"E um dia os homens descobrirão que esses discos voadores estavam apenas estudando as vidas dos insectos..." Mário Quintana
sexta-feira, abril 04, 2008
quinta-feira, abril 03, 2008
Diálogo Surdo

imagem
- Pois. Pois sim, pois não.
Muito embora além disso seja verdade que sim. Ou que não. A dúvida.
. Vossa excelência não sabe que afinal pois então era mesmo?
- Na verdade, com efeito não.
. A sério? Não obstante tudo isso eu todavia também não percebi.
- De modo que, hum, pois olhe eu Zás Trás Pás pimba. E pronto.
Contudo não desisti.
. Eu embora tudo isso sim.
terça-feira, abril 01, 2008
segunda-feira, março 31, 2008
Arquipélago
Deixo o link para a música Arquipélago, da autoria de Antero Ávila e que foi esta noite executada pela nossa Orquestra Regional. Uma maravilha.
sábado, março 29, 2008
A matéria do desejo
"Há palavras com que procuramos navegar:
distância, sombra, lâmpada, vazio.
E às vezes abrem-se repentinos corredores,
no silêncio de uma nuvem veneranda.
E se toda a ciência é esquecimento
que por dentro torna tudo grande
e por fora rasga varandas brancas
para um horizonte que nunca foi pensado,
é porque em nós subsistem estrelas de água
que sob os arcos da noite demoraram.
E então o olhar regressa à fonte
com a força grave e limpa de estar vendo
a matéria mesma do desejo
numa colina que se espraia sobre a brisa
e não é ainda um nome e já o inicia."
António Ramos Rosa
foto tirada em São Miguel Arcanjo, ilha do Pico, Março 2008
sexta-feira, março 28, 2008
segunda-feira, março 24, 2008
Quadra
"Quem faz a casa na praça
A muito se aventurou
Se uns dizem que está baixa
Outros, que de alta passou".
domingo, março 23, 2008
Croniqueta LIII ou o Fífia tem uma certa pronúncia no andar...

A correr, ele assobia; a saltar, rufa como um tambor e a dormir, guincha.
Depois, das férias que passou em casa das primas, regressou no Sábado de Aleluia. Veio pior que o que estava e as tias andaram, mesmo, assustadas por vê-lo, durante todo o Sábado, a percorrer os cantos da casa, como fazem os cães, de nariz rente ao chão, abanando o rabo ao ritmo de uma música estranha, que as senhoras nunca tinham ouvido. A mãe diz que é normal, que são as saudades e que ele está, apenas, a reconhecer o seu espaço. Para não se zangarem com a irmã, as tias concordam. Que remédio.
Hoje, à hora do almoço, disse às tias e à mãe que tem um sonho novo; quer ser escritor de peças de teatro. Amador porque ama a arte de escrever. Também já decidiu quais as personagens principais da obra que vai adaptar: Maria Eduarda e Simão Botelho. Egas fica de fora, porque lhe lembra a Rua Sésamo e Afonso também fica, porque Zeca Afonso há só um, o da malta e mais nenhum, diz gritando.
Os outros entram todos. E, com patrocínio da Junta de Freguesia, vai escrever e publicar, em verso, uma peça que se chamará: “Amores de Perdição dos Maias no Ramalhete”, falada em mexicano com cenários a imitar o Rio de Janeiro.
Já pôs mãos à obra e, durante toda a tarde de Sábado, as tias narraram-lhe as obras, em uníssono, para a inspiração vir, já misturada. Uma loucura.
A nosso Fífia tem restado pouco mais do que a boa vontade das tias e da mãe a vê-lo desfilar e fazer de Joaninha ou de Hermengarda; de Joane e de Brízida Vaz e a aplaudi-lo. E, como as três senhoras pareceram tão entusiasmadas, nosso Fífia já decidiu outras coisas, a respeito da peça que vai escrever e publicar com o apoio da Junta de Freguesia, que será divulgada nas rádios e televisões, com entrevistas e tudo: a peça para ser mais completa e não lhe faltar mesmo nada vai chamar-se: “Amores de Perdição dos Maias passados no Ramalhete, enquanto Hermengarda e Eurico viajam na terra e são apanhados por um dragão que vivia na barca do inferno”. Para não torná-la muito impressionante para crianças e para as suas tias e mãe, talvez, se o presidente da Junta permitir, acrescente que a barca em vez de ser do inferno, é do Noddy.
A capa do livro terá, claro, a sua cara e os braços tatuados com dedicatórias aos autores portugueses. Porém, Gil Vicente terá que ficar de fora.
O Fífia não gosta de futebol.
sexta-feira, março 21, 2008
carmen
Espectaculo a partir da obra poética de Ary dos Santos, Companhia de Teatro na Educação do Baixo Alentejo.
Recomendo que escutem também:Muitos homens na prisão - Ary dos Santos.
O Navio de Espelhos - Mário Cesariny. Queixa das almas jovens censuradas - Natália Correia (cantado por José Mário Branco). Nova Nova Nova Nova /Se eu fosse... - Irene Lisboa dita por Carmen Dolores. Carreirismo - Mário Henrique Leiria, dito por Mário Viegas. Assassinei tanta gente/Lembrança do Cartola José Gomes Ferreira, ditos por Mário Viegas. Eu, etiqueta, Carlos Drummond de Andrade, dito por Paulo Autran. Soneto de Fidelidade -Vinicius de Moraes. Muriel - Ruy Belo, dito por Luís Osório. Elogio da Dialéctica - Bertolt Brecht, dito por Mário Viegas. A Jorge de Sena no chão da Califórnia e Na morte de Ruy Belo- Eugénio de Andrade, dito por Mário Viegas. Palabras para Julia - José Agustín Goytisolo. If - Rudyard Kipling, dito por Dennis Hopper. Adivinha - Martins D´Alvarez e Cântico Negro - José Régio, ditos por João Villaret.
Hoje é dia de tomar café com eles

«De vez em quando percorro esse lugar qualquer.
Bato com força às portas das casas brancas.
Não ouso perguntar se ainda habitas a cidade,
o inálteravel cárcere de singelas ruas onde,
sem Lira, não querias morar.
Com violência bato às portas cegas das casas.
Grito o teu nome até que me respondas,
companheiro breve da viagem mais longa.
Agora a nossa voz é comovida e triste.
O acento local aumenta a sua dolência.
Falamos do passado e dos erros antigos.
Falamos do presente sem novidade nem alegria.
Interrogamo-nos. Desde o amanhecer até que a noite volta.
Umas vezes a esperança e outras o desalento
disputam os nossos corações.
É por isso que não sabemos como nos deter,
até que misturando-se às nossas palavras já quase imperceptíveis
desponte uma canção de despedida:
Morte que mataste Lira
mata-me a mim que sou teu
Amigo, ai como pungem os desgostos,
a memória e o arrependimento.
Morte que mataste Lira,
agora sim que és seu que te levaram
a viajar com Lira.»
Emanuel Félix, "Santos Barros Revisitado", in Habitação das Chuvas, Angra do Heroísmo, 1997.
Dia Mundial da Poesia
«Deixá-la ir, a ave, a quem roubaram
Ninho e filhos e tudo, sem piedade. . .
Que a leve o ar sem fim da soledade
Onde as asas partidas a levaram. . .
Deixá-la ir a vela, que arrojaram
Os tufões pelo mar, na escuridade,
Quando a noite surgiu da imensidade,
Quando os ventos do Sul se levantaram. . .
Deixá-la ir, a alma lastimosa,
Que perdeu fé e paz e confiança,
À morte queda, à morte silenciosa. . .
Deixá-la ir, a nota desprendida
Dum canto extremo. . . e a última esperança. . .
E a vida. . . e o amor. . . deixá-la ir, a vida!»
As you like foi uma bela maneira de celebrar o dia mundial da poesia.
Acredite-se, ou não, nunca tinha pensado em poesia dentro de uma igreja.
O poema Despondency de Antero de Quental é um dos poemas escolhidos por Ricardo Lalanda, entre outros profundíssimos e belíssimos.
Antero de Quental é o único poeta que me consegue levar até deus.
Recomendo a visita, nesta época, dita pascal...

