ideia de que a minha mala era a do Sport Billy e de que não vou acordar, porque quando eu fui ter com as fadas eu vi os meus barcos e dentro deles estavam os meus Peter Pan. Porque preciso deles, não vou voltar. Logo à noite vou tomar sumo com a Pantera Cor-de-Rosa. Amanhã vou lanchar com a Branca de Neve. E fico com as fadas, porque como o poeta, eu também, “creio nelas”…
“ As fadas eu creio nelas! / Umas são moças e belas, /Outras velhas de pasmar…/Umas vivem nos rochedos, / Outras, pelos arvoredos, / Outras à beira do mar… (…)” *

* excerto de As Fadas de Antero de Quental


MARia aMARo ( Suplemento de Cultura nº 7,Açoriano Oriental 25.10.2005)