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Com o uso do pronome possessivo no título da crónica espero não ferir qualquer tipo de susceptibilidade menos acostumada ao termo usado por mim neste espaço. Afinal de contas, Ponta Delgada, às vezes, embora podendo parecer só de uns, é de todos. Até daqueles que, não nascendo aqui, a escolheram para viver e morar. Trata assim, este texto, de escrever sobre um certo “apego à terra” que me viu nascer e crescer; os primeiros anos de vida, na Avenida D. João III, mais tarde, em São Joaquim e depois, até hoje, com um interregno de seis anos, na freguesia da Fajã de Baixo.
Associo muito a baixa de Ponta Delgada ao cheiro dos livros novos da escola, aos lápis, ainda por afiar nos estojos e a um toldo verde, que tínhamos ali para os lados do jardim da Zenite, que era a porta da entrada da nossa papelaria – a Académica. Naquela altura, anos 80, a minha cidade era isto: descer a avenida Gaspar Frutuoso de carro de pedais, estacioná-lo, cumprimentar o Nero, que não raras vezes me aguardava ao portão, pegar numa lancheira cor de laranja e branca e ir levar o lanche merecido ao trabalhador mais velho da família.
Hoje, no dia do seu aniversário, lembrei-me do carro vermelho de pedais, da Escola da Mãe de Deus, do professor Macedo, da mercearia do Sr. João, da Dona Manuela, da galinha que vivia na varanda de São Joaquim, dos bombeiros que tocavam tambores a ensaiar para a procissão ou dos bonecos da Disney, enfiados na relva do jardim da Zenite e mais adiante em frente ao tribunal…
A circunstância de fazer anos hoje, a minha cidade, fez-me, por minutos caminhar, atrás e adiante no tempo, o que, diga-se em abono da verdade, nunca fez mal a ninguém, por pior ou melhor que se possa sentir.
Parabéns, pois, a Ponta Delgada e à sua vela 463º…Que conte muitos mais são os meus votos e que se faça livre do olhar, por vezes guloso, dos tempos e das modas.