Leu-a em voz alta.
Depois voltou a fechá-la no envelope.
"E um dia os homens descobrirão que esses discos voadores estavam apenas estudando as vidas dos insectos..." Mário Quintana
quarta-feira, maio 14, 2008
terça-feira, maio 13, 2008
Croniqueta XLIV ou o Fífia não queria participar na Festa

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Na procissão queria ir de vermelho, com uma pomba pendurada ao pescoço e uma coroa luminosa na cabeça, mas a mãe e as tias acharam melhor não. Então, pensou ir na filarmónica, a tocar um instrumento, tipo pratos, mas depois de 2 minutos de ensaio, já lhe doíam os pulsos. Tentaram que ele levasse o estandarte, mas não aguentou o peso. Então ofereceu-se para servir às mesas das sopas do Domingo, mas enquanto ensaiava com os colegas a maneira de pegar nas terrinas, partiu quatro, que eram do património da casa do povo. No coro da igreja correu o risco de ser expulso, quando um dos seus “alva pomba” mais estridentes ia partindo os vidros da porta principal; ajudar na missa era um papel demasiado pequeno para um Fífia como ele; escuteiro também não podia ser, porque não tinha calções, nem fazenda para as tias e a mãe lhos fazerem. Estava triste, não havia maneira de descobrir uma forma de participar na festa; uma só que não fosse muito exigente, que não o obrigasse a vestir uma farda ou a andar de roda da freguesia, carregando açafates com bolos para distribuir às pessoas e depois ter que sorrir ou ter que dizer boa tarde e elas no retorno: olá como estás e essas coisas sempre chatas, com que um Fífia como ele não devia desperdiçar tempo. Os primos convidaram-no para distribuir pensões, mas não quis; ter que saltar para uma caixa de uma carrinha, aqueles foguetes todos a rebentar, de repente sujar as mãos com sangue de carne de vaca e mais miolos de pão de massa sovada e depois levar a bandeira para o menina beijar e tornar a ter que sorrir e acenar e as pessoas paradas nas ruas a ver passar, uma chatice a que um Fífia não tem que se submeter. Então pensou, pensou e lembrou-se que se podia oferecer para ir mexer o arroz naquelas panelas grandes e por a canela nos pratos, mas também acabou por não ir, porque se enganou nos testes, que as tias entenderam fazer em casa para treiná-lo e no lugar de canela, pôs pimenta moída e a mãe esteve, dois dias, sem se levantar da cama, com dores de barriga. Estava visto: na cozinha nem pensar ou partia as coisas ou fazia asneira. Na igreja nenhum dos serviços lhe servia. Na procissão não. Demasiado comum para um Fífia. Tentou a quermesse, mas não era bom a enrolar as rifas, os papéis saltavam-lhe dos dedos e rasgavam-se. Tentou aprender a arrematar, mas não tinha voz suficientemente colocada para isso; folião não conseguia aprender o ritmo; para integrar o rancho folclórico também não tinha jeito. Acabou por desistir. Triste, deambulando pela casa de vela na mão, o Fífia confessou às tias e à mãe, que apesar de todas as tentativas sérias e arriscadas das últimas semanas para participar na festa, o que ele queria mesmo, era que ficasse entre a população essa ideia, porque ele, por si, não queria participar nas Festas da freguesia. O que queria mesmo era que se soubesse que ele queria participar. Ser tido como participante! Isso para um Fífia como ele dava bastante. No Domingo do Espírito Santo, o Fífia não saiu de casa. E, quando os vizinhos perguntavam por ele, as tias e a mãe diziam, que estava deitado e doente por não ter conseguido participar em nada, que, talvez no 10 de Junho, já pudesse participar e elas lhe arranjassem um palanque no meio de praça para ele discursar.
segunda-feira, maio 12, 2008
As ilhas são de guardar como os segredos
As ilhas sabem a mar
E encostam no cais dos teus olhos
Como se te chamassem, como se te fotografassem.
As ilhas são uma frota de barcos pretos
E
São de guardar como os segredos.
Nunca digas quantas sabes;
Nunca digas a que sabem
As ilhas,
Porque
Elas sabem do sal e do ondular das asas
Das aves que, poisadas à proa
Indicam o norte dos teus passos.
As ilhas são de conter;
Chão, Mão, Braço; por vezes Ombro.
As Ilhas embrulhadas em sargaço
São de água e sal.
E há penas por escrever nas asas das gaivotas,
Poemas por dizer nas suas penas;
Palavras por falar que lhes caiem dos bicos
E enchem cestos nas vindimas.
Das ilhas que não te posso contar porque são segredo,
Arma, Espaço, Lágrima,
Voo, Nó, Gente, Rima, Linha,
Marinheiro e Pescador, a distinção que precisa
A diferença entre os dois.
As ilhas, dizias, são de guardar como os segredos,
De decorar sem adornos, saber uma a uma,
De escalar sem tirar bocados,
De saudar como a chegada dos Netos.
As Ilhas são de guardar como os segredos;
Escrevem-se com I maiúsculo
E tomam a forma que quiseres.
São instantâneas. Cozinham-se contigo e comigo,
Sal, Água e Laços
Da Gente.
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Dia dos Açores
sábado, maio 10, 2008
"Dia de Barco com Música na Cidade"
Hei-de estar cá para ver se esta iniciativa promovida pela Câmara Municipal de Ponta Delgada que, durante o mês de Maio, vai animar a cidade de cada vez que atracar um barco de cruzeiros. Será que depois de estarem prontas as obras das Portas do Mar a animação vai continuar?
É que pode ser que se dê o caso de, à semelhança de outras vezes, a conclusão daquela obra, que não é da Câmara, dar lugar a dias de obras na cidade, já com outras músicas, venha barco ou não venha barco. Para já, a iniciativa em minha opinião é boa. E, só peca, por tardia.
Vamos a ver.
sexta-feira, maio 09, 2008
segunda-feira, maio 05, 2008
sábado, maio 03, 2008
quinta-feira, maio 01, 2008
segunda-feira, abril 28, 2008
Galhofa...

Com tanto putativo candidato e candidata, o cão azul lançou esta T-Shirt. Há em imensas cores para Homem, Mulher e também para Criança. Mais vale prevenir do que remediar, diz o ditado. Se houver alguém no PSD que não queira ser candidato, o melhor é mandar vir já uma T-Shirt destas.
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eu também não
sábado, abril 26, 2008
sexta-feira, abril 25, 2008
quinta-feira, abril 24, 2008
Linha de água
Muitas saudades tuas. Dos teus sapatos pretos furados à frente por ti mesmo com pontas de cigarros. Do teu andar lento e teimoso, de te ver a fingir que dormias, quando nos íamos embora para não te obrigares a ter que dizer até para o ano. Tenho tantas saudades tuas, que até escrever esta pequena crónica para o jornal, que me tem acolhido, para este momento de escrita, que é delicioso, me faz quase ver-te passear por detrás da estante dos livros, onde guardo algumas fotografias, em que estamos todos juntos, “em nossa casa”. Usavas esta expressão, muitas vezes, para te referires a nós todos, aos onze, a quem chamavas: a minha equipa do Benfica. E que bem jogávamos nós, desajeitados, caindo e levantando, com birras e manias misturadas nas coisas muito simples que nos ensinavas; coisas, que só podiam ser ensinadas por um avô. Um dia, disseste-me que parecíamos barcos, remando para chegar a um porto. Onze portos diferentes e eu ri-me da metáfora de barcos e da lembrança de todas as vezes serem esses os sintomáticos substantivos que sempre usaste para falar. Agora, dou por mim a escrever exactamente com os mesmos substantivos sintomáticos, os dos sintomas da alma, os dos sintomas da falta de roda de leme ou de vela para seguir viagem.
Tenho saudades tuas, do teu cabelo branco curto, das tuas mãos castanhas escuras, que me pareciam ser mágicas, da tua atitude de homem vencedor, do teu sorriso de índio, do teu carro branco, que dizias que era mais rápido do que a Espalamaca, de ver contigo os jogos do Benfica e desancar no árbitro, de te ligar, apenas, para te ouvir rir e não dizer coisa nenhuma, que fizesse sentido algum para mim, para ti ou para qualquer um dos habitantes da nossa casa. Aprendi coisas muito simples contigo. Nada de matemática nem sequer de português. Nunca falamos de poesia, nem de literatura; nunca discutimos sobre nada em particular, mas discutimos tudo, em geral, sem correr o risco da generalidade. Aprendi que os limites são os da linha de água e que os barcos sorriem quando chegam ao mar. Fazes-me muita falta. E, no fundo, era isto que eu queria hoje transmitir. Talvez o que escrevi encontre tranquilidade no sorriso de alguém. Assim espero. Vinha falar de poesia, do dia mundial que foi comemorado a 21, do que se seguiu, o do Teatro, que foi a 27 e de um dia de Março, que aconteceu há algum tempo. Perdi-me, na recordação de uns sapatos pretos furados com pontas de cigarro para arejar e num sorriso grande a lembrar o de um chefe de índios; nas histórias das aventuras marítimas e na primeira vez que eu vi um barco à vela. Se hoje me perguntassem: Quem tem farelos? Responderia eu, certamente: Tenho eu, tenho eu. Farelos no lugar dos sinais da pele. Como os barcos de madeira. Cheios de nós como “em nossa casa”.
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Cronica Correio do Norte
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