Despacho de Couto dos Santos mantido em vigor por Ferreira Leite e revogado no Governo de António Guterres.
Roubado daqui
"E um dia os homens descobrirão que esses discos voadores estavam apenas estudando as vidas dos insectos..." Mário Quintana
VERDADES
Uma campanha eleitoral é – espera-se! - um período em que os partidos aproveitam para apresentarem as suas ideias. Numa altura de crise internacional severa, que muito nos molesta, é importante sabermos, ao certo, no caso das eleições legislativas portuguesas, o que cada partido se propõe fazer nos próximos quatro anos.
Alguém já ficou a saber o que pensam fazer de diferente os partidos que constituem a actual oposição? Não. A sua preocupação é apenas a de passar a ideia de que os males do país são os males do governo, como se Portugal fosse o único país com problemas, como se outros países europeus não tivessem maior desemprego, recessões mais prolongadas e verdadeiras hecatombes como está agora a acontecer com a Finlândia.
Atacar o PS é a receita desses partidos. Para eles, o PS nunca diz a verdade e é responsável pelas consequências da crise económica e financeira internacional e pelo desemprego que daí adveio para o país. Para eles, detentores da verdade, o PS é a semente do mal e até favorece os Açores quando deveria favorecer a Madeira de Alberto João Jardim. Chegam mesmo ao ponto de dizer, que nos Açores há uma asfixia democrática, baseando-se num relatório da Entidade Reguladora da Comunicação Social, que “conclui” que a governação socialista é beneficiada na televisão pública face à oposição.
Afinal, a verdade sobre aqueles que dizem dizer a verdade é que, ao invés do que eles dizem, Portugal é dos poucos na União Europeia que apresenta sinais de retoma económica. A verdade é que o PSD nada diz sobre medidas para acelerar a recuperação económica. A verdade é que eles querem dar mais à Madeira em prejuízo da justiça para com os Açores. A verdade é que Ferreira Leite contemporiza com os ataques e insultos feitos na Madeira aos jornalistas. A verdade é que o incrível trabalho da Entidade Reguladora, de que fala o PSD, chega ao ponto de contabilizar como “notícia do Governo dos Açores” aquelas notícias que são críticas da sua actuação.
O Partido Socialista por seu lado, há mais de dois meses que apresentou o seu programa eleitoral. As suas prioridades são claras e precisas. Assentam no reforço do investimento público para fazer crescer a nossa economia empresarial e o emprego, apostam nas energias renováveis para diminuir a nossa dívida externa e para preparar o país para o futuro, e focam com especial atenção as políticas sociais, para que quem caia no desemprego tenha uma ajuda preciosa do Estado para poder ultrapassar esse período difícil da sua vida. São centenas de medidas concretas. E, no caso das autonomias e dos Açores o PS assegura que continuará a ser o que foi: o partido que nos apoiou na União Europeia para termos mais fundos, na Lei de Finanças para termos mais apoio e na defesa da autonomia para termos mais competências.
As opções são muito claras para os portugueses. As verdades são fáceis de descortinar.

O Velho do Restelo
A política não se pode limitar ao diagnóstico nem se pode circunscrever à capitalização do descontentamento. Embora seja uma das mais simbólicas figuras literárias, imortalizada na obra maior de Luís de Camões, hoje o Velho do Restelo também anda por aí. Com os mesmos tiques de conservadorismo arcaico e os mesmos laivos de pessimismo. Para o Velho do Restelo, a situação do país é pior que a crise internacional. Parece que estamos condenados ao fracasso e que o país foi varrido por uma vaga de monções, ventos ciclónicos e pragas de gafanhotos.
O Velho do Restelo quase que sente um especial gosto quando se deleita a enunciar os “graves problemas do país” num tom solene e grave que, todavia, não esconde um prazer mórbido de quem, com contida humildade, se julga herdeiro político de um qualquer D. Sebastião. Os velhos do Restelo hoje não têm género nem idade. Tanto podem ser homens circunspectos e espadaúdos como senhoras de aspecto frágil e discurso pseudo moralista. Podem também ser jovens com discursos passadistas e saudosistas que lamentam não ter vivido num tempo que, embora desconheçam, insistem em exaltar. Para o Velho do Restelo, o futuro nada traz de esperança ou positivo. É apenas o aguardar de uma inevitável fatalidade. O futuro será sempre pior que o presente e o presente uma tímida e pálida imagem de um passado que, infelizmente, já não volta.
É verdade que os tempos hoje não são fáceis. É verdade que o mundo vive uma crise económica sem precedentes e cujos efeitos ainda não estão totalmente contabilizados. Há, por isso, duas formas de enfrentar a situação: aprender com os erros e aproveitar as oportunidades que as crises sempre oferecem ou conformar-nos com o triste fado e suspendermos tudo e mais alguma coisa até que a tempestade amaine. Os primeiros têm o ADN que levou Portugal a dar novos mundos ao mundo. Os segundos estão imortalizados na obra de Camões.
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo dina de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana!
Nos tempos que correm, os primeiros não abundam e os segundos andam por aí a encantar serpentes e a cantar loas a um tempo que já não volta. O Velho do Restelo tem como única e real esperança ser ouvido e, com um pouco de sorte, ser escolhido para liderar na última e derradeira batalha que, profeticamente, avisa estar já perdida antes mesmo de começar.