terça-feira, setembro 06, 2005

segunda-feira, setembro 05, 2005

Porque Escrevo?

"(...)Escrevo porque acredito na força militante das palavras. Nunca fui nem serei homem de convicções religiosas porque feriria as minhas convicções morais, mas do cristianismo resgato a magnífica afirmação que diz "primeiro foi o verbo", verdade jamais teológica mas gramatical, porque a palavra é por si só um acto fundacional e as coisas existem à força de serem nomeadas.
Durante os anos negros da ditadura no Chile, os resistentes cantavam uns versos de Paul Eluard: "Escrevo o teu nome nos muros da minha cidade", e a Liberdade existia para além da memória imediata, para além do desejo fervoroso de a recuperar, para além da dor provocada pela certeza de tanta morte em seu nome. Existia com toda a sua deslumbrante vivência porque, cada vez que alguém a nomeava, a inventava novamente.
Escrevo por amor às palavras que amo e pela obsessão de nomear as coisas a partir de uma perspectiva ética herdada de uma prática social intensa. Escrevo porque tenho memória e a cultivo escrevendo acerca dos meus, acerca dos habitantes marginais dos meus mundos marginais, acerca das minhas utopias escarnecidas, acerca dos meus memoráveis companheiros e companheiras derrotados em milhares de batalhas, e que continuam preparando os próximos combates sem medo das derrotas.
Escrevo porque amo a minha língua e nela reconheço a única pátria possível, pois o seu território não conhece limites e o seu vigor é um acto constante de resistência.
Escrevo da barricada solitária de inventor de mundos e, como dizia Osvaldo Soriano, "da responsável satisfação daquele que sabe ser convidado a habitar o coração das melhores gentes".


LUIS SEPÚLVEDA, in "O General e o Juiz",Edições Asa, 2003

domingo, setembro 04, 2005

Dúvida

interrogativa Posted by Picasa


Será que Ribeiro e Castro é candidato à Câmara Municipal de Ponta Delgada?!

sábado, setembro 03, 2005

sexta-feira, setembro 02, 2005

Excerto de Os Três Mal Amados

Joaquim:
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.




(As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia "Os Três Mal-Amados", constante do livro "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas", Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59.)


BOM FIM DE SEMANA

quinta-feira, setembro 01, 2005

pegadas Posted by Picasa


...em direcção ao mar...

Lisboa

Esta névoa sobre a cidade, o rio,
as gaivotas doutros dias, barcos, gente
apressada ou com o tempo todo para perder,
esta névoa onde começa a luz de Lisboa,
rosa e limão sobre o Tejo, esta luz de água,
nada mais quero de degrau em degrau.


in Escrita da Terra e Outros Epitáfios
Eugénio de Andrade

segunda-feira, agosto 29, 2005

Limites

"Destas ruas que afundam o poente
Há uma (não sei qual é) que percorri
Pela vez derradeira, indiferente
E onde, sem pressentir, me submeti

A Quem decreta omnipotentes normas
E uma secreta e rígida medida
Aos sonhos, às penumbras e às formas
Que destecem e tecem esta vida

Se para tudo há fim, há esquecimento
E um preço e nunca mais e última vez,
Quem nos dirá de quem neste aposento
Nos despedimos, sem saber talvez?"

Jorge Luis Borges

In Obras Completas II (O Outro, O Mesmo, 1964)

domingo, agosto 28, 2005

Fotografia e Desenho de Amaro de Matos Posted by Picasa



Porto de Santo Amaro do Pico, concelho de São Roque. Agosto de 2005
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sexta-feira, agosto 26, 2005

Há tantas coisas que falam ao mesmo tempo*

Fotografia Amaro de Matos Posted by Picasa


Um risco na janela anunciado pelo movimento rápido do gato Pluma, que herdámos no Natal passado, quando viemos, de um vizinho emigrado para a Venezuela, faz-nos despertar do jogo de monopólio.
Afinal nada. Só o vento que chocalha as roupas na linha; camisas penduradas pelos pulsos, calças pelas barrigas e dois ou três pares de meias presas pelos dedos. Na horta, selvaticamente, crescem dois ou três pés de malagueta, mais umas couves e meloas para consumo interno, da casa, de nós todos, que a habitámos uma vez, ou duas, por ano. Permanecemos, como há anos, inquietos na nossa função de família, distraídos pela ocasião deste rebuliço de afectos, onde, sem disputas, dividimos hotéis na cidade de Lisboa, mas não abdicamos do nosso lugar à mesa.
Aqui [há tantas coisas que falam ao mesmo tempo] … quase impossível descrevê-las. Descodificar o sentido puro com que nos dizem coisas as coisas todas. Os barcos pendurados na parede, a fotografia do Benfica ou a estante coberta de vasos de flores. Lá fora uma mesa grande de plástico branca rodeada de cadeiras. Os nossos braços e as nossas pernas cheios de passeios pelo campo, abaixo e acima nas ruas, a maré cheia, o vazio do sofá vermelho, a porta de rede desmontada, velha, encostada à mesa, a porta da cozinha bege e as nossas alturas marcadas na ombreira da porta, dizem-me: tiveste 1 metro e pouco, correste nestas ruas, nadaste naquela maré, abriste e, poucas vezes, fechaste a porta, caíste ao mar, choraste. E dizem-me: a mesa branca é para encher de gente e os lugares de cada um para ocupar por cada um, na sua vez.
Os pássaros permanecem pendurados nas rochas. Ano após ano.
Ao longe passam barcos. Muitos. Cá dentro temos barcos. Alguns. Em terra e secos. Molhados de abandono. [há tantas coisas que falam ao mesmo tempo]
As janelas são de abrir para cima e a antena da televisão precisa de conserto. O tapete da sala não se anima. Está velho e gasto pelos nossos pés…
Durante muito tempo fomos muitos.
Não há versão do tempo que me chegue…

* verso do poema " Esconderijo" de Gonçalo M. Tavares

quinta-feira, agosto 25, 2005

DANSA

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"Tem S a palavra, pois certas curvaturas do mundo
exigem alterações de grafia.
O traço imprevisto obriga a parar a meio;
E à paragem insólita chamarás insólito movimento.
E ficarás contente."


Gonçalo M. Tavares, 1, Lisboa, Relógio D´Água, 2004, pp.111.

segunda-feira, agosto 22, 2005

olhos Posted by Picasa


Quando voltares não faças o barulho das flores quando o vento lhes dá um beijo às escondidas. Sorri à passagem dos sonhos e voa como as mãos dos meninos contentes da tua infância de anos.

Maria Amaro

quarta-feira, agosto 03, 2005

Pico

Pode escrever-se um poema com basalto
com pedra negra e vinha sobre a lava
com incenso mistérios criptomérias
e um grande Pico dentro da palavra.

Ou talvez com gaivotas e cigarros
cigarras do silêncio que se trilha
sílaba a sílaba até ao poema que está escrito
lá em cima no Pico sobre a ilha.


Manuel Alegre

"Roubado" daqui