
"Vida intensa e breve, pensou a lebre, correndo sobre as ervas do mundo."
José Agostinho Baptista
"E um dia os homens descobrirão que esses discos voadores estavam apenas estudando as vidas dos insectos..." Mário Quintana
A mania de tirar nabos da púcara várias vezes ao dia, a pretexto de tudo, mesmo sem fome, levou Jacinto ao hospital, depois de passar um mês a comer nabos sem parar. Depois da alta hospitalar, voltou a casa e deu-lhe para as uvas. Mas, desta feita, não teve grande sorte. Jacinto sempre ouvira dizer que se atiram verdes para colher maduras. Da latada da sua casa apanhou todas as uvas verdes. Atirou-as fora. Ficou sem nenhuma. Não colheu maduras.
"da relação entre língua e alma
(obviamente colectiva a última)
há tratados tratantes até ao vómito
se tudo fosse como ficou dito
( a blasfémia científica será menor que a outra)
então eu acataria plácido o meu inferno
a minha alma ( egoísmo) não é a língua portuguesa
( embora em português me exprima e desespere)
mas uma amálgama de nativos erros
por comparação com padrão que todo lo manda
(excepto obviamente a transgressão que sou)
erros saborosos que infeliz - dificilmente ressuscitarei
assim ementes pródigos de pegados
ingeirados à bocanha dos jarões
como naseiquedigas e maroiços basta
(lá se foi o relâmpago isolado
onde fulgiu a ilha e logo o escuro
portuguêsmente me devolve à alma usual)
ah lembro-me de me proibirem o verbo abaniar
tão expressivo dizer atirar para algures
o impróprio objecto isso é menos ua alma
et puis un jour j´ai lu l´histoire
de la Chèvre de Monsieur Seguin
et puis le matin le loup la mangea
agora ando a ler só notas de rodapé
que em português-inglês já são de pé de página
onde muito apreendo da corrupção anímica
onde se explica que morrer frizado é enregelar de vez
e que o sinó é filho factual do tempero açoriano
onde neve não há nem frizas que se prezem
nem comida encanada, nem draivas de bâses
nem bossas de camelos nem de outros
nem lá os talafones servem para chamar alguém
chamo a isto uma breve amostragem
da alma ( se ela é língua)às postas
é pouco rentável no mercado do saber"
Colecção Livros sem letras. Incentivo à Escrita.José Manuel dos Santos via passar todos os dias as mesmas pessoas.
Um dia, cansou-se. Fechou a janela. E saiu para a rua.
Dona Lúcia, a vizinha do terceiro andar, tão expedita, como coscuvilheira, correu a avisá-lo do frio das noites e do calor das manhãs. José Manuel dos Santos não quis saber. Passeou, passeou, e, não só não voltou à janela, como mudou de casa. Já não podia aturar a Dona Lúcia do terceiro andar, que tão expedita, como coscuvilheira, contava todos os dias às vizinhas dos outros dez andares, que havia um louco, a morar na cave, que tinha uma janela pintada na parede da sala de jantar.
Hoje, José Manuel dos Santos, vive num rés-do-chão. A Dona Lúcia não sabe, mas a Dona Filomena já descobriu que ele tem um jardim pintado na parede da sala.
José Manuel dos Santos rega todos os dias a mesma flor.
Um dia há-de cansar-se e sair para a rua e passear até deixar o jardim, porque a Dona Filomena também, tão expedita, como coscuvilheira, há-de contar a todas as vizinhas que há um louco no rés-do-chão que tem um jardim pintado na parede da sala.
José Manuel dos Santos há-de mudar-se para um primeiro andar e na parede da sala há-de pintar o seu retrato à janela. Até chegar uma Dona Marta que o denuncie...