sexta-feira, julho 31, 2009

Autonomia

"A grande perdedora é a autonomia dos Açores, assim como o prestígio do Parlamento, mais uma vez ferido. Nomeadamente, alguns partidos que participaram no processo, mas que se apressaram agora a dizer que o derrotado era o PS"
Adelino Maltês, JN

quarta-feira, julho 29, 2009

Poema

"Os ombros suportam o mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espectáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, julho 27, 2009

Maré cheia



Há muito tempo que não posto um poema por aqui. Tenho-me esquecido de poesia. E não pode ser. Alguém me dizia que não se deve esquecer a poesia. Tentarei. Por hoje, fica o poema - Face a Face de Joaquim Pessoa e uma fotografia - Santo Amaro em perspectiva.

"Entendamo-nos: falar de ti e dos teus olhos de garça enevoados seria talvez tão vulgar como enumerar as coisas simples e nisso não há qualquer desafio.
Existe apenas uma razão íntima, como a de quem não gosta de se repetir ou de estar de costas voltadas para o mar, amando o imprevisto como um sinal de alarme.

Também, falar de mim, poderia tornar-se perigoso, se me virasse para dentro, habitando a minha memória e não a memória de todos os meus dias.
Fariseu único de um Templo de Escadas Rolantes, quando vejo mudar a água em sangue e arregaçar as mangas para transformar uma seara em pão não deixando ao diabo esse trabalho de mostrar que a realidade não é o que é mas sempre o outro lado da indiferença.

E bato as esquinas, levando a pederneira com que se acendem os poemas que alimentam as primeiras esperanças, atravessando nas passagens de peões com a precaução da caça perseguida e a preocupação de me dar desinventando mágoas, repartindo alegrias como quem escreve um tratado de amizade, num país de vidro, onde a dor está mais escondida que os ovos da codorniz no coração da erva."

quinta-feira, julho 23, 2009

müz´ka

A ler

Entrevista a Gonçalo M. Tavares aqui por sugestão do GM

Excerto:
"(...) O grande conflito entre a casa e a floresta é o conflito entre linhas direitas e as linhas tortas, imprevisíveis, os percursos completamente instáveis que a natureza produz. Mais do que um diálogo é uma luta. Vê-se essa luta quando se constrói uma casa, mas também quando se abandona uma. Vê-se que rapidamente a natureza quer ocupar o espaço, e as árvores começam a infiltrar-se. É claramente um combate, e a arquitectura é uma das frentes desse combate.(...)"

"À Janela do Mundo"

Faces

A última semana de plenário ficou marcada pelos episódios tecnológicos que serviram de tormento e espaço mediático para a oposição em plenário. Os pudores subiram-se-lhes como aspirina em copo de água morna e lá saltitaram os senhores Deputados António Marinho e Artur Lima para a ribalta dos supostamente ofendidos na sua integridade. Nos jornais, o assunto quase que se apagou, tirando uma ou outra reportagem sobre a relação sociedade civil/twitter, mas na blogoesfera açoriana continuou; como aliás já tinha começado, ao mesmo tempo que o episódio do twitter; como se referiu e bem o líder do Grupo Parlamentar do PS/Açores, quando se defendeu do ataque do líder do Grupo Parlamentar do PSD. Bem, mas razões à parte, porque, até, tal parece não importar muito, o curioso mesmo é que um debate no twitter ou até mesmo no facebook, é sempre muito mais frontal, porque identificado, do que um debate na blogoesfera, onde a páginas tantas somos confrontados por anónimos, que não assinam por 1001 razões, reservando-se ao direito de, quando confrontados com essa falta de coragem se esconderem atrás de cassetes tão antigas como: “eu sou pela liberdade de expressão!”, “viva a censura” ou, então: “ não posso falar. O meu patrão se descobre, despede-me” e outras coisas tão ou mais engraçadas, que nos trazem à memória outras histórias menos contundentes, mas tão ou mais hilariantes. Acontece, porém, que os Açores, mesmo grandes, mesmo dispersos geograficamente por 9 ilhas, 19 concelhos e 156 freguesias são uma terra pequena, onde factos e histórias de vida se entrecruzam como laços na vida real e na blogoesfera, pelo que a cobardia de uns, não sendo, apenas, praticada nas redes da internet, é reconhecida a olho nú, em cada esquina, como sintomático “modus vivendi”…Ora bem, isto tudo para dizer que prefiro o twitter e o facebook à blogoesfera, embora nesta última também esteja, com o meu nome, a postar, sempre e quando me apetece; num blogue que partilho com outros 4 cidadãos perfeitamente identificados e onde moderamos comentários: trocando por miúdos, significa que não nos importamos de dar a outra face, mas gostamos de saber a quem a damos. É como quase tudo na vida. Por hoje fico-me por aqui, sendo certo que a partir deste artigo estou de férias neste espaço. Conto voltar em Setembro. Até lá boas férias.

Como sempre: Francisco Vale César. Aqui e em qualquer outro espaço, onde me encontrem.


quarta-feira, julho 22, 2009

terça-feira, julho 21, 2009

Na casa do PSD

…apresentou-se a lista dos candidatos à Assembleia da República e, surpresa das surpresas, quem encabeça a lista é o mesmo de há mais de 30 anos... Os restantes candidatos estão na casa há alguns anos. Outros, mesmo estando fora da casa, vão na lista. Há ainda deles e delas “na casa dos 50”; “na casa dos 30” e “na casa dos 20”. Só não se percebeu muito bem, porque é que ficaram fora da casa outros moradores. Talvez não estivessem em casa à hora da chamada ou, então foram deixados, propositadamente, fora de casa. Tudo faz crer que na casa deles, anda grande rebuliço. Lá diz o ditado que “em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”.
Verdade ou não, o facto é que na casa do PSD também se disse que “a Região Autónoma dos Açores tem razões para se orgulhar do trabalho proveitoso dos deputados açorianos do PSD no parlamento nacional” – Tal afirmação deixou no ar dúvidas, que mereciam ser esclarecidas, embora na casa, ninguém tenha falado delas, no dia da apresentação da lista. Orgulhar-se do quê? Da Revisão do Estatuto Político Administrativo dos Açores, que contou com a abstenção do PSD? Da Revisão da Lei das Finanças das Regiões Autónomas, que, pela primeira vez, fez uma diferenciação positiva em relação aos Açores e que mereceu o voto contra do PSD? Da Lei Eleitoral para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, que o PSD também chumbou? De que é que na casa do PSD se acha que os açorianos se podem orgulhar? Do anúncio que o PSD já fez de que gostava de rever a lei das Finanças Regionais; do facto do PSD ter recorrido ao Tribunal Constitucional para impugnar normas do Estatuto Político Administrativo ou do facto do Presidente da República ter falado aos portugueses por causa destes açorianos maus, que iam dar cabo da unidade nacional?
Na casa do PSD também se acha que “ um futuro governo do PSD é bom para Portugal e melhor para os Açores”… Deve ser porque na casa do PSD já está arrumado o episódio, que levou Manuela Ferreira Leite a suspender a transferência de 20 milhões de euros para a reconstrução do parque habitacional do Faial e do Pico, por causa do sismo de 1998. É por estas e por outras, que cada vez se dá mais razão a um ex-morador da casa, quando em 2008, ele dizia que tinha o “coração dividido”. Talvez por isso tenha decidido abandoná-la em benefício do bowling. Na casa do PSD parece que ninguém deu por isso...e os que deram estão na casa sós e nem sempre presentes. Alguns dormem…outros é o que se vê…

domingo, julho 19, 2009

sábado, julho 18, 2009

Remédio D´alma

Em casa, na varanda, José Manuel dos Santos pintou uma prancha de mergulho. Mais dia menos dia, mergulha. Por enquanto anda a testar as asas que pintou nos ombros. Tem voado imenso. E nem o pai que está pintado na cadeira da cozinha acorda; já as tias de esferovite resmungam um pouco, quando há vento, enquanto a mãe está desde 1998, a dormir, em tons de verde, na parede da sala.
Adorava pintar a Dona Filomena, a Dona Marta e a Dona Manuela, mas quem lhe aparará a queda, quando saltar da varanda?
...

quinta-feira, julho 16, 2009

Agenda



Tenho pena, mas não poderei estar presente. Pedem-me que divulgue. Cá está...

"À Janela do Mundo"

Assim, o desinteresse é óbvio

Não é novidade nenhuma que as pessoas cada vez menos compreendem e apreciam a actividade política. A maioria não consegue perceber o que os políticos fazem, nem porque tomam determinadas atitudes sem sentido absolutamente nenhum. Se bem que acho que o exercício de cidadania no nosso país está muito longe do aceitável em qualquer outro país democrático, considero que a maior responsabilidade pelo descrédito da classe política está na própria classe política.

O exemplo do último plenário da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores foi, para mim, paradigmático. O clima de agressividade entre os diversos partidos, com assento parlamentar esteve ridiculamente exagerado; Em que a oposição procurou desesperadamente por um soundbite, que saísse em um minuto de telejornal, nem que para isso tivesse que recorrer, ao desrespeito pelas regras de funcionamento do plenário, ao insulto directo e pessoal e à mais hipócrita vitimização a que já assisti em dez anos de actividade política.

A certa altura, surgiu o caso “Twitter”. Dois Deputados insurgiram-se, mesmo muito indignados, pelo facto das suas posições durante o plenário terem sido comentadas, por outros Deputados, numa plataforma de comunicação com milhares de seguidores nos Açores. Dizia o líder do grupo parlamentar do PSD, António Marinho, que os Deputados estão “a ser pagos para discutir os assuntos cara a cara, e não para brincar” na internet, chegando ao ponto de afirmar “Dizer que o António Marinho insultou o líder do PS, é algo que se aceita aqui dentro, mas na Internet não admito que use o meu nome”.

Para além de a discussão me parecer profundamente ridícula, quando tivemos assuntos, esses sim, verdadeiramente interessantes para a vida das pessoas, como a questão dos navios ou do desemprego, julgo no mínimo estranho, estar preocupado com a internet quando temos Deputados que faltam a plenários inteiros para ficar a fazer campanha eleitoral autárquica em Angra do Heroísmo, por exemplo. Também acho estranho, que 35 anos depois do 25 de Abril e, na era da internet, ainda exista quem ache que a liberdade de expressão deve estar coarctada às quatro paredes do plenário.

Mas para mim, o pior que vejo na discussão do plenário sobre o “Twitter”é a total ausência de percepção de que esta plataforma tem proporcionado a possibilidade a centenas de jovens e menos jovens de se aproximarem da classe política, compreenderem as discussões e permitirem a nós, agentes políticos, percebermos, em tempo real, os efeitos e consequências das nossas atitudes. Faz-me lembrar a resistência do Parlamento inglês às primeiras transmissões televisivas por distraírem os Deputados do seu trabalho.

O caminho deve ser exactamente o contrário, abrirmo-nos mais e em mais plataformas aos nossos cidadãos. Afinal, é para isso que somos eleitos e que estamos cá.