Day after tomorrow, Tom Waits
"E um dia os homens descobrirão que esses discos voadores estavam apenas estudando as vidas dos insectos..." Mário Quintana
sábado, outubro 31, 2009
quinta-feira, outubro 29, 2009
"À Janela do Mundo"
Tempos de Incerteza
Vivemos tempos de alguma esperança em relação às perspectivas futuras de crescimento económico das principais economias mundiais. O FMI prevê um crescimento, no ano de 2010, para a economia mundial, de 3,1% e para os Estados Unidos de 1,5%. As Bolsas de Valores têm visto os seus principais indicadores de referência valorizarem-se com crescimentos na casa dos dois dígitos. Das 104 empresas cotadas, nos EUA, que já publicaram as contas, 78%, conseguiram surpreender as expectativas dos analistas com os seus bons resultados.
Contudo, nem todos os sinais são animadores. O défice orçamental americano é tão elevado que põe em risco o estatuto do Dólar como moeda única de reserva mundial, tendo inclusive a agência de notação financeira Moody’s alertado que, caso os Estados Unidos não reduzam a dimensão da sua dívida pública, poderão perder o seu ‘rating’ de ‘Aaa. As Bolsas de Valores continuam muito instáveis, pelo facto de existirem ainda problemas credibilidade no sistema financeiro, que fazem com que à mínima dúvida ou anúncio de investigação governamental sobre uma empresa cotada, os principais índices mundiais tenham quedas abruptas.
Outras instituições e especialistas, como o BM ou Josef Stiglitz são pessimistas, referindo que a retoma será demorada e dolorosa para os países industrializados podendo ter efeitos ainda mais prolongados para os países em vias de desenvolvimento.
Desde o pós-guerra que as economias mundiais acostumaram-se a crises em forma de V, ou seja, em que as economias eram fortemente atingidas durante um curto espaço de tempo e após medidas estatais contra-cíclicas e logo recuperavam na mesma medida. Na década de 90 tivemos no Japão outro tipo de crise. A chamada crise em L, em que após uma queda abrupta de toda de todos os indicadores macroeconómicos, as medidas contra-ciclicas não resultaram, e o país entrou em estagnação económica e em deflação durante dez longos anos.
A percepção de que esta crise é diferente de todas as anteriores ainda não é generalizada no mundo. A única certeza que todos têm é que se não tivéssemos aplicado as novas medidas contra-ciclicas, porque o problema é diferente, a situação em que estaríamos seria bem pior. De facto, os mercados financeiros parecem recuperar, as taxas de juro mantêm-se propícias ao investimento, o preço do petróleo continua longe dos valores de Outubro do ano passado e algumas empresas conseguiram melhorar a sua quota de mercado através de fusões e aquisições. Contudo, apesar de muitas promessas, nenhuma reforma de fundo foi feita ainda no sistema económico internacional. Os paraísos fiscais continuam a funcionar na mesma medida, a regulação bancária e a segurança da notação financeira ainda é incipiente, a base energética dos países industrializados ainda são os combustíveis fosseis, o endividamento das economias continua a crescer em exponencial, ou seja, todas as condições que nos levaram a estar nesta situação continuam a vigorar na mesma medida. Daí que muitos especialistas, da Universidade de Johns Hopkins, defendam que tenhamos um novo tipo de recuperação económica em W. Esta teoria pressupõe que após a queda abruta que tivemos em 2009, 2010 e 2011 sejam anos de uma tímida recuperação, logo seguida, em 2012 por um crash económico ainda maior.
Teorias à parte, mais ou menos credíveis, há algo que poderemos ter todos a certeza: após esta Grande Recessão nada mais será como antes.
quarta-feira, outubro 28, 2009
terça-feira, outubro 27, 2009
Trinca na abelha
Qual Camilo, qual Eça, qual Vergílio? Fífia que é Fífia é conde e mais nada. Para sê-lo, assim, sem precisar de grande esforço, nada como ter por inspiração a Condessa de Ségur e intitular o CD de memórias (escritas e lidas pelo próprio): "As boas memórias de uma besta".
Substituir burro por besta para não cair em dois erros capitais: um plagiar o texto; dois cair no risco inglório de alguém vir a pensar que o CD é sobre um quadrúpede. Não!
“Uma besta", discorre, refastelado ao colo das tias, “ é arma e diabo. Homem que é homem não come o mel trinca a abelha.”
Está preparada a festa. Fífia: conde, arma e diabo. Três em um. Já sonha com o dia do lançamento. Do alto do muro do seu quintal, abrirá os braços, como o Di Caprio no Titanic, e "zumba" lançará o CD, qual disco voador, para os braços do público, que há-de gritar: Viva o conde. Viva. Viva.
E, então ele, qual comandante da "Barca do Inferno" dirá em verso quadras sobre o CD.
O Fífia é um cidadão entre aspas. Vive entre aspas. Sonha entre aspas e nem aos Domingos descansa um pouco fora das aspas, que o emolduram.
No Carnaval, já decidiu vai disfarçar-se de Inês Pereira. Para ele o provérbio: “Mais quero asno que me leve, que cavalo que me derrube” é lei.
Além Carnaval, o Fífia permanecerá como uma linha em branco, ocupando-se de um diálogo sem retorno, perguntando, a cada fim de tentativa de conversa: “Quem tem farelos?” e recebendo de lá, os aplausos das tias e os abraços da mãe e mais nada…
Sem peso para aforismo ou tamanho para verbete, o Fífia não é mais nada, senão uma pontinha do remo que faz navegar o inferno, que vive entre aspas, na sua rotina diária, desde que se lembrou de trincar uma abelha.
O resultado está à vista: à volta de si nada, além dos panos de água quente e das pomadas das tias. O Fífia não sabia que o dito, que serve de título a esta croniqueta não serve para todos. É que a uns, mais lhes vale que se fiquem pelo mel...
quinta-feira, outubro 22, 2009
quarta-feira, outubro 21, 2009
notícia

Enquanto três camelos invadiam o aeroporto do Cairo e o pessoal de terra loucamente tentava apanhar os animais
eu limpava as minhas unhas
quando acabava de ser identificada a casa onde viveu Miguel Cervantes, em Alcalá de Henares,
eu saía para o campo com Rufino Tamayo
enquanto um português vivia trinta anos com uma bala alojada num pulmão
chegava eu ao conhecimento das coisas
Agora já não há braseiros — os destroços foram removidos —
os animais espantaram-se
e como se não fosse desde já um admirável e surpreendente esforço a nossa acção de escritores
afogado num poço canta um homem
p. 56.
Mário Cesariny
terça-feira, outubro 20, 2009
O Fífia é um palhaço em ponto pequeno

imagem
O Fífia é um alfinete em ponto pequeno. Cabeça de agulha, lente de aumentar; falar sibilante; gingar grosseiro e abanado; o Fífia não vale a pena, mas merece a pena…
O Fífia é uma sopa sem sal; uma dor que corre por dentro da garganta, quiçá por cigarros a mais…
O Fífia é uma homenagem em ponto pequeno; um escrito debaixo das linhas dos cadernos pretos a que chamam Moleskine, que se derrete entre-dentes, como as personagens de Mário de Andrade, numa trovoada de florestas brasileiras, às quais acorrem índios e índias, com falares muito próprios e espadas de madeira e folhas.
O Fífia podia ser o segredo que se guarda nos livros depois de os lermos, mas de tão espalhafatoso que é, acenando com a cabeça, numa atitude de Genoveva ou Julieta, acaba por nos morrer na ideia; não se deixando instalar como recordação boa.
O Fífia é um segredo mal guardado em dimensão excessiva. É a palavra que se atira por cima da gente; a estrela que pensa trazer na cabeça, mas que não traz; o artigo de jornal que queria escrever, mas que aparece escrito por outros, todos os dias na comunicação social.
O Fífia é um ladrão em ponto pequeno. Um jarro em ponto pequeno. Um grito em ponto pequeno. Uma peça de dominó em ponto pequeno com o Donald gravado no verso.
O Fífia é uma chama em ponto pequeno, apagando-se no mesmo instante em que as palmas à música que outros cantam, começa a tocar.
O Fífia é o quadro que outros pintam; o livro que outros escrevem.
O Fífia vive no seu mundo em ponto pequeno, onde só cabe ele; fechado na sua redoma cor de carmesim; visitado por moscas, em cujas asas bate o ritmo do seu coração.
Queria ser capa de revista, concorrente do circo das Estrelas; não pela magia do circo, mas sim, porque sempre quis andar em cima de elefantes agarrado a todas aquelas celebridades; poder beijar o Carlos Xavier, abraçar o José Castelo Branco; ser parte integrante de um programa de cultura como o Circo das Celebridades. (Está confiante de que nos Açores, o programa ainda não se fez, porque ainda não o descobriram).
Ele que em cada fala está uma gargalhada; ele que administra bem a sua fama; ele que, no café do supermercado do seu bairro, entra e é logo colhido por mais de mil sorrisos das senhoras que, aquela hora, o frequentam.
O Fífia é qualquer coisa que está para acontecer e que, se acontece, ele diz ter sido copiada a ideia.
O Fífia não se perde, retoma; não se desfaz, está colado. Falta-lhe só o nariz vermelho.
O Fífia é um palhaço em ponto pequeno. [“E Deus nos livre se o fosse em tamanho normal”].
Só para acompanhar a chuva
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios."
(Um fragmento de Nuno Júdice)
segunda-feira, outubro 19, 2009
quinta-feira, outubro 15, 2009
quarta-feira, outubro 14, 2009
"À Janela do Mundo"
Uma Nova Oportunidade para os Açores
Os resultados eleitorais de domingo último deram uma vitória expressiva ao Partido Socialista nos Açores. Pela primeira vez na história da autonomia regional, o PS governará a maioria das câmaras municipais e juntas de freguesias nos Açores.
A meu ver a vitória obtida deve-se, para além dos factores, óbvios, específicos da governação de cada localidade, a uma estratégia regional do PSD/Açores profundamente errada. A líder do PSD/Açores desde cedo optou por colocar as câmaras e juntas de freguesia, afectas ao seu partido, a fazerem oposição ou concorrência ao Governo dos Açores. Chegamos inclusive a observar candidatos autárquicos do PSD a criticar o Governo Regional em vez dos seus adversários directos. Esta posição de oposição intransigente cansou as populações, que se sentiram prejudicadas com o permanente desperdício de dinheiros públicos e por sentirem também que o que motivava os autarcas sociais-democratas, não era o bem comum, mas sim a derrota da governação socialista.
Outra lição que as populações, como sempre com razão, dão a todos nós políticos, é que ter muita obra feita não é razão suficiente para ganhar eleições. As pessoas reconhecem se as obras públicas têm ou não utilidade ou qualidade quando são feitas. Os cidadãos percebem facilmente que a piscina X ou o pavilhão Y, foram feitos ou mal feitos, sem possibilidade de serem pagos num futuro próximo, comprometendo durante muitos anos a economia do concelho. Um bom exemplo do que digo, é o facto dos projectos vencedores no concelho da Povoação e de Vila Franca preconizarem a boa gestão das contas públicas e do pagamento a fornecedores a tempo e horas como sua principal bandeira, em contraste com os projectos derrotados que tinham deixado as câmaras em falência técnica.
Penso que após a análise destes resultados eleitorais, é tempo de falarmos de um novo ciclo de governação local que agora se inaugura e das oportunidades que temos pela frente. Com uma nova direcção na Associação de Municípios dos Açores e de São Miguel, temos finalmente a possibilidade de pensarmos e resolvermos conjuntamente vários problemas graves que individualmente nunca poderiam ser resolvidos. Falo de sinergias entre o Governo dos Açores e as câmaras municipais que podem levar ao reforço de economias de escala, que tanta falta nos fazem, e ao aparecimento de novos sectores de actividade económica como a gestão de lixos e da água.
Sempre me fez alguma confusão o facto da maioria das câmaras dos Açores encararem a gestão dos lixos como um triste prejuízo inevitável, sem perceberem que se trabalharem juntos podem vir a ter matéria-prima suficiente para tornar este problema num negócio rentável que crie economia, mais emprego e externalidades positivas.
Em relação à gestão da água, sempre me pareceu ridículo que alguns autarcas pensassem que as nascentes e os lençóis de água que nos abastecem, abrangem religiosamente os limites concelhios. Numa terra tão rica em água, parece-me quase irresponsável não pensar que a gestão do abastecimento às populações deva ser feita de uma forma conjunta.
Têm agora a oportunidade de fazer as coisas bem-feitas.
O tempo o dirá...

