
"E um dia os homens descobrirão que esses discos voadores estavam apenas estudando as vidas dos insectos..." Mário Quintana
O Desafio Europeu
Atravessamos tempos de crise inimagináveis há apenas um ano. O país vai crescer -3,5% (a Irlanda vai ter um crescimento negativo de -8%), o desemprego caminha para os 9%, as exportações caem 14,2%, o investimento -14,4% e o consumo decresce 0,9%, apesar do rendimento disponível das famílias aumentar em 2009 cerca de 2%.
Quando atingimos estes números percebemos que o problema da nossa economia não pode ser resolvido apenas com instrumentos macroeconómicos internos. A solução para a crise económica passa, quase em exclusivo, por políticas comuns dentro da União Europeia, de combate à crise.
As eleições europeias de Junho poderão ser um excelente contributo para discutirmos o relançamento da economia, a prevenção de novas crises, uma nova política agrícola comum e de pescas e a dependência energética da UE. É, aliás, uma oportunidade única de pressão legítima dos cidadãos europeus sobre as instituições para acelerar a luta contra a recessão económica, que surge na melhor altura.
O PS teve a noção deste desafio ao escolher um cabeça de lista, Vital Moreira, que não está ligado directamente ao partido e que até, algumas vezes, tem discordado com as suas posições, mas que está preparado para apresentar um projecto europeu aos portugueses. Infelizmente, nem o PSD nem o CDS/PP conseguiram sair da “política do rectângulo”, preocupando-se mais com a sua estabilidade interna e com as eleições legislativas em Outubro.
Conseguiram a muito custo, após meses de indecisão e de guerra interna, apresentar Paulo Rangel, líder parlamentar do PSD, e o deputado do CDS, Nuno Melo, como cabeças de lista. São soluções sem “rasgo político”, a preto e branco, como o cartaz do PSD, que não trazem nada de novo.
Por cá, por um lado, fico triste por perder um dos meus mais brilhantes colegas, Luís Paulo Alves, especialista em agricultura e economia, por outro lado, fico orgulhoso da representação socialista dos Açores no Parlamento Europeu continuar a ter uma excelente qualidade.
Talvez fruto da falta de importância que alguns partidos dão as eleições europeias, a última previsão do Eurobarómetro indica que só um terço dos eleitores tenciona votar. Os Açorianos podem dar o exemplo contrário, indo em massa às urnas, transmitindo à oposição, ao país e à União Europeia que não fazem parte do problema que vivemos, mas sim que estão disponíveis para, conjuntamente, discutir e participar na procura de alternativas e soluções para o momento que atravessamos.
Política do Foguete
Sempre aceitei que os intervenientes no poder executivo tentem apresentar obra pouco antes das eleições. Acho normal e legitimo que num projecto a quatro anos haja obra para inaugurar ou apresentar aos cidadãos. Se o Governo inaugurar uma via rápida antes das eleições ou até a Câmara Municipal de Ponta Delgada fizer o mesmo relativamente a uma avenida litoral considero ser normal, em democracia, não devendo, por isso, ser alvo de críticas. Censuro, porém, quando se começa a entrar no exagero. É que, essa “tentação” é tão ridícula, quanto espalhafatosa e tendencialmente resultante de puro e simples afã mediático que, tal como sabemos, é maleita de “políticas do foguete”. Exemplificando: quando vejo a Presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada fazer uma cerimónia, com pompa e circunstância, pela oferta de três casas de habitação social, apenas para fazer um número na comunicação social, imagino que se o Governo dos Açores tivesse feito o mesmo relativamente às quinze mil famílias, que apoiou, teria tido que entregar, em 12 anos de mandato, cerca de quatro casas e meia por dia. O que, convenhamos, não só seria humanamente impossível, como eticamente reprovável.
Quando temos obras, como a da avenida Cecília Meireles ou da radial do Pico de Funcho (zona do Mata Mulheres), hoje praticamente intransitáveis e perigosas para o transito devido à ausência de sinalização, que se arrastam morosamente, apenas para serem inauguradas antes das eleições. Quando se inaugura o parque de estacionamento do Largo de São João um ano depois da sua entrada em funcionamento. E quando, tendo o centro da cidade de Ponta Delgada, a morrer, vazio a partir das 19 horas, se faz a requalificação da rua dos Mercadores, com um excelente trabalho dos calceteiros (concordo), mas sem saber à partida, como vai funcionar o trânsito. Decidindo apenas a posteriori, criar um traçado urbano, nessa rua, de gincana automobilística no meio de peões, sem consultar os comerciantes que lá trabalham.
Chegamos a um ponto, em que não conseguimos, por muito que se queira, arranjar desculpas para tais trapalhadas.
Está visto! Por “mãos à obra” é em Ponta Delgada - fazer tudo muito depressa, com muito holofote e flash. Planificação? Modelo de desenvolvimento? O que é Isso?