terça-feira, abril 16, 2013

Cavaco "Colombo"

Enquanto o conselho editorial do “New York Times” usa o exemplo de Portugal, Espanha e Itália para defender que a austeridade está a matar o doente, escrevendo mesmo que “as provas mostram que estes remédios amargos estão a matar o paciente”, ou seja, as medidas de austeridade não estão a ter o efeito pretendido: crescimento económico, o nosso Presidente da República partiu à descoberta da América Latina. Primeiro vai à Colômbia para inaugurar uma Feira do Livro, depois segue viagem para o Perú… Procura, dizem as notícias, as oportunidades de um “novo mundo”, onde já se instalaram algumas empresas nacionais, por isso também se noticia, que a componente económica é fundamental para a visita do Presidente da República. Na comitiva do Presidente vão 40 empresários portugueses, o Secretário de Estado da Cultura, o Ministro da Economia e ainda o Ministro do Estado e dos Negócios Estrangeiros. Desconhece-se a restante comitiva de assessores, seguranças e demais pessoas que costumam acompanhar o Presidente da República nestas viagens mas imagina-se grande. Não deixo de achar curioso (embora não seja de todo surpreendente) que a comitiva de Cavaco Silva tenha partido, quando a troika volta a Portugal. Embora a visita da troika aconteça antes do previsto e seja motivada pela necessidade de encontrar alternativas ao chumbo de quatro artigos do Orçamento do Estado pelo Tribunal Constitucional. Não se sabe ainda a que conclusões chegarão, mas Cavaco Silva não parece motivado para isso. Há 3 ou 4 dias atrás declarou que falar de esperança não chega e acrescentou ser urgente concebê-la e transmiti-la através de uma visão fundamentada e coerente. Que mais esperança pode ter um Povo, como o português, senão aguardar pausada e serenamente, que entre os escaparates da Feira do Livro em Bogotá, Cavaco Silva (às tantas) declame um ou dois cantos d´Os Lusíadas, enobrecendo em todos nós, espoliados da cabeça aos pés, esse sentimento heroico com que nos evoca Camões? Considero de uma imensa falta de noção do real e do tempo, partir na demanda da América Latina, num momento destes para Portugal. Mas, lá está, é Cavaco Silva e a ele, que foi o homem que viu sorrir as vacas na ilha Graciosa, tudo se vai perdoando… mesmo que por mais que se denuncie a vergonha ela se mantenha…e insista. E por falar em insistir devemos todos, sem excepção, continuar a insistir com os chantagistas da SATA para que ponham fim à greve anunciada para os dias do Rally e das Festas do Senhor Santo Cristo. De todos os Açores e comunidades têm surgido vozes contra, apelando ao bom senso desses senhores e dessas senhoras que, não por acaso, escolheram essas datas fundamentais para a nossa economia, para travar a sua luta. Ora, a acontecer mesmo esta greve, ela é uma “vigarice”, como disse na RTP/Açores, no passado Domingo, o Provedor da Irmandade do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Concordo absolutamente. É uma enorme vigarice contra os Açores, à qual ninguém deve ficar indiferente. Nem mesmo Cavaco Silva que tanto quanto me constou foi de SATA para a Colômbia. Serenamente, AO 16 de Abril

terça-feira, abril 09, 2013

“Pim pam pum…”

Se fosse vivo Almada Negreiros faria 120 anos. Na Calçada da Glória, em Lisboa, estão sete gigantes painéis que dão início a um ano inteiro de celebração e homenagem à sua obra. No fim de semana foi apresentada a Galeria de Arte Urbana, pela Comissão encarregue de celebrar o acontecimento, que conta com o apoio de várias entidades, como a Câmara Municipal de Lisboa, entre outras. Haverá tertúlias, exposições, documentários, espetáculos, edições e reedições do “Manifesto Anti-Dantas”, um colóquio internacional e a inauguração de um monumento também de homenagem a um dos nossos maiores ícones culturais. De todas as declarações que ouvi sobre o assunto, guardei a de Catarina Vaz Pinto, vereadora da Câmara Municipal de Lisboa. Perguntaram-lhe o que diria Almada Negreiros sobre o actual estado da arte em Portugal. Diria “Pim pam pum”, respondeu. Já em 1995, Mário Viegas readaptou o “Manifesto Anti-Dantas” escrevendo e declamando a conhecida peça literária “Manifesto Anti-Cavaco”, no Teatro São Luís, em Lisboa. É um texto de absoluta coragem frontal, que lido hoje, nestes dias turbulentos, nos faz lembrar que a razão de Mário Viegas se mantém, como a de Almada, viva e real. Não sei se tal circunstância nos deve alegrar ou fazer enfurecer, facto é que quer o Dantas de 1915, quer o Cavaco de 1995 não mudaram nada na imagem deste país que Cesariny queria que fosse “de bondade e de bruma”… [“O Professor Aníbal Cavaco Silva nasceu para provar, que nem todos os que governam sabem governar.” – Mário Viegas] Não somos. Nem de bondade, nem de bruma. Muito menos de “rosa de espuma” (do mesmo Cesariny). Somos reféns de prioridades que nunca foram as nossas. Vítimas dos que nos impõem a sua vontade, diante dos que indiferentes ou incapazes, assistem cúmplices ao degradar destes heróicos descobridores do nosso fim. Já quase nada faz sentido nestes dias. Se é verdade que Pedro Passos Coelho reagiu de forma lamentável à decisão do Tribunal Constitucional, não é menos verdade que a restante oposição, enredada em jogos de palavras e outras tibiezas, não apresentou uma única solução capaz de dar esperança ao mais desesperado português. Assim vamo-nos dividindo entre os que choram o país que já não somos, os que já nem Portugal no mundo conseguem ver e os que, entre uns e outros, desconfiam que possamos merecer um Portugal melhor, futuro e concretizado. Sem Dantas de espécie alguma a desempenhar papéis de importância séria. Nota de Agenda: “Acordosdias” é o nome de uma exposição solidária de Arte Contemporânea, comissariada por Carlos Mota, de apoio à família Soares do Faial da Terra, Povoação. Inaugura dia 12 de Abril, às 18h30, na Academia das Artes, e estará patente ao público, entre as 15h e as 20h, até ao dia 14 de Abril. Não deixe de passar por lá. Serenamente, jornal Açoriano Oriental, 9 de Abril

sábado, março 30, 2013

Todos deviam ler este texto

Auto-Retrato Cardoso Pires por Cardoso Pires "FUMAR AO ESPELHO" "Aos cinquenta anos dei por mim a fumar ao espelho e a perguntar E agora, José. Fumar ao espelho, qualquer José sabe isso, é confrontarmo-nos com o nosso rosto mais quotidiano e mais pensado. Por trás, em fundo, tem-se um cenário do presente imediato (a porta do quarto, um cabide vazio) mas esse presente, logo à segunda fumaça já é passado (a porta desfez-se, o cabide voou) e tanto mais passado quanto mais mergulhamos no cigarro. O olhar envelheceu, foi o que foi. E então, por mais que a gente diga que não, começam a aparecer as pegadas históricas do Dinossauro que nos andou a foder a vida durante cinquenta anos. Adivinhamo-las à super- -superfície do vidro, são manchas fósseis, gretadas, então não se vê logo?, e, escuta à distância, ouve-se o carrossel do medo. Aqui e ali vão-se levantando farrapos do muito que em nós se adiou e do muito que em nós se morreu, e nalguns casos podemos até distinguir o traço de liberdade que abrimos com os nossos livros nessa desolação prolongada. Pronto, estamos feitos, José. De agora em diante começa o rememorar, devias saber. Certo, cinquentas... muito ano. Muito silêncio, muita humilhação. Mas diz-me, espelho, vale a pena recordá-los? A que propósito agora esse arranhar de ferida, essa recriminação? José, no espelho, encolhe os ombros. É como se não me ouvisse, como se não se ouvisse, nada a fazer. No espelho os olhos só se vêem reflectidos noutras coisas, segreda-me por cima do ombro o honorável William Shakespeare a páginas tantas (e com franqueza, deitam um bafo podre, estas palavras). Mas nem assim, José continua na dele. José é José, suspeita que o querem despir do passado para que fique incapaz de o reconhecer quando lho puserem pela frente na primeira oportunidade. E defende-se, não desarma. Daqui a pouco está com certeza a citar Santayana (não me admirava nada) e a sublinhar desgraças. Revê exemplos, concita mortos porque (palavras de Santayana, eu não dizia?) «quem esquece o passado arrisca-se a vivê-lo outra vez» e ao chegar a este ponto não adianta mais. Disse. Ou melhor, eu disse. Mas fumar ao espelho não é só ver para trás olhando de frente. É também um modo-josé de futurar, para lá do rosto que o repete e que fumega. E aí, deixa que te diga, o pessimismo ... que nos lixa. Porquê? Ah bom, porque... uma dor de colhões, não te rias. Absolutamente. O pessimismo, se não sabes ficas a saber, sempre teve a ver com carências afectavas. Daí que ele seja incómodo por natureza. Incómodo para o próprio que, sabe Deus, tem de viver toda a vida com essa dor, esse nó, e incómodo para a Pátria que já mandou para o Camões todos os Velhos do Restelo que lhe andavam a dar azar. Isto - por um lado, aquele a que podemos chamar Da Saúde Nacional. Mas há o outro, o da superstição. Absolutamente. O pessimismo acaba sempre por funcionar como uma superstição de prudência: prevê o pior para ir acumulando resistências contra o mau mas sempre na esperança de que o mau nunca venha a acontecer. E se acontecer, percebes, também já não perde tudo, ganhou pelo menos a glória da razão. Uma superstição pela negativa ou por efeito contrário, dirá algum, mas muitas ... realmente nesse jogo a dois gumes que acaba o austero pessimismo. Que horas serão isto? Horas? Nos colóquios de espelho nunca é tarde nem é cedo nem hora certa sequer, quem me ensinou isto foi o reverendo Lewis Carrol que tinha a mania dos vidrinhos às cores. Se calhar ... Por isso que estes exercícios, se a gente não tiver cuidado, acabam num ritual que não interessa nem ao Menino Jesus. Um ritual, José, onde o padecente, em vez de incenso se esfumaça em nicotina. Em vez de incenso, tabaco, em vez de hossanas, Provocações, e às duas por três, se a gente não mete travões, esta coisa, este frente-frente, acaba numa auto- contemplação. Ou numa autoflagelação, para o caso tanto faz. Porque aqui tudo se passa entre o indivíduo e as suas imagens e, curiosamente, numa conversa muda que sabe tanto a círculo vicioso como este cigarro que eu tenho nos dedos. Fumo-o e ele fuma-me, estás a ver? Fumar ao espelho, solidão dobrada - diria o meu irmão se aqui estivesse (mas não está, morreu aos vinte e um anos num avião militar), ele que, sem cigarro e sem espelho, acabou por conhecer a mais estranha e a mais ampla solidão que se pode conhecer. A do espaço final, vê tu. A da imensidão azul onde a morte o foi procurar, 3500 pés acima do planeta dos homens. Não, nisto de alguém se interrogar ao espelho, olhos nos olhos, é consoante. Tem muitos ângulos - e tu estás aí, que não me deixas mentir. Vários ângulos. Há quem procure, santa inocência, fazer um discurso de silêncio capaz de estilhaçar o vidro e há quem espere receber, por reflexo da própria imagem, algum calor animal que desconhece. Seja como for, o que dói, e assusta, e é triste e desastradamente cómico neste exercício, é o pleonasmo de si mesma em que a pessoa se transforma. Repete-se. Se bem que com feroz independência (todo o seu esforço é esse) repete-se em imagens controversas que a possam explicar. Quanto à solidão de há pouco não há pleonasmo nem desdobramento que a salve nem mesmo os psicanalistas que temos cofres cheios dela. Para o vulgar contribuinte, a solidão resume-se a um vocábulo lamentoso ou a um fatalismo social de crédito comprovado, mas em boa verdade talvez não passe de uma metáfora do medo, simplesmente. Seja ela o que for, peço desculpa mas sem solidão ninguém vive. Solitário, não vamos mais longe, é este escritor que aqui está quando se entrega ao acto de escrever. Quer ele queira, quer não, só assim pode cumprir linha a linha a sua escrita na qualidade simultânea de autor e de leitor que são duas figuras distintas da Utopia de si mesmo. E depois? Há algum mal nisso? De modo que fuma, José, deixa correr. Solidões, duplicações, masturbações, é tudo conversa ou pouco menos. Queimam os dedos, reduzem-nos a fibras secas se nos deixamos arrastar por elas. Concreto, concreto, só esse alguém que nos vigia, que te vigia, aí no espelho, e que nos escuta por dentro. Mas escutar, realmente? Para te ser sincero, ainda não percebi. Ainda não sei se... por arrogância, se por desconfiança que ele nos encara com tanta dureza. Somos três agora. (Sempre fomos, tu é que não reparaste: dois que se olham e um terceiro que os escreve, olhando-se). No entanto, o rosto que nos é comum aos três está devastado pelo tempo. Esse aí não tarda muito que lhe caiam os dentes e fique coberto de rugas a bulir de vermes. Duvidas? Então espera por mais dois ou três outonos de cigarros e já vais ver. Três outonos, não lhe dou mais. Até lá vai continuar assim, em aresta viva, e com a tal contensão que, não sendo arrogância nem suspeita, ser o quê? Orgulho? Não, orgulho, nem pensar. E se fosse, pior para ele que se calhar pouco fez para mudar o mundo e muito para não se deixar mudar. Aceitemos que é, antes, um endurecimento defensivo, para aí, sim. E aguardemos. O resto, Deus o dirá, se alguma vez o souber ler devidamente. Tudo isto, já te disse, tem de ser encarado a vários ângulos. Sempre a vários ângulos, não te esqueças, porque, segundo alguns, os personagens deste tipo são de visagem errante. Como toda a gente? Como toda a gente, possível. Só que esse que tens diante de ti nunca na vida soube administrar a sua ima em pública, como se pode depreender logo à primeira abordagem. Porquê, não se sabe; as razões podem ser muitas. Pudor, impaciência, falta de traquejo, sei lá. Há também a independência, a independência... demasiado impeditiva, sempre foi, mas por essa ou por outras razões, a verdade é que esse talento nunca ele teve. E não se julgue que a lacuna não é grave porque a imagem de marca que os corretores das Letras e os lobbies da Opinião põem a circular no mercado a cotações de estarrecer. Ah, os lobbies, ah, os lobbies. Ah, perfumadas sacristias onde o livro em branco, antes de ser livro, já foi condenado ou marcado com uma pétala seca na página da eternidade. Uma vez mais, silêncio, José mantém-se olhos nos olhos. Parece desconhecer que em qualquer álbum de glórias o verdadeiro retrato do paciente pode ser desfigurado com a mesma facilidade com que o fumo do cigarro o encobre ali no espelho. Nesse caso que se lixe e cara alegre, então não é? Deixemo-lo portanto assim. Em directo e ao natural. Como se vê, tem o cabelo mais branco neste momento mas mantém a vislumbrada malícia de si mesmo que sempre se lhe conheceu. Pelo menos... o que eu penso - ou, antes, o que ele pensa. Vez por outra nota-se-lhe um perpassar de ironia pelo olhar, mas se o tem... luz breve e em geral magoada, não dá sequer para temperar o desalinho aparente que há nele e que provém mais de uma certa Lisboa à balda do que propriamente de outra coisa. Quanto ao mais, pouco a acrescentar. Visagem martelada (já se disse), máscara prevenida, assimetrias de quem se talhou ao azar - e é tudo. Ah, e os cigarros! Em 1990, este autor ainda continua a fumar, imagine-se, e a perguntar todos os dias E agora, José. A cada interrogação aspira, fundo e lento, até o morrão do cigarro abrir brasa no vidro do espelho, e há alturas em que encolhe os ombros e pensa de alto «Acta est fabula», se assim me posso exprimir em sinal de despedida. Mas é um dizer por dizer, nada de especial. Quando menos se esperar, ele aí estará outra vez nesta cadeira e neste lugar, a fazer resumo e projecto de si mesmo, e diga-se de passagem que não se dá mal assim. Como sempre, não tem angústia nem surpresa porque vai encontrar alguém que amanhã, dia comum, recomeça de novo a vida na primeira linha do capítulo que se segue. Aqui tens, José, o homem que te interroga. Que te fuma e te duvida. Que te acredita. E com esta me despeço, adeus até outro dia, e que a terra nos seja leve por muitos anos e bons neste lugar e nesta companhia. Pá, apaga-me essas rugas. Riscam o espelho, não vês? Cardoso Pires por Cardoso Pires, entrev. de Artur Portela, 1ª edição, Publicações D. Quixote, 1991, 124 p., pp. 89-94

terça-feira, fevereiro 26, 2013

"O Povo é quem mais ordena"

Vive-se um descontentamento generalizado com a política e os políticos, que vai ficando, a passos largos, cada vez mais visível. Ora é um ministro que é interrompido pela canção de Zeca Afonso, ora são milhares de faturas que dão entrada nas finanças com o nome de Passos Coelho ou Vítor Gaspar, ora são apupos e manifestações de repúdio à actuação de Miguel Relvas, por exemplo. A leitura que se faz destes momentos é a de uma saturação nunca antes experimentada em Portugal (que eu me lembre), que deve conduzir a que, pelo menos, se comece a pensar a sério numa reforma total do sistema político português. É cada vez maior o fosso entre políticos e pessoas. E esse fosso cavado há largos anos já não se resolve, creio, só com a mera redução do número de deputados. As pessoas observam de baixo para cima um “planeta de políticos” que “flutuam”, primeiro pregando, depois pecando, num ciclo vicioso que aniquila a democracia, mata a vontade de participar e, pior ainda, um dia destes explode de vez. Antes que isso aconteça espera-se que sejam tomadas medidas no sentido de acabar com esse descrédito, ou de pelo menos fazer com que se vá atenuando, de modo a que as novas gerações possam crescer e participar numa sociedade mais justa, mais ouvida e, por isso, mais interventiva. Exige-se que se pense mais nas pessoas e menos na vantagem eleitoral; que os políticos sejam homens e mulheres de mais acção e coração e menos imagem de televisão ou fotografia de jornal; que tenham noção que de cada vez que falam dos problemas das pessoas, esses (os problemas) não são apenas um substantivo a pairar no papel. São reais, sentem-se e precisam de soluções rápidas e eficazes. Quer o desgaste dos partidos políticos, que acabam por ser também vítimas das circunstâncias, quer a crise financeira que vivemos, obriga a pensar numa reforma do sistema político português que possa acolher mais e melhor as pessoas e a sua participação. Seria muito mais fácil dizer que as pessoas não participam, nem querem saber. Ponto. Mas todos sabemos que não é sempre assim. Temos, sem sequer ter que chegar ao continente, exemplos disso mesmo na Região: pessoas que se organizam em associações ou grupos informais e que cumprem um papel fundamental, em vários campos de actuação sem pedir nada em troca. O século XXI – que já vai no ano de 2013 e quase no mês de Março – exige uma visão mais alargada e combinada e não linear e cega das políticas, dos políticos, das pessoas e das suas vidas, que deve abranger mais o trabalho em equipa, a autonomia das pessoas, a liberdade de escolha e opção de vida. Não tenho a menor dúvida de que é nas pessoas que estão as respostas para os desafios para vencer a crise, nem tenho a menor dúvida de que é urgente e é agora que se deve ouvir mais e ouvir melhor as diversas vozes da sociedade civil que se fazem ouvir sempre que são chamadas a isso. Não há outra saída. E, acreditem que não vale a pena pensar (só) em nós de gravatas. Há outros nós. Há um “nós” em cada português que canta em qualquer lado: “O povo é quem mais ordena.” E é mesmo. Serenamente, AO de hoje, 26 de Fevereiro

terça-feira, fevereiro 12, 2013

Morreste-me

É muito difícil escrever sobre a vida ou sobre a falta dela, sobre o que nos morre, quando morre alguém de quem gostamos muito, ou quando morrem coisas em que acreditávamos muito. É por isso que admiro os escritores Philip Roth e José Luís Peixoto. O primeiro, porque escreveu um livro sobre o património humano – além dos museus, das igrejas e das bibliotecas – deixado pelo pai, num tom sensível, impressionantemente verdadeiro e cruel, na espera angustiosa da morte que havia de chegar, num dia qualquer, ou nos frios corredores dos hospitais, ou no carro ou no caminho de casa… Escrever sobre a morte pode tomar rapidamente forma de lamechice, porque não há (ou não havia) muito mais a dizer, mas aqui existe, está lá, em cada página, a identificação constante entre quem lê, tendo passado por isso, e quem escreve coisas como, por exemplo, esta: “O que os cemitérios provam, pelo menos a pessoas como eu, não é que os mortos estão presentes, mas sim que partiram. Eles partiram e, por enquanto, nós não.” Perdemos tempo de mais a discutir o evidente, a debater o insignificante, a falar sem ouvir a própria voz, a calar as ausências, a esconder absurdos e um dia morremos num ápice. A imortalidade das lesmas é uma metáfora (irónica, talvez) mas não deixa de ser tão grande como a nossa própria metáfora. Um dia, não resistimos mais ao passar dos dias e chegamos à forma infinitiva e antónima do verbo viver. Se enquanto vivermos percebermos que tal como as moscas nenhum de nós é imortal pode ser que vivamos melhor. Acho eu. O outro livro, cujo título escolhi para chamar ao “Serenamente” de hoje é de José Luís Peixoto, publicado em 2000, em edição de autor. “Morreste-me” é um património para a língua e literatura portuguesa, escrito, quase de um fôlego, lido depressa, parece um ensaio sobre a vida e sobre a morte. Sobre a falta de vida e sobre a ligeireza da morte, sobre o que nos morre e o que nos fica, sobre o imaginário e a cruel ausência dos que gostamos mais. Muito poucos (penso eu) conseguiram escrever assim de forma tão dura, palavras que acabam por nos invadir e fazer pensar (de facto) nesta nossa “insustentável leveza de ser” (Milan Kundera). Não há ali prazer no sofrimento, nem qualquer espécie de exposição de dor. É tão só e apenas uma dor, a dor de quem se vê, num ápice, sozinho (ou quase) no mundo. Podem morrer-nos pessoas, desaparecendo ou não, podem morrer-nos ideias, ideais, mas que não nos deixemos morrer antes do tempo parece-me fundamental. Sem apegos a moralidades ou a moralistas, sem desapego ao que é nosso de dentro, ou de fora, como a carne que nos enforma ou as palavras que escrevemos ou dizemos, o “Serenamente” de hoje vai com dedicatória a quem me morreu mais cedo do que eu julgava que era permitido, que gostava mais da sua gente do que do resto das coisas, que brigava por uma ideia, como eu nunca mais vi ninguém brigar, que tinha a mão que nestes dias mais falta me faz. Ensinou-me (entre outras coisas) que “Quand le doigt montre la lune, l'imbécil regarde le doigt" (em português: "quando o dedo mostra a lua, o imbecil olha para o dedo") … É isso que me tem feito segurar nos dias, em que parece que seria mais fácil viver dentro de um aquário, só preocupada com as borbulhas perfeitas que, como peixe (sem cérebro) havia de treinar e fazer… Let it be…(mother Mary). Serenamente, AO 12 de Fevereiro

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

Não faz mal: temos a TV Rural!

Na mesma semana em que Merkel decidiu assinalar os 80 anos da chegada ao poder de Adolf Hitler, discursando nas instalações da GESTAPO, e exibindo, por diversos locais da Alemanha, exposições sobre o famoso ditador, Portugal viu “renascer” duas belíssimas figuras: primeiro Fernando Ulrich, depois Franquelim Alves, entre ambos o de sempre, Pedro Passos Coelho… Fernando Ulrich, presidente do BPI, em declarações prestadas, aquando da apresentação de resultados do seu banco, perguntou porque é que os portugueses não aguentariam mais austeridade, se os sem-abrigo sofrem tanto e aguentam. Ora o banqueiro Ulrich definiu (e ninguém contrariou) o que aguenta um português, um grego ou um sem-abrigo (que deve ser para o banqueiro outra nacionalidade qualquer), anunciando ao mesmo tempo os lucros do seu banco... Sobre as suas declarações quase ninguém abriu a boca. Por outro lado, e na mesma semana, a nomeação de Franquelim Alves para o Governo de Passos Coelho provocou uma onda de reacções negativas em toda a oposição nacional. António José Seguro disse que o Primeiro-Ministro devia explicações ao país; Jerónimo de Sousa que é uma vergonha a nomeação e o Bloco de Esquerda está indignado pela posse dada pelo Presidente da República. De todas as reacções, a melhor (na minha opinião) foi a de Manuel Alegre. Serenamente disse o ex-candidato a Presidente da República, que é uma vergonha ter sido indicado e empossado Secretário de Estado, devido à sua passagem pelo grupo SLN-BPN; que do ponto de vista da ética e da política da responsabilidade é também uma vergonha, mas que não é uma ilegalidade, porque Franquelim Alves não é arguido, nem está condenado. É só (e tanto) uma questão de ética pública. Pois é. Enquanto Ulrich vai e Franquelim vem, Passos Coelho anunciou no Parlamento que Portugal recuperou credibilidade internacional, que apesar de ter que fazer sacrifícios, está em condições de andar pelo seu “próprio pé”. (Nas redes sociais uma fotografia choca quem a vê. Tirada à noite, numa noite qualquer de Lisboa, as arcadas junto ao Terreiro do Paço, são cama de dezenas e dezenas de pessoas. Fernando Ulrich chama-lhes “sem abrigo”). Devemos sentir-nos todos orgulhosos, explicou-nos Ulrich sem falar de orgulho, aguentamos e por isso mesmo o governo vai brindar-nos com mais um programa de entretenimento: a TV Rural, que o Parlamento aprovou na semana passada. O desemprego atingiu um número recorde de 16,5%? Não faz mal. Temos a TV Rural, de cheiro podre e bafiento como a lembrança da “TV Rural”, emitida entre 1960 e 1990, apresentada por Sousa Veloso. Como agora ditou Pedro Passos Coelho já andamos pelo nosso próprio pé, talvez possamos gastar mais uns milhares num genérico para a “TV Rural”. Sugiro uma versão estilo “gangnam style” do fado: “Uma casa portuguesa”. Para dar voz pode ser Marcelo Rebelo de Sousa. Afinal o professor fala de tudo e de todos. Cantar também deve saber. Se não souber peça ajuda a Ulrich. Por certo, um e outro não terão dificuldades, desde que deixem crescer as patilhas...e peçam a Franquelim Alves para, sei lá, fazer o coro…

terça-feira, janeiro 29, 2013

Ponta Delgada mais livre

Necessitada de políticas inovadoras e criativas, a cidade de Ponta Delgada está amorfa e alheada dos novos desafios da cidadania participativa, dos novos modelos de gestão pública e, pior, da prática de um serviço público de qualidade. É urgente assim dar uma perspetiva humanizadora com coração do que se faz por e em Ponta Delgada, para que, com isso, se criem condições sobre novas formas de interação entre a autarquia e o tecido empresarial, entre a autarquia e as relações e competências dos outros poderes; na descentralização das estratégias, na inclusão de todas as suas freguesias e sobretudo na assunção das suas novas missões. E as suas novas missões serão – em pleno século XXI – desenvolver de forma sustentável esta nossa cidade e concelho, fazendo esse desenvolvimento coincidir com o crescimento económico. Uma tarefa que não sendo fácil está ao alcance de quem quiser, verdadeiramente, por as mãos ao trabalho, assumindo um equilíbrio rigoroso entre as pessoas do concelho e a economia, a política social, a cultura, os transportes, as novas tecnologias, a juventude, os idosos, as crianças, enfim em tudo o que forma a vida das pessoas que nos rodeiam. Devia interessar mais a quem nos governa a melhoria das condições de acesso a recursos, o incremento de liberdades básicas, a divulgação cultural de Ponta Delgada integral e não parcialmente dividida pelos espaços ditos municipais. Ponta Delgada tem já há muito tempo dimensão para ter um roteiro cultural (além do já elaborado pela Direção Regional da Cultura), que incluísse cafés, restaurantes, museus e galerias, academias e associações culturais de índole vária, não só na cidade, como em todo o concelho, mas não tem, ainda não tem! Está atrasada e só agora ouvimos falar nesse assunto. Esperamos por ele há tempo demais. Enquanto isso os anos passaram-se e Ponta Delgada agonizou, só se virando ao mar, quando nasceram (e bem) as “Portas do Mar”… Podíamos ser muito mais do que somos aqui em Ponta Delgada. Ter espaços verdes cuidados e não espaços semiabandonados, como o caso do Jardim António Borges ou do Parque Urbano; podíamos ter há muito tempo (até já foi proposto) sinalização turística vertical, mas não temos e os turistas que nos visitam quase têm que adivinhar onde ficam os sítios; podíamos ter uma central de camionagem capaz, em vez de termos a avenida marginal como uma espécie de “Bangladesh”; os minibuses podiam servir para transportar mais e melhor os nossos concidadãos, se fossem os seus horários coordenados e os seus pontos de chegada, melhor articulados. Devíamos ter um festival de artes que nos caracterizasse como lugar de excelência, que fosse cartaz turístico e cultural, como tem a Praia da Vitória, São Roque do Pico ou a ilha do Corvo, por exemplo. Podíamos ter tantas coisas que não temos, mas um dia havemos de ter, porque merecemos, porque queremos e porque estamos fartos de ver os passeios despidos de esplanadas, as ruas escuras e as promessas de voltar a viver no centro histórico arrumadas na gaveta, por baixo do projeto para um Museu megalómano. Um dia Ponta Delgada vai acordar para isso. Esse dia será o dia em que seremos todos mais livres… Serenamente, AO 29 de Janeiro

quinta-feira, janeiro 24, 2013

The Dream before

Hansel and Gretel are alive and well And they're living in Berlin She is a cocktail waitress He had a part in a Fassbinder film And they sit around at night now drinking schnapps and gin And she says: Hansel, you're really bringing me down And he says: Gretel, yu can really be a bitch He says: I've wated my life on our stupid legend When my one and only love was the wicked witch. She said: What is history? And he said: History is an angel being blown backwards into the future He said: History is a pile of debris And the angel wants to go back and fix things To repair the things that have been broken But there is a storm blowing from Paradise And the storm keeps blowing the angel backwards into the future And this storm, this storm is called Progress Laurie Anderson

terça-feira, janeiro 22, 2013

citação importante

Saber desistir. Abandonar ou não abandonar — esta é muitas vezes a questão para um jogador. A arte de abandonar não é ensinada a ninguém. E está longe de ser rara a situação angustiosa em que devo decidir se há algum sentido em prosseguir jogando. Serei capaz de abandonar nobremente? Ou sou daqueles que prosseguem teimosamente esperando que aconteça alguma coisa? Clarice Lispector

domingo, janeiro 20, 2013

citação importante

"Um inimigo pega de estaca. Plantá-lo, pois, regá-lo e observar o rebentar das primeiras folhas. A seguir, a floração inicial. Cuidar dela com desvelo. Tonificar a planta, cortando as folhas ressequidas e amarelas. Dar-lhe o tempo necessário para crescer, até no caule os espinhos despontarem. Mais tarde, virão os primeiros frutos, prontos a debicar. De quando em vez ousar uma carícia, umas palavras doces. Zelar amorosamente pelo inimigo. Assim se aprende o valor ímpar da inimizade." João Pedro Messeder, página 30 so livro "contos de algibeira", de 2007, editado pela Casa Verde.

terça-feira, janeiro 15, 2013

O Zico, a Pepa e Pedro Passos Coelho

O país pôs-nos esta semana a assistir a mais uma mão-cheia de episódios inqualificáveis. Parecemos forçados a ser espectadores de uma espécie de “Grande Irmão” mais real que o programa de televisão, com protagonistas severamente ridículos e desconectados dos reais problemas de todos os portugueses. Poder-se-á mesmo pensar que há, entre nós, uma “luta de galos” que leva cada qual a procurar o seu holofote e a posicionar-se, em palco, para debitar a sua deixa, enquanto uns quantos se debatem com problemas reais a que ninguém acode. Só isso pode explicar todos os episódios a que assistimos difundidos por todos os canais de comunicação, replicados nas redes sociais e nas vozes dos comentadores de todas as televisões e rádios… Cerca de 50 mil pessoas assinaram uma petição contra o abate do cão Zico, o pitt bull que matou uma criança de 18 meses. A iniciativa da petição contra o abate do cão tem laivos de absurdo e grotesco. Não só pelo tema e por tudo o que ele compreende, como também pelo facto de ter juntado cerca de 50 mil pessoas com um objectivo: livrar o cão do abate. Não há em Portugal mais nada para defender ou para protestar? A mim parecia-me que sim, mas, por via das dúvidas, fui ver as petições públicas, no site da internet. Há muitas e para todos os gostos. Destaco estas pela sua importância fundamental: “Juntem duas almas gémeas” – (que seria de um país sem almas gémeas?), “Petição para proibir franjas no cabelo da Rita Laranjo”- (Uma Rita Laranjo sem franja faz perder o emprego a centenas de pessoas); “Sessão de autógrafos do Justin Bieber em Lisboa” – (fundamental, por certo). Ainda se espantam com o desejo da Pepa? Eu não. E qualquer dia vai haver uma petição para que a Pepa possa ter a sua mala channel preta "daquelas normais" e tal como o abate do Zico, a petição para a mala da Pepa irá ter mais assinaturas que uma petição, que também lá está no site e que pede a imediata demissão de Miguel Relvas do Governo. Tem 5973 assinaturas… São prioridades que devem divertir e alegrar quem nos desgoverna na República. Só isso pode explicar que Pedro Passos Coelho tenha estado em Ponta Delgada, tenha falado, como falou, da Lei de Finanças Regionais, do Relatório do FMI e do Serviço Nacional de Saúde e tenha sido aplaudido por todo o congresso. Entusiasticamente. Só essa grande euforia do Governo da República por ver que pode fazer o que quiser porque o Povo está entretido com o “circo do cão”, a “mala da Pepa” ou os desaires da "Casa dos Segredos" pode explicar que Pedro Passos Coelho, em Ponta Delgada, tenha dito que todos devemos cumprir a palavra que demos, que "o Governo não pode ser trapaceiro, nem dizer hoje uma coisa e amanhã outra". Tudo certo, sim senhor. Mas o Primeiro-Ministro de Portugal não é propriamente exemplo de cumprimento da palavra dada, pelo que ouvir isso, em directo na minha televisão, foi insultuoso! Mas lá está: isso comparado com a Sessão de Autógrafos com Justin Bieber não é nada para este país… Só falta agora mesmo é que o Papa Ratzinger confirme lá do Vaticano, via twitter, se Gaspar estava ou não no presépio, para as pessoas poderem ficar descansadas. Se não tiver estado, o Relatório do FMI não é a "Bíblia do Governo". Se tiver, o Primeiro-Ministro mentiu mais uma vez aos portugueses. Mas o que é que isso interessa? A Associação Animal conseguiu o adiamento do abate do cão. Que bom! Serenamente, AO de 15 de Janeiro de 2013

terça-feira, janeiro 08, 2013

Quase, quase

Correndo riscos deste texto estar desatualizado amanhã – por intermédio de uma qualquer mensagem de Facebook, que entretanto Pedro (e Laura) decidam mandar aos cibernautas dando o dito por não dito- não posso deixar de registar as mais recentes afirmações do Primeiro-Ministro de Portugal, enquanto ouvia cantar as Janeiras (que não cantou) no dia de Reis. Pedro Passos Coelho desejou um bom ano aos portugueses, reforçando que também o desejava aos que não gostam do seu executivo e disse que estava a ver uma luz ao fundo do túnel. Não se percebe se Pedro Passos Coelho estava a mandar um “recado” a Cavaco Silva ou se estava a recuperar o “discurso do Pontal”, em Agosto do ano passado. Num ou noutro caso é de se ficar aflito, quando se lembra que, logo a seguir ao Pontal, e sem aviso prévio, Passos Coelho anunciou o mais brutal agravamento da austeridade… Também ficámos todos a saber este Domingo que o país não está num “ciclo vicioso” mas sim a “vislumbrar a saída de um período difícil”. Passos Coelho é pródigo no uso de metáforas. (A não esquecer a do soldado que tem de haver dentro de cada português. Só não se percebeu quem comanda estes soldados de papel: se Pedro, se Laura, se ambos ou se nenhum?) Está visto que o Primeiro-Ministro de Portugal não é leitor do “Inimigo Público”. Se fosse já sabia que essa luz apagou-se em Portugal por falta de pagamento e a mando dos chineses. Quem parece também ter visto uma luz foi o nosso ex-Presidente do Governo Regional dos Açores, Dr. João Bosco Mota Amaral. Só uma ilusão ópticapode justificar que, depois de ter votado a favor do Orçamento de Estado para 2013, escreva um artigo como o que saiu publicado a semana passada… Esperamos agora (serenamente) que no próximo fim-de-semana, durante o congresso laranja, seja dito aos companheiros açorianos o que lá está escrito e mais qualquer coisa, por exemplo, sobre a proposta de Lei das Finanças Regionais, antes que seja tarde demais ou antes da próxima edição do jornal. O que nos entristece é que além da desgraça que nos invade, há a outra que afasta os cidadãos da política e dos políticos, que desanima os cidadãos e que nos prejudica a todos. Quando políticos destes, representantes do Estado português, se negam a ajudar o Povo do seu país em detrimento das suas próprias agendas, podemos pensar tudo, fazer qualquer coisa. Só não podemos ficar a assistir impávidos e serenos, enquanto nos tomam por esquecidos. Pedro Passos Coelho estará em São Miguel no próximo dia 13 de Janeiro. Esperamos que não chame “Adão” a Duarte Freitas nem encontre por cá nenhuma serpente maldosa. Duarte Freitas, natural da ilha do Pico, terá oportunidade de lhe explicar que na “ilha de baixo” de onde veio (conforme explicação de Costa Neves a Cavaco Silva) está o ponto mais alto de Portugal, contrariando assim (mais uma vez) a informação dada por Judite de Sousa, no noticiário de fim-de-semana sobre a Serra da Estrela. Termino citando o autor Pedro Paixão: “(…)Quase, é uma palavra notável. Todas as pessoas deviam ter por nome próprio quase. Eu sou quase, tu és quase, ele é quase, nós somos quase. Quase qualquer coisa que não chega a ser quase (…)” E assim quase desejava daqui um Bom Ano ao Primeiro-Ministro de Portugal. Mas quase não chega para o voto. Quase.• Serenamente, AO de 8 de Janeiro de 2013

terça-feira, dezembro 25, 2012

Aos amigos

Se não fosse o mar de inverno a rebentar nos olhos das pessoas e o tempo a parecer que morre nas mãos mais depressa do que nunca. Se não fosse a chuva a escalar-nos a cara, de volta a baixo como as lágrimas de rir ou de chorar diria (sem dúvidas) que talvez pudessem ainda ser inventadas novas formas de escrever/dizer Dezembro… Mas o mês vai sendo isto. Num gerúndio demorado a que o tempo vai acudindo como vai podendo ou como pode ir sabendo… (Demoram-se os dias no Natal mais do que a (minha) ternura pode permitir). Dezembro lembra sempre as pessoas ausentes. E as notas da sua ausência são como um “piano chorado”, sem comiserações, mas frio, doloroso, em nada repenicado, a tocar solto em lugares abandonados, inabitados, sós como palmas secas em sala vazia de alguém. Dezembro devia mesmo assim fazer-nos morar mais algum tempo. Não morar só de dia. Nem só de noite. Dezembro podia fazer-nos recordar que há sempre, mesmo que por detrás das cortinas e, durante todo ano, quem vá espreitando e nos veja passar. Sempre. (Dezembro vem cheio do vermelho dos baldes da praia, onde antes era possível guardar o mar e uma praia inteira de covas e castelos e conchas, de pequenos reis (só de brincar). A mão da mãe a apertar a nossa. O pé do pai a acompanhar o nosso. Dezembro (agora) a levar-nos pelo ar.) Às vezes, morar mais vezes faz falta. De(morar) faz ainda mais falta. Dia após dia. Demorar no sentido de prestar mais atenção. As notícias de Dezembro trouxeram caridades incríveis. Retratos de uma sociedade que é sobretudo egoísta e hipócrita mas que o vermelho dos tules nas salas de oferta de jantares e brinquedos foi disfarçando e trocando, aqui e além, atenção e “amor ao próximo” por uns minutos de televisão… Uma pena. Lamentável. Devíamos ter todos como premissa a ideia de que nos basta sermos simples e possíveis, como escreveu António Lobo Antunes ou de que é bom não ter ambição maior que o livre espaço, como também escreveu o poeta da ilha das Flores, Pedro da Silveira, no seu célebre Soneto da Eternidade. Este é o último “Serenamente” de 2012. Dedico-o aos meus amigos. “Os amigos” – escreveu Pedro Paixão – “sobrevivem aos fins do mundo. Este é o único critério (…) ” Há várias formas de fim do mundo. Entre elas a forma como se reagiu, por toda a parte, ao fim do mundo “anunciado” pelos maias (e por outros magos da nossa actualidade). Por ora não é que tenhamos chegado ao fim do mundo, nem tanto que Dezembro tenha caído antes do fim do ano, enrolado nas fitas que o Natal vem trazendo, ano atrás de ano… Leiam-se as fitas como se fossem slides e os meus amigos que lerem estas linhas façam de conta que já estamos em Janeiro. Serenamente, Açoriano Oriental, 25/12/2012

terça-feira, dezembro 18, 2012

Contra “sorvêtxis” não há Fado que nos valha

Notícias recentes (não desmentidas) dão-nos conta de que o Governo brasileiro prepara um decreto presidencial para adiar a vigência obrigatória do Novo Acordo Ortográfico para 31 de Dezembro de 2015. Por cá (quase) ninguém se manifestou, cumprindo como sempre tudo o que é imposto, mesmo que sem explicação dada. Abrigámos um acordo que nos delapida como povo das nossas mais enraizadas etimologias e apelidámos os que por essa defesa se “bateram” de “antiquados” e “chatos” com o argumento (?) de que farmácia já se escreveu com “ph”… Esquecemos que uma pátria também se faz de língua e que a gente não é só feita de mãos e sapatos. Não soubemos proteger a língua portuguesa e agora assistimos impávidos e serenos ao adiar da vigência obrigatória no Brasil. Escrevemos “espetáculo”; “ata” e “ação” e estamos muito felizes porque já não damos erros de acordo. Somos parvos. Mais uma vez parvos. Apressados e ridículos. De terras brasileiras chegam mais notícias: de que o acordo está aquém do que poderia ser; de que é preciso rever tudo; de que os professores não sabem o que vão ensinar. Parece até – pelo que se lê – que o Governo brasileiro quer convencer outros países, incluindo Portugal, a fazer uma mudança total do acordo. (Sem dramas, podíamos ter aguardado mais um bocadinho). Mas o “sorvêtxi” é de facto mais forte que o Fado. E um “ônibus” ao pé de um “cacilheiro” é mais que um avião. Fomos, mais uma vez, os bobos da corte. Apressados na imposição, “adotamos” o Acordo e deixámos cair o “pê” de Portugal, de Pátria e de País sem dó e sem piedade. Porém, muito contentes porque o Fado é Património da Humanidade. Somos um país de bem-mandados e gostamos. Seja em brasileiro ou em alemão. Líricos Sempre que nos vejo – portugueses – enfiados nestes papéis lastimáveis, recordo-me de um livro de António Lobo Antunes, “As Naus”, cuja leitura recomendo vivamente. O romance traz para o século XX as figuras do discurso épico da história de Portugal e encena o desfecho trágico da colonização africana. As várias personagens do período de glórias ultramarinas, como Luís de Camões e Vasco da Gama, entre muitos outros, voltam ao cenário português, agora no papel de portugueses expulsos das colónias. E, apesar da ironia na escolha das personagens e do cómico de algumas situações, o que nos fica deste romance é uma imagem de Portugal desiludida e dolorida. Tudo parece ter acontecido em vão. E o que resta de tantas viagens, descobertas, partidas, naufrágios, epopeias e poetas é um grupo de tuberculosos que sentados numa praia, olham o mar e esperam que dele surja a salvação. Nesse tempo o Fado ainda não era Património. Nem nós tínhamos sido assim “acordados”. Serenamente, AO 18 de Dezembro

terça-feira, dezembro 04, 2012

A vaquinha e o burrinho

Há dias o papa Bento XVI anunciou ao mundo, no seu mais recente livro “A infância de Jesus” que não havia animais (a vaca e o burro) no local onde nasceu Jesus Cristo. O mundo – apesar de estupefacto – ironizou o mais que pôde sobre o assunto. Pois é claro. O que é que isso interessa? Aos milhares de pessoas que vivem em países em guerra, aos outros tantos que têm fome e a todos os que procuram paz e tranquilidade para as suas vidas? Não interessa nada. Mas o Papa não deixou de se preocupar com o assunto. E de fazer com que essa sua “revelação” eclodisse por toda a comunicação social mundial, como se um segredo guardado a sete chaves fosse agora posto a claro para “salvação das almas”. A mim faz-me pouca ou nenhuma diferença se tinha animais, ou se não tinha animais, se eram burros, vacas, gatos ou galinhas, embora confesse que quando penso nisso cresça em mim um misto de revolta e algum espanto: afinal o que quer dizer o Papa com esta revelação? Que não é digno de Jesus Cristo ter nascido num estábulo? Que por ser Jesus Cristo não podia haver lá animais e que a pena foi a Virgem Maria não poder ter sido assistida numa maternidade? Não me “soa” bem que num momento de tantas dificuldades para todos, em todo o mundo, a grande preocupação do Papa seja fazer esta revelação e dois ou três dias depois anunciar que vai criar conta no twitter. A minha luta é outra. Quero que as crianças que nascem na quadra de Natal e em todas as outras alturas dos anos tenham condições para viver em segurança, tenham sapatos para a chuva para ir à escola, roupa quente para não passarem frio, muita brincadeira, pai e mãe, ou só pai ou só mãe, avô e/ou avó, dinheiro para comprar um gelado, oportunidade para se sujarem de chocolate e que, pelo menos uma vez na vida, chorem de felicidade. Quero isto. E quero outras coisas que não cabem nesta página. Que tenham sopa quente e brinquem com as letras de massa ao jantar, que façam birras de quando em vez, aprendam, estudem, tenham bons médicos para tratar as suas doenças e se algumas tiverem que nascer numa casa que tenha burrinhos e vaquinhas, pois nasçam nessa casa que não lhes há-de fazer mal nenhum. Pior é serem abandonadas nas maternidades e noutros lugares. O Menino Jesus não foi abandonado. A minha luta é terrena. De pés no chão. Eu quero que os meninos do mundo inteiro tenham estrelas, que não sejam apanhados de repente por balas perdidas e mortos, não sejam raptados, nasçam. Que nasçam meninos. Que não haja mães que tenham que interromper as gravidezes ou percam os seus filhos. Para que todos, todos os meninos possam ter colo de alguém. E todas, todas as mães (e pais) possam ver os seus filhos crescer. Traduzido em 9 línguas, à venda em 50 países, “A infância de Jesus” é um livro que eu não vou comprar. Muito menos ler. "Serenamente", Açoriano Oriental de hoje