terça-feira, outubro 25, 2005

Sem título e bastante breve

al berto Posted by Picasa


Tenho o olhar preso aos ângulos escuros da casa
tento descobrir um cruzar de linhas misteriosas, e
com elas quero construir um templo em forma de ilha
ou de mãos disponíveis para o amor....

na verdade, estou derrubado
sobre a mesa em fórmica suja duma taberna verde,
não sei onde
procuro as aves recolhidas na tontura da noite
embriagado entrelaço os dedos
possuo os insectos duros como unhas dilacerando
os rostos brancos das casas abandonadas, á beira mar...

dizem que ao possuir tudo isto
poderia Ter sido um homem feliz, que tem por defeito
interrogar-se acerca da melancolia das mãos....
...esta memória lamina incansável

um cigarro
outro cigarro vai certamente acalmar-me
....que sei eu sobre as tempestades do sangue?
E da água?
no fundo, só amo o lodo escondido das ilhas...

amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso
estou imóvel, a luz atravessa-me como um sismo
hoje, vou correr à velocidade da minha solidão


AL BERTO

segunda-feira, outubro 24, 2005

Há tantas coisas que falam ao mesmo tempo

Amigos Posted by Picasa

Direitos Reservados a Paulo Afonso (Suplemento nº 2, Açoriano Oriental)

Um risco na janela anunciado pelo movimento rápido do gato Pluma, que herdámos no Natal passado, quando viemos, de um vizinho emigrado para a Venezuela, faz-nos despertar do jogo de monopólio.
Afinal nada. Só o vento que chocalha as roupas na linha; camisas penduradas pelos pulsos, calças pelas barrigas e dois ou três pares de meias presas pelos dedos. Na horta, selvaticamente, crescem dois ou três pés de malagueta, mais umas couves e meloas para consumo interno, da casa, de nós todos, que a habitámos uma vez, ou duas, por ano. Permanecemos, como há anos, inquietos na nossa função de família, distraídos pela ocasião deste rebuliço de afectos, onde, sem disputas, dividimos hotéis na cidade de Lisboa, mas não abdicamos do nosso lugar à mesa.
Aqui [há tantas coisas que falam ao mesmo tempo] … quase impossível descrevê-las. Descodificar o sentido puro com que nos dizem coisas as coisas todas. Os barcos pendurados na parede, a fotografia do Benfica ou a estante coberta de vasos de flores. Lá fora uma mesa grande de plástico branca rodeada de cadeiras. Os nossos braços e as nossas pernas cheios de passeios pelo campo, abaixo e acima nas ruas, a maré cheia, o vazio do sofá vermelho, a porta de rede desmontada, velha, encostada à mesa, a porta da cozinha bege e as nossas alturas marcadas na ombreira da porta, dizem-me: tiveste 1 metro e pouco, correste nestas ruas, nadaste naquela maré, abriste e, poucas vezes, fechaste a porta, caíste ao mar, choraste. E dizem-me: a mesa branca é para encher de gente e os lugares de cada um para ocupar por cada um, na sua vez.
Os pássaros permanecem pendurados nas rochas. Ano após ano.
Ao longe passam barcos. Muitos. Cá dentro temos barcos. Alguns. Em terra e secos. Molhados de abandono. [há tantas coisas que falam ao mesmo tempo]
As janelas são de abrir para cima e a antena da televisão precisa de conserto. O tapete da sala não se anima. Está velho e gasto pelos nossos pés…
Durante muito tempo fomos muitos.
Não há versão do tempo que me chegue.

quinta-feira, outubro 20, 2005

Também já reservei o meu

 Posted by Picasa

Epílogo

"traz pela mão a sua própria derrota
quando entra na guerra do cenário
senta-a ao seu lado, a um flanco

o actor puxa então a palavra
com dedos frágeis e muito medo de nada
sai-lhe o sangue por inteiro sílaba a sílaba
depois uma pausa imensa onde cabe o estrondo
e ele de olhos fechados, sempre de olhos fechados,
comprimindo o gesto todo do ar
para começar a dizer esta coisa tão dura
esta coisa ferida de ternura

uma a uma, as palavras
todos os rostos do mundo vêm ver o rosto do actor
ver como a sua boca é transparente
como ele abre o coração do silêncio
e se ergue desse chão minado
de abismo e vultos repentinos

o actor não tem nome
o actor jamais poderá ter um nome
a sua vida é muda, secreta, inflamada

o actor mistura a lágrima e o sorriso
como se depois tudo fosse verdade
como se depois ele não soubesse mais
onde fica o riso e onde
pertence o choro

quieto agora o actor aproxima-se
o calor que se desprende do seu corpo
arrepia se o tocamos

e no entanto o seu pulso existe

o actor está sentado ao lado da derrota
porque a loucura é real junto dos homens
e as palavras ferem muito mais que o luar
este brilho que o actor propaga em redor
pousando camada a camada
numa grande solidão amarrotada

agora que o actor recolhe as mãos
e elas lhe estremecem na intimidade
como se houvesse desaparecido o sítio de as ter
agora que tudo o resto é uma coisa muito pequenina
na qual é preciso andar com milimétrico cuidado
para não quebrar o vidro frágil da alma
o actor pega na derrota pela mão
e sai para fora dos lugares
suspenso num qualquer instante frio
onde só resta uma cama muito antiga
para depositar a sombra que fica
de tanta luz"


Vasco Gato

Hermitage vai ter extensão em Lisboa em 2010


O Museu Hermitage, de São Petersburgo, vai ter uma extensão em Lisboa em 2010. A confirmação foi dada pela ministra da Cultura, que está de visita à Rússia, após ter-se encontrado com responsáveis culturais e de museus desse país.
TSF online

A embaixada portuguesa que se deslocou à Rússia está de parabéns.

Num encontro sobre cultura, promovido pelo BE durante a campanha autárquica, o arq. Pedro Borges defendeu uma solução similar que resulte em extensões de instituições portuguesas, como o museu de Serralves, ou o CCB, nos Açores, nomeadamente PD.

domingo, outubro 16, 2005

Circunstâncias

( Para Biscuit com votos de uma excelente viagem )

Num Outono desfolhado em cartas que escreveste, entraste nos quartos de lua mendigando esmolas, como quem sente que assenta a culpa em desilusão, e, paga com uma dor, a penitência (de)vida.
Então veio a Primavera com um verde anis mortiço, enredou-se nos teus passos, não cumpriu os compromissos e deu por vencida a hipótese de florescer aí por dentro de te devolver raízes.
O Inverno enregelou a alma dos teus sorrisos. Trouxe solidão aos molhos, cruel e fria, despida de elegâncias sem músculos para reacção: farsa.
Arrecadaram-se aplausos, subiu-se e desceu-se o pano como quem rasga o papel da memória fio a fio.
Soltaram-se fogos nas casas, árvores de Natal nos lares e foste menino Jesus, adorado nos serões, onde as tuas amigas teceram ideias para o teu futuro: namorar com a prima Vera, casar no Verão, ter filhos no Outono, ( para o Inverno há-de se pensar nos planos das tuas amigas).
Deixaste que o mar se enfurecesse; sentiste primavera nos traços dos poemas que inventaste, Outono nas suas cores, Inverno no seu silêncio.
Estavas nisto, paredes meias com a vida, roendo-te por dentro os ossos, mastigando-te os solavancos do pensamento impulsivo, com medo, muito medo, que o norte se apagasse do segredo do assobio do vento ou que, por minutos, as flores rasgassem memórias nos cantos dos seus vasos quadrados, quando resolveste, e...
deste a volta ao parapeito da tua janela, sentaste o corpo inteiro na base do varandim e saltaste.
(Porque querias escrever livros nas estações do metro, dos comboios, tornar-te viajante do anonimato, conhecido pelo papel e pela caneta; querias viver a literatura toda, navegar nos seus caminhos, concentrar-te no desequilíbrio dos sonhos, na realidade concreta das prateleiras de uma Biblioteca, enchendo-as de poesia, poemas infiltrados por amor; perder-te nas linhas da escrita.
Esse era o teu papel.)
Subiu a temperatura de ti.
Enfiou-se no mar.
Ouvindo a voz das tuas amigas, pensaste:
Elas Verão como era Outono nos meus olhos, como chorei nos Invernos e, como tive saudades das Primaveras de sonetos;
Da flor que nunca te dei,
a que morreu no meio do mar,
Sem poema de estação
Ou circunstância de Tempo
Que me valesse
perdão.



(Texto publicado na Revista Ilhas)

Coisas pouco sérias...

PSD/Lagoa Posted by Picasa

quinta-feira, outubro 13, 2005

terça-feira, outubro 11, 2005

Racista???

"Se quiséssemos diminuir a criminalidade bastava fazer abortar todas as mães de crianças negras e a taxa de criminalidade baixaria."

William Bennett, ex-ministro da edução dos EUA no tempo de Ronald Reagan.
Agora animador da emissão "Morning America", difundida por 115 estações de rádio dos Estados Unidos, Bennett persiste em afirmar que não é racista.

in "The Daily Telegraph", Londres, republicado no "Courrier Internacional", nº 27

sexta-feira, outubro 07, 2005

Instante

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Deixai-me limpo
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio


Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, outubro 05, 2005

Sempre em frente?

“Se a Câmara não avançasse com a recuperação do Coliseu, o Executivo não teria recuperado o Teatro Micaelense”
Açoriano Oriental, 5 de Outubro de 2005

(???)

Assumindo que estas foram as palavras da senhora candidata do PSD poder-se-á dizer que a Central de Camionagem, cuja candidatura social democrata, liderada pela Dra. Berta Cabral, quer "escavar" no meio da avenida, chão abaixo, resulta do estímulo competitivo com o Governo, para que o concelho ganhe mais? Determinando-se assim que esta Central de Camionagem é, nada mais nada menos, do que uma competição com o projecto, já anunciado, das Portas do Mar? Sempre em frente.

Será que se o Governo fosse do PSD, a Dra. Berta Cabral competia na mesma para que Ponta Delgada ganhasse mais?

Porque é que se a Dra. Berta Cabral acha que o Concelho ganha mais com este estilo de governação, está sempre a dizer que o Governo Regional abandonou Ponta Delgada?
O seu a seu dono

As declarações em estilo metafórico imputadas a Berta Cabral de que teria dito, na sua recente visita à “Salsiçor”, nas Feteiras, de que há candidatos que poderiam seguir para a “trituração” nas máquinas da fábrica, não correspondem à realidade. Estão em causa, não afirmações de Berta Cabral, mas sim algumas “graças” de quem estava presente na visita da candidata e que o Açoriano Oriental citou em jeito de frases soltas, sem proceder, aliás, a qualquer identificação. O mesmo critério foi aplicado em outras peças jornalísticas relativas ao PSD nestas Autárquicas.

Açoriano Oriental, 5 de Outubro de 2005

Citação " cultura e civilização"

Uma mesa cheia de feijões.
O gesto de os juntar num montão único. E o gesto de os separar, um por um, do dito montão.
O primeiro gesto é bem mais simples e pede menos tempo que o segundo.
Se em vez da mesa fosse um território, em lugar de feijões estariam pessoas. Juntar todas as pessoas num montão único é trabalho menos complicado do que o de personalizar cada uma delas.
O primeiro gesto, o de reunir, aunar, tornar uno, todas as pessoas de um mesmo território é o processo da CIVILIZAÇÃO.
O segundo gesto, o de personalizar cada ser que pertence a uma civilização é o processo da CULTURA.
É mais difícil a passagem da civilização para a cultura do que a formação de civilização.
A civilização é um fenómeno colectivo.
A cultura é um fenómeno individual.
Não há cultura sem civilização, nem civilização que perdure sem cultura.

Almada Negreiros, in 'Ensaios'

sábado, outubro 01, 2005

Inadmíssivel

"A Salsiçor tem uma máquina trituradora de fazer salsichas. Ela vinha mesmo a calhar para alguns candidatos que por aí andam..."

Berta Cabral, in Açoriano Oriental 29 de Setembro de 2005

Por muito preocupada que esteja a Dra. Berta Cabral, candidata do PSD à CMPDL, há coisas que devem ser travadas pelo bom senso e a descrição que se pede a uma Senhora e que, normalmente, tendo esta Senhora a responsabilidade que tem e sendo esta Senhora, quem é, são ultrapassáveis...
Porém, sem novidade, a Dra Berta, como se não fosse de facto a candidata do PSD à CMPDL, usou estes termos, que eu descobri aqui, para impor (que bem que usa este verbo) os seus desejos e mostrar o seu rancor.
Verdadeira injustiça...
Lamento.