José escrevia homens e mulheres sentados. Sentados e incomodados com a presença dos outros. Sentados e muito calados. Sentados e muito direitos. Sentados com as pernas muito direitas e muito sentadas nas cadeiras estofadas. Sentados com casacos pendurados e cachecóis nos pescoços e luvas nas mãos. Sentados com muito frio. Sentados e de braços muito levantados, como se fossem manifestar-se calados, de olhos fechados e punhos cerrados. José escrevia assim. Já João, não. João escrevia asas e sabores. Noites pequenas e grandes. Estrelas cadentes, almofadas brilhantes, bocados de mares, barcos, algas, saudades. João era escritor. José “escrevivia”. Ainda não descobrira porque é que gostava tanto de brincar com as palavras e de, por isso, virá-las e revirá-las em cima das folhas brancas ou com linhas. Não escrevia em quadriculado, nem em guardanapos de papel, mas aqueles blocos pretos, que João lhe oferecia, sempre que ia visitá-lo, eram uma maravilha. José gostava de ver passar gente nas linhas do que escrevia, de ver os cabelos loiros das senhoras, que entre uma vírgula e um ponto se erguiam. Gostava de pensar que os homens e as mulheres calados e sentados nas linhas do que ia ditando ao papel podiam um dia cruzar-se com ele num corredor da mercearia, na missa ao domingo ou na rua principal da freguesia, onde pessoas caladas e sentadas esperavam, todos os dias, pela chegada do autocarro. José preferia descobrir pessoas fora de casa. João vivia quase dentro dos livros, mergulhava dentro das páginas procurando descobrir nos parágrafos e nas linhas que os compunham mais palavras mágicas para inventar. José gostava de se perder nos hipermercados. João de adormecer na cadeira da livraria e sonhar com escritores e com diálogos. José gostava de escrever contos. João gostava muito de poesia. Nenhum tinha livros publicados. João, porque não tinha paciência. José, porque não tinha coragem. João sabia de cor as datas de nascimento dos seus poetas preferidos. José não sabia nada de cor, a não ser o som do apito do carro da fruta, que passava todos os dias à sua porta, para lhe deixar bananas e peras. José gostava de metáforas. João de analepses. José tinha palavras preferidas. João tinha palavras odiadas. José gostava de subida, descalça, Neptuno e oftalmologista. João odiava arrecadação, escadote, tronco e passadeira. João não conduzia. José andava de bicicleta. João usava gravata em algumas ocasiões, José nunca usava gravata ou sapatos abotinados. João dançava, José pulava. João ria muito. José sorria.Pode ser que João goste desta crónica de hoje; já José, não vai achar piada nenhuma, mas conto com o Joaquim para convencê-los; com Maria Armanda para distraí-los e com a Maria Filomena para me contar tudo. Maria Armanda gosta de peixe frito. Maria Filomena de sumo de laranja.
Já Joaquim, só entra nesta história, a meu favor.
"E um dia os homens descobrirão que esses discos voadores estavam apenas estudando as vidas dos insectos..." Mário Quintana
terça-feira, julho 07, 2009
João & José
segunda-feira, julho 06, 2009
A Utopia do possível
O "pequeno" estado português fica mais "pequenino".
E nós quando?!?!?!
"Da Minha Esquina"
Um contributo
Uma sociedade economicamente sustentável necessita de ter obrigatoriamente um Estado moderno, equilibrado financeiramente, que providencie uma rede social para os mais carenciados, que promova a igualdade de oportunidades, mas que ao mesmo tempo seja impulsionador estratégico de investimento público e privado. Por outro lado, não há desenvolvimento económico sem um tecido empresarial competitivo, que crie riqueza e emprego, com capacidade para crescer e se regenerar todos os dias.
Temos hoje milhares de jovens a terminar a sua formação, que em breve incorporarão a crescente população activa nos Açores. Estes jovens, na sua totalidade, terão dificuldades, em ser absorvidos pelo nosso mercado de trabalho por diversos motivos. Em primeiro lugar pelo facto do sector público estar a aumentar a sua produtividade e a instalar uma política de rigor ao nível do controle das suas despesas, pelo que a margem para a contratualização de novos quadros será muito reduzida. Em segundo lugar, devido à crise económica internacional, o tecido empresarial açoriano tem sentido algumas dificuldades que obrigam, também a uma reestruturação que implicará, certamente, uma contenção de custos e de contratação de novos postos de trabalho.
Uma das soluções preconizadas pela Juventude Socialista tem a ver com o desenvolvimento da capacidade empreendedora da nossa população e pelo reforço dos programas existentes de apoio ao empreendedorismo. De forma a que os jovens criem o seu próprio emprego ou façam uma pequena empresa com sucesso.
As escolas devem ter neste campo um papel fundamental. A criação de uma cultura de aproveitamento de ideias novas e de saber lidar com risco devem ser incutidas nos adolescentes e crianças, para que as próximas gerações tenham melhores instrumentos para enfrentar a vida activa.
Ao nível dos instrumentos já existentes, como o Gabinete do Empreendedor e o Programa Empreende Jovem, para além do mérito e qualidade dos mesmos, penso que devem ser feitos pequenos ajustamentos para os adequar à actual conjuntura. Ao nível do Gabinete do Empreendedor deve ser feito o reforço da sua acção de promoção do empreendedorismo, nomeadamente, junto das escolas, escolas profissionais, base de dados de estudantes açorianos do universitário e politécnico, associações juvenis e câmaras de comércio. Deve ser criado também a figura do Gestor de Processo, cuja função é ser um desburocratizador e facilitador de todos os processos que estão inerentes à criação de uma empresa, desde a ideia inicial até ao negócio.
No programa Empreende Jovem, na minha opinião, devem continuar a ser feitos todos os esforços para desburocratizar e agilizar os processos de candidatura, sendo que devemos, por um lado, abrir os critérios de candidatura a jovens com outro tipo de qualificações que não sejam exclusivamente a formação profissional ou formação superior. Por outro lado, penso que devemos reflectir, se não devemos alargar o âmbito dos projectos apoiados, para mais áreas que se coadunem com a maioria da formação dos nossos jovens.
Numa altura de uma tão forte crise internacional não basta falar de desemprego para que ele desapareça. É preciso falar a verdade e ser sério nas propostas que fazemos. Não se pode pedir baixas de impostos e pedir que o Governo adjudique mais obras, seria intelectualmente desonesto. É preciso sim, imaginação e coragem. Foi isso que o PS e a JS teve e fez. Fica aqui o meu contributo.
domingo, julho 05, 2009
"Eva"
- Pense no seguinte: a serpente foi engenhosa, porque usou o mesmo órgão pelo qual falamos, a boca, para nos separar da criatividade. Encheu-nos a boca com o fruto da árvore do conhecimento. Só depois descobrimos que falar, isto é, dar vida aos seres dirigindo-lhes respeitosamente a palavra, com a boca cheia, é uma impossibilidade prática... antes de ser feio e pouco asseado. ela quis fazer-nos acreditar que conhecer é mais importante que conversar... E nós acreditámos."
sábado, julho 04, 2009
sexta-feira, julho 03, 2009
Cobarde

Se numa rua virem um tipo destes - não se admirem - talvez seja ele. Tirem-lhe um retrato e publiquem no jornal. Ele vai adorar.
quinta-feira, julho 02, 2009
Prémio

"O selo deste prémio foi criado a pensar nos blogues que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos seus leitores”.
O Ardemares foi premiado - nesta espécie de corrente - pelos blogues In@rq e In concreto. Agradecendo a distinção e desde já retribuindo-a a ambos, atribuo o selo aos seguintes blogues:
APELOEH
Mataram a Tuna
Activismo de Sofá
Photoblog Filipe Franco
Bicho Carpinteiro
Margens de Erro
Repórter-X
O Francisco, o HGalante, a SRosa e o TóZé que façam as suas escolhas...Estes são os meus galardoados.
"À Janela do Mundo"
A lição de Madoff
Em altura de crise internacional os escândalos financeiros sucedem-se. Empresas como AIG, Madoff Investment Securities LLC e Lehman Brothers e empresários como Allen Stanford foram responsáveis por buracos de vários biliões de dólares americanos, que afectaram gravemente a economia americana. Em Portugal, os escândalos financeiros relacionados com bancos como o BCP, BPN e BPP, são de dimensão menor, mas nem por isso deixam de ser menos preocupantes. Na opinião de qualquer instituição de referência portuguesa, nenhum dos escândalos financeiros verificados em Portugal afecta directamente a nossa economia, contudo penso, que criam uma percepção de insegurança face à credibilidade e solidez do nosso sistema bancário por duas ordens de razão:
A primeira, prende-se com o facto dos buracos financeiros encontrados nestes 3 bancos, terem sido denunciados muito tardiamente pelas suas novas administrações, sem que o supervisor do sistema bancário, o Banco de Portugal, tivesse tido, em algum momento, a real percepção do problema. Isto leva-me a pensar, que não fosse, o tradicional perfil conservador da nossa banca, provavelmente, hoje, não teríamos a garantia do supervisor de que não poderíamos ter outros problemas na banca e que, esses sim, apresentassem um risco sistémico para o sistema financeiro português.
A segunda, tem a ver com a forma como as autoridades judiciárias lidam com as fraudes e burlas no nosso sistema financeiro. A percepção que os cidadãos têm, em relação à justiça em Portugal, é que um administrador de um banco pode ter gestão danosa, cometer fraudes, esconder prejuízos de milhões em paraísos fiscais e ainda receber bónus chorudos e manter regalias no valor de milhões de euros, sem que as autoridades consigam agir em tempo útil. Na minha opinião, o pior é que esta percepção está muito perto da realidade. Não é possível que uma comissão de inquérito da Assembleia da Republica (AR), com as limitações de poderes e de tempo que tem, consiga investigar, ouvir testemunhas e arguidos e tirar conclusões sobre o caso BPN, de uma forma mais rápida do que toda uma equipa da Polícia Judiciaria e do Ministério Público que trabalham no caso a tempo inteiro.
O exemplo da condenação de Madoff a 150 anos de cadeia, em apenas 11 meses de julgamento, mostra como funciona a justiça americana. Nos Estados Unidos, a corrupção e a fraude são crimes graves que devem ser julgados severamente e em tempo útil. Por uma questão de simples justiça é certo, mas também porque o funcionamento de uma economia avançada, moderna e credível não se compadece com um sistema judicial lento e pouco eficaz.
quarta-feira, julho 01, 2009
José Manuel de mais ninguém
Sempre soubera que o papel era dos Santos e que, por si, era só José Manuel. Desenhou um avião. Entrou no avião. Passaporte: José Manuel de Mais Ninguém.
- O Senhor não tem apelido, perguntou a hospedeira desenhada?
- de Mais Ninguém.
- Está bem, respondeu a hospedeira desenhada.
E o avião descolou...
...Quando a 1 de Abril dissera o mesmo na Frutaria ao Sr. Luís João Correia, o dono, este semi-cerrou os olhos, deu dois saltinhos à frente, dois atrás e gritou para a D. Maria Arlete Martins: está doido! E ela respondeu: varrido.
Foi por isso que José Manuel dos Santos os apagou desta história, um por um, varreu os restos, e desenhou um avião na parede. Dos Santos. Promessa.
Uma pisquinha de ode...
