segunda-feira, novembro 10, 2008

Sandes Urbana *


Estou na paragem da camioneta. Não espero que passe. Estou para aqui. Apetece-me estar para aqui. Estou com as caras das pessoas que passam dentro dos seus carros e dizem com os olhos: coitada...ainda não reparou que tem a braguilha aberta ou que simplesmente se riem com a cara pregada ao vidro. Mas não me importo. Estou como quero estar. Sozinha. Pisco os olhos e pouco mais. Respiro. Vem aí uma senhora. Tem o cabelo empastado e um pouco amarelo. A saia vem quase debaixo dos braços, por cima da barriga que cresceu com a idade e por baixo do peito que caiu com os sete ou oito filhos que amamentou. Não está vestida de preto. Talvez ainda não seja viúva. Acho que vem sentar-se ao meu lado. Não quero. Ainda lhe faltam uns bons cem ou cento e cinquenta passos e mais umas quantas pedras de calçada para aqui chegar. Hesito. Levanto-me ou deixo-me ficar aqui sentada? Vou ficar. Traz três sacos de plástico nas mãos. Tem um casaco de malha castanho escuro. As meias caem-lhe nas pernas pintadas com varizes. Espero que não cheire mal. Parece-me que já não se deve lavar há dias. Boa tarde. O banco subiu um pouco com o seu sentar de rompante. Tenho agora as pontas dos pés no chão e os calcanhares no ar. É forte. Deve comer bem. Estou um pouco tensa. Acho que ela já viu que tenho a braguilha aberta. A menina desculpe. Não quero parecer intrometida. Mas... e mostra-me os um, dois, três, quatro, cinco dentes que tem enquanto olha para as minhas calças. Consegui contá-los todos. São poucos e ela abriu a boca de riso tanto tempo que até posso adivinhar o que almoçou hoje. Pronto. Já a fechei. Obrigada. Nada menina. Está frio hoje. Parece que o inverno chegou mais cedo este ano. Pois é. A menina não tem frio? Não, estou bem. Ah, a menina é nova ainda. Quando chegar à minha idade vai ver. Pois. É verdade querida. Pois. A gente quando fica velhos é assim. Pois. Ah menina, que horas são? Não tenho relógio, desculpe. Ah querida, será que a camioneta já passou? E agora? Que respondo? Não faço a mínima ideia. Não vim para aqui esperar pela camioneta. Vim porque quis vir. Não sei. A senhora riu-se mas sem rugas. Não fez grande espanto pela minha resposta. Ainda bem. Estamos as duas caladas. Eu e ela e a rua em que estamos. Já não passa ninguém há bastante tempo. A menina tem fome? E inclina o seu corpanzil para os sacos que trouxe consigo. Tenho. De lá sai uma sandes de qualquer coisa embrulhada num guardanapo. Come querida. Obrigada. É de frango. A dela é de atum. Comemos. Vejo que tem alguma dificuldade em morder o pão. Coitada. É bom estar aqui com a menina. Continuo a mastigar. Venho aqui todos os dias esperar pela camioneta e janto sempre sozinha. E a menina? Eu também janto sempre sozinha. Ela não me falou de si. Mas eu também não lhe quero falar de mim. Vou agradecer-lhe. Devo-lhe um obrigada. Pela companhia e pelo jantar. E pelo alerta para a minha braguilha aberta. Eu é que agradeço. Calcanhares para o chão. Ela vai-se embora. Boa noite e até qualquer dia menina. Boa noite. Vira-me costas e segue. Para onde? E a camioneta? Não ficou nada. Só o banco quente do tempo que esteve aqui sentada ao meu lado. Esteve, não esteve? Eu também não estou à espera da camioneta. Estou à espera que toque o despertador. Vem aí mais uma parcela da vida, quase pronta para se subtrair ao total e somar às últimas contas feitas. Acordo com azia. Foi da sandes de frango, só pode. Bom dia.


* Júlia Matos

domingo, novembro 09, 2008

Post que era para ser mais a sério

Este post era para ter um título e um texto, mas não me apetece. É Domingo. Talvez, seja por isso.
Deixo esta música, que foi a preferida do meu sobrinho.
Fica o seu 1º post. E Bom Domingo.

N´agenda

sexta-feira, novembro 07, 2008

Müz´ka



Este post lembrou-me esta música, que por aqui escrevo: müz´ka.
Bem lembrado.

quinta-feira, novembro 06, 2008

El contorcionista

A 11 de Junho, Mota Amaral, em plena Assembleia da República, durante a declaração de voto do seu Grupo Parlamentar disse: “(…) A Assembleia da República aceita agora as grandes linhas da proposta unânime do Parlamento Açoreano, reconhecendo legítimos o seu rasgo e ousadia, nomeadamente quanto à afirmação do poder legislativo regional. (…) um diploma inovador, que bem merece e recebe o nosso aplauso, havemos de falar de novo, quando o PSD recuperar a maioria, cá e lá!”.
A 5 de Setembro Mota Amaral em declarações ao jornal Açoriano Oriental, a conversa já é outra: "a Assembleia da República deve expurgar as normas consideradas inconstitucionais no novo Estatuto Político-Administrativo dos Açores, mas manter as que suscitaram reservas de "opinião" ao Presidente da República."
A 25 de Setembro: "O deputado do PSD Mota Amaral defende que a nova versão do Estatuto Político-Administrativo dos Açores, aprovada pelo Parlamento, tem uma norma inconstitucional sobre a dissolução da assembleia legislativa.
Em declarações aos jornalistas no Parlamento, Mota Amaral acrescentou que está convencido de que a norma "vai cair". Nesse mesmo dia, "à saída do debate, Mota Amaral desmentiu o PS dizendo que subscreve a posição transmitida pelo líder parlamentar do PSD, Paulo Rangel." - a fiscalização sucessiva da constitucionalidade do diploma. Um mês depois já não era bem assim: A 28 de Outubro: " Mota Amaral não compreende a necessidade de recorrer ao Tribunal Constitucional, como o PSD pretende, mas salienta que Cavaco tomou a decisão certa ao vetar o Estatuto Político-Administrativo dos Açores.
Hoje, depois das eleições regionais, mês de Novembro, sexto dia. Depois do PSD "de lá" ( que para Mota Amaral é o "de cá" não ter conseguido a maioria que então, em Junho, desejou recuperar), as palavras foram estas: "Apelo ao PS para que acabe com este braço-de-ferro que vem fazendo com o Presidente da República sobre esta matéria delicada que são os poderes presidenciais"...Não sei muito bem onde quer chegar Mota Amaral, deputado do PSD/Açores, na AR. Também não sei se pensa que o seu PSD "de cá" (que para ele é o "de lá") ganha seja o que for com isso. Anyway, malhas que o império tece. O império ou os santos. Sejam de quem forem, sejam pelo que forem, sejam quem ou o que forem...

Não me parece que Ferreira Leite lhe telefone.

Parabéns!

glitters



Ao Blog :Ilhas pelos 5 anos de blogagem.

Palavrinhas VI

mauzuras e malinezas

quarta-feira, novembro 05, 2008

segunda-feira, novembro 03, 2008

Não me interessa se é a vez do “calcinhas”

O Liberalismo está desarido para que aconteça amanhã, dia 3 de Novembro deste ano de 2008, uma vitória descarada do Senador Obama. Desaridos para poderem cantar aos quatro ventos Glorias ao Santo Capitalismo que cria e permite semelhante milagre que é o de um “Boy” negro chegar à presidência do grande templo do Dollar.
Sim, o capitalismo selvagem, canibal, é a causa cujo o efeito é um rapazinho ambicioso, com um currículo de um par de anitos de trabalho cívico, um par de anitos de advocacia e par de anitos de parlamentar, de tão bem saber ler o guião, atravessar o arco do triunfo construído com quase um bilião de dollars gastos na campanha. Aleluia!!!
Este menino marionete, para quem foi escrita a peça “Do Gueto à Casa Branca” não tem nada de gueto. Este menino-actor não é filho de pai desconhecido, de passado desconhecido, este senhor é descendente de um africano, do Quénia, filho de uma aldeia ancestral, estudante universitário, nos Estados Unidos, no Hawai. Este menino só conhece o gueto quando percebe e o escolhe como o ambiente que o fará rei do seu mundo e não do mundo do gueto. Este menino é a propagação do “american dream” que nos foi, e é, vendido na procura incessante de lucro fácil e imperialista. Este menino é a Salvação e a continuação daquilo que nos mata e destrói como civilização com mais de 2000 anos.
Basta! Não me interessa se é a vez do “calcinhas” ou das saiazinhas. Não se iludam ó neo-“fariseus” do capitalismo liberal, é tudo “too little too late”…

domingo, novembro 02, 2008

Say what?!

«Sempre fui muito amiga do professor Cavaco Silva e da família, entrava na casa dele sem precisar de ser convidada. Ele foi durante dez anos primeiro-ministro e ele e a família sabem que durante esses dez anos eu só lhes telefonava três vezes por ano, nos anos de cada um e no Natal, e que nunca fui lá a casa sem ser convidada», contou Manuela Ferreira Leite em entrevista ao DN/TSF.
...
Hoje sou uma cidadã muito mais feliz. Fiquei a saber que Manuela Ferreira Leite só telefonou para casa de Cavaco Silva três vezes por ano, durante 10 anos. Só não percebi se para ir a casa dele era convidada ou não era convidada. Se antes não precisava de convite, mas agora precisa. Está um pouco confusa (também) essa parte.
Anyway,talvez fosse bom Manuela Ferreira Leite telefonar a Mota Amaral, porque se, na mesma entrevista, Ferreira Leite confirmou que: "(...)o PSD enviará o Estatuto dos Açores para o Tribunal Constitucional, para fiscalização sucessiva da constitucionalidade, se o PS mantiver a actual redacção do artigo 114º, relativo às obrigações do Presidente da República em caso de dissolução da Assembleia Legislativa."
Mota Amaral disse, cinco dias antes: "o estatuto deve ser delineado pelo Parlamento e não deve chegar ao Tribunal Constitucional, como o líder parlamentar do PSD disse que pretende fazer".
...Se calhar Ferreira Leite não vai telefonar. Falta um mês para o Natal e Mota Amaral já fez anos em Abril!...

quinta-feira, outubro 30, 2008

XIII

"Anda, vou-te mostrar a terra

dos teus pais, avós, antepassados

tão antigos que os podes escolher.

Este aqui é noé, de barba por fazer;

meteu na arca puro e impuro, bem e mal,

inventou o vinho, homem melhor

da sua geração ( não é grande elogio ),

teve filhos, netos, é de crer que morreu.

Estoutro, não sei bem, era pirata na malásia.

Vês as colinas? São tuas, quando

as olhas a direito. Realmente tuas,

parte de um mundo teu.

Sim, isso são filosofias,

tens razão. ( E tem graça ao ter razão ).

Anda daí, vou mostrar-te o colete de forças

onde era costume, sabes, tratar casos assim."


De pormenor

Não há estrelas recicláveis. Só cadentes.

quarta-feira, outubro 29, 2008

Livrim



"(...)(pode ser que as cegonhas nasçam do vento, atarracha-se-lhes um bico de madeira e transformam-se em pássaros)(...)" - António Lobo Antunes, o próprio e não o nobel, na página 164 de um livro que tem um bom título - O Arquipélago da Insónia - que me lembra, à primeira vista, Explicação dos Pássaros), que tem 263 páginas e que comprei Domingo na Bertrand, em Ponta Delgada...